Merton e Luther King: irmãos espirituais que nunca puderam se conhecer

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05 Abril 2018

"Um retiro é um período para não fazer nada enquanto puder", segundo Thomas Merton, o monge trapista que participou de muitos, organizou vários e reclamou de alguns retiros em que sua presença foi solicitada. Talvez o retiro mais significativo foi o que Merton vislumbrou compartilhar com o Rev. Martin Luther King Jr. A data proposta era algum dia de abril de 1968.

A reportagem é de Patricia Lefevere, publicada por National Catholic Reporter, 04-04-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Patricia Lefevere conheceu Luther King em Milwaukee, em 27 de janeiro de 1964, quando era estudante na faculdade de jornalismo da Universidade de Marquette, e também encontrou o ativista em 27 de abril de 1967, no campus da Universidade de Minnesota, onde falou com ele sobre a guerra do Vietnã.

Chocado. Foi assim que Merton recordou a náusea que sentiu no dia 4 de abril de 1968, quando ouviu no rádio que Luther King tinha sido baleado na varanda da pousada em Memphis, Tennessee, algumas horas antes. Quando o motorista de Merton chegou na Abadia de Gethsemani, no Kentucky, onde vivia o monge, Luther King estava morto.

Meio século se passou desde aquele dia brutal de primavera. Religiosos e especialistas presumem o que ele iria achar do progresso — ou não — desde seu assassinato. Como ele responderia ao movimento Black Lives Matter, aos números gigantescos de estadunidenses negros encarcerados, às barreiras ainda em vigor para negros e outros em educação, habitação e emprego?

Para os católicos, e para todos os estadunidenses, o 50º aniversário da morte de Luther King é uma oportunidade de acessar até onde o país foi na promessa de liberdade e justiça para todos e o quanto ainda tem que avançar para alcançar os direitos civis universais pelos quais ele sofreu e morreu.

Questões pesadas como essas, no entanto, não anulam uma reflexão sobre como seria um encontro entre Merton e Luther King naquele ano tumultuado de 1968. Para esta repórter, que teve o privilégio de ver Luther King duas vezes e teve o prazer de visitar a ermida de Merton na parte rural de Kentucky também duas vezes, a data abre uma janela sobre o que pode ter ocorrido.

Vejo os dois fumando juntos — Merton chupando um cachimbo, Luther King tragando um cigarro em cadeiras de balanço na varanda da casa simples de tijolos de Merton. Uma dupla estranha, com diferentes idades, raças, origens e denominações, mas que parece o par perfeito em questões morais, no diálogo, ao deliberar e balançar.

Merton, o monge católico, escrevia muito — principalmente em cartas e diários — sobre o quanto estava animado de ver o direcionamento do cristianismo que Luther King, o ministro batista, dava à cruzada pelos direitos civis. Merton fica animado ao ler a "Carta da prisão de Birmingham", de Luther King. Ele compartilha com sua turma de noviços de Gethsemani como os manifestantes de Birmingham, Alabama, prometeram achar tempo para fazer uma meditação diária sobre a vida de Cristo e seu compromisso com o movimento não violento na luta por justiça e reconciliação, "não vitória", uma ideia elogiada por Merton.

O marco da morte de Luther King também representa uma oportunidade para os acadêmicos adotarem algumas medidas dessa dupla estranha, como fez Michael Higgins, autor de três livros sobre Merton. "Os dois entendem o poder de uma visão emocionada por palavras, uma visão bíblica e épica em seu alcance e fundamentada no real", disse Higgins, distinto professor de pensamento católico da Universidade do Sagrado Coração, em Fairfield, Connecticut.

Ele retratou a dupla falando amigo de Merton, John Howard Griffin, autor de Black Like Me (Negro como eu, em tradução livre), e talvez refletindo sobre o poema poderoso de Merton sobre a matança de crianças em Birmingham. Eles também poderiam estar conversando sobre como é "viver à sombra de uma raiva tão temerosa em sua letalidade que ninguém está seguro — principalmente os profetas", observou Higgins.

Ambos os homens sabiam que eles estavam vivendo um período de kairós em uma época providencial. Para Merton, a luta por direitos civis era o maior exemplo de fé cristã em ação na história social dos Estados Unidos. Luther King chamou a questão racial de "maior dilema moral dos Estados Unidos", cuja resolução "pode determinar nosso destino".

Certamente, tal acordo poderia ter feitos os dois verem o que poderiam fazer para mudar o coração dos estadunidenses neste kairós urgente. Merton chamou de "momento de graça" misericordioso e temia que não levasse a lugar nenhum, transformando-se em um período negro de destruição e ódio.

Luther King, por sua vez, dizia que a não violência exigia resistência ativa à maldade, e não passividade. Buscava converter, não para derrotar o adversário; sua direção era contra o mal, não contra as pessoas, escreveu o historiador emérito sobre religião da Universidade de Princeton Albert Raboteau, em seu livro A Fire in the Bones (Fogo nos ossos, em tradução livre).

A não violência, segundo Luther King, baseava-se na crença de que aceitar o sofrimento era redentor, pois o sofrimento poderia transformar tanto o sofredor como o opressor. Baseava-se em amar os outros independentemente do seu valor ou mérito; na percepção de que todos os seres humanos estão interligados e na confiança de que a justiça acabaria vencendo a injustiça, escreveu Raboteau.

