Até quando a esquerda será conivente com Daniel Ortega, acusado até de estupro?

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04 Maio 2018

A esquerda brasileira tem obrigação de apoiar os nicaraguenses contra um ditador que usa o passado como sandinista para enganar, massacrar e oprimir seu povo, escreve Cynara Menezes, jornalista, em artigo publicado por Socialista Morena, 03-05-2018.

Eis o artigo.

Em um exemplo para os brasileiros, os nicaraguenses ocuparam as ruas em abril e conseguiram forçar o presidente Daniel Ortega a recuar de uma reforma na Previdência totalmente amparada pelo Fundo Monetário Internacional. Ortega queria aumentar o percentual de contribuição dos trabalhadores e reduzir o valor das aposentadorias. Alguém acredita que um governo destes pode ser de esquerda? Infelizmente tem gente na própria esquerda que acha que sim.

A cegueira destes setores não lhes permite enxergar os múltiplos sinais que o ex-líder sandinista tem dado há pelo menos 20 anos de que abandonou a bandeira do socialismo, utilizada por ele até hoje para iludir o povo de seu país. Ao longo dos 11 anos em que permanece no poder graças a reeleições consecutivas não autorizadas pela Constituição, Ortega se tornou próximo à igreja e adotou uma política econômica de direita, fato reconhecido até mesmo por think tanks liberais.

“É bastante irônico que Ortega tenha sido eleito como um populista de esquerda mas que administre a economia como um centrista que segue conselhos de instituições financeiras internacionais”, escreveu o analista político Juan Carlos Hidalgo no site do liberal Cato Institute. “Desde que chegou ao poder, em 2007, Ortega manteve sua retórica revolucionária, mas abdicou das políticas econômicas socialistas de outrora. Ele conseguiu se entender com o poder econômico: garantiu estabilidade macroeconômica e bom ambiente para o investimento privado em troca de que deixassem ele desmantelar as instituições democráticas e impusesse uma ditadura corrupta dinástica.”

Sim, dinástica é a palavra, porque Ortega indicou para a vice-presidência ninguém menos que sua mulher, Rosário Murillo, outra ex-sandinista. Os filhos do casal controlam os principais meios de comunicação da Nicarágua, além da televisão estatal. Não por acaso, a monarquia orteguista está sendo comparada pelos manifestantes nas ruas de Manágua ao próprio ditador Somoza, arrancado do poder pelos sandinistas: “Ortega, Somoza, son la misma cosa”, gritam.

Mais de 40 pessoas foram assassinadas pela repressão durante os protestos, a maioria jovens estudantes, e outras 50 estão desaparecidas. Um repórter recebeu um tiro na cabeça ao vivo, enquanto transmitia as manifestações.

 

Após sua mulher/vice/porta-voz atacar os manifestantes como “grupos minúsculos e tóxicos” e “vampiros que querem sangue”, e de um de seus filhos chamá-los de “delinquentes”, Ortega decidiu finalmente lamentar os assassinatos na segunda-feira, 30 de abril, em um ato onde pediu “um minuto de silêncio” pelos mortos, como se seu governo não tivesse nada a ver com isso. “Não à morte, não à destruição, não à violência, não à barbárie, sim à vida, sim ao diálogo, sim ao trabalho, sim à paz, e levantando a mão peçamos força a Deus”, disse.

Sob o olhar conivente de setores da esquerda latino-americana, o governo de Ortega é rechaçado como uma “ditadura” pelos próprios ex-guerrilheiros do sandinismo, que continua a ter milhões de seguidores na Nicarágua: a bandeira vermelha e negra da Frente Sandinista de Libertação Nacional ainda ondula em edifícios públicos e até nas janelas das casas. “A FSLN praticamente desapareceu, só ficou este projeto de ditadura dinástica dos Ortega Murillo”, lamentou Dora María Téllez, histórica comandante guerrilheira e ministra da Saúde após a revolução.

“O país sofreu o pior massacre dos últimos 40 anos. Estamos falando de mais de 40 jovens, meninas e meninos, que foram assassinados porque Daniel Ortega ordenou à polícia que disparasse com armas de fogo. Estamos falando de uma ditadura que não somente restringe as liberdades, não somente censura os meios de comunicação, mas que além disso é uma ditadura repressiva, cruel, que cometeu um genocídio na Nicarágua”, acusou Rosa.

