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02 Abril 2018

Na Itália, um dos estudiosos que investigou desde o início o caso é Paolo Naso, professor da Universidade La Sapienza de Roma e diretor da Federação das Igrejas Protestantes. Ele é o autor de vários livros: L’altro Martin Luther King, Claudiana 1993; Il sogno e la storia. Il pensiero e l'attualità di Martin Luther King, Claudiana 2007; Come una città sulla collina. La tradizione puritana e il movimento per i diritti civili, Claudiana de 2008.

Em 10 de abril, Paolo Naso realizará um encontro público em Merano como parte de uma série de eventos organizados pela seção tirolesa do Sul do Human Right Internacional pelos 70 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, que tem como título O direito de sonhar. Martin Luther King 50 anos depois.

A entrevista é de Francesco Comina, publicada por Trentino, 01-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis a entrevista.

Paolo Naso, nas palavras pronunciadas pouco antes de ser assassinado Luther King recorreu às suas famosas metáforas, que representam a linguagem simbólica do protestantismo americano. É isso mesmo?

O personagem Martin Luther King não nasce como um fungo na América na década de 1950. É filho de uma tradição cultural e religiosa específica, a das "Black churches" nascidas no contexto do sistema escravista antes e depois das políticas de segregação. Ao mesmo tempo, é um intérprete autêntico de uma "narrativa" inclusive teológica que faz dos Estados Unidos um país muito especial. Na metáfora contida em algumas biografias, King é retratado segurando a Bíblia em uma mão e a Constituição dos EUA, na outra. Isso significa que, ao contrário de outros membros do civil rights movement - tais como Malcolm X - ele não se colocava fora do contexto dos valores básicos da sociedade estadunidense, mas os reinterpretava em uma ótica inclusiva, antirracista e democrática.

O famoso discurso proclamado na noite anterior ao assassinato se encaixa nesse esquema: narra a viagem do povo afro-americanos e a associa com o êxodo dos judeus que, fugindo da opressão do Faraó, buscam a terra prometida. O mesmo paradigma interpretativo tinha sido usado três séculos antes pelos Pilgrim Fathers para explicar teologicamente a sua fuga da perseguição a que estavam sujeitos em países onde vigoravam as leis e as discriminações derivadas das "igrejas de Estado". É nesse contexto que se insere a citação bíblica da "Cidade no monte", contida no Evangelho de Mateus (5:14). Aquele versículo foi o centro de uma famosa pregação de John Winthrop, um pregador puritano que embarcou em um dos primeiros navios que partiram para o "novo mundo". Aquele sermão, ainda hoje um dos "clássicos" da literatura e da retórica norte-americana, tinha o propósito de afirmar que o destino das novas colônias não era a mera constituição de uma república mais livre e tolerante, mas deveria ser um farol da liberdade de consciência e de religião. Para entender o personagem King e seu sucesso em alguns setores da sociedade branca, devemos colocá-lo no centro da confluência de dois rios: o da tradição afro-americana e que da tradição puritana.

Em seu famoso discurso de 1963, King recorda como o anseio por liberdade fosse o núcleo fundamental dos Estados Unidos e que a segregação racial era a maior traição dos ideais constitucionais. E o sonho nada mais era que a restauração de uma promessa de Deus na história. Como você justifica esse chamado com a atual política de Donald Trump?

O discurso de 1963, conhecido pelo famoso "sonho", expressa da melhor maneira as raízes culturais e religiosas de King. Como lembramos, aquele discurso era aberto com uma referência à Declaração de Independência, que definia "autoevidente" que "todos os homens são criados iguais" e a eles são garantidos princípios fundamentais, tais como "o direito à vida, à liberdade e à procura de felicidade". King explicava que aquela afirmação era como um cheque, mas para mais de vinte milhões de afro-americanos aquele cheque era ainda "sem saldo", um engano que traia a alma e o espírito da América, os valores fundamentais que estavam na base da "sagrada experiência de liberdade" a que as primeiras colônias tinham pretendido dar vida. Trump marca uma fratura retumbante em relação a essa "narrativa", que mesmo presidentes bastante conservadores como Ronald Reagan ou George W. Bush, haviam de alguma forma assumido. Claro, as suas políticas estavam em direta contradição com essa visão, mas, fora do radar, ela continuava a viver. A grande pergunta que devemos nos fazer é se Trump seria um fenômeno transitório e efêmero, ou se ele realmente termina uma grande narrativa da América e seus valores, uma narrativa carregada de contradições e limites, mas que ao longo das décadas continuou a inspirar movimentos "das bases" que deram força e vitalidade à democracia americana.

