A árvore da vida floresce na Fronteira. Artigo de Aloir Pacini

A mãe junto à sepultura de Yona Pedraza Tosube (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020).

28 Setembro 2020

"Essas palavras contundentes e objetivas querem chamar a atenção para o fato que, de nenhuma forma, esse caso pode ficar sem solução, sem resposta sobretudo às esposas, às mães, filhos e filhas das vítimas que pedem justiça. Os gestos concretos de caridade e solidariedade falam mais que as palavras. Que o Poder Judiciário brasileiro ouça o grito e o clamor das mães Chiquitanas!", escreve Aloir Pacini, padre jesuíta, antropólogo e professor da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT.

Ao enviar o artigo que publicamos a seguir, Aloir Pacini informa: "triste, mas mataram mais 4 na madrugada do sábado para o domingo... 3 da comunidade de San José de la Frontera".

 

Eis o artigo.

 

Com licença poética quero começar esse texto convidando a todos e todas para rezar no luar, e escutar as músicas da alma que acalentam as dores nas noites que não nos deixam dormir: SOS Pantanal!!! SOS Amazônia!!! SOS Chapada dos Guimarães!!! SOS Guatós!!! SOS Chiquitanos!!! Música: "Prece ao luar"[1]. Segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), os índices de incêndio na Amazônia e no Pantanal[2] são recordes devido ao desmonte dos órgãos de fiscalização ambientais e de falta de políticas públicas de preservação dos biomas. Até mesmo alguns setores da produção agrícola se queixam pelos riscos no descontrole na proteção ambiental, pois dizem os Chiquitanos que a terra não vale nada sem a água. Com recordes de desmatamento, Bolsonaro voltou a negar o problema e durante o pronunciamento virtual na Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 22, voltou a culpar os indígenas e os caboclos pelas queimadas. As causas das queimadas seriam as altas temperaturas da região e a concentração de matéria orgânica em decomposição no solo. As queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal não param de crescer e causam uma destruição sem precedentes num bioma que é a cara do Brasil no planeta. Como os biomas, não podem se defender na Justiça como nós seres humanos, existe um esforço de reconhecimento como sujeitos intrínsecos de direito, talvez assim possamos pensar a ecologia integral de forma consequente.

Não bastasse o drama vivido pelos povos indígenas com as famílias que se encontram enlutadas em consequência do corongo[3] devido à irresponsabilidade dos nossos governos[4], pois descumprimos as orientações da OMS, em especial no cuidado da vida e saúde das populações mais vulneráveis, ou seja, o Brasil é o segundo país com mais mortes em decorrência da pandemia e o terceiro com maior número de infectados, de acordo com Johns Hopkins, isso com uma população bem menor que muitos países, estamos com fogos sem precedentes nos biomas onde vivem os indígenas tradicionalmente e tem acontecido a morte violenta, como o massacre dos quatro Chiquitanos que estavam caçando próximo de sua aldeia no dia 11/08.

Bertold Brecht (1998-1959) se colocou poeticamente no lugar dos negros, operários, miseráveis, desempregados etc., e eu convido a você leitor a se colocar no lugar dos pobres, estrangeiros, indígenas Chiquitanos etc., para compreender o que passam as pessoas nessas condições. Ao completar um mês do assassinato de Arcino Sumbre García, Pablo Pedraza Chore, Yona Pedraza Tosube e Ezequiel Pedraza Tosube Lopez em território brasileiro[5], a Comunidade de San José de la Frontera, na Bolívia, recebeu a equipe missionária da Diocese de Cáceres que se deslocara para lá para fazer doações de alimentos, roupas, de materiais de limpeza e de higiene. Ali celebraram uma Missa pelos falecidos e o batizado de duas crianças porque os Chiquitanos temem que os falecidos possam chamar as pessoas mais próximas para o lugar onde estão. O batismo corta alguns desses vínculos, pois atribui um Missão para os batizados aqui na terra.

