O Jesus do Novo Testamento. Artigo de Roberto Mela

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11 Setembro 2021



"Livro repleto de dados e avaliações, expressão sintética do pensamento de um grande estudioso do Novo Testamento e das origens cristãs, além de pregador da igreja metodista. O volume contém apenas raras notas de rodapé e a linguagem não conhece tecnicismos. O texto é muito útil para se ter uma visão sintética da cristologia do Novo Testamento", escreve Roberto Mela, professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 24-05-2021, comentando o livro Gesù secondo il Nuovo Testamento (Queriniana: Brescia 2021), de autoria de James D.G. Dunn. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

 

Eis o artigo. 

James D.G. Dunn (1939-2020), ex-professor na Durham University foi um dos principais estudiosos do Novo Testamento, em particular no que diz respeito à literatura paulina e ao alvorecer do cristianismo. Ministro da Igreja da Escócia, desempenhou o papel de pregador metodista. Em memória de sua obra, apresentamos o volume Jesus segundo o Novo Testamento [em tradução livre].

Nesse volume, o estudioso se propõe a delinear rapidamente o rosto e a mensagem de Jesus como foi apresentada nos vários escritos do NT a partir do impacto que teve sobre seus discípulos. Após um período de pregação oral, as palavras e fatos de Jesus foram coletados em evangelhos escritos.

Além deles (e no que diz respeito às epístolas paulinas, primeiro), outros escritos atestam mais ou menos diretamente sua figura e ensinamento, agora incorporado na pregação adaptada ao alterado ambiente das comunidades para as quais os escritos eram dirigidos.

Jesus segundo Jesus”, o primeiro capítulo do livro, relata os principais ensinamentos aprendidos pelos discípulos diretamente de Jesus: o mandamento do amor, a escolha preferencial dos pobres, o acolhimento dado aos pecadores, a abertura - inicial – ao mundo dos gentios, a presença incomum e no limite do escândalo de algumas mulheres entre seus seguidores mais próximos. Além disso, menciona-se a abertura de Jesus às crianças, a atenuação dos preceitos alimentares com a inversão da fonte de pureza no homem e finalmente a Última Ceia ou Ceia do Senhor.

Os traços distintivos de seu ministério foram a proclamação do Reino, ter sido um mestre de autoridade, um esplêndido narrador de parábolas e um exorcista de espíritos malignos. De acordo com os evangelistas sinóticos, o ministério de Jesus estava concentrado na Galileia, enquanto para João aconteceram diversas viagens a Jerusalém.

Os Evangelhos foram julgados como uma história da paixão de Jesus - aceita voluntariamente - precedida por uma longa introdução.

 

JAMES D.G. DUNN, Gesù secondo il Nuovo Testamento
Prefácio de Rowan Williams (Biblioteca biblica 32), Queriniana, Brescia 2021 (or. am. Grand Rapids, MI 2019), pp. 208, € 24,00, ISBN 9788839920324. (Foto: Divulgação | Queriniana)

 

Como Jesus entende a si mesmo

Sobre a autocompreensão de Jesus, Dunn acha que se possa falar com certeza que a sua missão começou depois do - embaraçoso - batismo que ele recebeu de João Batista. Nele Jesus recebeu a declaração solene do favor de Deus e a unção do Espírito de Deus para sua missão. A missão começou com o encargo que recebeu de Deus, seu Pai, quando foi batizado por João. Jesus está ciente de "ter vindo" ou "ter sido enviado", isto é, de ter uma missão celestial. Jesus se percebe como o Messias/Cristo, mas sua messianidade também incluirá o sofrimento, a morte e a ressurreição.

“No início do Cristianismo, a reivindicação de que Jesus era (o) Messias já estava profundamente arraigada e refletia completamente a afirmação messiânica por ele encarnada na sua missão” (p. 33).

Jesus se dirigia ao Pai com o termo "Abá" e tinha consciência de ser o Filho de Deus, mesmo que as provas não sejam tão fortes. No processo, ele é acusado por ter se considerado o Filho do Abençoado e condenado por blasfêmia. Do conjunto se deduz que “a mais antiga fé cristã, segundo a qual Jesus era o Filho de Deus de maneira única, estivesse enraizada nas memórias mais antigas da sua missão e morte” (p. 35).

