Novos cardeais? Mais do mesmo. Artigo de Phyllis Zagano

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24 Julho 2020

O problema de escolher cardeais apenas entre bispos e padres é que a Igreja simplesmente não é representada pelas escolhas, nem real, nem simbolicamente. O problema de ter todos os escritórios da Cúria chefiados por homens é a mesma coisa. Se a Igreja e especialmente o papa dependem da voz do Espírito para o discernimento, todos precisam ter uma voz.

O comentário é da teóloga estadunidense Phyllis Zagano, pesquisadora associada da Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York. Entre seus livros, destaca-se "Mulheres diáconas: Passado, presente, futuro" (Paulinas, 2019), em artigo publicado por National Catholic Reporter, 23-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

A boa notícia é que 15 novos cardeais parecem estar no horizonte romano. A má notícia é que eles são todos homens.

Sim, Francisco escolherá a partir das periferias. Sim, ele provavelmente escolherá os suspeitos de sempre – os arcebispos de Washington e Paris, por exemplo. Mas uma mistura de sedes importantes, de teólogos idosos e escolhas surpreendentes é provavelmente o melhor que ele pode fazer agora.

Não espere que o nome de uma mulher esteja na lista.

O Código de Direito Canônico de 1917 decretou que os cardeais – conselheiros do papa e eleitores do seu sucessor – devem ser “pelo menos” padres. O Código de 1983 acrescentou que eles “devem receber a consagração episcopal” se ainda não forem bispos (cânone 351.1).

Nem todos os nomeados a cardeais já são bispos – o cardeal jesuíta Michael Czerny é uma exceção recente –, mas geralmente apenas teólogos padres idosos ingressam no Colégio dos Cardeais. Geralmente com mais de 80 anos, eles não são convidados aos conclaves papais.

Não precisa ser dessa maneira. Para começo de conversa, existem três graus de cardeal: cardeal-diácono, cardeal-padre, cardeal-bispo. Teoricamente, pelo menos, um diácono ou mesmo um leigo (ou leiga?) pode ser criado cardeal.

O último cardeal-diácono que nunca se tornou padre ou bispo, Teodolfo Mertel, era um leigo quando foi chamado. O Papa Pio IX o ordenou diácono dois meses depois de o nomear cardeal. Mertel morreu em 1899. Em 1917, Bento XV mudou as regras, mas elas podem ser dispensadas.

Mesmo assim, embora os conselheiros mais próximos do Santo Padre, os seis (que eram nove) membros do Conselho de Cardeais provavelmente poderiam usar um aumento no número de membros para substituir os três que ele removeu – o australiano George Pell, o chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa e Laurent Monsengwo Pasinya, da República Democrática do Congo –, não espere a voz de um diácono à mesa. E, com certeza, não espere uma mulher.

Embora o próximo realinhamento da Cúria possa trazer vagas de emprego para as mulheres, é improvável que uma mulher como chefe de um novo dicastério seja criada cardeal. Se eles sobreviverem às mudanças, alguns escritórios da Cúria – as Congregações para a Educação Católica e para a Causa dos Santos, assim como o Pontifício Conselho para a Cultura, por exemplo – não precisam ser chefiados por padres ou bispos. Agora administrados por cardeais cujos prazos de serviço ou idade de aposentadoria estão vencidos, eles poderiam ser chefiados por mulheres.

Que diferença isso faz? O cardeal Cristóbal López, de Rabat, Marrocos, disse há pouco tempo que o ingresso no Colégio de Cardeais não é uma grande coisa e se ofereceu para trocar o seu status.

“Ponho a disposição o meu barrete e o meu anel cardinalício e a minha batina vermelha para a mulher que quiser utilizá-los, porque isso lhe dá uma ilusão”, disse ele, enquanto outros dois cardeais, Juan José Omella, de Barcelona, Espanha, e Pedro Barreto, de Huancayo, Peru, sorriram em concordância.

O argumento de Lopes: ser cardeal não ajudará as mulheres. “Isso não vai lhe acrescentar nada. Se quiser ser uma mulher plena, basta-lhe ser mulher e ser cristã.”

Mais do mesmo.

O fato é que, se você não está à mesa, você não faz parte da discussão. E, mesmo que esteja à mesa, o cargo tem seus privilégios. Um cardeal é um cardeal, e há uma certa gravitas em suas palavras e atos. Olhe para os séquitos dos cardeais anti-Francisco Raymond Burke e Gerhard Müller.

O problema de escolher cardeais apenas entre bispos e padres é que a Igreja simplesmente não é representada pelas escolhas, nem real, nem simbolicamente. O problema de ter todos os escritórios da Cúria chefiados por homens é a mesma coisa. Se a Igreja e especialmente o papa dependem da voz do Espírito para o discernimento, todos precisam ter uma voz.

Isso não quer dizer que todos possam ou devam ter uma voz igual, mas sim que mais pessoas devem ter a oportunidade de apresentar seus pontos de vista para a discussão. A maioria das pessoas na parte inferior da discussão são as mulheres, até mesmo as mulheres que mantêm a Igreja viva.

O apelo para que haja mulheres na liderança é o apelo à sinodalidade, parcialmente demonstrado pelo Sínodo de outubro de 2019 para a região pan-amazônica. Sinodalidade significa conversar com – e escutar – as outras pessoas. Isso não significa tomar decisões em uma câmara de eco curial.

Até mesmo o apelo de Francisco por uma liderança mais leiga na Querida Amazônia encontrou algumas reações curiais.

Independentemente se ele quiser mudar algumas coisas agora, é provável que Francisco seja impedido pela lei. E parece que até mesmo neste pontificado a lei pode triunfar sobre a profecia.

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