Crise pandêmica acelera transformações que já estavam em curso. Entrevista especial com Victor Ximenes Marques

Para o professor, essa é a característica central da experiência global com a covid-19, pois é nisso que reside o aspecto multidimensional no estado de crises que vivemos

Foto: Pixabay

Por: João Vitor Santos | 27 Setembro 2020

Para compreendermos as consequências da pandemia causada pela covid-19, é necessário um olhar multidimensional. Transitando entre os campos das Ciências Biológicas e da Filosofia, o professor Victor Ximenes Marques chama atenção para o fato de que um organismo tão rudimentar é capaz de lembrar à humanidade suas fragilidades, desde os aspectos estritamente orgânicos aos sociais. “A crise sanitária, assim como a catástrofe humanitária que a segue e a fragilidade econômica, tem acentuado processos e acelerado tendências que já estavam em curso”, compara. “Aliás, essa talvez seja a característica primordial do que chamei de uma ‘crise multidimensional’: a pandemia tem objetivamente funcionado como uma espécie de acelerador de tendências, como catalisador de certos processos que já estavam acontecendo, mas que agora ganham uma nova escala e um novo ritmo”, acrescenta.

 

Assim, na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o professor se propõe a refletir sobre os estragos do coronavírus na economia, nas relações sociais, mas também seus desdobramentos políticos e suas possíveis causas. Afinal, movimentos que vinham pondo em xeque instituições e campos estabelecidos são amplificados. Como exemplo, cita as perspectivas nacionalistas que, de tão radicais, são capazes de constituir suas próprias realidades, fazendo imperar sua visão de mundo. “É como se partes significativas da população, no interior de uma mesma ‘sociedade nacional’, habitassem túneis de realidades diferentes. Os conflitos sobre o que o Estado deve fazer tendem, portanto, a se tornar mais agudos e hostis, com menos pontos de encontro possíveis, diminuindo a capacidade pública de dar conta dos problemas concretos”, analisa.

 

Por fim, o professor ainda observa como a condição humana é tensionada a ser revista, assim como sua inserção e relação com a natureza. “A maneira como organizamos nossas sociedades, o funcionamento mesmo da economia global, foi o que, em primeiro lugar, permitiu que a pandemia pudesse aparecer, e é o que determina a gravidade dos surtos epidêmicos em diferentes lugares do mundo”, lembra. Aliás, esses modos de vida também, segundo ele, são chave para que apreendamos a dureza das desigualdades, pois “a pandemia não impacta todas as sociedades igualmente”. “Ainda que estejamos lidando com um problema que em sua natureza é biológico, uma infecção viral, que tem seus efeitos diretamente orgânicos, simplesmente não é verdade que ‘estamos todos num mesmo barco’”, resume.

 

Victor Marques (Foto: Arquivo pessoal)

Victor Ximenes Marques é professor da Universidade Federal do ABC, no estado de São Paulo. Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo - USP, mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará - UFC e doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Durante o doutorado, realizou estudos na Universidade de Bonn, Alemanha.

 

No dia 03-09-2020 o professor participou do IHU ideias. Na ocasião, ministrou a conferência virtual A pandemia multiparadigmática e o Brasil/mundo fragmentados. Continuidades e rupturas. Assista à íntegra da palestra a seguir:

 

 

Confira a entrevista.

 

IHU on-Line – Como o senhor tem vivido esses tempos de pandemia?

Victor Ximenes Marques – É uma pergunta complexa. A crise sanitária tem afetado todos nós, mas de maneiras distintas e desiguais. Como posso trabalhar remotamente, tem sido mais fácil cumprir o isolamento social. Aqui em casa, desde o começo da pandemia, quando se começou a falar na necessidade de quarentena e distanciamento físico, raramente temos saído, a não ser para compras básicas como supermercado e farmácia. Assim, reduzimos drasticamente nosso convívio social mais amplo, ficando numa situação de semiconfinamento, absorvidos nas tarefas domésticas.

Isso se dá ao mesmo tempo que o espaço do lar se tornou também nosso local de trabalho, intensificando, portanto, a indistinção entre tempo livre e tempo de trabalho, que já era uma característica do período neoliberal. Trabalhar em casa logo se converte em morar no trabalho – que não tem hora para acabar. Vivemos o paradoxo de experimentar a desaceleração espacial resultante do confinamento e, ao mesmo tempo, estarmos freneticamente ativos, hiperconectados à exaustão e consumidos pelo ritmo do ciberespaço, tendo que nos acomodar à nova realidade do trabalho remoto, que é particularmente problemático para a educação, onde a interação em sala de aula tem um papel fundamental. As universidades estão fazendo o que podem, em duras condições de escassez de recursos, para se adaptar ao desafio, seja oferecendo condições materiais para que os estudantes possam acompanhar as aulas, seja fornecendo, meio às pressas e improvisadamente, algum tipo de treinamento para orientar os professores, que, em sua maioria, como é também meu caso, não tinham formação prévia para o ensino a distância, com todas as suas especificidades metodológicas.

Uma situação, como era de se esperar, que gera uma série de ansiedades, e mesmo inseguranças: como fazer aula online, como planejar um curso que vai ser feito sem a interação direta com os alunos, sem o feedback que é tão vital para a dinâmica fluida da sala de aula. Em condições normais estamos o tempo todo olhando para a turma, à procura de pistas faciais e pequenas reações, para acompanhar se estão entendendo, se estão engajados, e tudo isso ajuda a criar um espírito de sintonia e acoplamento dinâmico, que é pedagogicamente crucial.

 

 

Experiência digital

Em ambientes digitais a experiência é totalmente outra, o que torna esse tipo de interação muito mais cansativo. Estamos sendo atravessados por essa avalanche de reuniões virtuais. Se pensarmos até mesmo de um ponto de vista biológico, evolutivo, os seres humanos são constituídos na sua dimensão corporal e afetiva para estabelecer interações de relativa proximidade, nas quais estamos, mesmo que em um nível infraconsciente, antenados a microssinalizações de postura corporal, de movimentos dos olhos, dos músculos da face. Esse tipo de comunicação não verbal potencializa um certo acoplamento, e dá ao processo de diálogo e interação uma textura mais suave, confortável. Em ambientes virtuais esse tipo de retorno, esse tipo de afinamento, não está mais disponível, ou é mais difícil de sustentar. O resultado são encontros bem mais estressantes e cansativos.