Sabemos que Luther King se reportava à não-violência de Gandhi para definir sua luta contra a segregação racial. Que contribuição levou à teoria e prática da não-violência?

A origem e o pressuposto da não-violência de King são uma questão importante que merece um estudo sério. King tinha conhecimento de Gandhi e das suas técnicas já na faculdade, acompanhando professores que haviam tido contato no mínimo indireto com a Índia. Mas não foram certamente esses conceitos teóricos que estavam na base da sua estratégia de não violência.

Em minha opinião, no início havia principalmente uma sugestão evangélica, a ideia de que o fim coincide com os meios que se utilizam para alcançá-lo. É com o tempo e, especialmente, com o encontro com Jim Lawson - um jovem negro metodista que acabou na Índia por ter se recusado a lutar na época da guerra da Coreia - que King entende melhor o significado e as técnicas não violentas. Logo que eles se encontraram, King ficou impressionado com a inteligência política desse jovem e colocou-o em sua equipe, tornando-se o interlocutor principal dos jovens e dos e estudantes mais radicais, eventualmente voltados ao uso de métodos violentos.

Nesse momento, a não-violência passa de simples norma evangélica para uma estratégia que em um curto prazo produz um amplo consenso inter-racial e, acima de tudo, obriga o poder racista a expressar-se em sua forma mais violenta e cruel e, por isso, mais verdadeira. As imagens dos ataques brutais da polícia contra os manifestantes não violentos que marcharam em 7 de março de 1965 no Pettus Bridge de Selma a Montgomery, marcaram uma retumbante derrota moral da ordem constituída e determinaram o nascimento de uma "frente de consciência" bem mais ampla e representativa das diferentes almas dos EUA.

Nos últimos anos de sua vida KIng radicalizou consideravelmente as suas posições. A Guerra do Vietnã foi, talvez, o elemento crítico sobre o qual direcionou seu pacifismo mais radical ...

De fato, a guerra do Vietnã não alterou apenas King e o seu movimento, mas todo os USA. Para o pastor de Atlanta, a virada fundamental foi tornada pública em 1967 com um famoso discurso na igreja de Riverside Drive, em Nova York, um templo do protestantismo liberal (e, portanto, também branco) fortemente influenciado pela proximidade do seminário de Union, onde ensinavam os nomes mais brilhantes da teologia protestante norte-americana da época, a começar pelos irmãos Neibuhr.

Naquele discurso que merece atenção quanto o famoso "I Have a Dream", de 1963, King denunciou as ligações entre o militarismo, o colonialismo e o racismo, três aspectos de um sistema de poder que estava devorando a alma da América. Por outras fontes, aprendemos que naquele momento o juízo de King sobre a América e sua possibilidade de redenção do pecado do racismo se torna mais severo. A imagem é a de um palácio que está prestes a ruir e que não pode ser restaurado com uma simples pintura superficial. O problema político é que, dois anos após a obtenção do direito de voto e de mais poucos anos desde o fim da segregação, o racismo ainda estava enraizado na sociedade estadunidense: os negros eram mal pagos, eram discriminados mesmo quando tinham título de estudo superior, entre eles registravam-se as maiores taxas de pobreza e analfabetismo. A pergunta necessária e legítima era, então, o que haviam servido anos de mobilizações, sacrifícios, lutas e detenções. Para King, pressionado pelos movimentos mais radicais sobreviventes à morte de Malcolm X, foi o período mais difícil.

Paradoxalmente, sua vitória no tema do voto para os afro-americanos também tinha marcado a crise de seu projeto político, que precisava ser redefinido. A denúncia da pobreza generalizada que afligia também muitos brancos e de um país que investia recursos em guerras externas, mas não conseguiu vencer aquela interna pela justiça econômica, tornaram-se assim os eixos de uma nova fase de seu movimento, que iria terminar com a grande marcha de Washington. É neste quadro que deve ser colocada a presença de King e sua equipe em Memphis em 3 de abril de 1968: para dar apoio à greve dos trabalhadores da limpeza urbana mal pagos. E se ainda hoje quisermos tentar entender "quem" e "por que" King foi morto, é desse ponto que devemos começar. Ninguém tem dúvidas sobre quem atirou nele materialmente, mas ainda não está claro quem o armou e por que ele fez isso.

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