Pedofilia, o nó cortado por Francisco

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06 Junho 2016

Uma conhecida lenda recorda que os nós górdios não se desatam, mas se cortam. E no sábado, 04-06-2016, o Papa Francisco cortou o nó da responsabilidade dos padres e dos bispos nos delitos de estupro dos meninos e das meninas, chamados pedofilia quase para suavizar o seu horror.

O comentário é de Alberto Melloni, historiador, em artigo publicado por Repubblica, 05-06-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Com um Motu proprio (isto é, por decreto) o Papa estabeleceu que as negligências que, segundo o cânone 193 do Código de direito canônico permitem processar e depor um bispo indigno deva ser a cobertura dos abusos cometidos por clérigos. Poder-se-ia ter chegado a isso há tempo e sem um ato papal: mas este passo, que Francisco considerou necessário, assinala uma virada no capítulo católico da tragédia dos abusos contra menores, que inquieta há séculos a nossa paisagem social e ainda atravessa hoje todas as condições e todas as classes sociais, bem além dos limites de sua perpetração praticada por sacerdotes.

A pedofilia gozou por séculos de coberturas, voltadas a consignar ao macho ávido as provas provadas do seu absoluto poder sobre a mulher – incluindo o poder de mata-la ou de matar a maternidade abusando dos seus filhos e filhas.

Que então houvesse pedófilos padres era, portanto, previsível: não vinha nada ao caso o celibato e nada a orientação sexual (o grosso dos abusadores são heterossexuais praticantes): mas, a intimidade educativa que faz parte do mister do padre e é indispensável ao predador à procura de presas.

Não era, ao invés, evidente que os bispos, num clima de progressiva erosão da lei do silêncio social sobre os abusos, continuassem a dar cobertura aos estupradores padres, comportando-se como as mães mais descaradas e embrutecidas. Em parte dependia da escassa qualidade dos próprios bispos: escolhidos para balancear o peso dos lobbys dominantes ou para um genérico conservadorismo, não podiam enfrentar sozinhos certas questões que requeriam uma paternidade incompatível com o carreirismo filetado.

Também aos bispos melhores teria, em todo caso, servido o conforto das conferências episcopais. Esta via, tentada pelos bispos americanos desde os anos Noventa, foi barrada pelo magistério wojtyliano, preocupado em negar toda analogia entre os poderes das conferências episcopais e os poderes dos concílios provinciais. O escândalo é, por isso, diferido.

Bento XVI se encarregou dele no início do pontificado com um gesto heroico e extenuante. O ponto, todavia, não era o envergonhar-se pelos crimes dos pedófilos tornados padres; mas jamais perguntar-se como tivessem subido para as cátedras episcopais (ou como pudessem conservar a púrpura) bispos indignos, que ao invés de escutar a humilhação das vítimas, raciocinavam com uma razão de Igreja, que na igreja não pode existir.

Ao invés, Bento XVI preferiu pedir perdão por delitos que não eram minimamente seus, embora não recuando de sua posição teológica sobre as conferências episcopais.

Francisco derrubou a conduta com as conferências episcopais e por isso cortou assim o nó górdio da cobertura fornecida aos pedófilos padres. Será a Santa Sé que ativará as causas de negligência que tornam o bispo indigno; e as conferências episcopais poderão ser chamadas a se pronunciarem quase como juízes de primeiro grau.

Uma inversão de perspectiva, teologicamente coerente com outros atos que dão aos bispos responsabilidades reais. A igreja de Roma toma consciência que lá onde os meninos e as meninas são humilhados pelos abusos não existe uma questão moral, mas uma questão teológica: o bispo (e com ele os outros encargos equipolentes) não em alternativas, ou está do lado das vítimas, ou não tem o requisito que serve para exercer o ministério, porque rompe o vínculo de comunhão que tem nos últimos a sua garantia.

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