O Batismo foi ritualizado pelo Padre Marcelo Ramos nas águas que trazem nova vida para as famílias, 11/09/2020. (Foto: enviada por Aloir Pacini)

O território tradicional Chiquitano foi cortado violentamente quando houve a imposição dos limites dos países e fez com que essa fronteira ficasse tão violenta como a acusação mencionada acima com o agravante das terras loteadas para outros nacionais que se estabelecem na região, devastam o meio ambiente, e fazem secar as fontes e riachos que formam as cabeceiras do rio Paraguai e tem efeito direto na falta de água para a formação do Pantanal. Mais trágica é a situação vivida porque não os reconhece em suas dinâmicas próprias enquanto indígenas, dividindo famílias e territórios que seguem sem a devida demarcação.

Antônia Arteaga Tosube e Vanda Vilas Boas, com camisetas em homenagem aos assassinados, 11/09/2020. (Foto: enviada por Aloir Pacini)

Quando ninguém queria escutar Antônia Arteaga Tosube de San José de la Frontera é que denunciava fortemente o massacre[6]. Aqui ela está com Vanda Vilas Boas da ONG Chikibela, com camisetas em homenagem aos assassinados. Mentiroso é o Boletim de Ocorrência feito pelo Gefron, pois culpa os Chiquitanos de traficantes, como se esta pecha na Fronteira autorizasse matá-los sumariamente e tomar a droga que carregaram como “mulas”. Como não repudiar essa culpabilização dos povos indígenas pelo tráfico de drogas na fronteira seca entre o Brasil e a Bolívia, quando, de fato, esses são as maiores vítimas da liberação de uso da droga no país, mas criminaliza do comércio para enriquecer os traficantes. As estratégias de acusar no BO as vítimas do tráfico de drogas e das mortes serem fruto de “confronto” com bolivianos, ou seja, estrangeiros que não valem nada, choca ainda mais. De fato, costumeiramente os casos de assassinatos pela polícia na fronteira não levava a nada, nem inquérito policial era feito. Os preconceitos e irresponsabilidade de atos escusos como o massacre ocorrido no dia 11 de agosto de 2020 põe o Brasil em situação constrangedora perante a opinião pública nacional e internacional.

Recepção na Fronteira entre Brasil e Bolívia, comunidade de San José de la Frontera. (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020)

Os jovens negros nas periferias, os defensores do meio ambiente, indígenas em particular, são as maiores vítimas no campo dos direitos humanos e formas de conflitos aparecem sem cessar e as mortes pela violência policial no Brasil cresceram com o governo atual. Em vez de diminuir as barreiras entre os países, aumentaram significativamente com o ocorrido. Um novo momento começou quando fomos no dia 02/09 até a Comunidade para escutar as pessoas. Fomos levar alento e alimento, porque a caridade deve ser concreta[7]. O Sargento Leonardo N., comandante do Gefron no Posto de Controle do Corixinho falou visivelmente emocionado na ocasião, pois Dona Meiry Pedraza Chore era a cozinheira ali no Posto do Gefron: “... dizer nós nos solidarizamos com os familiares, sentimos muito pelos fatos ocorridos, não é o que desejamos, não é o que queremos, queremos exatamente paz, queremos exatamente fraternidade com os nossos vizinhos, que sejamos sempre unidos, que busquemos a melhor forma de resolver os problemas, os conflitos, e que possamos viver bem. Estamos à disposição para o que pudermos ajudar, o que pudermos colaborar, que a gente sempre possa ajudar.”

O alcalde de San Matías, Fábio Lopez Olivares, o prefeito de Cáceres, o consulado, os policiais e os comunários[8], todos nós queremos paz na Fronteira. Mas não pode haver paz sem justiça, e o caminho dessa Justiça é que estamos trilhando agora para chegar à paz. Abafar o caso e costurar na superfície, indo ao Itamarati para cobrar indenização pelo assassinato dos indígenas Chiquitanos não é suficiente. As bandeiras pretas, sinal de luto, mostram a comoção na comunidade por causa da chacina do dia 11 de agosto. Por isso os comunários querem respostas mais profundas de Justiça, querem ouvir os que provocaram a tragédia para saber o que aconteceu.

