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05 Maio 2018

No dia 1º de maio, às 12 horas, na Sala Clementina do Palácio Apostólico Vaticano, o Santo Padre Francisco recebeu em audiência os dirigentes e os empregados do jornal Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana, acompanhados pelos seus familiares.

A Sala de Imprensa da Santa Sé publicou o discurso que o papa dirigiu aos presentes no encontro. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caros amigos do Avvenire,

Em vocês, saúdo um laicato que opera em um âmbito relevante e exigente como o da comunicação. Saúdo o presidente da Conferência Episcopal Italiana, cardeal Gualtiero Bassetti, a quem agradeço pelas suas palavras; saúdo o secretário-geral, Dom Galantino, e Dom Semeraro, que preside o seu Conselho Administrativo.

Estou contente em compartilhar este momento com vocês e de fazê-lo no dia dedicado a São José trabalhador. É fácil se afeiçoar à figura de São José e de se confiar à sua intercessão. Mas, para realmente nos tornarmos seus amigos, é preciso seguir suas pegadas, que revelam um reflexo do estilo de Deus.

José é o homem do silêncio. À primeira vista, poderia até parecer a antítese do comunicador. Na realidade, somente desligando o barulho do mundo e as nossas próprias fofocas é possível a escuta, que continua sendo a condição primeira de toda comunicação. O silêncio de José é habitado pela voz de Deus e gera aquela obediência da fé que leva a configurar a existência deixando-se guiar pela sua vontade.

Não por acaso, José é o homem que sabe se despertar e se levantar à noite, sem se desencorajar sob o peso das dificuldades. Ele sabe caminhar na escuridão de certos momentos em que não compreende totalmente, fortalecido com um chamado que o coloca diante do mistério, do qual aceita se deixar envolver e ao qual se entrega sem reservas.

José, portanto, é o homem justo, capaz de se confiar ao sonho de Deus levando adiante as suas promessas. É o guardião discreto e cuidadoso, que sabe se encarregar das pessoas e das situações que a vida confiou à sua responsabilidade. É o educador que – sem reivindicar nada para si – se torna pai graças ao fato de estar lá, à sua capacidade de acompanhar, de fazer crescer a vida e transmitir um trabalho.

Sabemos como essa última dimensão, à qual a festa de hoje está ligada, é importante. Precisamente ao trabalho, de fato, está estritamente ligada a dignidade da pessoa: não ao dinheiro, nem à visibilidade ou ao poder, mas ao trabalho. Um trabalho que dê condições a cada um, seja qual for o seu papel, de gerar aquele empreendedorismo entendido como “actus personae” (cf. encíclica Caritas in veritate, n. 41), em que a pessoa e a sua família continuam sendo mais importantes do que a eficiência como fim em si mesma.

Na verdade, da marcenaria de Nazaré à redação do Avvenire, o passo não é tão longo assim!

Certamente, na “caixa de ferramentas” de vocês hoje, há instrumentos tecnológicos que modificaram profundamente a profissão, e também o próprio modo de sentir e de pensar, de viver e de comunicar, de se interpretar e de se relacionar. A cultura digital lhes pediu uma reorganização do trabalho, junto com uma disponibilidade ainda maior para colaborar entre vocês e de se harmonizarem com as outras publicações que fazem parte da Conferência Episcopal Italiana: a Agência Sir, Tv2000 e o Circuito Radiofônico InBlu.

Analogamente ao que está ocorrendo no setor de comunicação da Santa Sé, a convergência e a interatividade permitidas pelas plataformas digitais devem favorecer sinergias, integração e gestão unitária. Essa transformação requer percursos formativos e atualização, na consciência de que o apego ao passado poderia se revelar como uma tentação perniciosa. Autênticos servidores da tradição são aqueles que, ao fazer memória dela, sabem discernir os sinais dos tempos (cf. Gaudium et spes, n. 11) e abrir novos trechos de caminhos.

Tudo isso, provavelmente, já faz parte do compromisso cotidiano de vocês dentro de um desenvolvimento tecnológico que redesenha em nível global a presença da mídia, a posse da informação e do conhecimento. Nesse cenário, a Igreja sente que não pode fazer faltar a própria voz, para ser fiel à missão que a chama a anunciar a todos o Evangelho da misericórdia. A mídia nos oferece potencialidades enormes para contribuir, com o nosso serviço pastoral, para a cultura do encontro.

Para focar em tal missão, entremos juntos em um momento na oficina do carpinteiro; voltemos à escola de São José, onde a comunicação é reconduzida à verdade, à beleza e ao bem comum.

Como pude observar, hoje, “a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e de juízo, e não permite uma expressão de si comedida e correta” (Mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 01-06-2014). Também como Igreja estamos expostos ao impacto e à influência de uma cultura da pressa e da superficialidade: mais do que a experiência, o que importa é aquilo que é imediato, que está ao alcance das mãos e pode ser logo consumido; mais do que o debate e o aprofundamento, corre-se o risco de se expor à pastoral do aplauso, a um nivelamento do pensamento, a uma desorientação difusa de opiniões que não se encontram

O carpinteiro de Nazaré nos chama à urgência de reencontrar um senso de sadia lentidão, de calma e paciência. Com o seu silêncio, ele nos lembra que tudo tem início a partir da escuta, do transcender a si mesmo para se abrir à palavra e à história do outro.

Para nós, o silêncio implica duas coisas. Por um lado, não perder as raízes culturais, não deixar que elas se deteriorem. O caminho para cuidar delas é sempre nos encontrarmos novamente no Senhor Jesus, até tornar nossos os seus sentimentos de humildade e ternura, de gratuidade e compaixão. Por outro lado, uma Igreja que vive da contemplação do rosto de Cristo não se cansa de reconhecê-lo no rosto do ser humano. E, a partir desse rosto, sabe se deixar interpelar, superando miopias, deformações e discriminações.