Jesus usa para si o título de Filho do homem, influenciado por Dn 7,13 sobre a maneira como ele imaginou o desenvolvimento de seu ministério mais do que seus discípulos diretos e posteriores. Jesus esperava morrer pelas mãos das autoridades civis (cf. as três previsões da paixão após a confissão de Pedro sobre o messianidade de Jesus).

Os claros pressentimentos de Jesus coloriram nos discípulos a memória de tais predições ou advertências. Nos Evangelhos há ecos claros da autocompreensão de Jesus e da concepção de sua própria missão. As “raízes das convicções sucessivas sobre Jesus estavam firmemente fixadas no que dele se recordava (e se recorda), no que ele havia dito e na maneira como ele havia agido. Jesus segundo Jesus está decididamente na raiz de Jesus segundo os evangelistas”(p. 38).

 

Os Evangelhos

Da coletânea de blocos narrativos sobre parábolas, milagres e ensinamentos de Jesus (coletados especialmente na fonte Q = Quelle = material discursivo comum a Mt e Lc) nasceram os três evangelhos sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas.

Marcos foi o primeiro a considerar "evangelho", boa nova, a narração do ministério, da morte e ressurreição de Jesus. Paulo concentrou o sentido da palavra apenas na morte e ressurreição de Jesus.

Marcos se apresenta, em particular, como um relato da paixão com uma longa introdução. É caracterizado pelo segredo messiânico, explicitado pelas ordens de silêncio dadas por Jesus para que não fosse mal interpretada a natureza de sua messianidade antes do tempo da paixão. Jesus mostra um reiterado desejo de permanecer escondido e o final abrupto do Evangelho levou ao seu prolongamento com uma síntese dos testemunhos de aparições pascais, solicitado talvez pelo próprio Marcos. “Mas a forma como seu evangelho realmente terminou permanece uma espécie de quebra-cabeça” (p. 46).

Mateus tem uma estrutura alicerçada em cinco longos discursos. Jesus encarna a sabedoria divina, leva a cumprimento a expectativa judaica (cf. as citações de cumprimento), é apresentado como um novo Moisés, cujo ensinamento expresso nos cinco livros da Torá ele leva a cumprimento. A lei é confirmada, embora interpretada, reconfirmada e redefinida com autoridade. O centro do ministério de Jesus é principalmente Israel, embora o Evangelho seja para todas as nações (Mt 24,14) e o mandato pós-pascal tem alcance universal (Mt 28,19).

Lucas descreve Jesus principalmente como um consagrado com a unção do Espírito, demonstrando assim que pretendia narrar em um segundo volume o início do movimento de Jesus após a morte e ressurreição de Jesus. O Espírito será o protagonista absoluto do avanço da missão inicial dos discípulos depois da Páscoa. Lucas enfatiza como relevante e distinta a atividade de Jesus para com os pecadores (a palavra nunca aparecerá nos Atos).

O evangelho também é uma boa notícia para os gentios. Jesus muitas vezes é mostrado enquanto se retira para orar. Jesus é chamado "o Senhor" pela primeira vez pelos seus contemporâneos (cf. Lc 24,34). No Evangelho, são fortemente destacados os perigos da riqueza e da preocupação com os pobres e é enfatizado o papel das mulheres na entrada de Jesus no mundo e entre seus discípulos.

Seguindo Marcos usando a fonte Q, os sinóticos descreveram a figura de Jesus de modo pessoal e diferenciado, mas essencialmente reafirmando a mesma tradição como confiável.

O Evangelho de João recupera a mesma tradição, mas de uma forma muito diferente. Milagres tornam-se "sinais", parábolas verdadeiras e próprias não são narradas, enquanto são lembrados vários ditos "Eu sou", que podem valer como o equivalente joanino das parábolas sinóticas. João não quis contar o ministério de Jesus, mas revelar seu significado, bem como o de sua morte e ressurreição. "Seu evangelho é mais uma reflexão sobre o ministério e sobre o próprio Jesus, inspirando-se na tradição de Jesus taumaturgo e, na realidade, elabora situações que se acreditava Jesus tivesse dito para mostrar o significado dos sinais e da revelação de Deus que Jesus trazia e encarnava” (p. 65). Jo 20,30-31 expressa explicitamente o propósito do seu evangelho: conduzir à fé em Jesus como Cristo, o Filho de Deus, para ter, pela fé, a vida em seu nome.