Essa é a razão provavelmente que também está por trás do fenômeno da exaustão das reuniões online ou, como tem sido popularmente chamada, “fadiga de zoom”, o fato de que o tipo de interação em ambiente virtual parece muito mais exaustivo, gerando uma sensação de esgotamento. Faz parte do que referi como uma “situação paradoxal” que caracteriza a experiência de muitos professores durante a pandemia: permanecemos em casa, precisamos nos deslocar menos, e ainda assim o trabalho parece ser muito mais extenuante.

 

 

IHU On-Line – Quais os desafios para compreendermos a pandemia de modo geral?

Victor Ximenes Marques – Certamente a pandemia nos arremessa em um ambiente de crise que é, por sua própria natureza, multidimensional. Estamos lidando, de uma maneira muito direta, imediata, com a crise sanitária, que se converte em uma verdadeira catástrofe humanitária: já são quase 140 mil mortes pelo novo coronavírus confirmadas só no Brasil, e estamos nos aproximando da marca de um milhão de mortos no mundo inteiro. É uma tragédia no nível pessoal, de famílias arrasadas pela dor e o luto, uma quantidade de sofrimento humano gigantesca (e, em larga medida, evitável).

Ao mesmo tempo é também uma crise de saúde coletiva, pois lota os hospitais, enche as UTIs, sobrecarrega o sistema de saúde, coloca em situação de estresse intenso os profissionais de saúde; podemos pensar na carga de trabalho, mas também de sofrimento psíquico ao qual estão expostos enfermeiros, médicos, cuidadores. O que temos observado também, no Brasil e no mundo, é que a pandemia desencadeia uma crise de saúde mental, seja pelo sofrimento causado pela proximidade da morte ou pelo medo da morte, pela incerteza quanto ao futuro e a vulnerabilidade econômica, mas também pelas próprias medidas de distanciamento, que aprofundam uma epidemia de solidão e atomização social que já vinha se intensificando.

O isolamento social, por mais crucial que seja para proteger as pessoas, tem seus custos psicológicos. Essa crise de saúde mental que acompanha a pandemia já está bem documentada, por exemplo, nos Estados Unidos e no Reino Unido. Temos notícias de aumento do número de suicídios ao redor do mundo, de uma maior incidência de crises de ansiedade, elevação significativa do número de pessoas experimentando episódios depressivos. O que também se relaciona com o elemento econômico da crise: a onda de extinção de postos de trabalho, de aumento muito brusco do desemprego e contração da renda das famílias.

 

Economia

Mesmo do ponto de vista estritamente econômico, é uma crise que chega de vários lados. Produziu imediatamente uma crise financeira, uma crise da liquidez dos sistemas financeiros ao redor do mundo, gerada pela imprevisibilidade e incerteza frente à rápida proliferação do novo vírus ao redor do globo. Os bancos centrais do mundo inteiro se viram obrigados a responder de forma rápida e muito agressiva (em uma escala sem precedentes na história), uma intervenção que, ao menos por enquanto, se mostrou bem-sucedida: o crash aconteceu, mas as bolsas de valores já se recuperaram. O quão estável é essa recuperação talvez seja uma pergunta que vale a pena levantar, uma vez que se dá simultaneamente a expansão do abismo entre os mercados financeiros, salvos pelos bancos centrais, e a economia real, em particular a situação das empresas médias e das famílias (para usar uma expressão dos Estados Unidos, Wall Street nunca esteve tão distante de Main Street).

 

Mundo do trabalho

A pandemia tem se mostrado um fator disruptivo considerável, seja sobre o mercado de trabalho, seja sobre as cadeias globais de valor, desorganizando a economia. O nível do desemprego continua muito elevado em boa parte do mundo e, sobretudo, naqueles países em que a pandemia saiu efetivamente de controle – falseando a tese de que seria preciso escolher entre conter a pandemia ou salvar a economia.

Se por um lado a China, o epicentro original da pandemia, conseguiu conter o surto a partir de uma resposta muito rápida, decidida e coordenada – envolvendo confinamento em massa, testagem em larga escala e rastreamento das cadeias de transmissão do vírus – e, portanto, retomar a atividade econômica rapidamente, outros países não conseguiram, ou sequer tentaram, implementar essas estratégias. O fracasso público em gerir a crise sanitária é evidente em países como o Brasil e os Estados Unidos, que nunca chegaram a sair de uma primeira onda.

 

 

Longa crise

O resultado será, muito provavelmente, um período longo de desemprego e depressão da atividade econômica, sobretudo a atividade econômica de comércio varejista e serviços em geral (que muitas vezes precisam da interação pessoal próxima para ocorrer), principalmente em atividades que envolvam aglomerações, como eventos esportivos e outras formas de entretenimento de massas.

No princípio, havia ainda a esperança de que se trataria de uma recessão curta, do tipo curva em V: uma rápida queda seguida imediatamente de uma rápida recuperação. Essa foi outra tese falseada pelo desenrolar dos fatos. A recuperação deve ser muito mais lenta, percorrendo um caminho tortuoso e ainda incerto. A economia brasileira, conforme dados recentes, teve uma queda basicamente de 10% entre o primeiro e o segundo trimestre. De fato, a perspectiva agora é a de que haverá um período recessivo muito mais prolongado, e sincronizado, no mundo inteiro – é não só a recessão global mais profunda ao menos desde o fim da Segunda Guerra, mas também aquela em que mais países entram em recessão ao mesmo tempo (em toda a série histórica).

Esse é outro diferencial deste momento, em que se está antevendo uma crise econômica global generalizada, afetando praticamente todos os países (ainda que em magnitudes distintas), o que produz também uma contração no comércio mundial, e talvez venha a acelerar uma tendência de “desglobalização” que muitos autores identificavam como já em curso.

Além de tudo, calcula-se que uma parte significativa dos empregos que foram perdidos pode simplesmente não voltar, seja porque várias dessas empresas estão falindo definitivamente ou porque processos de automação e eliminação de funções, já em marcha, também foram acelerados. Assim, a estagnação econômica, que num primeiro momento se apresenta como uma retração muito abrupta, tende a se estender com o tempo, produzindo, inclusive, outros problemas, como uma crise de segurança alimentar ou, inclusive, uma possível crise da dívida. Em artigo de intervenção do começo de abril, procurei traçar esse quadro conjuntural complexo ligando-o a tendências de longo prazo e cenários de futuro.

 

 

IHU On-Line – Vemos uma crise sanitária que, na verdade, se revela muito mais complexa e nos joga numa espiral de crises. Quais os desafios para se pensar essa crise de forma mais complexa e menos cartesiana?