O diálogo vence a suspeita e derrota o medo. O diálogo põe em comum, estabelece relações, desenvolve uma cultura da reciprocidade. A Igreja, enquanto se põe como artífice do diálogo, é purificada e ajudada pelo diálogo na própria compreensão da fé.

Por sua vez, caros amigos do Avvenire, conservem a herança dos pais. Não se cansem de buscar a verdade com humildade, a partir da frequentação habitual da Boa Nova do Evangelho. Que essa seja a linha editorial à qual vocês ligam a integridade de vocês, à qual vocês ligam a sua integridade: a profissão os exige como tais, tão alta é a sua dignidade. Terão, então, luz para o discernimento e palavras verdadeiras para captar a realidade e chamá-la pelo nome, evitando reduzi-la a uma caricatura.

Deixem-se interrogar por aquilo que acontece. Escutem, aprofundem, confrontem-se. Fiquem longe dos becos sem saída contra os quais se debatem aqueles que presumem já ter entendido tudo. Contribuam para superar as contraposições estéreis e prejudiciais. Com o testemunho do seu trabalho, façam-se companheiros de estrada para qualquer pessoa que se consome pela justiça e pela paz.

José, homem do silêncio e da escuta, também é o homem que, na noite, não perde a capacidade de sonhar, de confiar e de se confiar. O sonho de José é visão, coragem, obediência que move o coração e as pernas. Esse santo é ícone do nosso povo santo, que reconhece em Deus a referência que abraça com sentido unitário toda a vida.

Tal fé envolve a ação e suscita bons hábitos. É olhar que acompanha processos, transforma os problemas em oportunidades, melhora e constrói a cidade do homem. Desejo que vocês saibam afinar e defender sempre esse olhar; superar a tentação de não ver, de afastar ou excluir. E os encorajo a não discriminar; a não considerar ninguém como excesso; a não se contentarem com aquilo que todos veem. Que ninguém dite a agenda de vocês, exceto os pobres, os últimos, os sofredores. Não engrossem as fileiras daqueles que correm para contar aquela parte da realidade que já é iluminada pelos refletores do mundo. Partam das periferias, conscientes de que não são o fim, mas o início da cidade.

Como advertia Paulo VI, os jornais católicos não devem “dar coisas que impressionam ou que fazem clientela. Devemos fazer o bem àqueles que escutam, devemos educá-los a pensar, a julgar” (Discurso aos operadores das comunicações sociais, 27 de novembro de 1971). O comunicador católico evita as rigidezes que sufocam ou aprisionam. Não põe “o Espírito Santo na gaiola”, mas busca “deixá-lo voar, deixá-lo respirar na alma” (ibid.). Faz com que a realidade nunca dê lugar à aparência, a beleza à vulgaridade, a amizade social à conflitualidade. Ele cultiva e fortalece cada broto de vida e de bem.

Que as dificuldades não os bloqueiem: basta voltar por um momento ao clima que, há 50 anos, envolveu a gestação do projeto do Avvenire para recordar quantas perplexidades e resistências, quantas desconfianças e contrariedades tentaram frear a vontade de Paulo VI acerca do nascimento de um jornal católico de caráter nacional.

José, enfim, é o santo guardião, o homem da concretude e da proximidade. No fundo, justamente nessa disposição a cuidar do outro, está o segredo da sua paternidade, aquilo que realmente o tornou pai. A existência do esposo da Virgem é chamado e apoio a uma Igreja que não aceita a redução da fé à esfera privada e íntima, nem se resigna a um relativismo moral que descompromissa e desorienta.

Que vocês também possam expressar uma Igreja que não olha para a realidade nem de fora nem de cima, mas que cai dentro dela, se mistura com ela, a habita e – por força do serviço que oferece – suscita e dilata a esperança de todos.

Encorajo-os a conservar a espessura do presente; a fugir da informação de fácil consumo, que não compromete; a reconstruir os contextos e explicar as causas; a se aproximar sempre das pessoas com grande respeito; a apostar nos laços que constituem e reforçam a comunidade

Nada como a misericórdia cria proximidade, suscita atitudes de proximidade, favorece o encontro e promove uma consciência solidária. Tornar-se portadores dela é o caminho para contribuir com a renovação da sociedade em nome do bem comum, da dignidade de cada um e da plena cidadania.

É preciso dar voz aos valores encarnados na memória coletiva e às reservas culturais e espirituais do povo; contribuir para levar ao mundo social, político e econômico a sensibilidade e as orientações da Doutrina Social da Igreja, sendo, nós em primeiro lugar, seus fiéis intérpretes e testemunhas.

Não tenham medo de se envolver. As palavras – as verdadeiras – têm peso: só as sustenta quem as encarna na vida. O testemunho, aliás, contribui para a sua própria confiabilidade. Um testemunho apaixonado e alegre. É o desejo conclusivo que eu dirijo a vocês, assumindo mais uma vez as palavras do Bem-aventurado Paulo VI: “É preciso o amor à causa: se não se ama essa causa, uniremos pouco, nos cansaremos rápido, veremos as dificuldades disso, veremos também, eu diria, os inconvenientes, as polêmicas, as dívidas [...] Devemos ter um grande amor à causa, dizer que cremos naquilo que estamos fazendo e queremos fazer” (ibid.).

Que desse amor, eu peço a vocês, faça parte também a oração de vocês por mim. Obrigado!

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