Recepção na Fronteira entre Brasil e Bolívia, comunidade de San José de la Frontera, 02/09/2020. (Foto: enviada por Aloir Pacini)

A Fronteira deveria ser lugar de encontro, pois aqui as pessoas são desafiadas a ultrapassar as barreiras sanitárias do Indea, uma vez que os rios, o fogo e os ventos, mesmo os pássaros e outros animais passam de um lado para o outro sem restrições. Por que seriam os seres humanos impedidos de caminhar e fazer seus encontros, casarem-se e constituírem famílias, ainda mais quando num lado e no outro estão os mesmos Chiquitanos numa rede de parentesco e solidariedade que está aí muito antes dessa fronteira ter sido estabelecida pelos Comissões de Limites? Os caçadores no dia 11 de agosto na fazenda São Luiz, do “japonês”, em Cáceres (no Mato Grosso), foram surpreendidos pela ação do Grupo Especial de Fronteira (Gefron), torturados e mortos.

A matriarca procurando sentido para a tragédia. (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020)

Os quatro Chiquitanos assassinados pertenciam à família de uma das principais matriarcas da comunidade, Dona Maria Natividad Chore Mejía. Dá para ver as dores do coração dessa avó, dessas mães, esposas na fotografia. Os indígenas denunciaram o caso na delegacia da alcaldia de San Matías para que a polícia boliviana cobrasse do Brasil inquérito policial, pois a chacina ocorreu no município de Cáceres, no Pantanal mato-grossense que faz fronteira com a Bolívia. Segundo o alcalde de San Matías ocorreu uma injustiça, pois quebraram-se vínculos importantes em quatro famílias e existem crianças menores que perderam os pais que eram os provedores. Por isso, membros da comunidade cobram ações de assistência às famílias que ficaram desamparadas.

Contudo, o problema está enraizado de forma mais ampla e o remédio terá que ser maior na Fronteira. Soilo Urupe Chue já vinha denunciando as abordagens de forma truculenta feita pelo Gefron já a algum tempo, por isso tem pedido celeridade da Justiça. Sua irmã, Saturnia Urupe Chue esteve na ONU no ano passado e denunciou a violência contra seus corpos, e seus territórios que foram historicamente invadidos e ocupados e que a falta de demarcação dos seus territórios tradicionais é que provoca essa violência.

O governo do Brasil não reconhece os direitos constitucionais dos Chiquitanos porque diz que é terra de fronteira, e criam assim empecilhos para demarcar como Terra Indígena. Se eles tivessem onde caçar, não precisariam ficar pedindo para os fazendeiros para ir caçar ali, já que era território tradicional deles e mais, a polícia não seria tão atrevida se estivesse dentro de um território indígena demarcado. Deslocados do território, muitos são obrigados a viver nas cidades em extrema vulnerabilidade e ali estão sujeitos a se misturarem com o uso de drogas, um assunto que virou tabu, ou seja, encontrou uma forma para fazer crescer o consumo e o tráfico[9].

Não se pode negar os fatos, existem também Chiquitanos aliciados pelo uso e o tráfico de drogas. Mas não só os indígenas, policiais, políticos etc. são aliciados pelo uso e o tráfico de drogas. Quando esses são mortos, ninguém tem coragem de fazer nada, somente enterram e desaparecem. Contudo, fica a dor velada, abafada, não comunicada porque todos estamos reféns de um sistema que permite o uso e não permite o comércio da droga. Volto mais uma vez a apontar a solução para quebrar as pernas do tráfico, pois existem políticos e polícias que ganham com o tráfico de drogas para chegar de forma tão capilar em todos os cantos do Brasil. Essa chaga da sociedade terá solução mais pacífica quando as drogas forem vendidas nas farmácias, sob receita médica.