Victor Ximenes Marques – Essa compreensão de uma crise multidimensional envolve encará-la em seus diversos e multiformes aspectos. Para ser franco, o que mais me interessa são os aspectos políticos e epistêmicos dessa crise. A crise sanitária, assim como a catástrofe humanitária que a segue e a fragilidade econômica, tem acentuado processos e acelerado tendências que já estavam em curso. Aliás, essa talvez seja a característica primordial do que chamei de uma “crise multidimensional”: a pandemia tem objetivamente funcionado como uma espécie de acelerador de tendências, como catalisador de certos processos que já estavam acontecendo, mas que agora ganham uma nova escala e um novo ritmo.

É crucial pensar como isso rebate na esfera da política. O que temos visto é que o fracasso, da parte dos governos, em conter a pandemia alimenta o circuito de degradação da confiança nas instituições públicas e na capacidade de atuação do sistema político. Novamente, trata-se de um processo já em estágio avançado em muitos países: as pessoas confiam menos nas instituições, essas instituições acabam se tornando mais impotentes em sua capacidade de intervenção concreta, o que por sua vez só alimenta a desconfiança e a descrença. Governos desacreditados têm dificuldade em agir ou em fazer cumprir suas determinações, contribuindo para disseminar a percepção de disfuncionalidade – é a lógica de uma profecia autorrealizável.

Em um contexto de crise do sistema político, a consequência é a intensificação dos processos de fragmentação, aprofundando a disfuncionalidade, a impotência e o imobilismo. Trata-se de algo que já estava em andamento, sobretudo na última década, como efeito até da grande crise econômica da década anterior, de 2007/2008, que fragilizou a confiança nos governos, nos Estados, nas instituições políticas de maneira geral. Não é por acaso que países como Brasil e Estados Unidos, onde esse processo está particularmente avançado, tenham sido brutalmente atingidos pela pandemia e, em última análise, se mostraram incapazes de administrá-la.

 

Fragmentação da realidade

O que também parece estar em curso nessa crise multidimensional é um elemento distintamente epistêmico, o que poderíamos denominar de uma fragmentação dos sistemas de realidade. Daí a proliferação de todas essas discussões sobre pós-verdade, fake news etc., nas quais fica evidente uma certa fragilidade das instituições autorizadas na validação do discurso público. Letícia Cesarino tem falado numa crise de sistema de peritos, como uma crise de confiança nas autoridades epistêmicas estabelecidas, relacionando-a principalmente às mudanças na infraestrutura comunicacional a partir da massificação das redes sociais.

Essa perda de confiança nos especialistas e, inclusive, na própria ideia de ciência, tem produzido uma desnorteante fragmentação de mundos: uma dificuldade de estabelecer certos acordos gerais, abrangentes, para balizar um terreno comum discursivo, as coordenadas mais estáveis que permitem dialogar em termos das interpretações de mundo concorrentes (mas em um mundo compartilhado). Quando esse sistema se estilhaça, as discordâncias não são entre interpretações alternativas, mas entre fatos alternativos. Nesse ponto é possível que os mundos habitados sejam tão incomensuráveis que o próprio diálogo não tenha mais tração.

 

 

Negacionismo e túneis de realidade

Não é à toa que o negacionismo da ciência tem ganhado espaço, como sintoma da perda de prestígio do que poderíamos chamar de uma “elite intelectual”. Contra a produção de conhecimento por instituições especializadas, como a academia, emerge um fenômeno que poderíamos denominar de “populismo epistemológico”, uma revolta do senso comum contra os especialistas e seus métodos. Em contraposição a comunidades esotéricas especializadas dos cientistas, com seus procedimentos arcanos e modelos abstratos, o populismo epistemológico invoca a autoridade da experiência imediata, da vivência, daquilo que posso ver e sentir diretamente. Do mesmo modo, favorece o pensamento conspiratório, que é, na verdade, uma forma de projeção antropomórfica.

A mentalidade conspiratória é um atalho cognitivo, quase como uma heurística rudimentar que alivia a carga de processamento ao interpretar padrões complexos e caóticos como resultado de uma agência intencional. Ou seja, impõe um sentido geral a uma confusão generalizada. É o que tem aparecido também com muita força durante a pandemia, indo desde o negacionismo do próprio vírus ou da pandemia, cuja existência de fato não pode ser intuída sensivelmente (“que ameaça é essa que eu não posso ver ou tocar?”), a teorias da conspiração que culpam a tecnologia, como as antenas 5G, por exemplo, pela doença – ou então a atribuem a ação de governos (como no caso das denúncias do “vírus chinês”, supostamente criado em laboratório).

Outra expressão do mesmo fenômeno é o crescimento do movimento antivacina, de negacionismo da vacinação, que já estava em marcha e ganha um novo impulso, vocalizando também uma desconfiança tanto da ciência quanto dos governos. São processos que já vinham se agravando, mas podemos notar como a crise pandêmica os intensifica ainda mais.

Essas fraturas epistêmicas se alimentam também de polarizações de natureza política, aumentando o fosso comunicacional entre campos políticos em disputa. É a própria experiência compartilhada de realidade que está em jogo, com a tendência de que campos políticos adversários cultivem sistemas de realidade radicalmente incomensuráveis – cada um aparecendo para o outro como “bizarro”, “surreal”, “ininteligível”. É como se partes significativas da população, no interior de uma mesma “sociedade nacional”, habitassem túneis de realidades diferentes. Os conflitos sobre o que o Estado deve fazer tendem, portanto, a se tornar mais agudos e hostis, com menos pontos de encontro possíveis, diminuindo a capacidade pública de dar conta dos problemas concretos.

 

 

IHU On-Line – Como a pandemia causada pela covid-19 atualiza o conceito de ciência?

Victor Ximenes Marques – Difícil responder. O que entendemos como ciência, se pensamos na ciência moderna, um produto relativamente recente na história intelectual humana, é o resultado contingente de certos desenvolvimentos históricos, aglutinando-se no que poderíamos chamar vagamente de uma “revolução científica moderna” por volta do começo do século XVII na Europa. Na prática, esse projeto epistêmico foi capaz de avançar pela disseminação de uma certa visão desencantada de mundo: um universo com leis determinadas e passíveis de representação quantitativa. O aumento do controle sobre a natureza passaria pela construção de uma imagem representacional de um mundo desantropomorfizado, não animado por forças extra/sobrenaturais. A imagem científica de mundo parte do princípio de que o que há “lá fora”, a realidade objetiva exterior, é uma natureza basicamente uniforme, homogênea, que obedece a regularidades universais e precisas, e que por isso pode ser codificada em modelos geométricos ou traduzida na linguagem formal da matemática.

