A quem o Papa confunde? E quem está por trás de toda a chamada "confusão" entre os católicos?

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06 Novembro 2017

O Pe. Thomas Weinandy, um padre capuchinho com um pedigree acadêmico impressionante, tornou-se, esta semana, o último teólogo católico a criticar o Papa Francisco, ao publicar uma carta particular que havia escrito a ele quatro meses atrás.

A reportagem é de Robert Mickens, publicada por La Croix International, 03-11-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Na carta, datada de 31 de julho e publicada nesta quinta-feira (1º de novembro), o frade de 71 anos e antigo diretor do Secretariado Episcopal dos Estados Unidos para a doutrina (2005-2013) acusa o atual Bispo de Roma de causar "escândalo" e "confusão crônica" entre os fiéis batizados.

Talvez o mais contundente ataque deste tipo, ele também acusa o Papa – entre outras coisas – de promover, intencionalmente, um "ensino ambíguo", semear a desunião e cometer "calúnia" contra teólogos conservadores em relação à doutrina, dando "licença e confiança" a quem tem "visões teológicas e pastorais prejudiciais". Ele também acusa Francisco de "diminuir a importância da doutrina da Igreja" e de se ressentir (e vingar) dos críticos.

"Ensinar com tanta falta de clareza pode inevitavelmente levar ao pecado contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade", diz Pe. Weinandy.

Essa acusação de blasfêmia é provavelmente a mais grave, considerando que, segundo o Evangelho de Marcos, Jesus afirma: "mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: é culpado de pecado eterno" (Marcos 3:29).

O monsenhor John Strynkowski, antecessor de Weinandy no gabinete episcopal da doutrina nos EUA, imediatamente refutou as alegações feitas pelo capuchinho na carta ao Papa.

Mas isso não antes de o Presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, o Cardeal Daniel DiNardo, ter feito Weinandy renunciar ao cargo de consultor do Gabinete Doutrinário doutrinal e distanciar os bispos da carta do teólogo ao Papa.

Infelizmente, a declaração de 1º de novembro do cardeal não aparece com destaque no site da Conferência. A partir de sexta-feira, já estava enterrada inofensivamente em meio a várias "notícias", em uma barra lateral. Seu título também é bastante inócuo: "Presidente da Conferência dos Bispos dos EUA sobre diálogo dentro da Igreja Católica".

Embora nunca tenhamos nos conhecido – com exceção da carta, que chega perto de quando Martinho Lutero chamou o Bispo de Roma de herege –, o Pe. Thomas Weinandy e eu temos algumas coisas em comum.

Ambos somos filhos da Diocese de Toledo (Ohio). Ele nasceu e foi criado a cerca de 144 km da cidade de Delphos, ou perto, uma pequena cidade rodeada por grandes extensões de terras a sudoeste da diocese. Eu nasci e fui criado na intrépida área leste de Toledo, entre filhos de trabalhadores e netos de imigrantes da Irlanda, da Europa Centro-Oriental e do México.

Também estamos conectados por nossa fé católica, é claro, e, por volta de 20 anos, ambos exploramos a vocação de viver essa fé como padres ordenados. Ele juntou-se aos franciscanos capuchinhos da província de Santo Agostinho (com sede em Pittsburgh, na Pensilvânia), e eu me tornei seminarista diocesano de Toledo, que me levou a estudar no seminário de St Meinrad, Indiana, e, depois, em Roma.

Mas as semelhanças param por aí.

O Pe. Weinandy tinha uma verdadeira vocação para o sacerdócio e para os estudos teológicos, acumulando um número invejável de títulos acadêmicos em várias instituições de prestígio. Eu, por outro lado, percebi que a ordenação não era o meu chamado e parei no primeiro ciclo de teologia básica na Pontifícia Universidade Gregoriana, uma instituição que – apesar de ter alguns professores muito bons – era, na época, superestimada como espaço de estudos sérios.

No entanto, ambos passamos a vida trabalhando, de uma forma ou de outra, dentro ou – pelo menos no meu caso – em torno da Igreja institucional.

Pe. Weinandy é um teólogo conhecido.

Eu sou jornalista e escritor de questões da Igreja, carreira que começou em 1989, na Rádio Vaticano. Desde então, e por causa do meu trabalho, provavelmente li a maioria dos documentos do Vaticano e dos discursos papais proferidos pelos últimos três pontificados.

Mas como universitário, a filosofia era meu verdadeiro interesse. Na faculdade beneditina de St Meinrad, admirava dois dos mais brilhantes professores daquela disciplina "inútil", como muitos de nossos contemporâneos ainda consideram. Um era Pe. Guy Mancini OSB. O outro era um leigo católico chamado Gil Ring.

Gil Ring (não acho que chegou a terminar um doutorado) era considerado um "conservador" da escola aristotélica. Ele tinha uma grande paixão pelo conhecimento e incentivava seus alunos a questionar, debater e lidar com conceitos difíceis. Não se impressionava demais com acadêmicos só porque tinham iniciais importantes no nome.

Um dos seus bodes expiatórios favoritos era o cientista estadunidense Carl Sagan, que ficou famoso por popularizar a astronomia, a cosmologia e a astrofísica.

"Carl Sagan é um idiota erudito", dizia em quase todas as aulas. Era uma das "tiradas de Ring" que encantava seus "discípulos" e fazia quem odiava suas aulas (que brincava com o fato de a aula ser muito entediante) se encolher.

