Cardeal americano reafirma unidade com o papa depois de frei capuchinho ex-coordenador doutrinal questionar Francisco

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03 Novembro 2017

Após a divulgação de uma declaração que questionava os ensinamentos do Papa Francisco, o ex-coordenador da comissão para a doutrina, da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, renunciou do cargo de consultor dos bispos e o presidente da Conferência dos Bispos publicou uma nota que afirma que a Conferência se encontra em “forte unidade com e lealdade ao Santo Padre”.

O padre capuchinho Thomas Weinandy, que trabalhou como diretor executivo na Secretaria de Doutrina da Conferência dos Bispos entre os anos de 2005 e 2013, revelou, no dia 1º de novembro, que escreveu uma carta ao Papa Francisco em julho dizendo que “uma confusão crônica parece marcar o vosso pontificado”.

A reportagem é de Dennis Coday, publicada por National Catholic Reporter, 02-11-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A carta, impressa em vários sítios eletrônicos também no dia 1º, observa que o papa é “encarregado pelo próprio Senhor de promover e fortalecer a unidade [da Igreja]. Mas as suas ações e palavras muito frequentemente parecem pretender fazer o contrário”.

“Ironicamente, o seu pontificado tem dado, aos que defendem opiniões teológicas e pastorais nocivas, licença e confiança para virem à luz e expor a escuridão anteriormente oculta deles”, escreveu Weinandy.

Em um comunicado divulgado na manhã do dia 1º, Weinanday disse que, após aguardar meses por uma resposta do papa e nada receber, escolheu tornar pública a missiva.

No final da tarde do dia 1º de novembro, James Rogers, diretor de comunicações da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos – USCCB, lançou uma nota anunciando que Weinandy havia “renunciado, imediatamente, de seu posto como consultor para a Comissão de Doutrina da USCCB”.

Vários minutos mais tarde o Cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, presidente da Conferência Episcopal, emitiu um comunicado dizendo que “a publicação da carta [de Weinandy] ao Papa Francisco no dá uma oportunidade de refletir sobre a natureza do diálogo dentro da Igreja”.

“Ao longo da história da Igreja, ministros, teólogos e os leigos, todos debateram e sustentaram opiniões pessoas a respeito de uma variedade de temas teológicos e pastorais”, escreve DiNardo. “Nos tempos mais recentes, estes debates conseguiram penetrar na imprensa popular. Isso deve ser esperado e é, muitas vezes, bom”.

“Como Bispos, reconhecemos a necessidade de discussões honestas e humildes em torno de um tema teológico e pastoral”, continua DiNardo e cita Santo Inácio de Loyola: “Todo o bom cristão deve estar mais propenso a salvar a afirmação do próximo do que a condená-la”.

“A pressuposição deveria ser considerada mais ainda quando se trata do magistério do Nosso Santo Padre”, lê-se na nota de DiNardo.

E conclui dizendo: “A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos é um organismo colegiado de bispos trabalhando no sentido deste objetivo. Como Pastores e Mestres da Fé, portanto, permitam-me afirmar que nós sempre estamos em forte unidade com e lealdade ao Santo Padre, o Papa Francisco, quem ‘é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da Igreja” (Catecismo).


“Alimenta nos fiéis uma inquietude crescente”

Datada de 31 de julho, Weinandy escreve na carta que “a luz da fé, esperança e amor não está ausente [do pontificado de Francisco], mas muitas vezes fica obscurecida pela ambiguidade de suas palavras e ações. Ela alimenta nos fiéis uma inquietude crescente. Compromete a capacidade deles de amor, a alegria e paz”.

O autor cita quatro exemplos:

• “Primeiro, existe o disputado Capítulo VIII de Amoris Laetitia. Não preciso dividir as minhas próprias inquietações sobre o seu conteúdo. Outros, não apenas teólogos como também cardeais e bispos, já o fizeram. A principal fonte de preocupação é a maneira do seu ensino. Em Amoris Laetitia, a sua orientação parece, por vezes, intencionalmente ambígua, desse modo convidando à interpretação tradicional do ensino católico sobre o matrimônio e o divórcio bem como a uma interpretação que poderia implicar uma mudança neste ensino”.

• “Segundo, muito frequentemente a sua maneira parece desprezar a importância da doutrina da Igreja. Repetidas vezes o senhor retrata a doutrina como morta e fria, distante das preocupações pastorais da vida diária”.

• “Terceiro, os fiéis católicos só podem ficar desconcertados com a sua escolha de alguns bispos, homens que parecem não apenas abertos aos que sustentam visões contrárias à crença cristã, mas que apoiam e, até mesmo, as defendem”.

• Quarto (…), incentivar uma forma de ‘sinodalidade’ que permite e promove várias opções doutrinais e morais dentro da Igreja só pode levar a mais confusão teológica e pastoral. Tal sinodalidade é imprudente e, na prática, atua contra a unidade colegiada entre os bispos”.