Esse tipo de concepção de mundo se acopla facilmente aos processos de industrialização atuantes na modernidade capitalista. Forma-se aí um poderoso ciclo de retroalimentação: o conhecimento científico amplia as forças produtivas (e destrutivas) da economia capitalista, e por isso os Estados e empresas passam a investir pesadamente nesse tipo de conhecimento, fortalecendo-o. Produz-se um sistema técnico-científico em que a representação quantitativa, precisa e rigorosa do mundo está a serviço do controle da matéria, do controle das forças naturais, do aumento do poder humano em submeter os processos materiais e, ao fim e ao cabo, no aumento da produtividade da indústria. Trata-se de uma visão de mundo crescentemente secular, que retirava do próprio sucesso do desenvolvimento tecnológico moderno uma poderosa legitimação.

Em busca de poder, econômico ou bélico, os Estados investiram em ciência e passaram a falar na linguagem cosmopolita da ciência moderna, que se tornou em larga medida hegemônica nas instituições epistêmicas autorizadas e definiu constitutivamente, portanto, o sistema de peritos moderno. É difícil dizer em que medida essa imagem, intrinsecamente impalatável, contraintuitiva e de dolorosa absorção, chegou a ser uma visão de mundo dominante na sociedade de maneira geral, mas não há como negar sua posição epistêmica privilegiada e seus efeitos materiais bastante práticos. De todo modo, é natural que em momentos de crise de confiança institucional generalizada se observe também uma espécie de crise epistêmica.

 

 

Ciência e sua forma de preservar o humano

O seu questionamento, no entanto, tem uma dupla dimensão. Por um lado, o próprio processo da pandemia tende, ou ao menos é fácil pensar que poderia tender, a forçar a adoção de atitude científica, ampliar a legitimidade da visão científica de mundo. Em que sentido? O vírus é justamente um elemento do mundo natural que está aí, independentemente de nossas crenças, das nossas representações sensíveis, da nossa capacidade de compreendê-lo ou de simbolizá-lo intuitivamente. Em suma, o vírus está fora da nossa experiência imediata. E, no entanto, é um aspecto do mundo natural que penetra violentamente nos assuntos humanos e os desorganiza.

A maneira como temos de aumentar nossa inteligibilidade sobre o processo viral, e assim aumentar nossas chances de contê-lo ou administrá-lo, é compreendendo-o cientificamente, produzindo modelos teóricos logicamente disciplinados e expondo-os a teste empírico. É isso que nos permitiria, por exemplo, desenvolver modelos epidemiológicos para melhor orientar a intervenção governamental, ou produzir tratamentos mais eficazes. Então, de certa forma, o vírus oferece um episódio em que os assuntos humanos e os assuntos naturais estão misturados, intrinsecamente conectados. Uma visão científica de mundo certamente nos ajuda a entender, a pensar e a lidar com o problema. Precisamos saber o que funciona ou não, e nesse sentido a imagem científica talvez seja o melhor guia disponível.

É possível que seja justamente o nosso desenvolvimento científico a razão pela qual essa pandemia não está sendo tão devastadora, em número de vítimas diretas, como outras que ocorreram em outros períodos da história humana: agora temos um conhecimento epidemiológico muito mais complexo e detalhado, entendemos melhor como os vírus se espalham e o que fazer para contê-los. Então, a ciência tem se mostrado, e penso que vai se mostrar ainda mais, inegavelmente útil, crucial no combate ao vírus, no controle da pandemia. A imagem científica de mundo se provou mais uma vez um mapa indispensável para guiar a ação humana e, em especial, para guiar a ação dos poderes públicos.

 

 

A desconfiança e o populismo

Por outro lado, há esse sentimento disseminado de desconfiança das instituições estabelecidas, das elites dirigentes e intelectuais. Há, sobretudo, uma certa experiência de confusão, de desorientação que uma situação aguda de crise gera. Isso também já vem de antes, mas temos aí mais um caso em que a pandemia funciona como intensificador. E esse é um terreno fértil para a proliferação do que já havíamos chamado de populismo epistêmico como correlato ao populismo político que tem se alastrado no campo eleitoral. O populismo epistêmico se alimenta da desconfiança em relação a autoridades epistêmicas estabelecidas, da rejeição à elite intelectual, e reforça a confiança espontânea no senso comum ou na experiência imediata. Nesse sentido, por exemplo, há o fato de que o vírus é invisível a olho nu e que, portanto, só pode ser detectado via mediações técnicas, como testes de PCR, o que o retira da esfera do senso comum e torna a constatação de sua presença mais fácil de ser negada.

E esse ambiente de confusão e desconfiança estimula a mentalidade conspiratória. Aliás, o que se chama por “teorias da conspiração” é de modo geral uma tentativa de dar inteligibilidade à experiência, de reduzir o caos cognitivo oferecendo uma explicação narrativa, em termos mais palpáveis, que dê conta da complexidade do mundo. Fredric Jameson tem essa ideia da teoria da conspiração como um mapeamento cognitivo dos que não têm à disposição um repertório conceitual muito sofisticado. Mesmo a mais estapafúrdia das especulações conspiratórias apresenta este caráter econômico, este alívio mental: se são satisfatórias é porque oferecem a sensação de “ah, agora tudo faz sentido, tudo se encaixa”. Frente à complexidade desnorteante e excedente do mundo, responde-se à demanda por inteligibilidade com uma historinha mais ou menos coerente e sedutora.

Esse tipo de choque exógeno, como a pandemia, pode servir também como uma espécie de choque epistêmico, produzindo uma situação em que as pessoas vão tentar, com as ferramentas que têm, criar as suas narrativas orientadoras, suas próprias maneiras de garantir um determinado sentido estável ao mundo.

 

 

IHU On-Line – De que forma a pandemia deve impactar a relação entre os seres humanos, e entre os seres humanos e a natureza?

Victor Ximenes Marques – Do mesmo modo que a crise ambiental e a crise climática, a pandemia poderia servir para nos empurrar na direção de nos vermos como parte da natureza. Ser humano e natureza não estão apartados, em margens diferentes de um abismo, como se participassem de domínios distintos do ser. Em outras palavras, a humanidade é um pedaço da natureza. Vem dela, é feito dela, e depende, portanto, de determinadas condições materiais, às vezes bem frágeis, para sua existência continuada. Como formulei em um artigo recente, “são sempre e necessariamente as precárias condições materiais (corpóreas e biológicas) que suportam nossas elevadas atividades ‘espirituais’ – do pensamento à política”.

