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03 Dezembro 2011

"Em sua aventura cristã, a Igreja também não pode tomar caminhos traçados de antemão. A estrada deve também inventar-se. Apesar da insegurança que nos ronda, devemos abrir novos caminhos, e, não tenhamos medo, Cristo nos acompanha".

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote do Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 2º Domingo de Advento (4 de dezembro de 2011). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto

Referências bíblicas:

1ª leitura: Is 40,1-5.9-11
Salmo: 84,9-10.11-12.13-14
2ª leitura: 2 P 3,8-14
Evangelho: Mc 1,1-8

A semana passada nós vimos que o Advento é sempre atual: Este tempo de espera, este tempo de vigilância, não consiste em esperar alguém que não está lá ou que demora a vir ou esperar um evento que não aconteceu… Não! Este tempo consiste em descobrir alguém que está já lá e reconhecê-lo nos nossos acontecimentos, através das mulheres e dos homens de hoje… Que devemos reter dos textos da Palavra de hoje?

1. Começo: "Começo da Boa Notícia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus" (Mc 1,1). Numa frase, o evangelista Marcos, que escreve a pagãos convertidos, dá todo o sentido do seu Evangelho, da sua Boa Notícia. Ele não diz recomeço, como se tratasse de uma Boa Nova anunciada anteriormente e que deve repetir-se ao longo do tempo. Não! É início, por conseguinte, de uma Boa Notícia que é sempre nova, que deve ajustar-se e se atualiza ao tempo em que é pronunciada e proclamada. É o início não de um texto, mas de uma ação de Deus, tão importante quanto o início do mundo: "No início, Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1) ou o início do Evangelho de São João: "No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus e a Palavra era Deus" (Jo 1,1).

E para anunciar a sua Boa Nova, São Marcos não hesita em citar o Antigo Testamento; ele o faz livremente, sem se preocupar com a exatidão das suas citações: "Eis que eu envio o meu mensageiro na tua frente, para preparar o teu caminho" (Mc 1,2). Marcos nos diz que isso vem do profeta Isaias (Mc 1,2) e, no entanto, esta citação vem de uma mistura tirada do livro do Êxodo, versão grega (Ex 23,20) e o profeta Malaquias (Ml 3,1). E o resto: "Esta é a voz daquele que grita no deserto: Preparam o caminho do Senhor, endireitem suas estradas" (Mc 1,3) nos vem do profeta Isaias em a sua versão grega, dos Setenta.

A Boa Nova que Marcos anuncia se refere não a Jesus de Nazaré, que ele não conhece, mas precisamente a Jesus Cristo, o Filho de Deus, aquele que lhe revelou a Páscoa. Como este Jesus Cristo está vivo, ele se encarna nos cristãos de todos os tempos. Isso quer dizer que ele se encarna ainda hoje; está em nós de reconhecê-lo… É por isso que, em 2011, é ainda o início de uma Boa Notícia de Jesus Cristo, o Filho de Deus que vive hoje, em nós.

2. O deserto: "E foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados" (Mc 1,4). Mas atenção! No Evangelho, a palavra pecado não tem a conotação moral que se lhe damos hoje. A palavra pecado traduz a condição humana em sua fragilidade… condição que faz que nos afastemos do Deus da Aliança e que tenhamos necessidade de conversão para retornar a ele. E isso acontece no deserto, porque o deserto é o lugar do vazio, do silêncio, da paz e serenidade que permite todos os inícios. É ali que tudo começa: a tomada de consciência do que somos, a nossa necessidade de conversão, o nosso desejo de mudar a realidade e a necessidade de participar. É lá, no deserto, que podem renascer todas as esperanças. É também lá que João Batista faz o batismo de água para significar a conversão do coração, e este batismo se dirige a todo o mundo sem exceção: tanto os ricos como os pobres, tanto as lideranças como o povo, tanto os religiosos como os excluídos.

O deserto é também a experiência do povo de Deus no Exílio na Babilônia, do qual se faz eco a primeira leitura de hoje. Para voltar de Babilônia a Jerusalém, devem-se inventar caminhos de liberdade: "Uma voz grita: abram no deserto um caminho para Javé; na terra seca, aplainem uma estrada para o nosso Deus" (Is 40,3). Não há, por conseguinte, nenhuma pista já traçada. Deus não utiliza nunca os itinerários já trilhados. E por quê? Porque a vida não volta nunca sobre os seus passos; ela a cada vez se inventa incessantemente. Além disso, apesar da insegurança da estrada a pegar: "Que todo vale seja aterrado e todo monte se transforme em planície, e as elevações em lugar plano" (Is 40,4). Deus promete acompanhar os desbravadores e os caminhantes (Is 40,11).

