Novo começo. “A queda de Cabul é uma imagem espelhada da queda do muro de Berlim”. Artigo de Raniero La Valle

Foto: Edris Lutfi | UNHCR

31 Agosto 2021

 

"Se o mundo não pode manter tudo em pé, então que seja garantida apenas uma parte, a sua própria. O capitalismo vencedor não pode se retirar e reentrar nas velhas fronteiras do Primeiro Mundo, continuará a abarcar o mundo inteiro, mas com uma estratificação, uma hierarquia, uma grande seleção, uma realista desigualdade; há um mundo a salvar e um mundo a perder, os privilegiados e os excluídos, os necessários e os sobressalentes; ou seja, nós e eles, aqueles que o Papa Francisco um dia chamou de 'descartados'", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 30-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O horror dos atentados e a tragédia dos refugiados afegãos mostram quão alto é o preço da rota estadunidense para Cabul, e não apenas para os EUA. Foi comparada à fuga de Saigon em abril de 1975. Na realidade foi muito mais e muito maior é a sua força simbólica como evento capaz de marcar uma periodização da história em dois tempos opostos e diferentes entre uma época que termina e outra que começa. A queda de Saigon representou, de fato, a derrota da tentativa dos Estados Unidos de substituir as potências europeias (e, no caso específico, a França) na gestão de um poder imperial residual sobre esta ou aquela porção do atrasado "Terceiro Mundo", e, portanto, marcou o fim da era colonial; o abandono do Afeganistão, por outro lado, representa o fracasso da resposta do Ocidente à queda do comunismo e da ordem bipolar e marca o fim da nova ordem global. Sai derrotada a pretensão do Ocidente de substituir o socialismo desaparecido instaurando um único domínio sobre um mundo reduzido à sua própria medida e acaba o sonho dos Estados Unidos de inaugurar um "novo século estadunidense".

 

A leitura que nos parece mais provável é que a queda de Cabul é uma imagem espelhada da queda do muro de Berlim; ambas fruto não de uma derrota militar, mas de uma decisão política dos invasores, os soviéticos na época, os estadunidenses hoje; ambas são sinais de que o mundo por eles imaginado e desejado é errado e impossível, e que outro deve agora ser projetado e construído. O 2021, portanto, se revela como o reverso de 1989.

 

Mas é aí que precisamos voltar, como numa linha de partida, para organizar outra resposta. Como foi argumentado em um seminário da escola "Vasti" de novembro de 2001 que aqui retomamos, o Ocidente então cometeu um erro ao ler e responder aos eventos de 1989, primeiro por favorecer a dissolução da URSS, depois por conceber um mundo do qual era o único protetor e senhor; o Ocidente não soube como sair do sistema de domínio e de guerra que estava ligado à diarquia do terror, mas, uma vez que a União Soviética desapareceu do esquema, continuou aquele mesmo sistema colocando-se sozinho à sua frente; não soube portanto aproveitar a ocasião daquela inesperada e pacífica descontinuidade histórica, não soube conceber e gerir um projeto novo para o mundo que representasse uma verdadeira superação do antigo sistema bipolar, e com isso entrou a trajetória de sua queda, ativando uma crise que espelha aquela que foi a crise do comunismo e desencadeando a fase final da crise daquela ordem.

 

 

Como isso aconteceu? Quando, em 14 de novembro de 1989, Gorbachev, chefe da URSS, transmitiu aos líderes alemães a decisão de abrir o Muro de Berlim, toda a política militar, toda a política externa, todo o mundo eram pensados em função do desafio final da história, identificado com o choque do Ocidente com o comunismo entendido como o princípio do mal. No momento em que isso termina repentinamente e sem derramamento de sangue, os estadunidenses acham difícil de acreditar, e se abre um vazio que ninguém está minimamente preparados para preencher.

 

A única coisa que o Ocidente consegue dizer é: "a guerra fria acabou e nós a vencemos".

 

Mas o que fazer com o mundo? O capitalismo finalmente prevaleceu, o mercado é agora universal, as mais ousadas esperanças dos teóricos do liberalismo que haviam profetizado: com o livre comércio, a paz eterna pode ser realizada. A história chegou ao seu cumprimento e nós a conduzimos para lá.

 

 

Por outro lado, o capitalismo que dos grandes países do Ocidente se apresenta para arrecadar a herança do mundo, é um capitalismo atraente, um capitalismo não só de riquezas e lantejoulas televisivas, mas também de direitos, de proteção social, de pluralismo político. Não é o capitalismo selvagem que conhecemos hoje, é um capitalismo ainda profundamente influenciado pela existência de um campo antagonista, pelo desafio externo do mundo socialista, pelo condicionamento interno das esquerdas e dos sindicatos, pelo compromisso keynesiano.

 

É um capitalismo que teve que aceitar algumas compatibilidades com direitos e valores independentes do mercado, é um capitalismo avaro com as necessidades, mas dispensador de desejos.

 

E então todo mundo quer fazer parte dele, imigrar para dentro dele e importá-lo para sua casa.