Portanto, não era de surpreender que Merton, que também se afiliava a uma crença no sofrimento redentor, escrevesse uma carta de condolências a Coretta Scott King apenas alguns dias após a morte do marido. Na carta, dizia o seguinte sobre King: "Assim como seu Mestre, ele deu sua vida por seus amigos e inimigos".

Se tivessem sentado juntos na varanda diante da grande cruz de madeira que é conhecida por marcar o lugar do mosteiro de Merton, certamente esses dois homens de oração teriam curvado a cabeça um ao outro. Perto desse símbolo de compaixão e reconciliação, teriam rezado em voz alta e em silêncio, de acordo com as Escrituras, ou apenas de forma espontânea, sentados sob a sombra dos carvalhos ou do céu estrelado de Kentucky.

Provavelmente Luther King teria ouvido falar da famosa experiência de Merton no cruzamento entre as ruas Walnut e Fourth St., em Louisville, em que o monge percebeu em um insight que ele era quem estava com todas as pessoas na calçada, apesar de serem estranhos que não sabiam que "todos brilhavam como o sol".

Sabemos que Merton conhecia o próprio momento de conversão de Luther King, descrito em Strength to Love (Força para amar), quando, numa noite em que um telefonema perturbador tirou seu sono, Luther King saiu da cama para aquecer uma xícara de café.

Eu estava prestes a desistir. Tentei pensar numa maneira de sair de cena sem parecer covarde. Neste estado de exaustão, quando minha coragem praticamente tinha ido embora, eu estava determinado a levar o meu problema para Deus. Com a cabeça entre as mãos, me curvei sobre a mesa da cozinha e orei em voz alta. As palavras que eu usei para falar com Deus naquela noite estão ainda vivas na minha memória. ‘Estou aqui defendendo o que eu acho que é certo. Mas agora estou com medo. As pessoas olham para mim buscando liderança, e se eu estiver diante delas sem força e coragem, elas também vão hesitar. Minha energia está acabando. Não tenho nada. Cheguei a um ponto em que não consigo enfrentar sozinho’”.

Naquele momento, vivi a presença do divino como nunca antes. Parecia que eu podia ouvir a segurança silenciosa de uma voz interior, que dizia: ‘Lute pela justiça, lute pela verdade. Deus estará sempre ao seu lado’. De repente, meus medos começaram a ir embora. Minha incerteza desapareceu. Eu estava pronto para enfrentar qualquer coisa. A situação externa permanecia a mesma, mas Deus me deu calma interior”.

Naquele momento de epifania, na cozinha em Montgomery, no Alabama, Luther King reconheceu que a fidelidade à sua vocação demandava plena confiança em Deus — no amor, na capacidade e no desejo de Deus, disse M. Shawn Copeland, professora de teologia sistemática da Boston College. Luther King sabia que Deus iria dar sustento através da paz interior enquanto ele lutasse contra as injustiças da segregação, disse Copeland ao NCR, em uma entrevista, em junho do ano passado, em Nova York.

Padre Trapista Thomas Merton (CNS/Merton Legacy
Trust e Centro Thomas Merton na Bellarmine University)

Da mesma forma, Merton passou a reconhecer que sua vocação não era apenas para ele, mas era "tarefa do monge se pronunciar, rompendo com seu silêncio e reclusão”, e ser "testemunha" da recuperação e das possibilidades de comunhão humana, disse.

A teóloga afro-americana retratou Merton e Luther King como "sentinela e testemunha" em seu exercício do profético. Ambos teriam rejeitado a designação de profeta, afirmou. No entanto, cada um deles estava tão sintonizado à palavra de Deus que recuperou e exerceu a vocação bíblica da profecia. Copeland apresentou sua caracterização da dupla em um discurso de abertura para a International Thomas Merton Society na Universidade de São Boaventura (St. Bonaventure University), em Allegany, Nova York, no ano passado.

Luther King e Merton foram sentinela e testemunha ao vasculhar os sinais dos tempos e testemunhar o cuidado de Deus à angústia do mundo, afirmou. Ambos se manifestaram em resposta à "demanda divina de consciência para falar sobre uma nova visão para a Igreja e a nação", fundamentada na fé em Deus e no potencial espiritual e político dos Estados Unidos, disse Copeland.

Apontou, ainda, para o fato de ambos pensarem de forma similar a respeito de protestos contra o militarismo, a guerra, o racismo e a pobreza. Seus escritos e protestos eram destinados a curar "os ossos quebrados do corpo político", para transformá-lo em uma comunidade de amor.

Nenhum viveu o bastante para ver o resultado de seus esforços. Oito meses depois, Merton também faleceu — eletrocutado por um ventilador com defeito em seu quarto em Bangkok, onde participava de uma reunião de abades católicos asiáticos.

"O assassinato de M.L. King... deitado em cima do carro em viagem como um animal, uma besta do apocalipse", escreveu Merton em seu diário, dois dias depois da morte de Luther King. Sua morte "finalmente confirmou todas as apreensões — os sentimentos de que 1968 foi um ano horrendo. ... Será que a mensagem de amor cristã é uma ilusão lamentável?"

Talvez Luther King tenha respondido em uma frase reveladora de um dos seus muitos discursos em protesto: "Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam".

Cinquenta anos depois, esses dois irmãos espirituais, que não conheceram o lado de cá da divisão, ainda nos inspiram com sua fé e ativismo.

Seu retiro continua por tanto tempo quanto possível.

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