Quem são os adversários reais do Papa Francisco

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03 Outubro 2017

O Papa Francisco fez bem em responder aos seus virulentos críticos com elegância e calma, dizendo que suas ideias são legítimas, mas equivocadas? Eu acredito que sim. Por estilo? Talvez, mas acima de tudo, porque obrigar um mundo centralista, doutrinalista, "papolátrico" a ter que procurar uma maneira (que não existe) para criticá-lo é um sucesso. Não é por acaso que, se olharmos às formas antes do que aos conteúdos, devemos de fato reconhecer que esse desacordo foi manifestado pela primeira vez através da forma um pouco inusual, dos "dubia" ou dúvidas; depois, por meio de um dos signatários desses "dubia", o cardeal Brandmüller, que invocou a restauração de uma tradição medieval já há mito em desuso, segundo a qual o Papa deveria renovar o seu Credo, como parece ocorria séculos atrás. E para reafirmar o quê? Que seus antecessores sempre estiveram certos! Mesmo aqueles que se contradisseram, como quando João Paulo II negou a superioridade da virgindade em relação à vida conjugal sancionada por Pio XII? Isso não fica claro, o pedido diz respeito a um juramento de fidelidade ...ao passado.

O comentário é de Riccardo Cristiano, publicado por Formiche, 01-10--2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Agora continuamos, com os cantores da conhecida, mas um pouco "antiquada" regra "prima sedes a nemine iudicatur", ou seja, "ninguém pode julgar a primeira sede (literalmente cadeira)" que corrigem o Papa, ou seja, a verdadeira "Primeira Cadeira" convidando-o "filialmente" a aceitar a sua própria hereticidade. É interessante notar que um dos signatários dessa carta, o professor De Mattei, assinou um douto estudo sobre o princípio do não julgabilidade da primeira sede. Mas isso não é tudo. Agora, outro dissidente, o cardeal Müller, invoca uma "disputatio" entre delegados do Papa e seus críticos. Disputatio de acordo com a tradição, obviamente, medieval. É uma fixação esta com a Idade Média, ou talvez seja um fim da linha.

A disputa, no entanto, é difícil enganar-se, deveria ser reservada a eles, ao Papa e aos dois grupinhos que o contestam: os dois cardeais dos dubia e os signatários da excomunhão engendrada pelos 60 autoproclamados "não teólogos".

Existe, portanto, um grande constrangimento, um grande problema formal, quando se diz que não se está de acordo com o Papa, que o Papa e a maioria dos padres sinodais e dos episcopados estão errados. O Papa está sempre certo! Então, se ele está sempre certo, o erro não é do Papa, mas de Bergoglio, que corrigiu seus predecessores, que, enquanto "papas concordantes" estavam certos. Ou então se argumenta que o Papa nunca está errado, erra Bergoglio porque é herege, tanto é assim que todos os outros estavam de acordo. Eis porque esquecem que João Paulo II corrigiu Pio XII, ou que Pio XII em relação aos métodos contraceptivos naturais corrigiu seus predecessores.

Então eu vejo a incapacidade teórica e prática de argumentar e sustentar essa dissidência. Querem preservar o doutrinarismo e a ‘papolatria’, criticando o Papa que critica o doutrinarismo e a papolatria. Mas não sabem como fazer isso. Quanto mais eles se agitam, mais enfatizam que a sua é uma visão que não aceita ser diferente daquela do Romano Pontífice. E que, assim, seu doutrinarismo e seu papismo são tais, somente quando o papa compartilha de sua própria opinião.

Mas o dissenso é restrito à Amoris laetitia? Não, não acredito, o dissenso é bem mais amplo. Certa vez um crítico do Papa, sem perceber que eu podia ouvi-lo, disse "se ele falar novamente dos pobres, eu vou gritar". Eis o dissenso. O dissenso é sobre a Igreja pobre e para os pobres. Por que eles são corruptos? Não, no sistema poderá haver também corruptos, mas o problema não é esse. Esse dissenso parece-me ligado a uma teologia antigo-testamentária. Deus é severo, castiga. Portanto, a sua Igreja deve ser uma Igreja de autoridade e em sintonia com a autoridade. O fundador desse tipo de Igreja parece-me foi Constantino.

O ouro, as peles de arminho, a pompa, servem para remeter à ideia de "poder" por causa do que percebo como uma profunda desconfiança. Desconfiança no homem, desconfiança na possibilidade de mudar, na possibilidade de errar e depois se corrigir. Mas nesse tempo de medos, de fechamentos e de desconfiança, o Papa Francisco percebeu a necessidade de esperança de milhões de pessoas. Confiança na possibilidade de que Deus nos entenda, nos perdoe e nos acolha.

Por isso o seu copo parece-me meio cheio. Mas esse é um elemento que os seus adversários não levam em consideração. Mesmo que o homem não tenha sido feito para o sábado, mas o sábado para o homem.

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