Ela não é a única esquerdista nicaraguense a chamar o governo de Ortega de ditadura. Uma das figuras mais conhecidas do sandinismo, o padre Ernesto Cardenal, autor dos mais famosos poemas revolucionários do período, fez o mesmo no ano passado. “Alegro-me com o fato de que o mundo inteiro esteja tomando conhecimento de que sou um perseguido político na Nicarágua. Perseguido pelo governo de Daniel Ortega e sua esposa, que são donos de todo o país, inclusive da Justiça, da Polícia e do Exército. Não posso dizer mais, porque esta é uma ditadura”, afirmou o sacerdote de 93 anos, condenado pela Justiça a pagar uma dívida milionária, o que é visto no país como revanchismo político por parte de Ortega.

Esta semana, Cardenal voltou à carga, saudando os jovens que estão nas ruas e opinando que a única saída para a Nicarágua é tirar o casal Ortega do poder. “Agora repentinamente em todo o país surgiram jovens em protestos tomando as ruas. Algo que não se esperava porque a juventude parecia adormecida ou que havia uma lápide sobre ela. Nicarágua ressuscitou em todas as partes”, celebrou. “Durante muitos anos fiz uma oração tirada de um dos Salmos: Senhor, faz com que voltemos a ser o que fomos. E fui ouvido!”

Como se não bastassem a corrupção, a perseguição a opositores, as acusações de tortura e a censura, Daniel Ortega já foi alvo de três denúncias de abuso sexual contra menores, a principal delas por parte de sua própria enteada, Zoilamérica Murillo. Em 1998, Zoilamérica denunciou o padrasto na Justiça por tê-la abusado desde os 10 anos de idade. O caso não foi investigado na época porque Ortega gozava de imunidade parlamentar. Em 2002, Ortega foi finalmente a juízo, mas a denúncia foi considerada prescrita sem que a enteada pudesse fazer novas declarações e apresentar provas.

O testemunho da filha de Rosário Murillo contra Ortega é chocante: ela conta com detalhes como o líder sandinista a espiava no banheiro quando criança, como passou a se masturbar olhando-a tomar banho e a roçar o pênis nela enquanto dormia, até chegar a tocar seus genitais e os seios e a colocar o membro em sua boca.

“O progresso da ação do meu agressor foi acontecendo. Já não só se tratava de me observar no banho, senão que entrava no banheiro e se masturbava me provocando medo e desprezo. Foi horrível ver, com aquela idade, a imagem de um homem de pé encostado na parede e sacudindo seu membro como se estivesse perdido e inconsciente de si mesmo. Eu tinha medo e permanecia no banho até ver desaparecer sua sombra pela fresta da porta que ele mesmo mantinha aberta (…). Durante este tempo também se introduzia no quarto que eu dividia com Rafael (seu irmão), afastava parte da coberta do meu corpo, continuava me tocando e logo terminava se masturbando. Eu fica imóvel e aterrorizada, sem poder falar nada.”

Aos 15 anos, Zoilamérica teria sido literalmente estuprada pelo líder sandinista. E o pior: com o conhecimento de sua mãe, que a culpava pelas relações sexuais forçadas. “Minha mãe continuou tendo evidências dos atos de Daniel Ortega e da deterioração da minha personalidade. Em 1983 (a menina tinha 16 anos), falou que eu estava arruinando a sua vida e a de meus irmãos e me propôs que fosse para Cuba. Ela me culpava da situação e sua solução era me mandar para o exterior, a uma espécie de exílio, para que Daniel Ortega me deixasse em paz e eu deixasse em paz a ela e sua família. Ou seja, eu era o problema da família”, denunciou Zoilamérica, que vive desde 2013 exilada na Costa Rica.