Agora na 45ª Sessão Ordinária do Conselho de Direitos Humanos, dia 23/09/2020, as organizações da sociedade civil, entidades indígenas e indigenistas, apresentam o recrudescimento das violências: “Lideranças indígenas do Brasil e representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) apresentarão na sessão as denúncias referentes a chacina do povo Chiquitano na fronteira do Brasil e Bolívia no Mato Grosso, e dos povos que vivem entorno do Rio Abacaxis, no Amazonas”[10].

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) também aprovou uma recomendação emergencial devido à chacina com tortura e execução com atos de crueldade cometidos no dia 11 de agosto ocorrida contra 4 indígenas Chiquitanos enquanto realizavam caça para alimentar suas famílias, habitantes da fronteira Brasil-Bolívia, entre as regiões de San Matías, na Bolívia, e de Cáceres no Mato Grosso:

“Ao Governo Estadual do Mato Grosso, o CNDH recomenda que aporte recursos materiais às famílias dos mortos, em razão de serem o que sustentavam seus familiares; à embaixada no Brasil do Estado Plurinacional da Bolívia, através de suas representações no Brasil, sobretudo através do Consulado na cidade de Cáceres (MT), Defensoria del Pueblo e ao Ministério Público Boliviano, que acompanhem de perto a apuração dos assassinatos; à Relatoria Especial sobre os Direitos dos Povos Indígenas da Organização da Nações Unidas (ONU), que solicite informações aos governos brasileiro e boliviano e acompanhe o caso; à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que acompanhe os fatos e a situação específica do povo Chiquitano na fronteira Brasil-Bolívia.”

A mãe junto à sepultura de Yona Pedraza Tosube. (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020)

O pai de Yona Pedraza Tosube (in memoriam), assassinado com quatro tiros, disse que não sai da sua cabeça a forma cruel como trataram seu filho, que a tortura dói na honra de um homem. E a mãe fala da dor que não tem remédio que cure. Na foto Lucileny Tosube Alvarez, a mãe acarinha as flores querendo embalar o filho, como Nossa Senhora das Dores... uma espada transpassou o seu coração imaculado. A irmã de Yona afirmou: “Só a Justiça pode acalentar tanta dor!”

Oração junto à sepultura dos quatro. (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020)

No ritual de oração pelos falecidos, os jarros de água estão em frente e todos os presentes jogam água benta em forma de cruz sobre as sepulturas de cada um dos quatro. A mãe de Yona está acendendo as velas para Deus iluminar o caminho dos quatro. O caso está sob investigação do Ministério Público em Santa Cruz de la Sierra. O Ministério das Relações Exteriores da Bolívia solicitou que o governo brasileiro informe os nomes dos policiais envolvidos na ocorrência. O Itamarati respondeu que esse assunto cabe ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ainda não foi revelado o nome dos assassinos. Segundo informações, os policiais não foram afastados de suas funções, estão na barreira desde o ocorrido sem vir pra cidade de Cáceres para os blindar de qualquer situação constrangedora.

Local de espera onde eram sevados os animais. (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020)

O cerrado com suas serras e Chapadas, mais que um berço das águas é a coroa do mundo[11] que capta as águas dos céus e as libera gradativamente em formas de fontes, riachos e rios para formar o Pantanal, esse sim um berço das águas para o rio Paraguai. O nome da árvore onde amarravam a rede para ficar de espera para a caça era um jatobá... Chegou a primavera e todos querem ver as plantas produzindo folhas, flores e frutos. Yona faria 28 anos no dia 23/09, junto com os demais estão trazendo para todos, de forma espiritual, o reverdecer do mundo. Quando as chuvas vierem abundantes farão os biomas revitalizarem a Esperança, enquanto isso estamos perseverantes, mas sem pressa, conversando nas noites de lua cheia.