Em seu Evangelho, São Marcos recupera o batismo de João Batista para anunciar outro batismo: o batismo cristão, o batismo no Espírito Santo, que nos faz tornar filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs de Cristo da Páscoa: "Eu batizei vocês com água; mas ele batizará vocês com o Espírito Santo" (Mc 1,8). Em sua aventura cristã, a Igreja também não pode tomar caminhos traçados de antemão. A estrada deve também inventar-se. Apesar da insegurança que nos ronda, devemos abrir novos caminhos, e, não tenhamos medo, Cristo nos acompanha.

3. A Justiça: O primeiro valor de toda a Bíblia é a Justiça. Vem mesmo antes do Amor, porque como se pode gostar de alguém se se é injusto para com ele? O salmo 84 deste domingo o diz explicitamente: "Amor e Fidelidade se encontram, Justiça e Paz se abraçam. A Fidelidade brotará da terra, e a Justiça se inclinará do céu. Javé nos dará a chuva, e nossa terra dará o seu fruto. A Justiça caminhará à frente dele, a salvação seguirá os seus passos". O que significa que sobre os caminhos que inventamos na nossa aventura cristã, Cristo nos acompanha; ele nos precede, mas, ao mesmo tempo, a Justiça anda na frente dele. Daí a importância de trabalhar para restaurá-la.

Hoje, de que devemos nos converter? A maior conversão que é pedida à Igreja, às suas lideranças e a todos os seus membros, é acolher, aceitar, abrir-se às realidades novas das mulheres e dos homens do nosso tempo. É através delas e deles que Cristo vive e que pode trazer uma mensagem de esperança neste mundo novo que começou mais de 2000 anos atrás. Todas e todos temos que trabalhar nessa missão. O mundo atual tem as suas belezas, os seus avanços, mas também os seus retrocessos, os seus limites e as suas fragilidades. Que a Igreja reconheça as belezas do mundo e que demonstre compaixão, indulgência e perdão pelos seus limites e pelas suas pobrezas. É a única maneira de fazer nascer a esperança hoje.

É tão verdadeiro que, perante os questionamentos das primeiras comunidades cristãs sobre a volta de Cristo, o autor da segunda carta de Pedro, escrita pelo ano 125 da nossa era, da qual nós temos um excerto hoje, tenta nos tranquilizar. Quando se interroga sobre o nosso futuro e se questiona se este mundo de sofrimentos, de intolerância, de divisões, de guerras e de morte vai-se terminar, o autor desta carta de Pedro nos fala de não fazer como os fundamentalistas bíblicos que procuram uma resposta ao quando, mas, antes, procurar uma resposta ao que fazer na espera. Escreve: "O Senhor não demora para cumprir o que prometeu, como alguns pensam, achando que há demora; é que Deus tem paciência com vocês, porque quer que ninguém se perca, mas todos cheguem a se converter" (2 P 3,9). E acrescenta: "Há, porém, uma coisa que vocês, amados, não devem esquecer: para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia" (2 P 3,8). O que quer dizer: parem de procurar a data do fim do mundo ou o retorno de Cristo; arregacem as vossas mangas e trabalham enquanto esperam, porque o fim depende de nós. A salvação não é apenas pessoal ou individual; é também coletiva e comunitária, daí a importância de nos comprometer a fazer do nosso mundo um lugar mais justo e mais fraternal porque: "O que nós esperamos, conforme a promessa dele, são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça" (2 P 3,13). Cabe a nós fazê-lo acontecer.

Terminando, queria citar o exegeta francês Édouard Cothenet que nos diz que uma promessa só pode ser feita apenas se se compromete a realizá-la: "Por favor, não façam promessas! Não prometam nada nem aos que estão exilados sob o olhar covarde das nações refugiadas atrás o dever da não ingerência, nem aos que se endurecem de fome nas suas terras rachadas de morte, nem aos que não veem ainda chegar nenhuma razão para esperar, nem aos que esticam o coração para mendigar migalhas de amor, nem aos que se sentem definitivamente cimentados na miséria, nem aos que foram excluídos da comunidade… Não prometam nada ou, então, trabalhem com Aquele que pagou por adiantado durante a sua vida dando seu sangue para obter a Promessa que tinha feito: "Venho para salvá-los". As promessas têm sentido apenas se são realizadas!"

 

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