Em 2016, a enteada de Daniel Ortega manifestou tristeza e decepção por ver a mãe sair candidata à vice-presidência junto com seu agressor, e afirmou que a razão do poder de Rosário se encontra justamente no acobertamento das denúncias de abuso sexual. “Até a minha denúncia, Ortega nunca havia enfrentado uma acusação judicial que pudesse representar o fim da sua liderança. Em qualquer país do mundo uma denúncia de abuso sexual seria investigada”, protestou Zoilamérica. “A única forma que Daniel Ortega tinha para escapar era contando com a palavra de minha própria mãe negando os fatos.”

Um ano antes, uma nova denúncia de abuso sexual contra Daniel Ortega tomara as páginas de um jornal sediado em Miami. A família de Elvia Junieth Flores acusava o presidente da Nicarágua de ter se relacionado com ela desde que tinha 15 anos e ele 60. O presidente teria inclusive uma filha com Elvia, a quem não registrou –a menina aparece legalmente como filha de Nestor Moncada Lau, assessor do presidente. Ortega teria depositado dinheiro na conta de um irmão de Elvia para tentar abafar o caso. Santos Sebastián Flores Castillo, o irmão dela, acabou condenado a 15 anos por estupro (!) após denunciar o presidente.

 

“Desde 2005 o presidente da Nicarágua Jose Daniel Ortega Saavedra iniciou uma relação marital ou de casal com minha filha caçula, Elvia Junieth Flores Castillo, quando ela tinha apenas 15 anos de idade. A vida dela e dos meus filhos têm sido um calvário, porque não estávamos de acordo com essa relação”, disse Elpidia, a mãe da moça, hoje com 28 anos. Por telefone, durante a entrevista coletiva dada por seus familiares em Miami, Elvia dizia: “Sou vítima de Daniel Ortega. Estou na mesma situação do meu irmão. Ele está preso num cárcere e eu numa casa”.

Em novembro do ano passado, o irmão de Elvia que acusava Ortega denunciou estar sendo vítima de torturas na prisão, e o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos chegou a pedir ajuda internacional para que ele fosse examinado por uma junta médica. Mas, em janeiro deste ano, Elvia voltou atrás nas acusações. Outra denúncia de abuso sexual contra Daniel Ortega aconteceu em 2006, quando o então candidato à presidência foi acusado de estuprar uma menina de 12 anos.

Por conta dessas acusações, o presidente da Nicarágua nunca foi visto com bons olhos pelas feministas da América Central. Foi inclusive rechaçado pelas feministas hondurenhas quando visitou o país, em 2008, e declarado persona non grata por ser “um abusador de mulheres”. Na mesma época, grupos feministas do Paraguai, encabeçados pela ministra da Mulher, Gloria Rubin, repudiaram a presença do líder nicaraguense na posse de Fernando Lugo.

Em 2007, Daniel Ortega foi acusado de estar por trás do pedido de punição a nove lideranças feministas nicaraguenses feito à Procuradoria-Geral da República pela direita católica do país por terem atuado na defesa de uma menina de 9 anos para que interrompesse uma gravidez fruto de estupro. As mesmas feministas haviam apoiado, em 1998, a acusação de Zoilamérica contra o presidente, e a denúncia da igreja foi vista como uma vingança. Atualmente, o aborto é proibido no país mesmo em casos de estupro.

Com o mau exemplo de um presidente acusado seguidamente de ser abusador de menores, sem qualquer punição, a Anistia Internacional aponta a Nicarágua como um país onde os abusos sexuais e os estupros são delitos generalizados, sobretudo contra meninas menores de 17 anos.

“Mais de dois terços dos estupros denunciados entre 1998 e 2008 foram cometidos contra meninas menores de 17 anos. Em quase metade dos casos, as meninas tinham só 14 anos ou menos. Apesar das provas de abusos generalizados, as autoridades nicaraguenses continuam sem abordar esta emergência com a urgência necessária e continua sem cumprir com suas obrigações nacionais e internacionais”, disse a entidade em carta dirigida a Ortega em 2008.

É este homem que parte da esquerda ainda defende como se estivesse do nosso lado? Neste momento em que o povo nicaraguense volta às ruas pedindo a renúncia de Daniel Ortega, a esquerda brasileira tem a obrigação de romper relações com seu governo e apoiar a luta dos nicaraguenses contra um ditador que usa o passado como sandinista para enganar, oprimir e massacrar seu povo.

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