A influência financeira dos Cavaleiros de Colombo distorce nossa Igreja, afirma editorial de revista católica

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01 Junho 2017

Os Cavaleiros de Colombo foram um acessório da igreja americana nos últimos 135 anos, o tio amável que cuida da fritada de peixe das sexta-feiras da Quaresma, indo de vez em quando a cerimônias secretas e, em certo nível de comprometimento, rompendo com trajes estranhos com direito a capa, espada e chapéu emplumado para ocasiões especiais, geralmente envolvendo membros da hierarquia.

A opinião é do editorial da revista norte-americana National Catholic Reporter, 31-05-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Mas, como mostra nossa recente avaliação dos gastos nacionais e internacionais da organização, os Cavaleiros são muito mais do que ajudantes da paróquia e presença nas cerimônias. A organização dos Cavaleiros de Colombo ultrapassou e muito sua missão inicial de resgatar as viúvas e as crianças da miséria e oferecer aos jovens irlandeses um caminho para a assimilação na cultura americana.

O grau de riqueza acumulada pela organização a partir de seus negócios de seguros e outros empreendimentos e sua influência dentro da Igreja e na formação da narrativa católica em praça pública levantam sérias questões para o catolicismo do século XXI. Essas questões devem ser analisadas desde os mais altos níveis do Vaticano até os capítulos locais dos Cavaleiros - sobre a natureza dos gastos, os salários exorbitantes dos executivos dos Cavaleiros, a natureza cada vez mais política do envolvimento da organização na cultura e a influência dessa abordagem ideológica dentro da Igreja.

Embora a organização faça grandes doações para a caridade e seus membros ofereçam inúmeras horas de trabalho voluntário para causas nobres, seus fundos também alimentam alguns dos principais agentes de divisão da sociedade e algumas das vozes mais estridentes e ásperas da Igreja.

Há três áreas envolvendo Igreja e Estado nas quais os Cavaleiros têm sido particularmente importantes na formação da narrativa católica: o debate sobre o aborto, as campanhas contra os direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros e as badaladas alegações de que a liberdade religiosa sofre sérias ameaças nos Estados Unidos.

O dinheiro que os Cavaleiros investiram em esforços partidários nas guerras do aborto não é pouco para que grande parte do resto da agenda católica tenha sido marginalizado e distorcido em praça pública por décadas. Os Cavaleiros ajudaram a criar o que o Papa Francisco chamou de "obsessão". A consequente distorção fica evidente na afirmação do Supremo Cavaleiro Carl Anderson, ex-agente político republicano, de que a eleição de Donald Trump para presidente colocou o país em "um momento pró-vida".

"Desde a decisão do Supremo Tribunal sobre o caso Roe vs. Wade, em 1973", declarou ele em uma publicação de 1º de maio,"o governo dos Estados Unidos não tinha tantas autoridades pró-vida".

Nós tememos que o futuro da comunidade católica tenha chegado ao ponto em que o líder de uma das organizações católicas mais influentes do mundo descreva como "pró-vida" um governo que, entre outras iniciativas antivida lamentáveis:

  • Brutaliza os refugiados e os migrantes, separando as famílias e deportando pessoas que apenas buscam segurança, oportunidades e trabalho árduo;
  • Está disposto a eliminar os cuidados de saúde de dezenas de milhões de pessoas;
  • Nega as mudanças climáticas e compromete a própria criação com políticas retrógradas sobre o meio ambiente;
  • Pretende aumentar os gastos de defesa em mais de US$ 50 bilhões enquanto corta programas de assistência social para os mais vulneráveis;
  • E cujo líder, o presidente, se orgulha abertamente de conquistas sexuais que muitos classificariam como violência.

Como prometido, Trump nomeou um juiz conservador, Neil Gorsuch, para o Supremo Tribunal. Mas não há garantias de vencer Roe. A única certeza é a continuidade de uma luta política feia em que ninguém é persuadido e apenas os extremos lucram, literalmente, a cada eleição. Nenhuma ironia supera o fato de que durante os governos que tiram a ênfase do aborto e destacam a prestação de serviços sociais e uma rede confiável de segurança social o número de abortos diminui.

Colocar o governo Trump como "pró-vida" drena qualquer significado da expressão.

As campanhas contra as leis que garantem os direitos dos homossexuais e a igualdade de casamento não têm gerado muito mais do que aspereza e afastamento dos católicos LGBT da Igreja. A intolerância na esfera pública, para a qual as campanhas financiadas pelos Cavaleiros colaboraram, gerou mais intolerância dentro da Igreja. Recorrer a tais táticas — mesmo que as ciências humanas e sérias questões sobre a nossa compreensão das Escrituras coloquem velhas certezas em dúvida — pode produzir uma guerra sustentada. Mas o que se ganha além de divisões ainda mais profundas dentro da comunidade?

Qualquer um que tenha visitado a Igreja em lugares do mundo onde os bispos, padres e fiéis católicos sejam realmente alvos de violência e de intimidação patrocinadas pelo Estado sabe o absurdo das reivindicações de certos católicos estadunidenses que insistem que os crentes estão beirando uma perseguição no país.

A campanha pela liberdade religiosa, com sua "Quinzena da Liberdade" anual, um evento ridiculamente exagerado (e com pouca adesão) financiado pelos Cavaleiros, serve apenas para ironizar questões complexas. Nos Estados Unidos, quase todos os casos mais contundentes envolvem competição por direitos, e não uma negação direta de direitos religiosos pelo Estado.

Nossa política, nossas casas de Estado, nossos tribunais e poderes federais têm muitos religiosos, praticantes e autoproclamados em diferentes graus. Pela esmagadora evidência contrária, é uma declaração realmente estranha ao argumento de que a religião está sendo atacada nos Estados Unidos.

Quaisquer dúvidas de que os cavaleiros estão envolvidos com política caem por terra considerando suas doações de US$50.000 em 2014 e 2015 para a Federalist Society, um grupo que não tem nada a ver com religião ou caridade. É uma organização nacional de advogados conservadores que colabora com o partido republicano.

Anderson recusou vários convites do NCR para entrevistas, enviando uma declaração defensiva através de um porta-voz com instruções sobre como deveríamos fazer o nosso trabalho. A comunidade católica e os Cavaleiros da região merecem mais do que isso.

É muito improvável que os Cavaleiros, em grande parte na pessoa de Anderson, teriam tão amplo acesso aos dirigentes e aos formadores de opinião, escritórios do Vaticano, comissões da Conferência de Bispos dos EUA e à confiança de tantos membros da hierarquia se não fosse pelo dinheiro que a organização pode oferecer a qualquer problema ou programa que se encaixe na sua ideologia eclesial e civil. Quem pode dizer não para o grupo que coloca mais de 1 milhão de dólares por ano na Conferência dos Bispos? Que bispo vai se opor a este versátil caixa eletrônico eclesial?

Este fenômeno moderno dentro da Igreja, aparentemente tão benéfico, merece uma investigação mais aprofundada. Dinheiro compra acesso e influência. Não é assim que uma comunidade cristã deve funcionar.

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