A árvore inocente cravejada de bala é chamada fedebosta. (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020)

Ao perguntar o nome das plantas, os problemas de classificação aumentaram porque estão relacionados com três línguas, três culturas que se encontram nessa Fronteira. Ali em torno da árvore massacrada tem a quina, figueira, pauterra, fruta-de-veado, canela-de-ema, pau-de-bicho, paratudo, lixeira, formigueiro-do-cerrado, bocaiúva (totay), açoitacavalo, barbatimão, gonçaleiro (pototó)[12], tripa-de-galinha (cipó) etc. O jatobá que servia para amarrar a rede ou mesmo o fedebosta, a árvore cravejada de balas, são metáforas do acontecido, porque marcadas com o sofrimento dos quatro Chiquitanos que foram massacrados. Todas são plantas importantes no bioma do cerrado e do pantanal para sustentar a vida. De um tronco que foi semente plantada, cresceu e virou árvore como a aroeira (cusi), que foi cortada para fazer a cruz que novamente será nesse lugar plantada para se tornar símbolo do diálogo entre nós e os céus, entre os que ficamos e os que se foram para de lá da terceira margem do rio e nos auxiliar a encontrar o caminho da paz, os Chiquitanos dizem que a cruz é a chave dos céus. O sangue derramado em busca de alimento para a família também será sinal de salvação, chave para entrar nos céus. Por amor a Cristo, Caminho, Verdade e Vida, que também foi morto na cruz e derramou seu sangue, também essas mortes têm Ressurreição.

Cada um de nós em torno da árvore da vida. (Foto: Inácio Werner, 02/09/2020)

Concentrar-se ligados na mesma direção, em torno da Justiça, é o que de melhor podemos fazer. As árvores protegem o nosso planeta e seus vários tons de verde trazem bem viver e filtram a água nos seus rios voadores e subterrâneos para seu uso saudável por todos os seres vivos. Crimes de lesa-pátria são aqueles do corongo incentivado e da destruição do meio ambiente que leva a mãe terra a correr graves riscos de subsistência. Mas mais dramática ainda é essa violência institucional das polícias, por que doe no corpo e na alma dos povos originários.

A Constituição Federal do Brasil como Lei Maior reza no Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. E no inciso XXXV esclarece que a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. Além da Constituição Federal, o artigo 8º da 1ª Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos de São José da Costa Rica, da qual o Brasil é signatário, também garante: Toda pessoa tem direito de ser ouvida, com as garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer natureza. Assim, o direito do acesso à Justiça supera uma garantia constitucional, sendo elevado a uma prerrogativa de Direitos Humanos, dada a sua importância.

Essas palavras contundentes e objetivas querem chamar a atenção para o fato que, de nenhuma forma, esse caso pode ficar sem solução, sem resposta sobretudo às esposas, às mães, filhos e filhas das vítimas que pedem justiça. Os gestos concretos de caridade e solidariedade falam mais que as palavras. Que o Poder Judiciário brasileiro ouça o grito e o clamor das mães Chiquitanas! “Ouvem-se gemidos e pranto em Ramá: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada porque não existem mais” (Profeta Jeremias 31,15).

Dado que a Primavera chegou, quando eu flor e tu flores, todos florescerão e a Justiça virá para dar frutos de Amor e Paz que se eternizam na árvore da vida. Plantados na terra, vamos tirar das tempestades ensinamentos para a eternidade, as referências espirituais auxiliam a termos discernimento na hora de agir, o respeito ao outro é a melhor forma de mantermos essa humanidade habitando a mãe-terra. Daniel Bretas Fernandes, membro da Comissão de Direitos Humanos da 3ª Subseção da OAB/MT comunicou que o procurador MPF de Cáceres/MT, Júlio César de Almeida declinou da sua competência para atuar no caso a partir de argumentos superficiais no dia 22 de setembro de 2020. Não foi conversar com as famílias enlutadas, nem procurou informar-se mais para saber da gravidade dos problemas na Fronteira a partir de notícia de fato criminal de nº 1.20.001.000234/2020-51, conclusa para a análise do 2º Ofício da Procuradoria da República em Cáceres/MT:

"Com base em levantamentos do núcleo de inteligência do GEFRON, dando conta de que haveria vários indivíduos armados transportando entorpecente na região da BR-070, fora designada uma patrulha policial afim de localizar e prender os possíveis infratores da lei. Durante o patrulhamento, a equipe visualizou vários indivíduos em região de mata portando arma de fogo em punho, diante da qual a equipe se identificou como polícia e deram ordem de parada aos suspeitos, momento em que foram recebidos com disparos de arma de fogo. Diante da referida agressão, a equipe revidou realizando disparos de arma de fogo e após cessar a ação foi realizado uma varredura pelo local, momento em que foram encontrados 04 (quatro) indivíduos ao solo feridos, todos eles armados. Simultaneamente a troca de tiros, a equipe conseguiu visualizar aproximadamente 09 (nove) indivíduos retornando em direção a Bolívia carregando sacos idênticos aos utilizados por ‘mulas’ para transporte de entorpecentes, aparentando ser drogas. De imediato foi prestado socorro médico até o hospital regional de Cáceres aos feridos, no entanto nenhum deles resistiram aos ferimentos e vieram a óbito. Diante dos fatos, foram encaminhadas as armas juntamente com o laudo médico e boletim de ocorrência para delegacia especializada de fronteira (DEFRON) para tomada das providencias que o caso requer.” (Ofício nº 336/GEFRON/2020- PRM-CAC-MT-00004897/2020).

Segundo a Resolução nº 35 do CNDH mencionada acima, “a chacina destes indígenas impôs, além do terror e desestabilização comunitária, a fragilização das famílias, posto que eram arrimo destas, ficando as viúvas, mães e seus filhos desamparados frente à ausência dos assassinados; que urge a efetivação da justiça, tão demandada pelos indígenas de San José de la Fronteira”. Por isso recomenda ao Governo Estadual de Mato Grosso, através da Secretaria de Estado e Segurança Pública, que se empenhe para apurar os fatos; providencie a perícia nos armamentos dos policiais envolvidos; que afaste os mesmos da atuação na região dos fatos; e que forneça ao Conselho as informações sobre as ações impetradas. O CNDH representa ainda à 6ª Câmara de Coordenação e Revisão – CCR do Ministério Público Federal para que acompanhe a investigação em curso na Polícia Civil; realize perícia antropológica para verificar as circunstâncias do assassinato dos quatro indígenas Chiquitanos na fronteira Brasil-Bolívia; e requeira o declínio das investigações para a Polícia Federal/Ministério Público Federal, considerando tratar-se de crime transfronteiriço e disputa de direitos indígenas coletivamente considerados.

A delegada do DEFRON, Cinthia Gomes da Rocha Cupido que conduz as investigações é esposa de um sargento J. Neto do Gefron, no caso é parte interessada no processo, por isso deveria declarar-se impedida de atuar nos inquéritos policiais da Fronteira. Grave é que o Grupo Especial de Fronteira (Gefron) é suspeito de outros crimes envolvendo Chiquitanos e outros na Fronteira: 1 – Morte de 5 pessoas, 4 Chiquitanos no dia 8/08/2020[13]; 2 – Morte não apurada de três na ponte na Comunidade Limões em 20/03/2017, pois não foram ouvidos os familiares dos assassinados pelo Gefron para colher informação acerca dos corpos estarem com indícios de tortura uma vez que nas funerárias que prepararam os referidos corpos foram verificadas as pernas quebradas aparentando que algum veículo passou por cima. As famílias não conseguiram nem o laudo pericial do que aconteceu e nem uma resposta da delegada; 3 – Invasão da Bolívia que levou à execução do cacique Vicente Tapeosi Masai e seu sobrinho, no município de San Ignácio de Velasco em 2/7/2020[14]; 4 – Nesta noite do dia 26 para o dia 27 outras quatro pessoas foram mortas pelo Gefron na margem do rio Jauru, estavam passando como “mulas” na BR 070 para Cáceres, três são da comunidade San José de la Frontera: um brasileiro que vivia na comunidade chamado Tiago Silva (34 anos), Júlio César Tosube Alvarez (27 anos) e Carlos Socoré (17 anos). A comunidade reconhece que “faziam coisas erradas, mas não precisava logo matar, não andam armados!", disseram. A funerária liberou os corpos às 17 horas desse domingo e foram velados durante a noite para serem sepultados no amanhecer dessa segunda-feira, dia 28 de setembro de 2020. Essa licença para matar é inadmissível em qualquer contexto, base da civilidade são os devidos processos legais e os governos deveriam ser os primeiros a não cometer barbárie como nesses casos acima.

