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04 Abril 2018

Em 4 de abril de 1968 morria assassinado o pastor batista Martin Luther King Jr. apóstolo da não-violência, defensor dos direitos humanos, bem como Prêmio Nobel da Paz. "Não sei o que acontecerá agora, se virão dias difíceis. mas realmente não me importa, porque estamos no cimo da montanha.[...] Mas agora isso não me preocupa.

Quero apenas fazer a vontade de Deus. E Ele me permitiu subir a montanha e olhar, e vi a Terra Prometida. Pode ser que não chegue lá com vocês, mas quero que saibam que, como povo, chegaremos à Terra Prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo nenhum homem. Meus olhos viram a glória do Senhor”.

A reflexão é de Italo Benedetti, pastor batista, publicada por Riforma, 03-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Não é possível não evocar essas palavras ao lembrar do assassinado do Pastor Martin Luther King Jr. Foram as sua últimas palavras. Tornaram-se proféticas porque algumas horas mais tarde - na noite de 4 de abril de 1968 - ele era morto na varanda do Lorraine Motel, em Memphis, Tennessee, por diversos disparos de arma de fogo. A morte de Martin Luther King nos leva a questionar imediatamente o tema do significado dessa vida. Por um lado, deve-se dizer que a história e a cônica não registraram a vitória de sua luta. O problema racial – a contradição fundamental da democracia americana, o pecado original da sociedade norte-americana, o ponto fraco da cultura branca estadunidense - não foi resolvido e o caminho a percorrer ainda parece longo. Por outro lado, é preciso também afirmar que a democracia, a sociedade, a cultura americana mudaram profundamente, a ponto de serem capazes de eleger um afro americano para a presidência da República (as imagens daquele dia mostram as lágrimas de Jesse Jackson, aquele que tinha sustentado em seus braços o corpo caído de King). A ponto de reservar para King o único feriado civil público dos EUA dedicado a uma pessoa, uma honra que não foi concedida nem a Washington, nem a Lincoln. A ponto de lhe dedicar um monumento ao lado do obelisco da Mall de Washington em frente à Casa Branca.

De onde vem Martin Luther King? Algumas respostas a esta pergunta poderiam parecer óbvias: uma raiz fundamental é a negritude. Aliás, a negritude no Sul racista. Ele próprio relata o choque que foi quando entrou em contato com essa realidade - e como foi dolorosa - quando aos oito anos teve inexplicavelmente que renunciar à amizade de um menino branco vizinho de casa.

A sua idade já não permitia mais uma amizade que estava começando a se tornar socialmente inconveniente.

Foi seu pai, também um pastor batista, que precisou não só confortá-lo, mas também acordá-lo para essa nova realidade do seu futuro: a segregação. Não se pode deixar de mencionar, entre as raízes de King, a igreja. Claro, a igreja "evangélica", a sua doutrina da graça, a centralidade da Bíblia, mas especialmente a igreja "negra", o Spiritual, aquela união de fé e de desejo de liberdade que havia criado comunidades em que se pregava, orava e cantava, mas também onde as pessoas se encontravam para enfrentar as questões que afetavam a vida da comunidade social, o menino detido, os policiais violentos, o empregador prepotente. É foi ali que nasceu o cerne dos direitos civis.

Quando Rosa Parks se recusou a deixar o lugar reservado aos brancos no ônibus, foram as igrejas que confiaram a King a tarefa de guiar o movimento, e foram as igrejas que abrigaram os encontros de organização das ações de protesto, entre as quais uma greve que durou um ano inteiro, durante o qual nenhum negro e nenhum branco solidário, subiram em um ônibus, causando a falência da empresa de transporte e a divulgação midiática do movimento e de seu líder.

Outra raiz é a formação cultural que King recebeu. Martin Luther King Jr. foi um pastor batista, com uma formação cultural e teológica de excelência, incluindo um doutorado. O ministério pastoral na comunidade afro-americana, inclui, a liderança. Isso é verdadeiro para cada pastor, que não é apenas um pregador, mas é acima de tudo o porta-voz da comunidade negra, é conhecido na delegacia, no tribunal e nas redações. Mas a formação cultural média do pastor afro-americano nos anos 1950 era muitas vezes não só limitada, mas também teologicamente conservadora. Martin Luther King Jr. recebeu uma educação não só de excelência, mas também liberal, atualizada, progressista, conseguida na Universidade de Boston, no Norte liberal. King tinha formação para se tornar um líder nacional e uma capacidade de reflexão filosófica acima do comum. Seu mais famoso discurso, "I have a Dream" - Eu tenho um sonho - é considerado o discurso mais influente do século XX, é parte do currículo escolar e cada aluno deve sabê-lo de memória.

Existem três pessoas que não é possível deixar de mencionar quando se fala de Martin Luther King Jr. A primeira é Mohandas Gandhi. Gandhi era Hindu, líder da luta pacífica pela libertação da Índia do colonialismo britânico. King quis conhecê-lo pessoalmente e disse abertamente que, na luta pelos direitos civis, a motivação vinha de Cristo e o método de Gandhi.

A segunda pessoa é Malcolm X, convertido ao Islã, que no início parecia um personagem distante de King, crítico do cristianismo, julgado cúmplice do segregacionismo, e crítico do método pacifista ao qual contrapunha o método dos Panteras Negras. A luta pelos direitos civis posteriormente aproximou os dois líderes, especialmente quando King levantou os problemas estruturais da sociedade estadunidense que criavam não só a segregação, mas também a pobreza de milhões de negros e brancos, ou a contradição da Guerra do Vietnã. King foi gradualmente abandonado pelos brancos que tinham sido solidários com o movimento dos direitos civis, e que começaram a considerá-lo um radical. Por isso King escreveu uma "Carta da Prisão de Birmingham", onde explicava por que os negros não poderiam esperar para obter seus direitos. Esse isolamento pode ser considerado a principal motivação para o assassinato de King.

A terceira pessoa é Coretta Scott, esposa de Martin.

Coretta era ela própria uma ativista do movimento e aquela que assumiu a liderança do movimento após a morte de seu marido. São verdadeiras as notícias de que Martin, em várias ocasiões, traiu sua esposa com outras mulheres.

Martin Luther King Jr. recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964. Cinquenta anos após sua morte, podemos dizer que aprendemos pelo menos esta lição dele, que o conflito social pode ter um profundo valor espiritual se for enfrentado com a “Força para Amar".

Mas, como uma palavra final, gostaria de lembrar o seu conceito de "Beloved Community", a comunidade amada, que considero a ideia mais extraordinária e útil de King. A dessegregação para King rei não era um fim, mas um passo intermediário para uma visão mais ampla: "O fim não é reconciliação; o fim não é a liberação; o fim é a criação da comunidade amada". É uma comunidade civil na qual as pessoas de diferentes origens se reconhecem como interligadas e entendem que o bem-estar individual está inextricavelmente ligado ao bem-estar dos outros. O fim de qualquer mudança social não é apenas tolerância, e nem mesmo o reconhecimento dos direitos humanos e civis, ou o progresso das condições econômicas; são passos necessários, mas não suficientes para o progresso humano. Não é possível parar até que for superado o preconceito e a desconfiança que dominam a natureza humana. O caminho para a Comunidade amada é a reconciliação das pessoas que estiveram em conflito e se fundamenta em um profundo senso de interconexão humana, de harmonia transcendente e amor entre todos os seres humanos.

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