João mostra o significado de Jesus como Messias, conservando o título honorário, que mais tarde se tornou nome próprio de Jesus ("Jesus Cristo"). Jesus é definido como "rei de Israel", mas Jesus especifica seu sentido perante Pilatos. Jesus é "mostrado como aquele que realiza e de fato substitui outras figuras centrais na história e religião de Israel" (p. 68): Lei, maná, cordeiro de Deus, templo, água, precedência sobre Abraão, videira, etc. Existe tensão entre cumprimento e substituição.

João tenta ajudar os judeus abertos a Jesus a seguirem em direção à fé nele, talvez pressagiando para breve que os judeus de fé logo tomariam um caminho diferente. João, entretanto, não queria perder a identidade judaica do movimento de Jesus, que era para ele basilar (cf. p. 69).

Jesus é considerado como "o Filho de Deus" (referências exclusivas de João) e se dirige a Deus como "Pai". Sua missão era autorizada pelo pai. João espelha a fé dos primeiros cristãos em Jesus como "o Filho de Deus". Podendo repetir a oração de Jesus - "Abá" -, os primeiros crentes afirmavam que também eram filhos de Deus (cf. Rm 8,15-17).

Absolutamente nova é a afirmação de que Jesus não apenas proferiu, mas era a palavra de Deus (cf. o Prólogo), o Logos agente e instrumento divino da criação. Jesus é “a encarnação do pensamento e da intenção de Deus, comunicação ele mesmo do que até então havia sido expresso apenas com as palavras do inspirado profeta. Jesus, como Palavra de Deus, exprimia o que até então era o inexprimível e tornava conhecível o incognoscível” (p. 73).

A Palavra de Deus se fez carne em Jesus, e não apenas poder criador ou salvífico de Deus. Em João há muitos ecos do que na literatura sapiencial se falava da sabedoria (feminina no pensamento judaico). Não há problema em João em expressar a encarnação em termos femininos: Jesus é palavra encarnada, sabedoria encarnada. João resume o pensamento dos escritores judeus da Bíblia sobre o tema da palavra de Deus e sobre a sabedoria de Deus.

Outros traços peculiares do Evangelho de João são a lembrança do novo mandamento, a dimensão pessoal com a qual Jesus se dirige a cada uma de suas "ovelhas”, o culto em espírito e verdade não está mais ligado a um centro de culto. Os silêncios de João dizem respeito ao batismo de João e à Última Ceia. No entanto, existe o longo discurso sobre o pão da vida. Segundo Dunn, João já está protestando contra a eclesiologia e a teologia sacramental que Inácio promoverá logo depois. Por esta razão, o cristianismo expresso por João foi classificado por alguns como "conventicular" (p. 79).

Comentado pela primeira vez pelos docetas, segundo os quais Jesus aparecia apenas na carne, parecia ser carne, o Evangelho de João prestava-se a ser identificado com a perspectiva gnóstica. Irineu recuperou João da ortodoxia e, desde então, sempre foi considerado o documento e o fundamento escritural da cristologia ortodoxa (cf. p. 80). Ao incluí-lo no cânone, a Igreja primitiva reconheceu a importância de expressar as boas novas de uma nova maneira, a fim de alcançar aqueles que estavam fora dos círculos habituais do judaísmo. Mesmo correndo alguns riscos.

 

Os Atos dos Apóstolos

Nos Atos dos Apóstolos, Jesus quase nunca aparece após a página introdutória de Atos 1,1-11. Pedro e os outros sempre falam sobre ele em seus discursos e pregações. Uma peculiaridade é o uso do "nome de Jesus / do Senhor / de Cristo". "Senhor Jesus (Cristo)" é uma denominação constante. Principalmente é insólita a menção do "Espírito de Jesus" (Atos 16, 8). Existe a convicção de que a missão com poder dos apóstolos e de Paulo seja a continuação da missão de Jesus.

Os desenvolvimentos na compreensão de Jesus são expressos nos numerosos discursos de Atos (Dunn listas 17). Pode-se concluir que “Lucas soube buscar informações na tradição e incorporá-la - não necessariamente todo documento ou memória específica em si, mas a tradição que estava ligada às ideias do orador e que, segundo a ponderada opinião de Lucas, a representava e se apresentava bem para a ocasião” (p. 88). Lucas fez pesquisas cuidadosas e seguiu a metodologia defendida pelo historiador Tucídides. Seus relatos são confiáveis. Ele também recuperou material não lucano.