Contudo, aqui estamos acompanhando de perto o caso do dia 11/08, pois é muito triste o que vem acontecendo na Fronteira, mas pior ainda é que, além da chacinagem ou massacragem[15], eles foram manchados na sua moral, foram acusados de traficantes no último momento de suas vidas. Mais chocante parece ser a barbaridade ocorrida contra pessoas inocentes e sem defesa. Como se isso não bastasse, quando aconteceu essa tragédia, os meios de comunicação brasileiros transformaram os Chiquitanos em traficantes, e os policiais em heróis. Assim penso conseguir sensibilizar o mundo com relação a essa barbaridade cometida por quem deveria proporcionar a segurança e a paz para florescer nessa Fronteira. Com a licença poética proposta, a árvore da vida que está no meio do paraíso é também a árvore da ciência do bem e do mal, oxalá pudéssemos viver mais esta noite de luto buscando Amparo[16], cantando assim:

Lenta e calma sobre a terra. Desce a noite e foge a luz.
/:Quero agora despedir-me, boa noite, meu Jesus.:/
A teus pés, ó Virgem Pura, peço a benção maternal.
/:A meus pés, e a mim guardai-me. Boa noite, meu Jesus:/
Boa noite, meus amigos, Boa noite minhas amigas,
vamos dormir com nosso Deus e acordar com a Virgem Maria...

(originalidade de Dona Geni, CEBs Cuiabá 22/09/2020-09)

 

Notas:

[1] Composição: Vera-Zuleika - gravação LP RAÍZES SARÃ/ 1982. Disponível aqui.

[2] O Inpe registrou 16.201 focos de incêndio até o dia 23 de setembro de 2020, o maior valor acumulado no período desde que o órgão começou a monitorar a região, em 1998. O Governo Bolsonaro passará para a história como responsável pelo maior desastre ambiental no Pantanal, pois contabiliza 6.048 focos de incêndio, o maior número já contabilizado até o dia 23 de setembro. O número de focos neste mês está 211% acima da média histórica do Inpe para setembro, que é de 1.944 pontos de incêndio. O Instituto Centro de Vida identificou que as queimadas começaram em 5 fazendas de pecuária que vendem gado para o grupo Amaggi, do ex-ministro e ex-senador Blairo Maggi, e para o grupo Bom futuro do Eraí Maggi, considerado o maior produtor de soja mundial. O estudo do ICV ressaltou que a 1° queimada começou no dia 11 de junho, com base em geolocalizacão dessas fazendas. O fogo seria uma forma barata de ampliar a pastagem e a necropolítica (ver fonte dos dados in Mídia ninja e aqui).

[3] Esta é uma maneira popular de falar o covid-19. A estratégia das subnotificações e a desvalorização das tecnologias usadas para o monitoramento da doença interferem nas estatísticas e medidas de combate da pandemia. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) afirma que usam seus próprios meios tradicionais de tratamento que tem trazido a cura para muitos que não são notificados como infectados. Além disso, são 382 vidas indígenas que se foram e que não constam nos dados oficiais. Por isso a Apib protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma interpelação para que o governo explique na Justiça as mentiras que propaga e comunicou à ONU os ataques feitos aos povos indígenas. Ver aqui.

[4] Desde o início Bolsonaro "politizou" a pandemia, criticou as medidas de isolamento social e restrições de circulação de pessoas, apontadas pelas autoridades sanitárias de todo o mundo como as mais eficazes para evitar contágio e mortes pelo corongo.

