O sacerdote sob suspeita de pedo-pornografia e algumas questões abertas

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18 Setembro 2017

O triste caso do padre que trabalhava na Nunciatura Apostólica de Washington, que foi chamado às pressas para o Vaticano para ser interrogado sobre a acusação de posse de material pedo-pornográfico, deixa algumas questões sem resposta e elas são nada fáceis de enfrentar.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 16-09-2017. A tradução é de André Langer.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que se trata de um “inquirido” e não de um “condenado”, e, portanto, suas responsabilidades devem ser demonstradas. Em segundo lugar, de acordo com as fontes do Departamento de Estado, suspeita-se que o sacerdote em questão possua, mas não “produza ou dissemine pornografia infantil”. É necessário esclarecer imediatamente para não cometer equívocos: a pederastia e tudo à sua volta pertencem à categoria dos crimes e dos pecados mais obscuros e repreensíveis, porque aqueles que sofrem abusos são crianças que serão arruinadas pelo resto da vida.

Mas, também neste caso há diferentes níveis de responsabilidade: uma coisa são os abusos de menores e a produção de material pedo-pornográfico, e outra é possuir esse material. Isso é um crime tanto nos Estados Unidos como no Vaticano. E com consequências mais graves, do ponto de vista moral, quando quem é dono deste material é um sacerdote, especialmente quando tem imunidade diplomática, porque trabalha em uma das nunciaturas mais importantes do mundo.

No comunicado divulgado na sexta-feira, 15 de setembro de 2017, a Sala de Imprensa do Vaticano antecipou-se na divulgação da notícia. É provável que, neste caso, além da rapidez de reflexos na hora de transferir o sacerdote para o Vaticano e abrir uma investigação, se tenha preferido agir imediatamente do ponto de vista da comunicação para marcar o ritmo e não ter de ser reativo. Anunciando em um comunicado oficial de que se tratava de um sacerdote com imunidade diplomática em serviço na Nunciatura de Washington, era inevitável que em poucas horas seu nome fosse identificado e divulgado pela mídia, já que os sacerdotes secretários em serviço são apenas três.

Portanto, deve-se admitir que, neste caso, a Santa Sé agiu com rapidez em todas as frentes, evitando qualquer confusão, como, por exemplo, aconteceu com o caso do núncio Józef Wesolowski (que, nunca é demais lembrar, foi acusado de abuso e não apenas de estar de posse de material pedo-pornográfico). E, se não se considerou adequado responder afirmativamente ao pedido do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que exigia o cancelamento da imunidade diplomática do suspeito, o Vaticano demonstrou não querer transigir sobre este tipo de crime, nem querer, de alguma maneira, “acobertar” para defender o bom nome da instituição, como era o caso em um passado não muito distante.

No entanto, algumas questões permanecem abertas, que dificilmente serão discutidas, sobretudo quando se considera que se fez todo o necessário para aplicar as normas, regras, códigos e regulamentos de emergência para combater o fenômeno da pederastia em qualquer uma das suas manifestações. Se, de fato, o inquirido é culpado e, portanto, condenado de acordo com as novas normas introduzidas por Bento XVI e Francisco, dizer que a Igreja finalmente dotou-se de medidas eficientes para combater a pederastia.

Mas isso, mais uma vez, deixará sem resposta a pergunta: como é possível que isso tenha acontecido de novo? Ou seja, as questões da formação e dos problemas sobre a identidade sexual, a qualidade das relações interpessoais, as amizades, a capacidade de identificar sinais de insatisfação e verdadeiras doenças, da excepcional cobertura que representam as viagens, da imunidade diplomática percebida como impunidade para aqueles que têm esse tipo de problema e dos critérios com que são escolhidas as pessoas que entram no serviço diplomático.

Ou seja, a reação “mundana”, embora muito correta do ponto de vista formal, é o isolamento da “ovelha negra”, cuja foto será cortada e removida do álbum da família. Mas sem que isso tenha consequências mais profundas. É ainda mais iluminadora e congruente, em todos os pontos de vista, a reação que Bento XVI teve na sua época diante do escândalo internacional sobre casos de pederastia cometidos por expoentes do clero. O Papa Ratzinger, que também agiu com firmeza no âmbito das leis de emergência, quis apresentar uma imagem de uma Igreja penitencial: em vez de invocar tramas e ataques externos, e em vez de se refugiar no funcionalismo e em “best practices” como se fosse uma empresa (exemplo do que o Papa Francisco chama, citando Lubac, “mundanismo espiritual”, ainda muito na moda no Vaticano), assumiu o comando pedindo perdão pelos pecados de seus membros e pelas feridas que este pecado provocou.

Este precioso e atual ensinamento do papa emérito foi indigesto para muitos auto-proclamados “ratzingerianos”. Porque era um testemunho alheio a todo triunfalismo e reivindicação, e porque apresentava o rosto mais autêntico de uma Igreja humilde, cheia de pecado, que precisava aprender diariamente a receber tudo do seu Senhor e não de suas próprias forças, inteligências ou habilidades administrativas.

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