Já havia ficado evidente que as nossas ações, a maneira como organizamos a nossa sociedade e como reproduzimos nosso modo de vida, têm efeitos planetários: na composição atmosférica, nos grandes ciclos da biosfera, na sobrevivência das espécies com as quais compartilhamos o planeta, ou na própria face geológica da Terra. Esses efeitos planetários, por sua vez, incidem de volta sobre as nossas vidas, constrangem e atravessam as formas como organizamos a sociedade. A mudança climática, por exemplo, tornará algumas regiões inabitáveis, inviabilizará atividades com as quais estamos acostumados, acarretará pesados custos à economia e custos humanos ainda piores. Em última medida, nos forçará a viver de maneira diferente, independentemente da nossa vontade. A crise ambiental demonstra claramente o nosso pertencimento à natureza: não há “lá fora”, ao intervir na natureza estamos intervindo nas nossas próprias condições de existência.

 

 

A gênese da pandemia oferece outra instância da mesma lição. A intrusão desse vírus específico nos assuntos humanos – um minúsculo agregado de moléculas, ao qual poderíamos nos dar o luxo da indiferença até pouco tempo atrás – desencadeou uma pandemia, uma espécie de fato social global. Embora estejamos lidando com um patógeno que tem uma natureza biológica, uma realidade bioquímica independente da humanidade e que nos afeta enquanto organismos biológicos, a pandemia não é puramente um “desastre natural”. A maneira como organizamos nossas sociedades, o funcionamento mesmo da economia global, foi o que, em primeiro lugar, permitiu que a pandemia pudesse aparecer, e é o que determina a gravidade dos surtos epidêmicos em diferentes lugares do mundo.

Está cada vez mais evidente que o surgimento desses patógenos na espécie humana capazes de se espalhar rapidamente, até porque encontram em nossa espécie uma população sem defesas imunológicas prévias, está ligado à destruição de habitats naturais, processos de desflorestamento, ou à expansão de assentamentos urbanos. A consequência de todos esses processos é colocar populações humanas em contato com populações de animais selvagens que são repositórios de vírus e outros causadores de doenças infecciosas que podem cruzar a fronteira entre espécies. A expansão tanto da fronteira agrícola como da urbana nos deixa mais expostos e vulneráveis a novos patógenos. Ou seja, a própria origem da pandemia já exprime uma relação específica entre sociedade e natureza.

 

Do local ao global

E que essa contaminação se torne rapidamente um problema de escala global tem também raízes sociais: tem a ver com o tipo de mundo que construímos nas últimas décadas, marcado por uma economia globalizada e hiperconectada de fluxos de corpos e mercadorias através das fronteiras nacionais. Historicamente, e mesmo antes da idade moderna, grandes episódios de “pestes” estavam ligados ao desenvolvimento de rotas comerciais de longas distâncias, conectando diferentes regiões geográficas: novos patógenos pegavam carona nas rotas comerciais para se espalhar pelo mundo. Dessa vez aconteceu de forma ainda mais rápida, devido à intensidade do transporte aéreo. Algo que aparece como um problema humano na China, onde se dá inicialmente essa transmissão de uma espécie a outra, em poucas semanas se espalha por praticamente todos os países do planeta.

 

Problema global, mas com desigualdades locais

A pandemia, no entanto, não impacta todas as sociedades igualmente. Alguns países tiveram capacidade de mobilização dos recursos do Estado que permitiram, por exemplo, testagem em massa, medidas de isolamento bastante eficazes, de modo que o problema foi contido num tempo relativamente curto. Parece ser o caso da China, mas também do Vietnã, um país até bem populoso (de quase 100 milhões de habitantes, isto é, próximo à metade da população brasileira), que não é de modo algum um país rico em termos de PIB per capita, mas que conseguiu ter uma das menores taxas de mortes por milhão do planeta. É a maneira como as populações estão institucionalmente organizadas que determinará a dimensão do impacto, ou seja, se o vírus se tornará ou não um grave problema social.

Por que no Brasil seguem morrendo cerca de mil pessoas ao dia enquanto em outros países o mesmo vírus resultou em cifras muito menores? A resposta não se encontra na biologia, mas na política: na capacidade de respostas dos agentes políticos, no tipo de instituições sociais vigentes, na funcionalidade dos mecanismos públicos.

Ainda que estejamos lidando com um problema que em sua natureza é biológico, uma infecção viral, que tem seus efeitos diretamente orgânicos, simplesmente não é verdade que “estamos todos num mesmo barco”. Isso porque os efeitos da pandemia, inclusive os estritamente biológicos, estão ligados à localização social dos corpos. É bem verdade que o próprio vírus é incapaz de identificar a posição social, não “escolhe” entre ricos e pobres, mas os efeitos desse vírus sobre os corpos estão socialmente muito mal distribuídos. Em parte, porque a própria pauperização, por várias razões, produz vulnerabilidades biológicas que acompanham as linhas de classe. Aqueles que já são mais desprestigiados do ponto de vista da escala hierárquica social são justamente as pessoas que, por sua vulnerabilidade econômica e material, acumularam comorbidades, já sofrem de problemas de saúde prévios, já têm dificuldade de acesso aos serviços médicos, além de deficiências alimentares e coisas do gênero, que em conjunto as tornam mais vulneráveis à infecção. A estratificação social tem efeitos biológicos.

 

 

IHU On-Line – Que rupturas e fragmentações essa experiência da pandemia tem provocado no Brasil e no mundo?

Victor Ximenes Marques – A pandemia tem acentuado o abismo de classe. As próprias pesquisas sorológicas apontam que, nas favelas e nas grandes aglomerações pobres do mundo, como as de Mumbai na Índia, já se estaria quase chegando aos patamares em que se pensava garantir uma certa “imunidade de rebanho”, com os pobres, evidentemente, pagando um preço desproporcional para isso. O vírus se espalhou por esses territórios vulneráveis e densamente povoados, justamente, porque neles as pessoas têm menos condições de se proteger, seja pela ausência de saneamento básico, de acesso à água e a máscaras, seja porque nessas áreas estão concentradas pessoas com mais debilidades de saúde prévias.

Sabemos, por exemplo, que tanto a subnutrição como níveis elevados de estresse deprimem a capacidade do organismo de enfrentar uma infecção, aumentando a carga viral, o que tende a gerar tanto uma infecção mais grave quanto o aumento do contágio. Em suma, embora o próprio vírus não faça distinção de classe, essa distinção já está feita na forma como as pessoas vivem, nas suas condições materiais e nos seus corpos, e o resultado é que uma infecção biológica afeta as pessoas de maneira muito desigual, a depender da localização na pirâmide social.

