Tango em São Pedro enquanto a barca vai à deriva. Artigo de Roberto de Mattei

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07 Janeiro 2015

O tango dançado em São Pedro lembra a música que tocava no Titanic na noite da tragédia. Hoje, o iceberg está visível, e há quem brinde ao impossível naufrágio da Barca de Pedro. Mas muitas pessoas estão em estado de alerta e têm a forte sensação, como disse o cardeal Burke, de que a Igreja é um navio à deriva.

A opinião é do historiador italiano Roberto de Mattei, professor da Universidade Europeia de Roma e presidente da Fundação Lepanto. O artigo foi publicado no jornal Il Foglio, 03-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Talvez os historiadores de amanhã vão se lembrar que, em 2014, na Praça de São Pedro, dançava-se o tango, enquanto os cristãos eram massacrados no Oriente, e a Igreja estava à beira de um cisma. Essa atmosfera de leveza e de inconsciência não é nova na história. Em Cartago, lembra Salviano de Marselha, dançava-se e banqueteava-se às vésperas da invasão dos Vândalos, e, em São Petersburgo, segundo o testemunho do jornalista norte-americano John Reed, enquanto os bolcheviques conquistavam o poder, os teatros e os restaurantes continuavam lotados. O Senhor, como diz a Escritura, cega aqueles que querem perder (Jo 2, 27-41).

O drama principal do nosso tempo, porém, não é a agressão que vem de fora, mas aquele misterioso processo de autodemolição da Igreja que está chegando às últimas consequências, depois de ter sido denunciado, pela primeira vez, por Paulo VI no famoso discurso no Seminário Lombardo do dia 7 de dezembro de 1968.

A autodemolição não é um processo fisiológico. É um mal que tem responsáveis. E os responsáveis são, neste caso, aqueles homens da Igreja que sonham em substituir o Corpo Místico de Cristo por um novo organismo, sujeito a uma perpétua evolução sem verdades e sem dogmas.

Uma quadro impressionante da situação foi oferecido no fim de 2014 por dois dossiês sobre a Igreja, respectivamente publicados pelo jornal francês Figaro e pelo jornal italiano La Repubblica.

O Figaro, um jornal de centro-direita, conhecido pela sua moderação, dedicou o seu suplemento de dezembro "Figaro Magazine" ao tema Guerre secrète au Vatican. Comment le pape François bouleverse l’Eglise: 11 páginas, editadas por Jean-Marie Guénois, considerado um dos vaticanistas mais sérios e competentes.

"Algo parece se inverter na Igreja depois do Sínodo sobre a família de 2014 – escreve Guénois –, e a acumulação dos indícios autoriza a se interrogar: a Igreja não corre o risco de enfrentar uma tempestade no fim de 2015, depois da segunda sessão do Sínodo sobre a família?".

Guénois revela a existência de uma "guerra secreta" entre cardeais, que não tem como objetivo a conquista do poder. A batalha que está em curso é uma batalha de ideias, que tem como principal objetivo a doutrina da Igreja sobre a família e sobre o matrimônio. O Papa Francisco é acusado dentro da Cúria de uma gestão autocrática do poder, que o jornalista francês resume na fórmula: "Quand il tranche, le Pape ne met pas de gants" (Quando o papa decide, não usa luvas), mas o verdadeiro problema é a sua visão eclesial, inspirada e aconselhada pelas correntes mais progressistas do Vaticano.

Segundo Guénois, três teólogos definem os novos objetivos: o cardeal alemão Walter Kasper, o bispo italiano Bruno Forte e o arcebispo argentino Víctor Manuel Fernández. "É esse trio que deu fogo nas pólvoras por ocasião do Sínodo sobre a família!".

Kasper, aliás, está na linha de frente da admissão dos divorciados em segunda união aos sacramentos, Forte é defensor da legalização da homossexualidade, e Fernández, expoente de destaque da teologia peronista do povo.

Guénois entrevistou sobre o Sínodo o cardeal Burke, que, como é seu costume, se expressou com clareza cristalina: "O Sínodo foi uma experiência difícil. Havia uma linha, a do cardeal Kasper, poderíamos dizer, com a qual se alinharam aqueles que tinham em mãos a direção do Sínodo. De fato, o documento intermediário parecia já ter sido escrito antes das intervenções dos padres sinodais! E segundo uma linha única, em favor da posição do cardeal Kasper... Além disso, foi introduzida a questão homossexual – que não tem nada a ver com a questão do matrimônio –, buscando nela elementos positivos. (...) Por isso, foi muito desconcertante. Assim como o fato de que, no relatório final, foram mantidas os parágrafos sobre a homossexualidade e sobre os divorciados em segunda união que, contudo, não tinham sido adotados pela maioria dos bispos necessária. (...) Estou muito preocupado – acrescentou o cardeal Burke – e chamo todos os católicos, leigos, sacerdotes e bispos, a se empenharem, a partir de hoje até a próxima Assembleia sinodal, a fim de trazer à luz a verdade sobre o matrimônio".

