“O ódio entre religiões é ideia dos terroristas. Devemos isolá-los”. Entrevista com Shaykh Ibrahim Mogra

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06 Abril 2017

“O Papa Francisco é um homem corajoso. É o único que teve a coragem de dizer que o islã é uma religião de paz. Ele é um verdadeiro cristão, porque vê a pessoa humana sem se importar com sua pertença religiosa”. Shaykh Ibrahim Mogra é um dos quatro imãs ingleses que Francisco recebeu nesta quarta-feira, 05 de abril, no Vaticano, poucas semanas após o atentado que, em 22 de março passado, sacudiu Londres e (por uma terrível coincidência) poucos dias depois do atentado de San Petersburgo.

Um gesto pleno de significado, promovido pelo cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, para demonstrar a vontade das religiões de permanecerem unidas e enfrentar a onda de terror que dilacera a Europa e o mundo. “Qualquer atentado é contra a humanidade, toda pessoa deveria condená-los”, afirmou o imã de 50 anos, de Leicester, ao Vatican Insider, que se reuniu com ele no Venerável Colégio Inglês, no centro histórico de Roma. “As causas destes ataques são bem complexas. No entanto, não creio que a matriz seja religiosa, mas provém de um “impasse” geopolítico.

A entrevista é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 05-04-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Em que sentido?

Joga-se com a contraposição entre o Ocidente, considerado como principalmente cristão, e o Oriente, principalmente muçulmano. Mas, insisto, não é um desafio religioso. Todas as religiões são contra a violência, ensinam a viver pacificamente como cidadãos que respeitam a lei. Mas, creio que nós, como governos do Ocidente, demonstramos uma “dupla medida” no tratamento concedido aos países de maioria muçulmana. Por exemplo, temos o Iraque de Saddam Hussein ameaçado pelas resoluções da ONU que atacou o país porque não tinha seguido estas indicações. Pelo contrário, a Arábia Saudita viola constantemente os direitos humanos, mas nós continuamos a lhe vender armas e a manter relações comerciais. No Egito, os Estados Unidos permitiram que o exército tomasse o poder, embora houvesse um governo da Fraternidade Muçulmana eleito democraticamente. Todos estes são exemplos para demonstrar que o tratamento que o Ocidente reserva aos países muçulmanos muda conforme o lugar. Tudo isso criou muita raiva. Por isso, creio que uma solução poderia ser tratar cada país da mesma maneira, com justiça e com equidade.

Então, esta raiva poderia justificar os massacres?

Não, nunca. A violência contra a humanidade é desprezível. Sempre e em qualquer caso. Nunca há uma justificativa. Mas devemos compreender de onde surge, observar o que acontece no mundo político e ter presente esta raiva... Uma raiva política, em que a fé não tem nada a ver.

Mas os atentados são perpetrados sob o grito de “Allahu Akbar” e contra os “infiéis”...

Quando há pessoas más que provocam danos e querem provocá-los, uma das justificativas é utilizar a religião. É fácil gritar “Allahu Akbar”: dá um pretexto para realizar atos horríveis que não têm nada a ver com a religião. Estes não agem em nome do islã. Dou um exemplo: você torce para qual time?

Não, não torço para nenhum, mas tenho simpatias pelo Roma...

Muito bem, pois digamos que alguém que torce pelo Roma pega um tijolo e o joga contra as janelas de uma igreja, gritando: “Roma, Roma”. Não quer dizer que o faça em nome do clube ou que o Roma aprove este gesto. No ano passado, mataram, na Grã-Bretanha, Jo Cox. Seu assassino era um homem do movimento neonazista que, ao apunhalá-lo, gritou “Britain first”. O que significa isso? Que ele fez isso em nome da Grã-Bretanha? Claro que não! Nenhum jornalista teria falado de terrorismo britânico.

No entanto, o Papa, assim como outros representantes das diferentes religiões, propõe o diálogo inter-religioso como antídoto ao terrorismo. Se as religiões não têm nada a ver, como o diálogo poderia ajudar para derrotar esta praga do mundo contemporâneo?

O ódio entre as religiões é uma ideia dos terroristas. Neste sentido, devemos isolá-los, devemos subtrair força a esta argumentação demonstrando que as religiões não têm problemas entre si, que estão unidas. Há cristãos e muçulmanos que vivem juntos, trabalham juntos, colaboram em muitíssimas partes do mundo. O Papa tem razão: o diálogo é o primeiro passo.

O que pensa sobre a onda de islamofobia que está se radicalizando cada vez mais na Europa?

É um problema sério. A cada ataque se acende mais o ódio contra os muçulmanos e se multiplicam os ataques raciais, por exemplo, contra as mesquitas. Muitas vezes, nos relatórios da polícia britânica, são catalogados como “crimes contra o islã”, exatamente com esta alcunha. Da nossa parte, encorajamos a comunidade muçulmana a não reagir, a não se vingar, mas manter a paz, participar das manifestações conta a violência e, se necessário, colaborar com a polícia.

Antes falávamos do Papa. Qual é, para vocês, o significado do encontro de hoje [05 de abril]?

Antes de tudo, quero dizer que estou verdadeiramente emocionado. É um momento histórico, porque nunca aconteceu que quatro imãs da Grã-Bretanha se reunissem com o Papa. Estamos muito honrados e é uma maneira para estabelecer um compromisso comum com os refugiados, com os sem teto, com os pobres e com outras atividades de caridade. Cada um de nós compartilhará com o Papa suas histórias de convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos.

O que você dirá ao Papa Francisco?

(Sorri.) Quero dizer-lhe: “Obrigado por ter defendido os muçulmanos”. Ele tem sido o único líder a dizer que o islã é uma religião de paz. Isto nos tranquilizou muitíssimo...

... mas suscitou também algumas críticas dentro e fora da Igreja.

Eu sei. Mas o Papa Francisco é um homem corajoso. Sobretudo, é um verdadeiro cristão, porque vê a pessoa humana sem se importar com sua pertença religiosa. Primeiro somos humanos e depois muçulmanos. Ou cristãos. Então, quero dizer-lhe: “Obrigado”, e dizer-lhe que a comunidade muçulmana britânica gosta muito dele.

O Papa, com frequência, fala de uma “terceira guerra mundial em pedacinhos”. O que diz sobre isso?

Creio que é uma análise precisa da realidade internacional do presente, em que os conflitos se intensificam cada dia. Corremos o risco de desembocar em uma guerra mundial: isso já aconteceu no passado e poderá ocorrer novamente agora.

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