Representativos da concepção de Jesus são o discurso de Pedro no Pentecostes e aquele proferido a Cornélio. Jesus é apresentado com uma cristologia primitiva, como um homem credenciado por Deus e constituído Senhor e Messias após a ressurreição. Lucas recorre a fontes muito antigas para compor o discurso de Pedro. Para Cornélio se repete o anúncio da morte e ressurreição de Jesus, a chamada implícita à fé com a promessa de perdão e o anúncio de que Jesus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos. Existem muitos aspectos primitivos presentes no discurso (cf. p 92-93).

Lucas parece ter realmente seguido a prática de Tucídides de ‘ter em mente as palavras precisas daqueles discursos que eu mesmo tinha ouvido’, expressas como considerava provável que o locutor as tivesse comunicadas, tentando, na medida do possível, manter-se ‘próximo do pensamento geral dos discursos efetivamente proferidos’" (p. 93).

Nos discursos dos Atos, Jesus se torna o conteúdo da mensagem. A principal atenção recai sobre sua ressurreição. Ainda não existe uma teologia da morte de Jesus e a atribuição a ela de um valor expiatório (talvez devido à influência sobre Lucas do judaísmo da diáspora). Falta tensão entre o cumprimento e o fim iminente, não há uma escatologia realizada, mesmo que exista a convicção que os últimos dias já começaram.

Nos Atos, nenhum papel é atribuído ao Jesus exaltado. Ele derrama o Espírito, é a autoridade sobre a qual apoiam aqueles que agem “em nome do Senhor”; falta a percepção da união do fiel e do Senhor exaltado (cf. Paulo). Não existe uma fórmula "em Cristo". A relação entre o Senhor exaltado e o Espírito Santo é mencionada em Atos 16,7-8, com a expressão particular "Espírito de Jesus".
Falta o conceito e a experiência de filiação. Deus é o principal sujeito das ações narradas e também, na maioria dos casos, da ressurreição de Jesus (ênfase "adocionista"). Os destaques das boas novas na pregação de Atos são o chamado à conversão e a fé, a promessa de perdão e salvação, ou seja, o dom do Espírito para aqueles que se abrem para a fé. Ausente qualquer corolário ético para o evangelho apresentado.

 

Paulo

Dunn dedica dois capítulos inteiros aos pensamentos de Paulo sobre Jesus (p. 105-146). Paulo muda o eixo de atenção da Síria para o Egeu, abre decididamente aos pagãos sem pedir a circuncisão, organiza a coleta para os pobres de Jerusalém para responder às suspeitas de negligenciar elementos fundamentais do judaísmo dos fiéis em Cristo. A peculiaridade do evangelho de Paulo é que a palavra "evangelho" resume as boas novas sobre Jesus, na verdade coincidindo com sua morte e ressurreição (pelo menos sessenta vezes das setenta e seis ocorrências no NT).

Paulo parece mostrar pouco interesse na vida e ministério de Jesus antes de sua morte e ressurreição, embora ele esteja bem familiarizado com a tradição neste ponto (e que ele por sua vez transmite). Ele cita o ensinamento de Jesus três vezes e alude a isso muitas vezes em sua parênese. Menciona a imitatio Christi e descreve Jesus como "a forma de ensinamento à qual os crentes foram confiados” (cf. Rm 6,17).

“Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia” é a frase com que Paulo sintetiza o Evangelho que lhe foi transmitido (cf. 1Cor 15,3). O coração do evangelho é a morte expiatória de Jesus. Ele morreu para expiar os pecados dos ímpios, pecadores, inimigos de Deus. Ele realiza uma troca entre a sua situação e aquela dos pecadores, assumindo o pecado e libertando do fardo os homens que nele acreditam. A centralidade da morte também se expressa com as palavras "no/pelo sangue".

No entanto, Deus ressuscitou Jesus dos mortos e a sua ressurreição é também o sinal da sua condição de "Senhor" (cf. Rm 1,1-4). Além das categorias de "redenção" e "reconciliação", Paulo frequentemente usa as expressões "com Cristo", "em Cristo" e o uso de verbos compostos com "syn-/com".