E estamos falando até agora dos efeitos do ponto de vista epidemiológico, mas as consequências econômicas também são desigualmente distribuídas. As vagas de trabalho eliminadas, por exemplo, tendem a ser aquelas ocupadas pelos mais pobres: as classes médias em geral gozam de empregos que são mais passíveis de serem realizados remotamente e, portanto, puderam manter seus trabalhos apesar do isolamento social.

 

 

A pandemia politizada

A fragmentação que eu já havia mencionado anteriormente, em termos de polarização política, uma polarização política que na verdade se reflete na polarização epistêmica e se alimenta dela, também explicita outra ruptura que está em curso. Em vários países, inclusive em países desenvolvidos, sociedades “avançadas” como a Alemanha, explodem manifestações de rua, às vezes bastante massivas, contra as medidas de distanciamento social, contra o uso de máscaras ou até mesmo negando a existência da pandemia como um problema sanitário. O que tem, por sua vez, retroalimentado o processo de polarização política, que favorece o fenômeno de politização do quadro mesmo de compreensão. Com isso voltamos ao tema do populismo epistemológico, da fragmentação dos sistemas de realidades, da crise de autoridade epistêmica.

A pandemia foi politizada em termos da sua compreensão e origem, mas também sobre como devemos lidar com ela. Vemos a politização sobre o uso de máscaras, a politização da quarentena e seus consequentes usos para sinalização política, para expressão de identidade política. A politização da cloroquina é uma expressão máxima desse fenômeno: o que pareceria ser um tema estritamente científico, a ser resolvido cautelosamente pelos especialistas da área, é arremessado para o centro do debate público de massas, onde se é instado a tomar um lado. O bolsonarista tratará de “saudar a cloroquina”, como naquela foto icônica em que Bolsonaro ergue uma caixa de cloroquina para seus apoiadores, como se se tratasse de uma relíquia religiosa.

 

Bolsonaro falando sobre o uso da cloroquina (Foto: Palácio do Planalto)

 

Mas o antibolsonarista não está imune a essa politização, e se sentirá compelido, por exemplo, a compartilhar um estudo, do qual entende pouco, que depõe contra a cloroquina, como forma de sinalizar seu antibolsonarismo. A polêmica de massas em torno da cloroquina não se deu apenas no Brasil, e é sintoma relativamente superficial de um processo subterrâneo mais amplo, mais profundo e mais duradouro. Faz parte da constelação de uma crise de sistema de peritos e, na verdade, de uma crise de autoridade generalizada.

 

IHU On-Line – Até que ponto a metáfora da guerra pode ser importante para compreendermos o que temos vivido?

Victor Ximenes Marques – Há pouco tempo publiquei um artigo acadêmico em uma revista de filosofia no qual faço uma análise do uso da metáfora da guerra no contexto da pandemia. Já em março, podemos ver várias lideranças mundiais, de posições marcadamente distintas no espectro político (de Macron a Trump), mobilizando o vocabulário e o imaginário da guerra. É um fenômeno que apareceu no Brasil também, tanto é que o congresso aprovou rapidamente um “Orçamento de Guerra”. O sentimento que a imagem quer passar é o de que estaríamos diante de uma situação excepcional, ou emergencial, que exigiria medidas excepcionais. Não é novidade. Em períodos de crise, e sobretudo de ameaça aguda, os gritos de guerra ressurgem, com uma arma semiótica para aumentar a coesão interna, impulsionar o apoio popular do governante, ou justificar determinadas ações de exceção, que a sociedade resistiria a aceitar em tempos de “normalidade”.

 

 

Uma forma de olhar para isso é a partir de uma postura crítica, de denúncia da linguagem da guerra por seu caráter manipulador: no fundo estaríamos tratando de um sensacionalismo que serve à ampliação dos poderes estabelecidos e à restrição das liberdades. É o Estado que quer que você ache que está em guerra, na esperança de que aceite voluntariamente a servidão. A melhor exposição que vi dessa posição no Brasil foi o artigo do professor da Unifesp Acácio Augusto, “Guerra e Pandemia”. Na interpretação de Augusto, um crítico feroz da retórica de guerra, trata-se de um instrumento de justificação do controle total, funcional para ampliar a vigilância e submeter a vida. Uma perspectiva semelhante também está presente nas famigeradas observações do filósofo Giorgio Agamben, quando observa criticamente que “não é surpreendente que, frente ao vírus, se fale em guerra”, e que essa “guerra absurda” contra um inimigo invisível, interno, legitima “medidas de emergência” que “nos obrigam de fato à vida em condições de toque de recolher”.

Há uma boa dose de verdade nessas observações. Por outro lado, talvez seja útil destacar que há também aspectos em que a metáfora da guerra carrega seu momento de verdade. O perigo da rejeição unilateral dessa imagem é reduzir a dimensão de gravidade da situação pandêmica, minimizando a excepcionalidade do problema em sua escala social. É o que acaba efetivamente ocorrendo nos textos de Agamben, em que a crítica ao vocabulário de guerra corteja perigosamente o negacionismo. Não faltou quem acusasse Agamben de uma aproximação com o liberalismo nesse ponto, ao ignorar a dimensão e a escala da crise, que pela própria natureza exige uma resposta coordenada e drástica. Como comentou a filósofa Yara Frateschi: “Uma palavra sequer sobre a proteção dos mais vulneráveis, sobre a necessidade de sistemas de saúde públicos e universais, sobre o socorro financeiro dos mais pobres. Agamben imagina que vamos enfrentar essa crise sem que os governantes assumam a orquestra?”.

 

Guerra, mas pela vida

Uma outra forma de abordar a metáfora da guerra pode ser encontrada, por exemplo, nos comunicados da Organização Mundial da Saúde - OMS. O mesmo vocabulário foi utilizado por Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, para argumentar que se quisermos evitar o pior cenário da pandemia precisaremos de uma “abordagem coletiva, coordenada e abrangente que envolva todo o mecanismo de governo”. É nesse ponto que seria possível encontrar o paralelo com a guerra: uma operação em larga escala que demanda um alto nível de centralização, de planejamento, de resposta coletiva abrangente excepcional, incluindo a adoção de medidas que não seriam postas em prática em momentos de normalidade. O que envolve, naturalmente, mobilizar os recursos necessários para vencer a ameaça, a partir de uma racionalidade pública, mesmo que isso signifique intervir coercitivamente sobre os negócios privados.

