Nicarágua. “O que se tem no governo hoje é a traição política do sandinismo”. Entrevista especial com Fábio Régio Bento

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 25 Abril 2018

A Revolução Nicaraguense de 1979 foi o principal marco revolucionário América Latina depois de Cuba em 1959. A Frente Sandinista de Libertação NacionalFSLN depôs o governo Anastasio Somoza, último ditador de uma família que esteve no governo por 43 anos. O movimento sandinista, inspirado na luta anti-imperialista de Augusto César Sandino nos anos 1930, foi construído em 1961 como um movimento de esquerda, incentivado externamente por Cuba, e com forte apoio de lideranças católicas ligadas à Teologia da Libertação. Desde 2007 na presidência da Nicarágua, Daniel Ortega, liderança da Revolução Sandinista, está em meio à polêmica das suas políticas repressivas de Estado. Na última semana, o conflito do governo com jovens contrários à Reforma da Previdência atingiu 30 mortos. As manifestações levaram a presidência a cancelar a reforma. Porém, os anos de governo de Ortega, representam “a traição política do sandinismo”.

A experiência sandinista para o professor Fábio Régio Bento é “indelével, no sentido da quebra do paradigma de que a religião é sempre o ópio do povo”. As Comunidades Eclesiais de Base incidiram com relevância importante para a organização do movimento. Um documento da organização sandinista destaca que “uma grande quantidade de militantes da FSLN encontrou na interpretação de sua fé as motivações para se incorporar à luta revolucionária”.

O teólogo chileno Pablo Richard, em seu livro “A força espiritual da Igreja dos Pobres” (Petrópolis: Vozes, 1989) objetiva expandir uma nova compreensão eclesiológica a partir da experiência nicaraguense. Se o processo revolucionário por um lado necessitou do apoio das comunidades de base, a própria construção da Igreja nicaraguense teve suporte pelos movimentos sociais. O teólogo destaca no livro que: “leigos, camponeses pobres e indígenas assumiram o protagonismo na construção eclesial”.

Para o professor Fábio Bento não há contradição no processo revolucionário sandinistaMarx disse que a religião entrava como uma criação imaterial ideológica, a partir das relações materiais de produção, para legitimar essas relações materiais de produção. Mas nada impede que essa produção imaterial ideológica possa também contestar isso”. O estranhamento por parte do governo soviético à participação de padres e leigos no movimento sandinista, bem como a posição contrária dos bispos da Nicarágua, expressavam a peculiaridade da revolução que se construía no país da América Central.

Entretanto, Daniel Ortega, coordenador geral da Junta Revolucionária Sandinista que governa após a tomada do poder, presidente eleito de 1985-1990, reeleito em 2007 e completando uma década no poder, causa distanciamento do movimento da década de 70-80. “Há [hoje] o sandinismo como experiência histórica, paradigmática, com grande valor, mas politicamente não há mais”, afirma Fábio Bento. O governo de Ortega, agora com sua esposa Rosario Murillo na vice-presidência, está além da Reforma da Previdência. Nos últimos anos avançou com políticas que deixam o sandinismo dúbio, como o controle das mídias, o terceiro mandato presidencial e a impossibilidade de os organismos internacionais fiscalizarem as eleições de 2016 – assim como a característica dinástica pelo tempo e a associação familiar no poder.

Apesar das eleições de 2016 finalizarem com a contagem de 76% dos votos válidos para Ortega e Murillo, a popularidade sandinista é contestada. A Igreja nicaraguense faz enfrentamento público contra o governo. Na semana passada se posicionou questionando a Reforma da Previdência e a reação violenta do governo contra os manifestantes. No domingo, na sua oração Regina Coeli, o Papa Francisco clamou pelo cessar da violência contra os opositores, que são sobretudo jovens. A Companhia de Jesus também divulgou posicionamento cobrando “um diálogo nacional que reconduza o país para o desenvolvimento integral de justiça social e ecológica”.