 

Mas, neste ponto, uma vez que o limite externo caiu, o capitalismo realizado se dá conta de que não é de forma alguma universal. É o melhor sistema possível, mas não é para todos, seus benefícios não podem ser estendidos a todos. Não pode sustentar a vida e o desenvolvimento do mundo. Não pode alimentar a todos, não pode garantir água e remédios para todos, não pode permitir a democracia para todos. Os mecanismos econômicos não estão equipados para isso, porque são feitos para incrementar o dinheiro e não para satisfazer as necessidades. Mas este não é o único problema. É a própria ordem física da terra que apresenta limites intransponíveis para um usufruto universal do nível de vida alcançado pelas áreas privilegiadas do sistema.

 

O Clube de Roma já em 1971 havia projetado para o futuro os limites do desenvolvimento, e aquelas previsões resultaram bem fundamentadas. O petróleo estava acabando, o gás natural, o carvão estavam prestes a mudar o clima, as águas potáveis estavam prestes a diminuir e as águas do mar a se elevar, as taxas de poluição estavam prestes a atingir níveis catastróficos. Contra o mito do progresso ilimitado, a consciência da escassez estava abrindo caminho.

 

 

Os anos 1990, após o fim da URSS, são os anos em que as grandes potências que ainda restaram se deparam com essas alternativas, essas escolhas. Há correntes que empurram para uma reestruturação equitativa de todas as relações mundiais, que postulam a paz, a justiça e a proteção da criação, há as teologias da libertação da América Latina, há os pacifistas, há os relatórios de agências intergovernamentais sobre o clima que denunciam os perigos e que levam para aqueles primeiros resultados que serão a Conferência do Clima do Rio e o Tratado de Kyoto; na cúpula de Roma em 1996, a FAO ainda se ilude achando que pode reduzir pela metade a fome no mundo até 2015.

 

Mas o sistema faz outra escolha. Se o mundo não pode manter tudo em pé, então que seja garantida apenas uma parte, a sua própria. O capitalismo vencedor não pode se retirar e reentrar nas velhas fronteiras do Primeiro Mundo, continuará a abarcar o mundo inteiro, mas com uma estratificação, uma hierarquia, uma grande seleção, uma realista desigualdade; há um mundo a salvar e um mundo a perder, os privilegiados e os excluídos, os necessários e os sobressalentes; ou seja, nós e eles, aqueles que o Papa Francisco um dia chamará de "descartados".

 

Afinal, a fórmula havia sido enunciada por Spencer, o promotor oitocentista da sociedade da utilidade, da "sociedade militar e industrial", e era assim anunciada em seu "Sistema de filosofia sintética": os homens são como que submetidos a um juízo de Deus; “se eles realmente estiverem em condições de viver, eles vivem, e é justo que vivam. Se não estiverem realmente em condições de viver, morrem, e é justo que morram”. O darwinismo social. Este é o ponto de queda a que chega todo o curso histórico.

 

 

Mas um mundo desse tipo não se garante sozinho. Deve ser mantido sob controle com mão de ferro. O grande problema que se abre com o fim da ordem bipolar e o desaparecimento da URSS é aquele do governo do mundo. A ideia é que é preciso ser estabelecido um soberano universal, e este só pode ser os Estados Unidos porque, como acabou explicando Brzezinski, o ex-conselheiro de segurança nacional de Carter, não há alternativa senão os EUA à anarquia global. Em abril de 1992, as "diretrizes" para a política de defesa dos Estados Unidos formalizaram a nova doutrina.

 

“É preciso evitar que qualquer potência hostil - dizem eles - domine regiões cujos recursos lhe permitiriam ter acesso ao status de grande potência”; é preciso “impedir a ascensão de um futuro concorrente global”; é preciso “dissuadir os países industriais avançados de qualquer tentativa que objetive desafiar a nossa liderança”, isto é, a liderança estadunidense: e isso valia também para a Europa.

 

E em 1998 a direita estadunidense apresenta o projeto de tornar o novo século um "novo século estadunidense". Claro, também era necessário manter as cartas nas mãos para a última rodada sobre a repartição e uso dos recursos em via de esgotamento, mas acima de tudo era necessário o mais rápido possível reapropriar-se do instrumento soberano do governo do mundo: a guerra. A guerra, no início da década de 1990, não só era banida pelo direito, repudiada pelas Constituições, mas desfrutava de descrédito e repulsa unânimes na opinião pública mundial. A guerra, agora identificada com a guerra nuclear, era considerada o mal absoluto, até mesmo pelos governantes. A guerra fria era travada para evitar a guerra. As políticas do Ocidente eram todas políticas de paz, até mesmo os mísseis eram colocados pela paz, a "razão" da corrida pelo rearmamento nuclear era a dissuasão da guerra nuclear. A guerra era o terror; a paz era o equilíbrio do terror, era a dissuasão: isto é, afastar o terror com o terror.

 

Mas na nova situação criada após 1989, a guerra devia ser restaurada, resgatada de seu exílio, eticamente resgatada e novamente enfeitada e adornada como uma noiva.