Muitas são as metáforas usadas por Paulo para expressar sua teologia e o conceito de evangelho. A justificação pela fé em Jesus é central, junto com as da redenção, liberdade, libertação e reconciliação. As metáforas forenses são extraídas da atividade judiciária em que o acusado era considerado não culpado ou justificado. De acordo com o evangelho de Paulo, Deus realiza o acolhimento ou a justificação do pecador. “A convicção é que Deus acolhe o pecador que nele confia e que, embora culpado de ter agido contra ele, se entrega à sua misericórdia. No pensamento judaico, ‘justiça’ denotava o cumprimento das obrigações de uma relação; a pessoa que cumpre essas obrigações é considerada justa” (p. 120).

Para Israel, Deus que criou o mundo o sustenta, é fiel ao Israel infiel. Sua justiça não é punitiva, mas salvífica. Às vezes, o termo é traduzido melhor como "salvação" ou "vitória". "De acordo com Paulo, o ponto chave era que a justificação, pela qual Deus acolhe os pecadores apesar de seus pecados, era pela fé e não era determinada pelo indivíduo que cumpria a Lei, ou pelas ‘obras da Lei’" (p. 121). Paulo experimentou isso pessoalmente e ao ver a recepção do Espírito Santo pelos gálatas que não conheciam a Lei, mas tinham ouvido a palavra da fé. Para Paulo, deve-se evitar acrescentar algo ao fundamental chamado à fé em Cristo (por exemplo, a circuncisão e as normas alimentares de Israel), como se isso fosse tão importante quanto a fé (cf. o incidente de Antioquia). Paulo não quer abandonar a Lei, pelo contrário, a confirma como guia da vida. A circuncisão não é importante, mas "sim a fé que opera pela caridade", afirma ele em Gl 5,6.

Paulo gosta de enfatizar a participação daquele que crê na vida de Cristo. Ele o expressa com as categorias "em Cristo" (83 vezes), "no Senhor" (47 vezes). O Evangelho de Paulo “pode ser resumido precisamente nestes termos: (1) a ação de Deus se manifestou com a redenção ‘em Cristo’; (2) a graça salvífica foi experimentada pelos fiéis ‘em Cristo’; (3) os fiéis agora têm vida ‘no Senhor’. ‘Em Cristo’, portanto, indica o vínculo, a unidade ‘com Cristo’" (p. 127). Para Paulo, não só a fé era importante, mas a experiência de ter sido levado pelo Cristo vivo e ressuscitado. Também está presente a imagem reversa de "Cristo em nós" (cf. Gl 2,20; Rm 8,10; 2Cor 13,5; Col 1,27).

Paulo também fala de pessoas crentes que são inseridas em Cristo (eis Christon). É a incorporação realizada com o batismo, que ao mesmo tempo insere na Igreja, corpo de Cristo. A relação com Cristo passa por um desenvolvimento, o de se tornar semelhante a Cristo (mais tarde categorizado como “santificação”) (Rm 8,29; 2 Cor 3,18; Col 3,10). Isso também comportava tornar-se como Cristo em sua morte (cf. Rm 6,3). Um sinal determinante para o crente em Cristo é o dom do Espírito (cf. Gl 3,2-5; 3,13-14).

A comunidade coríntia não foi escrita com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo (cf. 2Cor 3,3). Icástica é também a afirmação poderosa: os que estão em Cristo Jesus, não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito." (Rm 8,1). O "Espírito de Cristo" é igualmente o "Espírito de Deus" (cf. Rm 8,14). “Jesus não era simplesmente o Messias que havia sido ungido pelo Espírito de Deus, mas o poder divino da unção era tão identificado com ele que o Espírito de Deus podia ser concebido como o Espírito de Cristo” (p. 133). Paulo identifica dinamicamente "o Senhor" tanto com Jesus quanto com o Espírito (cf. 2Cor 3,12-18). Começa-se o caminho rumo à teologia da Trindade, com a contribuição fundamental de Paulo. O crente em Cristo tem o depósito e a garantia do Espírito, que constitui a comunidade dos fiéis numa comunidade carismática, repleta dos dons do Espírito. A comunidade de culto pode operar eficazmente como o corpo de Cristo somente por meio dos dons do Espírito. Dunn se pergunta: "Será que nós, cristãos, perdemos em nosso culto algo que Paulo considerava essencial para ser o corpo de Cristo?" (p. 136).