[5] Os comentários de que um dos quatro chegara com vida no Hospital Regional de Cáceres/MT não se confirmou, e oficialmente informou que no dia 11/08/2020, as 04 (quatro) pessoas supracitadas foram encaminhadas àquela unidade hospitalar pelo GEFRON, sendo que, ao serem atendidos pela equipe plantonista, constatou-se de que todas já estavam em óbito, razão pela qual foram encaminhadas ao Instituto Médico Legal para adoção das providências cabíveis (Ofício nº 0164/DA/HRCAF/2020 verificou-se PRM-CAC-MT-00004876/2020).

[6] O grito dos excluídos na Semana da Pátria Brasil... (04/09/42020); O caso dos chiquitanos: O grito dos excluídos na Semana da Pátria... Disponível aqui.

[7] Vídeos Pantanal de Comunicacion. Disponível aqui; Conselho Indigenista Missionário (Cimi); Disponível aqui.

[8] A categoria camunário, frequentemente utilizada pelos Chiquitanos, indica a pessoa que vive na comunidade, participa se sua vida de forma intensa, ou seja, são pessoas que possuem na Comunidade sua referência de vida cultural, social e religiosamente.

[9] Os abusos contra o povo Chiquitano foram denunciados na 42ª sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, na Suíça, no ano passado quando a Chiquitana Saturnina Urupe Chue, afirmou na reunião que são ameaçados e que o próprio governo coloca em risco suas vidas e a vida do planeta. Saturnina disse também que as comunidades Chiquitanas são mais atacadas e violentadas gravemente no governo atual. O que fora denunciado de forma generalizada, talvez por isso não resultou em medidas efetivas, agora está gritando num caso concreto. Penso que maior é a indignação porque são inocentes de quaisquer atos ilícitos. Mesmo que caçar seja considerado para alguns inadequado, é tradicional entre os Chiquitanos e segue suas regras de negociação com os hitchis, donos desses animais que se oferecem em sacrifício para saciar a fome de suas famílias. Ver aqui.

[10] O Fórum de Direitos Humanos e da Terra protocolou denúncias junto a órgãos estaduais, federais e em organizações internacionais para cobrar apuração do caso e punição dos envolvidos. Ver aqui.

[11] Essa concepção dos Chiquitanos é confirmada pelo climatologista Carlos Nobre, quando fala dos rios voadores que são alimentados pela vegetação que retira do solo a humidade e repassa para os céus, numa contínua troca quando as chuvas descem, como na Amazônia onde a precipitação pluviométrica acontece diariamente. Ver Antonio Donato Nobre que explica como e porque os Rios Voadores estão ligados às florestas nativas e as consequências benéficas para o ciclo hidrológico da Amazônia e da bacia do Prata com o Aquífero Guarani... Disponível aqui (autor: Águas pela Paz).

[12] Com as folhas de pototó fazem os arcos em torno das cruzes na Semana Santa e depois dos velórios, dão banho especialmente nas crianças para que o espírito dos falecidos não fiquem impregnados nos que participaram do velório.

[13] A falta de dados dos 5 mortos, quatro Chiquitanos e um brasileiro, em Porto Esperidião ou Las Petas no dia 8/08/2020 não deixa de ser estranho, pois o BO comunica que foram atendidos no Posto de Saúde de Porto Esperidião, mas não temos ciência de laudos do governo boliviano ou brasileiro: Disponível aqui.

[14] Os dois teriam sido alvejados por tiros disparados de dentro de um veículo do Gefron, sem placa. Um policial do Gefron fora baleado num confronto próximo do Quartel Fortuna e foi levado para atendimento. Ato contínuo, foi destacado outro grupo do Gefron, à paisana, para ir atrás e acabaram encontrando o carro roubado na comunidade Mercedes de Soliz, mas não o ladrão. O cacique e seu sobrinho não eram os ladrões que teriam roubado o carro. A Comunidade Mercedes de Soliz denunciou o caso aqui.

[15] Disponível aqui.

[16] Gratidão, Estela Ceregatti, por auxiliar nessa oração. Vídeo Clip Amparo aqui.

 

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