 

A ocasião foi proporcionada pelo Iraque e sua disputa com a Arábia Saudita e os outros países da Opep sobre o preço do petróleo, que havia caído a míseros US $ 12 o barril. Confiando no fato que a guerra não se usava mais, o Iraque ocupou o Kuwait. Este crime foi fatal. O Muro de Berlim havia sido removido há um ano, a URSS não estava mais em condições de deter o Ocidente. E Bush pai fez a guerra; ele a fez por duas razões; a primeira, como ele explicou mais tarde em suas memórias, porque não era possível permitir que as reservas de petróleo do Oriente Médio caíssem sob o controle de uma potência hostil; e foi a primeira guerra pelo petróleo: e a segunda e mais importante razão foi restabelecer o direito de guerra exercendo-o em nome daquelas mesmas Nações Unidas que o haviam revogado; e aquela de 1991 foi a guerra para reabilitar a guerra aos olhos da opinião pública ocidental. Demorou alguns meses não apenas para preparar o exército, mas para desenvolver uma imponente campanha de persuasão; tratava-se de inverter o sentimento comum que Paulo VI havia, quinze anos antes, proclamado de maneira icástica da tribuna da ONU: nunca mais a guerra. E, de fato, João Paulo II se opôs à guerra.

 

Em 1999 foi a vez da Iugoslávia. A guerra já havia sido chamada de volta ao serviço, estava "livre para o exercício". Também para aquela guerra se falou de petróleo, da necessidade de abrir um corredor para os oleodutos do Cáspio. Mas o verdadeiro motivo foi político. A razão foi de sair da ordem das Nações Unidas, onde a guerra ainda estava formalmente banida, e em todo caso sujeita a limites e condições, e entrar, agora sem mais hesitações, na ordem da OTAN; A OTAN tornava-se a nova comunidade internacional, a parte para o todo, assumia prerrogativas soberanas, investia-se do direito e do poder soberano de guerra. Para fazer isso, mudava seus estatutos.

 

 

Em 24 de abril de 1999, na Cúpula do Atlântico em Washington, a OTAN mudava de finalidade e natureza, declarava não mais operantes os limites dos artigos 5º e 6º de seu Estatuto que restringiam a hipótese de uso da força armada para defesa contra agressões, e portanto também quebrava os limites da art. 51 da Carta da ONU; além disso, a NATO infringia os limites da sua competência territorial e atribuía para si o mundo inteiro como campo de ação; teorizava a paz e a segurança não mais como indivisíveis para todos, mas apenas para si e para os 19 países membros, e identificava novas ameaças à segurança: terrorismo, sabotagem, crime organizado, interrupção de abastecimentos, movimentos migratórios, fatores políticos, econômicos, sociais , ambientais, rivalidades étnicas e religiosas, reformas mal concebidas ou fracassadas, violação de direitos humanos, dissolução de Estados. Pela primeira vez, o recurso às armas, ou seja, a guerra, era contemplada como uma resposta a crises políticas, sociais, econômicas e religiosas de todo tipo. Não é por acaso que a primeira das novas ameaças à segurança era identificada no terrorismo.

 

Esta última era uma profecia destinada a se autorrealizar. Se o mundo devia permanecer petrificado em sua injustiça constitutiva, se a guerra se tornava o meio universal para gerir todo tipo de contradições ou de crises, e se a existência de uma única superpotência militar significava que a guerra permanecia prerrogativa e recurso de apenas uma parte, aos outros nada mais sobrava exceto o terrorismo.

 

Desse modo, terrorismo e guerra foram assimilados como duas variáveis do mesmo modelo, como dois substitutos do mesmo bem perdido: a política.

 

A confirmação chegou bem rapidamente, em 11 de setembro de 2001, com os atentados ao Pentágono e às Torres Gêmeas. O jovem Bush imediatamente os reconheceu como atos de guerra. E, de fato, respondeu com a guerra, porque esta agora havia se tornado a única linguagem da política. Assim nascem as guerras e a invasão do Afeganistão que duraram até agora, e imediatamente após a segunda Guerra do Golfo, que culminou na destruição do Iraque e na morte de Saddan Hussein, com base na mentira, depois oficialmente reconhecida pelo relatório Chilcot do Parlamento britânico e do próprio Tony Blair, sobre a ameaça de armas de destruição em massa. E em 2002 o delírio teorizado pela direita neoconservadora de que a segurança estadunidense estava no domínio do mundo era formalizada na "Nova Estratégia da Segurança Nacional dos EUA" que enriquecia com armas espaciais os arsenais à disposição da Casa Branca.

 

É tudo isso que acabou no neoisolacionismo de Trump, na ideologia do "America First", no "debâcle" de Biden, no abandono estadunidense do Afeganistão e na tragédia dos detidos e deixados no aeroporto de Cabul. E é daqui que deve começar a outra resposta, que de outra forma deve envolver todos os atores que atuam no cenário mundial, estados e povos, dos Estados Unidos à China, dos curdos aos palestinos, dos judeus aos muçulmanos; é neste contexto que surge a proposta universal e inclusiva do Papa Francisco, a sua proposta de uma fraternidade humana na pluralidade de direito divino das religiões, e é aqui que surge a proposta laica de recomposição da sociedade humana sob a soberania do direito, de uma Constituição da Terra.

 

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