Nesse sentido, há algo sim de positivo, na verdade crucial, a se retirar da metáfora da guerra. Como toda metáfora, tem seus limites, pontos em que não funciona. Acácio, por exemplo, tem razão quando observa que no caso de uma pandemia não há nenhum inimigo externo a ser combatido, ou quando nota que a guerra implica destruir vidas, é uma empresa de morte. Ora, no enfrentamento da pandemia não se trata de destruir, aniquilar ou matar um inimigo, mas de salvar vidas. O que se deve ativar não é uma lógica de destruição, mas uma lógica de cuidado. Por isso, procurei desenvolver uma ideia que preserve a verdade da metáfora da guerra no nível formal da escala, no seu sentido de necessidade de coordenação coletiva abrangente, mas que a inverta no que se refere ao conteúdo, trocando o sinal de uma lógica da destruição e da morte para outra de promoção e proteção da vida.

Para tanto, utilizei um termo que tomei emprestado do economista britânico chamado James Medway: antiguerra. Um esforço de antiguerra envolveria, portanto, justamente uma abordagem coletiva, coordenada, abrangente e de larga escala, centralizada e planejada, mas cujo objetivo não é a destruição, mas o cuidado da vida. E é aí que as análises das feministas marxistas têm muito a nos ensinar. Cito, por exemplo, Nancy Fraser e Tithi Bhattacharya, que têm desenvolvido uma crítica ao neoliberalismo a partir da lente da reprodução social, pondo em primeiro plano o trabalho de cuidado.

 

 

Pela lógica do cuidado

Em momentos de guerra total, o que se vê é uma mobilização em massa, uma gestão planejada dos recursos. São momentos nos quais é preciso deixar de lado certo elementos da economia capitalista, baseada na acumulação monetária e na competição entre interesses privados, para atingir um determinado objetivo que é coletivo. No caso da guerra, esse objetivo é destruir o inimigo, envolve necessariamente morte e devastação. No caso da crise sanitária representada pela pandemia, trata-se sim de uma situação emergencial, que requer medidas excepcionais, mas o objetivo coletivo é manter e proteger a vida, um esforço de cuidado. Desse modo, a pandemia deveria nos forçar a girar a chave no sentido de um gigantesco esforço de antiguerra: para remodelar, refazer nossas instituições e nossas políticas públicas, não para favorecer a acumulação capitalista, mas sim para a promoção da vida.

E do mesmo modo que períodos de guerra produziram alterações permanentes, mudanças sociais mais persistentes, que duraram para além da guerra, podemos pensar agora também em uma “antiguerra permanente”, cujo objetivo seria confrontar a crise ambiental e climática, assim como a crise de cuidado, que já estavam em curso antes da pandemia. Pensemos, por exemplo, no caso da Europa Ocidental, onde logo após a Segunda Guerra Mundial o Estado passou a participar mais da vida econômica, planejando vastos setores produtivos, ampliando os serviços públicos e constituindo o Estado de bem-estar social do pós-guerra. O esforço do tempo de guerra alterou de maneira duradoura as expectativas e percepções da cidadania sobre o que os governos poderiam e deveriam fazer.

Se o planejamento e a intervenção estatal funcionam em tempos de guerra, por que não poderiam funcionar também para fins sociais, em tempos de paz? E essa foi uma marca do pacto social-democrata keynesiano, que vigorou em vários países de capitalismo avançado no pós-guerra, com intervenção estatal em mais áreas da vida econômica, com o estabelecimento de sistemas de proteção social “do berço à cova”. O Sistema de Saúde Nacional britânico, o NHS, surgiu de fato imediatamente depois da guerra, prometendo cobertura de saúde universal e gratuita, oferecida pelo próprio setor público.

 

IHU On-Line – A partir do que vivemos e dessas transformações que o senhor destaca que a experiência da guerra legou, acredita em transformações políticas e econômicas a partir da experiência da pandemia?

Victor Ximenes Marques – É difícil prever, porque o processo ainda está em curso. É possível, no entanto, identificar alguns elementos já acontecendo nessa direção. O neoliberalismo de maneira geral vinha sofrendo de uma crise de legitimidade, de confiança, ainda que em câmera lenta, pelo menos desde a crise financeira global de 2008. Nesse sentido, a pandemia aparece agora como um choque exógeno, uma segunda crise que força novamente os governos nacionais a intervirem na economia, assim como em outras esferas da vida, frente a essa nova ameaça. Por outro lado, parece haver uma certa tendência de que países que já tinham um aparato estatal mais capaz de intervir de maneira organizada e planejada – cito casos como a China e o Vietnã – conseguiram lidar com a pandemia de maneira mais eficaz e racional, em contraste com outros países que foram mais fundo no caminho do desmantelamento dos mecanismos de macrogestão pública.

Então, é bem provável que esses modelos políticos mais intervencionistas, que apostam na capacidade de ação pública rápida e coordenada em larga escala, sejam vistos como mais atraentes, o que seria um resultado do próprio sucesso que tiveram em controlar a pandemia e lidar com seus efeitos.

 

Movimentos sociais

O meu interesse maior, no entanto, é pensar como os movimentos sociais, no Brasil e no mundo, têm se apropriado desse período de crise aguda da pandemia para avançar certas agendas. Um exemplo evidente disso são os movimentos por habitação e campanhas como a Despejo Zero. Como a própria pandemia necessita de medidas de isolamento social que, portanto, requerem uma certa segurança habitacional, os movimentos do mundo inteiro têm se organizado para exigir, com certo grau de sucesso, a suspensão legal de desocupações e despejos, o congelamento do aluguel e medidas semelhantes.

Outros movimentos têm insistido na necessidade de alívio das dívidas. Voltou à pauta a questão da abolição da dívida para os países pobres, mas ganham força também, inclusive nos países de capitalismo avançado, as campanhas – que se fortaleceram a partir do Occupy Wall Street – de perdão da dívida das famílias trabalhadoras. Nos Estados Unidos, por exemplo, crescem os movimentos de “greve de aluguel” e “greve da dívida”, com movimentos de massa exigindo perdão das dívidas médicas e das dívidas estudantis.

 

Há movimentações na sociedade, com plataformas organizadas exigindo esses direitos materiais: seja de habitação, seja de acesso à saúde ou a uma renda garantida – Victor Ximenes Marques

 

Acesso universal à saúde e renda mínima

Outro efeito também muito típico da pandemia são discussões e mobilizações em torno do acesso universal à saúde, demandando o estabelecimento de sistemas de saúde públicos onde não existem ou reforço material da universalização do atendimento de saúde onde já está prevista por lei, como é o caso do Brasil. Junto a esse debate, aparece a necessidade de pensar como garantir uma renda básica para todos, discussão que ganha urgência devido ao crescimento abrupto do desemprego, mas, também, pelo fato de que a pandemia coloca novos problemas: como procurar ativamente emprego no momento em que o isolamento social ainda é importante?