O argumento de meu querido professor era que todas as horas de pesquisa e estudo formal e a pilha de títulos acadêmicos que vêm com isso não necessariamente garantem que os chamados intelectuais ou especialistas estejam sempre certos em suas opiniões.

Para deixar bem claro, não estou dizendo que o padre Weinandy é um idiota erudito.

Mas a refutação feita por Mons. Strynkowski da carta privada ao Papa, agora publicada, comprova a premissa básica do argumento de Gil Ring.

É de se perguntar como alguém tão estudado em teologia como ele consegue formular com alguma honestidade intelectual as acusações que faz em seu ataque contundente ao Papa.

Claro, ele não é a única pessoa na Igreja com um título acadêmico ou eclesiástico a fazer um trabalho tão maldoso criticando Francisco, mesmo que os outros tenham feito de maneira mais sutil e dissimulada.

Há os quatro cardeais da "dubia" (de quem até mesmo o Cardeal Gerhard Müller se distanciou), os signatários da "correção filial" e alguns bispos e sacerdotes que também acusaram o Papa de causar confusão. E há leigos "intelectuais católicos" no grupo, também.

Dentre seus denominadores comuns, está a dificuldade em aceitar o conceito teológico de que a fé cristã e o ensino da Igreja não são estáticos. É um processo vivo e em desenvolvimento que busca chegar a uma compreensão mais profunda da doutrina e de como suas demandas precisam ser assimiladas de novas formas ao longo do tempo.

Bispos do mundo todo, no Concílio Vaticano II, abraçaram novamente este princípio antigo, que durante alguns séculos havia sido amplamente obscurecido por razões históricas complexas, e que eles reafirmaram com autoridade.

Mas há um axioma antigo que diz que a Igreja geralmente leva 50 anos para realmente começar a implementar os ensinamentos e o impulso original de um Concílio Ecumênico. O Papa Francisco assumiu o posto mais importante na liderança pastoral da Igreja Católica justamente neste momento.

Os mais assustados ou céticos a respeito das ações do Papa estão, na verdade, desconfortáveis com certos desenvolvimentos que advêm do Concílio – ou, pelo menos, com a forma como Francisco tentar destacá-los e dar-lhes uma vida nova.

Os críticos do Papa atual são os herdeiros dos nossos irmãos e irmãs católicos que se opunham a Paulo VI e seus esforços para implementar reformas nos primeiros anos após o Concílio Vaticano II. A única diferença considerável é que os críticos de hoje têm os meios para alcançar uma audiência mundial com uma facilidade e prontidão que adversários anteriores do papado não tinham.

Dissidentes de certas reformas pós-conciliares – principalmente em relação à liturgia – tinham poucas formas de divulgar suas opiniões. As cartas que escreviam e seus abaixo-assinados a autoridades do Vaticano (algumas simpáticas à causa) estavam sujeitos à ineficiência do nosso sistema postal, agora quase obsoleto.

Suas preocupações seriam aceitas com certeza apenas por um pequeno número de jornais e revistas católicos que também estavam extremamente descontentes pela maneira como Paulo VI liderava a Igreja. O acesso a mídias mais imediatas, como rádio e televisão, era praticamente inexistente.

E continuou assim até o início dos anos 90, com o advento da Internet.

Foi uma revolução tecnológica que abriu possibilidades infinitas para quem quer se expressar. As várias redes sociais têm sido armas indispensáveis dos manifestantes papais atuais. Eles criaram diversos sites, às vezes operados apenas por uma pessoa anônima, e os deixaram parecendo jornais on-line ou agências de notícias bona fide. Eles atraem os leitores a estes locais fazendo comentários exagerados e sensacionalistas no Twitter e no Instagram.

O que mais os ajuda a espalhar sua mensagem é a existência de tantos outros chamados sites de ”notícias” amadores ou que divulgam fake news, em várias redes sociais. Esses sites recorrem às páginas de críticos do Papa Francisco como fontes confiáveis de informação sobre a Igreja. Este ciclo de twittar e retwittar, postar e repostar, deixou a impressão perigosamente falsa de que o Papa está chateando e causando confusão a muitos católicos.

Este é o mundo em que vivemos. Temos que viver nele da melhor forma possível.

No entanto, o caso do Padre Weinandy revelou algo muito mais preocupante. O teólogo capuchinho não postou sua carta ao Papa em seu próprio site. Ele pediu ajuda a outras pessoas.

Até onde temos conhecimento, ele enviou a carta a dois sites católicos com muitos seguidores. O primeiro é um blogue plurilíngue de um jornalista italiano, Sandro Magister, um dos principais críticos do atual pontificado.

Mas o outro é uma agência católica de notícias estadunidense legítima, financiada pelos Cavaleiros de Colombo, cuja equipe conta com uma série de jornalistas religiosos muito conhecidos e estimados.

A agência, é claro, é a Crux. E seus editores podem dar todos os legítimos motivos jornalísticos para explicar por que eles divulgaram a carta de Weinandy. Mas a verdade é que é porque gera acessos.

Mas ao dar espaço para um teólogo atacar o Papa da maneira como fez, a Crux fez mais do que gerar acesso à notícia.

Contribuiu com a narrativa dos manifestantes, que não se sabe se é verdade e não há como saber, de que o Papa Francisco está causando confusão generalizada na Igreja.

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