A esperança da parúsia de Cristo era uma crença de Paulo herdada dos primeiros crentes. Esperada inicialmente como iminente, é depois adiada para o momento seguinte à propagação da ação do mal no mundo (1 e 2 Ts). Paulo pensa em Cristo não apenas como Salvador e Deus apenas como juiz. Ele fala de tribunal de Deus (Rm 14,10), bem como de tribunal de Cristo (2Cor 5,10). Haverá a ressurreição dos corpos e o dia do juízo para todos, “o dia do Senhor” e o juiz será Cristo (daí vemos que Paulo conhece as implicações evidentes de algumas parábolas de Jesus). Pode ser enfrentado com alguma segurança (1Cor 3,10-15).

Existe uma tensão entre o já e o ainda não, caracterizada pelo desenvolvimento do processo de assimilação a Cristo, processo transformador para conformar-se a ele (cf. Fl 3,10-11), ao seu corpo glorioso, na plena adoção como filhos que coincide com a redenção do corpo (Rm 8,23). É um processo que o dom do Espírito garante que se cumprirá. Jesus é o Senhor que incorpora traços atribuídos no AT a YHWH.

Colossenses anuncia que Cristo é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda a criação; tudo foi criado em Cristo e em vista dele, e todas as coisas subsistem nele (cf. Col 1,15-17). Cristo é o objeto da esperança dos crentes. A ele tudo estará sujeito e depois ele também estará sujeito ao Pai, para que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,24-28). “Paulo permanece um monoteísta fiel. O ápice é Deus"(p. 140).

As Epístolas Pastorais (1Tm, Tt, 2Tm) são atribuídas por muitos estudiosos à tradição paulina. A visão da Igreja é muito diferente (cf. a presença de bispos/episkopoi), o contexto mudou. Cristo se manifesta como o Salvador enviado por Deus (2Tm 1,9-10), manifestação da glória do único Deus. A importância de Jesus permanece inalterada, tanto nas Pastorais como em João. A cristologia se expressa em fórmulas doutrinais e hínicas definidas como "palavras dignas de fé" (cf. Tt 3,5-8 que menciona Jesus Cristo nosso Salvador, batismo, justificação pela graça, herança - na esperança - da vida eterna). A parúsia é aguardada, mas sem urgência.

A fé da segunda geração foi fixada e conservada em fórmulas que sintetizam as convicções que estão no centro de seu culto e de sua existência pessoal e comunitária. A “fé, ainda inicial, em Cristo está se ampliando para aquelas convicções mais complexas e melhor definidas sobre Jesus que chegarão aos credos cristãos clássicos” (p. 143). Tais desenvolvimentos são atribuíveis a Paulo ou pelo menos à sua influência. Grande é a dívida do Cristianismo antigo para com o apóstolo no que diz respeito à compreensão de Cristo. Suas cartas foram consideradas de relevância permanente e, portanto, incluídas no cânone.

Na pág. 144 Dunn resume "as primeiras vezes" implementadas por Paulo com seu pensamento. O estudioso lamenta depois que na vida da Igreja tenha sido dada mais importância a Pedro do que a Paulo, que no NT tem um peso muito maior do que Pedro. Para Dunn, Paulo que quebrou velhas barreiras e encorajou a vida no Espírito a se manifestar em novas formas e fórmulas "é quem mais beneficia o Cristianismo hoje, bem como na missão, para cumprir a qual deu sua vida" (p.145).

 

Epístola aos Hebreus e Cartas Católicas

A Epístola aos Hebreus, talvez de origem alexandrina, menciona Jesus como a sabedoria com a qual o mundo foi criado, sua superioridade sobre os anjos, sua solidariedade com os homens e sua confiabilidade junto ao Pai, como Filho de Deus. Apresenta a visão peculiar de Jesus como o sumo sacerdote da nova aliança, de acordo com a ordem de Melquisedeque, e que, portanto, permanece para sempre. Com o dom da sua vida, Cristo entrou com o seu sangue de expiação pelos pecados dos homens no Santo dos Santos dos céus, diante de Deus, abrindo o acesso a todos os que nele creem. Realiza em plenitude o que foi prenunciado na celebração da Festa da Expiação/Kippur.