Vimos como por várias vias a situação pandêmica desorganiza o mercado de trabalho e oferece uma demonstração prática de que a segurança material das pessoas trabalhadoras não pode ficar refém desse mercado. É a própria situação objetiva que acaba colocando na pauta do dia a questão da segurança econômica das famílias. Momentos como esse explicitam o problema de que no capitalismo a reprodução da vida depende da inserção em circuitos mercantis, mas em situações de crise aguda, os mercados ficam fragilizados, disfuncionais ou mesmo entram em colapso. Como garantir uma vida minimamente livre dos arbítrios e irracionalidades do mercado?

Em que medida essas demandas, ao virarem demandas de massas ocupando as ruas e as redes, vão gerar mobilizações multitudinárias por direitos a ponto de conseguirem implementar suas agendas, ou torná-las mais fortes politicamente no longo prazo, incidindo eventualmente sobre o consenso público e sobre a ordenação jurídica, ainda é uma questão em aberto. Não há garantias, mas é um caminho possível. O que podemos já perceber é que há movimentações na sociedade, com plataformas organizadas exigindo esses direitos materiais: seja de habitação, seja de acesso à saúde ou a uma renda garantida. São percebidos como direitos porque são necessários à reprodução da vida. Ganha força um ressurgente vocabulário de direitos coletivos expresso como na necessidade de reconhecimento normativo institucional das condições de vida boa, e é assim que as pessoas têm se expressado: “isso é nosso direito porque precisamos disso para viver”.

 

Gramática dos direitos

Essa “gramática dos direitos” tem viralizado também durante a pandemia, concorrendo com a gramática, impregnada no senso comum, do “cada um por si”, à qual o presidente Bolsonaro presta homenagem quando diz que “o brasileiro tem de entender que quem vai salvar a vida dele é ele”, dando a entender que não se deve esperar nada do poder público. Ainda é cedo para antecipar se essas demandas coletivas em torno de condições materiais da vida, avançadas por movimentos de pretensões majoritárias, se cristalizarão em formas de agência política eficazes, ou serão capazes de consolidar um novo consenso público, uma forma compartilhada de perceber a realidade que substitua a atomização individualista da era neoliberal. Certamente, o aumento do nível de mobilização e de articulação política, a reivindicação de um vocabulário que coloca no centro a ação coletiva confrontacional já é algo em si mesmo bastante alvissareiro.

 

 

IHU On-Line – Que respostas, ou mesmo caminhos, a Filosofia pode nos apontar diante da atual conjuntura?

Victor Ximenes Marques – Não tenho certeza se a Filosofia seria capaz de apontar algo, na melhor das hipóteses talvez tenha como nos ajudar a pensar um pouco melhor, o que, de todo modo, pode ser bastante útil. O que não falta são problemas instigantes para a Filosofia tematizar reflexivamente o nosso tempo. Alguns já citamos aqui, como a relação entre o ser humano e o resto da natureza em uma época de crise ecológica desencadeada pela ação humana, ou a validade e pertinência da ciência moderna como discurso sobre a natureza.

O tipo de pensamento filosófico que busco desenvolver é orientado pelo que tenha mais recentemente de um “materialismo naturalista crítico”, uma dupla provocação, porque, ao meu ver, muitos materialismos são insuficientemente naturalistas (com medo, quem sabe, de parecerem positivistas), assim como muitos naturalismos têm um forte déficit de criticidade. Penso que a Filosofia materialista deve perder qualquer medo das ciências naturais, de um suposto imperialismo do cientificismo, e se abrir para as principais lições que a imagem científica de mundo tem a oferecer sobre que tipo de criatura somos: que o ser humano é um produto tardio e contingente de uma história natural que o excede e o antecede, e como parte da natureza é frágil, precário, atravessado e condicionado por processos materiais que escapam à nossa intuição, mas que constituem a base e a condição de possibilidade material, ineliminável, de qualquer vida – as questões sobre liberdade, dignidade e justiça não podem ser abstraídas, portanto, das condições materiais de vida.

Mas o fato de que o ser humano é um animal, uma entidade biológica com uma determinada trajetória evolutiva, uma determinada constituição genética etc., não significa que os arranjos sociais vigentes sejam naturais em qualquer sentido normativo. São naturais apenas em um sentido materialista estrito: ocorrem na natureza e, portanto, são compatíveis com as leis naturais. Nesse sentido, tudo o que existe é natural. O que não significa, obviamente, eterno, escrito em pedra, imutável, ou nada do gênero. Daí a importância do elemento crítico, que implica que as formas de organização políticas e sociais que vigoram atualmente não existem porque são naturais – foram instituídas historicamente e são contingentes dentro de certos limites, passíveis assim de intervenção política consciente e criativa.

Em seu livro de 2009, Realismo Capitalista, publicado finalmente este ano no Brasil, o filósofo Mark Fisher aponta que o papel da teoria emancipatória radical é o de “destruir a aparência de uma ‘ordem natural’”, revelar que aquilo que é apresentado politicamente como necessário e inevitável é uma mera contingência. O livro é uma crítica à estrutura de compreensão dominante no período do “Fim da História”, quando a tese de Fukuyama, do eterno presente da ordem liberal, havia sido assimilada ao inconsciente político coletivo, incluindo aí a maior parte da esquerda organizada. Foram anos em que era mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

 

(Foto: Reprodução da capa do livro)

 

A crise pandêmica é mais uma rachadura nesse sistema de realidade já em franca decomposição. No seu ensaio original, anterior à queda da União Soviética, Fukuyama relatava que já ninguém no antigo mundo comunista acreditava nas promessas do marxismo-leninismo. Hoje é difícil encontrar alguém que genuinamente acredite que o capitalismo neoliberal globalizado pode durar para sempre – esses são os últimos e mais fanáticos utópicos. A utopia do business-as-usual é particularmente perigosa, porque, como nota Fisher também, a única coisa que ela considera “politicamente realista” é ecologicamente irrealista, absurda, em termos planetários.

Ampliar nosso horizonte político não é meramente um exercício teórico-crítico, mas uma questão de sobrevivência. Em uma entrevista recente, John Bellamy Foster remete a essa ideia de que seria mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo: “Como resultado da mudança climática, da covid-19 e da crise financeira em desenvolvimento, essa ideia finalmente está se invertendo. De repente, ficou mais fácil imaginar o fim do capitalismo do que o fim do mundo” – e conclui que o fim do capitalismo “provavelmente acontecerá primeiro”. É uma possibilidade, mas uma que depende da ação coletiva. Aí já não se trata de interpretar o mundo, mas de transformá-lo.

 

 

 

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