Prova de que as preocupações do cardeal Burke são justificadas é o suplemento semanal "Il Venerdì", do jornal La Repubblica, de 27 de dezembro de 2014, inteiramente dedicado a uma investigação sobre a Igreja: 98 páginas com 20 artigos, em que se descreve "a nova era de Francisco, entre adversários, santos, perseguidos e pecadores".

O "paladino do La Repubblica" é o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, que confirma a sua abertura aos divorciados em segunda união e aos casais homossexuais, nega a decadência moral do Ocidente e afirma que "a chamada secularização é um desenvolvimento necessário da liberdade. E uma sociedade livre é um progresso, segundo o verdadeiro ponto de vista do Evangelho".

Francisco, explica, "quer levar a Igreja à força original do seu testemunho. Ele tem uma visão clara do que quer, mas não segue um plano fixo, pessoal ou preestabelecido, nem um programa de governo. Ele lança sinais e dá exemplos, como fez no Sínodo dedicado ao matrimônio e à família".

Dentro do mesmo dossiê, Marco Ansaldo, em uma entrevista intitulada "Franzoni, a vingança do ex-abade vermelho", dá um amplo espaço para Giovanni Franzoni, ex-abade da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, sublinhando que as posições pelas quais ele foi condenado se aproximam agora às do Vaticano.

Franzoni foi demitido do estado clerical, pelo seu sim à lei sobre o divórcio e sobre o aborto, e pelas suas declarações de voto em favor do Partido Comunista. Casado com uma jornalista ateia japonesa, hoje ele não renega as suas ideias e afirma ter "descoberto a sexualidade como enriquecimento total, e não como privação de energias que poderiam ser dedicadas ao Senhor".

Segundo alguns rumores, o Papa Francisco teria a intenção de admitir ao sacerdócio alguns leigos casados (os chamados viri probati) e de reintegrar na administração dos sacramentos padres já casados, reduzidos ao estado laical, como o próprio Franzoni ou o ex-franciscano e teólogo no-global Leonardo Boff, que atualmente vive no Brasil com uma companheira.

No dia 17 de dezembro, Boff, que passou da teologia da libertação para a ecoteologia, confirmou à agência Ansa que enviou ao papa, a seu pedido, material para a próxima encíclica, e no dia 28 de dezembro, em polêmica com Vittorio Messori, expressou no sítio Noi Siamo Chiesa o seu "Apoio ao Papa Francisco contra um escritor nostálgico", com estas palavras: "É sumamente importante uma Igreja aberta como quer Francisco de Roma. É preciso que ela seja aberta às irrupções do Espírito, chamado por alguns teólogos de 'a fantasia de Deus', por causa da sua criatividade e novidade, nas sociedades, no mundo, na história dos povos, nos indivíduos, nas Igrejas e também na Igreja Católica. Sem o Espírito Santo, a Igreja se torna uma instituição pesada, cansativa, sem criatividade e, em um certo ponto, não tem nada a dizer ao mundo que não sejam sempre doutrinas sobre doutrinas, sem suscitar esperança e alegria de viver".

Quem pode negar a existência de uma confusão absoluta? O tango dançado em São Pedro no dia 17 de dezembro de 2014 pelo aniversário do Papa Francisco lembra outra música: a que tocava no Titanic na noite da tragédia. Mas, na época, a ponta do iceberg apareceu de repente, e os dançarinos estavam inconscientes do desastre iminente.

Hoje, o iceberg está visível, e há quem brinde ao impossível naufrágio da Barca de Pedro. Mas muitas pessoas estão em estado de alerta e têm a forte sensação, como disse o cardeal Burke, de que a Igreja é um navio à deriva.

Nós estamos entre estes e por essa razão não saudamos 2015 com bailes e fogos de artifício, mas com a firme decisão de acolher o apelo do próprio cardeal Burke de combater, a partir de hoje até o próximo Sínodo, e além, para defender verdade do Evangelho sobre o matrimônio.

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