Seu sacrifício e sacerdócio são únicos e eficazes. Isso - segundo Dunn - torna inútil a presença de sacerdotes no culto como intermediários (farpa contra os católicos). Para ele, as motivações do sacerdócio cristão presentes em Lumen gentium são eisegesis e uma especiosa defesa que não tem justificativa na tradição. De acordo com o estudioso, "o recurso a um sistema de culto que ainda requer mediação sacerdotal e depende dela, é equivalente a rejeitar Hebreus e efetivamente excluí-la do Novo Testamento!" (p. 158).

Hebreus vê Jesus Cristo como o autor e aperfeiçoador da fé, e em seu cap. 11 faz um longo elogio por como isso foi vivido na história de Israel. Dunn aponta que depois de 70 d.C. o Judaísmo seguiu o caminho da Torá e a figura do rabino, e se tornou uma religião do livro e do mestre. O cristianismo havia iniciado com o centro na palavra pregada e encarnada por Jesus, com sacerdote e sacrifícios por nada no centro. Apesar disso, "no século II, o cristianismo voltou à concepção e às práticas religiosas centradas no sacerdote e no sacrifício [...] Enquanto no judaísmo o ritual sacerdotal deu lugar à exposição da palavra, no cristianismo a palavra foi de fato subordinada à reintrodução do ritual sacerdotal” (p. 161).
Nos últimos capítulos Dunn apresenta Jesus de acordo com as Epístolas Católicas: Tiago, Pedro, João e Judas.

A Epístola de Tiago (que Dunn atribui a Tiago verdadeiro irmão de Jesus) pertence à literatura sapiencial e se refere a Jesus e seus ensinamentos como ilustre mestre de sabedoria. Na p. 167 Dunn apresenta uma lista de exemplos da dependência de Tiago da tradição de Jesus.

A Primeira Epístola de Pedro tem afinidades paulinas, onde Cristo é visto como mediador entre Deus e os homens, cuja ressurreição é a base da sua confiança e que glorifica eminentemente Deus, Jesus é chamado "Senhor" (1Pd 1,3, etc.). Também acolhe "o pensamento de que entre a crucificação e a ressurreição Jesus desceu ao inferno para aí cumprir o seu ministério (1Pd 3,18-19)" (p. 171). 1Pd contém vários ecos da tradição de Jesus. Deve-se notar "a influência constante de Jesus e de sua doutrina sobre o Cristianismo, agora bem consolidado na Ásia Menor" (p. 171; na p. 172, ver a lista de referências de 1Pd para a tradição de Jesus). O sofrimento redentor de Jesus na cruz, que lembra a do servo deutero-Isaías, é exemplar para os crentes chamados a viver não mais para o pecado, mas para a justiça.

Em 1-2-3, Jo insiste-se no realismo da encarnação contra o incipiente docetismo e gnosticismo. Apresenta Jesus Cristo, o justo, como outro Paráclito. O tema da permanência em Cristo é desenvolvido (cf. 1 Jo 2,6,24; 3,24; 4,16; Jo 15). É preciso fazer a vontade de Deus, não ceder à violação da Lei/anomia. Há o perigo dos falsos profetas (1Jo 4,1), denunciados por Mateus (cf. Mt 7,15,24,11,24). As "epístolas de João atestam que a maneira característica de João de recordar Jesus estava enraizada nas memórias mais ou menos amplas dos sinóticos" (p. 177).

2Pd parece derivar da Epístola de Judas (que Dunn atribui ao verdadeiro irmão de Jesus). 2Pd é de datação tardia: considera as cartas paulinas como Escritura (2Pd 3,15-16) e a demora da parúsia tornou-se um problema (2Pd 3,3-12). O ponto culminante da história é o "dia do Senhor", enquanto no início da carta se remete à "justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo" (2Pd 1,1). Procura-se recuperar o ensinamento de Pedro e se reporta a tradição sobre a transfiguração de Jesus (2Pd 1,16-17). Parece que as ressonâncias do ensinamento de Jesus são "muito fracas" (p. 179) e a "memória do ministério de Jesus já tenha se desbotado [...] A memória de Jesus ainda está viva, mas o grau de dependência da memória de sua doutrina é um tanto indefinida quando comparada com Tiago e até mesmo com Paulo”(p. 180).

As Epístolas Católicas são um tanto negligenciadas, mas para Dunn elas ainda têm o mérito de mostrar "a riqueza e a profundidade da geração fundadora do Cristianismo" (ibid.).