A oposição a Ortega, segundo professor Fábio Bento, é composta por dissidentes sandinistas e grupos da direita econômica. A continuidade de lideranças da Teologia da Libertação no sandinismo se deu pelo grupo do padre jesuíta Fernando Cardenal, falecido em 2016. Hoje, a dissidência sandinista tornou-se a principal oposição ao regime de Ortega. Esses fatores expõem o descontentamento da frente que impulsionou a revolução e a possibilidade de fortalecimento de outros grupos com a crise instaurada. Para Fábio, a alternativa ao sandinismo, está no próprio sandinismo da origem que unia a esquerda leiga e católica.

Fábio Régio Bento/Arquivo pessoal

Professor Fábio Régio Bento é professor associado do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), fez seu pós-doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é doutor e mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade S. Tommaso D'Aquino (Roma) e mestre em Teologia Moral Social pela Academia Alfonsiana da Pontifícia Universidade Lateranense (Roma). É autor do livro “Marxismo e Religião - Revolução e Religião na América Central” (Jundiaí/SP: Paco Editorial, 2016). Fábio conversou por telefone com o IHU On-Line sobre os caminhos do sandinismo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Como pode se definir o sandinismo hoje na Nicarágua?

Fábio Régio Bento — Uma coisa é certa, o sandinismo não se encontra no governo de Daniel Ortega e de sua esposa Rosario Murillo. O sandinismo hoje se encontra na dissidência sandinista, e não no governo.

IHU On-Line — Qual o papel histórico da Teologia da Libertação na construção e transformação do sandinismo?

Fábio Régio Bento — A contribuição da Teologia da Libertação na construção do sandinismo foi paradigmática. Pela primeira vez na história se tem uma revolução, uma tentativa de experiência, não apenas de derrubar um ditadura como a dinastia Somoza, mas uma aliança entre marxistas leigos e esquerda católica.

Então quando estive na Nicarágua, em 2014, com o Pe. Fernando Cardenal, jesuíta, que participou da construção da junta sandinista depois da tomada de Manágua em 1979. Cardenal contou que Carlos Fonseca Amador, que seria como um correspondente de Fidel Castro na Revolução Sandinista — mas foi assassinado antes da tomada de Manágua —, afirmou que “aqui vamos fazer uma Revolução, e uma Revolução com fé. Moscou não entende isso”. E por que Moscou não entendia? Porque, a União Soviética tinha adotado o ateísmo como espécie de posição política oficial do socialismo soviético, pela influência de Lenin, e não de Marx. Marx foi ateu, mas não ateísta. Lenin foi ateu, e levou essa ideia de que para se fazer uma revolução socialista deveria ser um revolucionário ateu. Isso em um texto de 1905, dizendo “cabe aos socialistas dar continuidade a luta dos iluministas franceses contra a religião”. Ao meu ver, uma ideia estranha ao marxismo de Marx e criticada também por Rosa Luxemburgo, que tinha uma visão totalmente diferente na relação entre religião e socialismo.

A Nicarágua da experiência sandinista permanece então como uma espécie de farol. Uma experiência indelével, no sentido da quebra do paradigma de que a religião é sempre “o ópio do povo”. Uma frase citada por Marx, mas que não é relevante no pensamento de Marx, nas relações de religião e marxismo, citada em 1844, e somente em 1846, dois anos depois, na “Ideologia Alemã”, Marx vai dizer que, para ele e Engels, a religião entrava como uma criação imaterial ideológica, a partir das relações materiais de produção, para legitimar essas relações materiais de produção. Mas, por essa leitura, pode se deduzir, que nada impede que essa produção imaterial ideológica possa também contestar isso. A religião então como contestação das desigualdades produzidas nas relações materiais de produção vai ser demonstrada empiricamente pela experiência da Nicarágua, onde vai ter essa unidade na luta entre esquerda leiga e esquerda revolucionária católica.