Weinandy escreve que, embora Francisco em geral fale sobre transparência e abertura e incentive “todas as pessoas, especialmente os bispos, a falarem o que pensam e não ter receios do que o papa pode pensar”, um medo corre através do corpo da Igreja.

“Notou que a maioria dos bispos no mundo estão notoriamente silenciosos?”, pergunta Weinandy. “Por que isso? Os bispos aprendem rápido, e o que muitos aprenderam deste seu pontificado não é que o senhor é aberto à crítica, mas que a ressente. Muitos bispos estão em silêncio porque desejam ser leais e, portanto, não expressam – pelo menos publicamente; em privado, é outra coisa – as preocupações que o seu pontificado levanta. Muitos temem que, se falarem o que pensam, serão marginalizados ou algo pior”.

Ele conclui a carta: “Santo Padre, rezo constantemente por vossa senhoria e irei continuar a assim fazer. Que o Espírito Santo o conduza à luz da verdade e à vida de amor para que possa dissipar a escuridão que, neste momento, oculta a beleza da Igreja de Jesus”.

Os anos de Weinandy como diretor executivo da comissão doutrinal da Conferência dos Bispos americanos foram marcados por polêmicas. Alguns dizem que foram marcados por um “zelo fiscalizador”.

Sob o seu comando, a comissão emitiu repreensões públicas a cinco teólogos americanos proeminentes: a Irmã Elizabeth Johnson (da Congregação de São José), teóloga da Fordham University; Todd Salzman e Michael Lawler, ambos teólogos da Creighton University; Daniel Maguire, eticista médico e ecológico da Marquette University; e Peter Phan, teólogo da Universidade de Georgetown, natural do Vietnã, conhecido por sua obra que aproxima correntes teológicas da Ásia e dos países ocidentais.

A comissão doutrinária, sob a liderança de Weinandy, foi grandemente criticada – inclusive pelas duas principais associações de teólogos dos EUA – porque suas ações aconteceram sem buscar consulta ou diálogo com os teólogos.

A College Theology Society, associação de teólogos universitários com mais de 900 associados, emitiu uma nota, em dezembro de 2011, que dizia que a comissão doutrinal havia causado um “racha fundamental” no convite ao diálogo na Igreja e que ferira “toda a comunidade de teólogos católicos”.

Quando Weinandy deixou o cargo em 2013, Susan Ross, então presidenta da Catholic Theological Society, entidade teológica com 1.400 associados, disse ao National Catholic Reporter que os anos de Weinandy na Conferência dos Bispos foram antagônicos.

“A comissão doutrinal tomou uma postura muito mais adversária para com os teólogos durante os anos de Weinandy como secretário executivo”, disse Ross, professora de teologia da Loyola University, de Chicago.


Weinandy tinha buscado um “sinal”

Weinandy publicou uma “nota explicativa” no sítio eletrônico The Catholic World Report, no dia 1º de novembro, em que descreve que escreveu a carta a Francisco depois de rezar e receber um sinal divino.

Na nota, afirma que, em maio, esteve em Roma para participar de uma reunião da Comissão Teológica Internacional, da qual é membro. (O sítio do Vaticano ainda tem o nome dele listado como membro desta Comissão, pelo menos até o dia 2 de novembro.) Ele descreve como passou a maior parte da tarde de segunda-feira em oração na Basílica de São Pedro.

“Implorei a Jesus e Maria, São Pedro e todos os papas santos enterrados lá a fazerem alguma coisa para retificar a confusão e a turbulência dentro da Igreja, hoje, um caos e uma incerteza que sinto que o próprio Papa Francisco causou. Estive também ponderando sobre se deveria ou não escrever e publicar alguma coisa manifestando as minhas preocupações e ansiedade”.

Ele voltou à Basílica de São Pedro três dias depois e “orou da mesma maneira”.

“Naquela noite não conseguia pegar no sono, o que é muito incomum para mim”, continua ele. “Isso se devia a tudo o que se passava em minha mente no tocante à Igreja e ao Papa Francisco. À 01h15, levantei-me e fiquei no lado de fora por um breve período de tempo. Quando retornei para o quarto, disse ao Senhor: ‘Se quiser que eu escreva algo, terá de me dar um sinal claro’”.

Weinandy escreve que, por um acaso, no dia seguinte do lado de fora de um bistrô, em Roma, encontrou-se com um velho amigo, que lhe disse: “Continue escrevendo”. Weinandy afirma que interpretou esta fala como “Jesus a cumprir o meu pedido por um ‘sinal’”.

Ele escreveu a carta a Francisco e, embora tenha recebido um reconhecimento por parte da Secretaria de Estado do Vaticano informando-o de que a carta havia sido registrada, não “era uma resposta às minhas preocupações”, portanto decidiu tornar pública a carta a Francisco.

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