 

O Apocalipse

O Apocalipse é um livro pertencente à literatura da crise, que visa infundir esperança às comunidades oprimidas pelas primeiras perseguições que eclodiram no final do I século. O João vidente de Patmos, não melhor identificado, usa uma linguagem na qual frequentemente aplica a Deus e a Jesus os mesmos títulos ou expressões de poder, de glória, de honra. Jesus é apresentado com inúmeras imagens que o assemelham ao Filho do homem de Daniel, cheio de poder e Espírito, exaltado no céu, Cordeiro de Deus. Partícipe do senhorio representado pelo trono de Deus, ele é chamado de "Senhor", "Filho de Deus, e é considerado a expressão de Judá e o cumprimento das esperanças messiânicas de Israel. Ele amou e deu sua vida pelos crentes e os libertou do pecado com seu sangue.

A cristologia de Ap não é imediata ou simples. Muitos títulos são atribuídos a Cristo nas sete cartas às Igrejas que abrem o livro: Primeiro e Último, morto e retornado à vida; tem a espada afiada de dois gumes; ele é o filho de Deus com os olhos flamejantes, Aquele que possui os sete espíritos de Deus e as sete estrelas: ele é o Santo, o Verdadeiro, Aquele que tem a chave de Davi, o Amém, a Testemunha digna de fé e verdadeira, o princípio da criação. Ele faz o diagnóstico do estado espiritual das Igrejas e as convida à conversão e à perseverança, prometendo a participação na sua própria vida, dignidade e poder (trono).

Jesus é descrito, acima de tudo, como “cordeiro/arnion" (28 vezes). É a metáfora (não apenas pascal) daquele, cuja morte é vista como um sacrifício. Ele é degolado, mas vivo, cheio de vitalidade e poder (chifres) e visão que tudo vê (olhos na frente e atrás). João também pensava no "carneiro/amnos", já que Jesus Cordeiro, compartilha o trono de Deus, exerce o juízo, conquista seus inimigos, Satanás e seus aliados. Ele é saudado pela multidão de povos e seus sete olhos representam o Espírito de Deus.

Há flexibilidade no retrato de Cristo, o que torna difícil unificar seus elementos complexos, mas isso indica a dificuldade em limitar ou restringir demais as declarações que procuram expressar a relação entre Cristo e Deus. O cordeiro pascal vitorioso domina a história, sustenta a comunidade de seus fiéis nas perseguições, julga os inimigos fechados a Deus (dragão, besta do mar, besta da terra, Babilônia, etc. .), orienta a comunidade de crentes-prometida a se tornarem progressivamente a noiva do Cordeiro. A Igreja e o Espírito invocam com intensidade a sua parúsia.

Dunn lembra que o Apocalipse não deve ser lido de modo literal, mas com seus poderosos símbolos que pretendiam responder à crise com uma resposta que não existe de forma direta. O último livro do NT e da Bíblia ainda é útil hoje para transmitir esperança e "olhar para além do mundo imediato, com a esperança de resistir quando a fé é reprimida neste mundo" (p. 194). Não é possível criar um quadro cristológico unitário e coerente. O importante é o fato de que "na concepção joanina, Jesus é repetidamente visto como a chave que tornava compreensíveis as crises enfrentadas pelas Igrejas e como fulcro da esperança para uma resolução positiva daquelas crises" (ibid).

No Posfácio ("Jesus segundo ...", p. 195-196), Dunn convida a escrever um livro com as experiências de Jesus vividas pelos leitores. No Apêndice 1 (p. 197) são indicados datas e locais prováveis de origem dos documentos do Novo Testamento, enquanto no Apêndice 2 (p. 198) é mostrada uma cronologia da vida e missão de Paulo. As datas são as clássicas, mas para Filipenses, Filemos e Col, supostas como compostas em Roma, há a dúvida expressa pelo ponto de interrogação. Também é mencionado que Efésios, para muitos estudiosos, tenha sido composta após a morte de Paulo, assim como as Epístolas Pastorais.

O volume termina com a bibliografia (p. 199) e o índice analítico (p. 201-205).

Livro repleto de dados e avaliações, expressão sintética do pensamento de um grande estudioso do Novo Testamento e das origens cristãs, além de pregador da igreja metodista. O volume contém apenas raras notas de rodapé e a linguagem não conhece tecnicismos. O texto é muito útil para se ter uma visão sintética da cristologia do Novo Testamento.

 

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