Isso vai ser tão importante na Nicarágua que no ano seguinte, Frei Betto vai encontrar Fidel Castro pela primeira vez em julho 1980, primeiro aniversário da revolução sandinista, e conseguirá realizar depois, em maio de 1985, uma série de entrevistas com Fidel que serão publicadas no livro “Fidel e a Religião”, lançado em Cuba em dezembro de 1985 e de grande repercussão na ilha. Depois, em 1991, ocorrem as mudanças no Partido Comunista Cubano, o abandono do ateísmo como norma do partido, e na Constituição, em 1992, transformando Cuba em um Estado laico, e não um Estado ateu. A Nicarágua é então um marco importante, independentemente do declínio que houve no sandinismo, para a quebra de um paradigma da religião interpretada como ópio.

Porém, o que acontece, é que há uma traição do sandinismo por parte de Ortega e Murillo. Essa crise atual, agora com a questão da seguridade social, na verdade já é uma crise antiga. A dissidência sandinista liderada pelo Sergio Ramirez, Ernesto Cardenal e Fernando Cardenal existe desde 1994, ali já começa a surgir uma oposição sandinista. Então o sandinismo no governo da Nicarágua já não existe há muito tempo. Há alguns elementos de foco social no governo de Ortega. Tem o sandinismo como experiência histórica, paradigmática, com um valor histórico fundamental, mas politicamente, faz tempo que não há mais. Então onde está o sandinismo hoje? Somente na dissidência sandinista. Não está no governo, mas está na oposição.

IHU On-Line — Existe exagero na afirmação que Ortega se parece cada vez mais com Somoza?

Fábio Régio Bento — Pode ser uma comparação anacrônica. Mas em certo sentido sim, é uma espécie de governo autoritário por parte desta nova oligarquia familiar de Daniel Ortega e sua esposa Rosario Murillo. Criaram algo parecido à dinastia Somoza. E agora, com os fatos recentes, com o assassinato dos mais de 20 estudantes, não tem como não lembrar dos massacres provocados por Somoza contra os jovens que na época vestiam vermelho e preto, as cores do sandinismo. Por isso a oposição hoje não usa essa cor, e sim as cores da bandeira. Surgem esses problemas então que os jovens estão lutando, com razão. Não é só de hoje, é luta contra o autoritarismo orteguista, que é antigo na Nicarágua, com censura aos meios de comunicação, e como se sabe, se pode estar institucionalmente no poder, mas sem legitimidade democrática.

É lógico que nesse movimento contra o Ortega podem estar contidos de movimentos de extrema-direita, grupos próximos ao somozismo, porém os jovens têm razão em lutar contra o regime de Ortega que não simboliza um país melhor para eles. Tenho amigos na Nicarágua que estão participando do movimento, que não são de direita e querem construir um país melhor. Porém é verdade que grupos interessados em promover o retorno de uma direita econômica forte na Nicarágua vão estar infiltrados, pois não existe um maniqueísmo em política, nunca a oposição é totalmente limpa, nem o governo é totalmente limpo.

IHU On-Line — Quais são as alternativas políticas ao sandinismo na Nicarágua?

Fábio Régio Bento — O próprio sandinismo, do retorno às origens. Como as vezes acontece no Cristianismo. Como se renova o Cristianismo? Voltando ao Cristianismo. As vezes se renova algumas coisas de clericalismo, de problemas de organizações religiosa, voltando às origens.

As origens do sandinismo são interessantes. Foi uma construção interessante, mas conjunturalmente, por vários motivos não se conseguiu dar um passo saindo da ideia da economia mista, da Primeira Junta Sandinista, que assume o poder em 1979. Ficaram sempre na conciliação de elementos liberais com populares, e acabaram depois perdendo. Embora a conjuntura era bastante complexa, houve a luta dos “Contra” [1], os EUA não invadiram o país diretamente, devido à crise da Guerra do Vietnã que ainda era recente, mas financiaram a ação dos “Contra”.

Porém, ao meu ver, o sandinismo, essa construção política feita por leigos e por católicos envolvidos na política com o ideário emancipador da Teologia da Libertação ainda permanece, como ideário, até para a própria renovação do sandinismo. Porque o que se tem no governo hoje não é sandinismo, mas é a traição política do sandinismo.


(Divulgação)

Nota

[1] Contra: Grupo armado contrarrevolucionário que operou entre 1981-1990. (Nota IHU On-Line).

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