Cardeal Burke é um símbolo vivo de uma versão fracassada da Igreja. Editorial do jornal National Catholic Reporter

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01 Agosto 2019

“Onde Burke e seus semelhantes veem confusão, nós vemos uma abertura para novas formas de expressar a ; onde ele afirma clareza e precisão, nós experimentamos a confusão de uma comunidade traída nos níveis mais profundos por aqueles que supostamente deveriam ser exemplos do amor altruísta de Cristo", constata e editorial do jornal National Catholic Reporter, 31-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os católicos, especialmente aqueles de tendência tradicional, gostam e entendem de símbolos. Alguém tão tradicionalista e conhecedor da mídia quanto Timothy Busch precisa entender que, seja o que for que tenha sido dito durante o amplo congresso no Instituto Napa no fim de julho, o símbolo mais visível foi o cardeal Raymond Burke, um dos críticos mais explícitos do Papa Francisco.

O congresso de cinco dias em Napa, Califórnia, no elegante Meritage Resort and Spa, uma das propriedades de Busch, foi claramente partidário (a senadora republicana Lindsey Graham, da Carolina do Sul, e o ex-governador republicano Scott Walker, de Wisconsin, eram os políticos à disposição) e inclinado, episcopal e teologicamente, para a extrema direita.

Tudo isso, é claro, não surpreende. Busch não guardou nenhum segredo das suas ambições ou de seus gastos destinados a influenciar a Igreja, suas instituições e a narrativa que é oferecida à cultura mais ampla. Mas os símbolos são importantes, e Burke é um símbolo vivo, tanto em pensamento (amplamente expressado em termos bastante arrogantes, mesmo quando sua crítica é dirigida contra o papa) quanto em aparência (muitas vezes amplamente adornada de parafernália real de eras imaginárias de um passado distante).

Seu pensamento, nessa ocasião, sob o título “Proclamando as verdades da fé em tempos de crise”, foi uma repetição de uma “declaração” de oito páginas que ele assinou com outros quatro prelados – um cardeal aposentado da Letônia e três bispos do Cazaquistão – delineando 40 pontos do ensino da Igreja contemporâneo sobre os quais Burke e sua coorte acreditam que “há muito erro e confusão”.

Dos pontos que ele levantou em Napa, o primeiro a ser abordado foi a “confusão” sobre trazer judeus e muçulmanos para o cristianismo. Burke defende uma abordagem mais agressiva para converter as pessoas de outras religiões.

Ele poderia se familiarizar com a declaração Nostra Aetate, do Vaticano II, que fala com grande consideração sobre as outras religiões mundiais, especificamente, o budismo, o hinduísmo, o islamismo e, particularmente, o judaísmo. “A Igreja Católica nada rejeita daquilo que nessas religiões existe de verdadeiro e santo”, afirma o documento. “Ela olha com sincero respeito para esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, refletem não raramente um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens.”

Burke percebeu mais "confusão" na compreensão de alguns (incluindo, cada vez mais, os bispos dos EUA) de que a Igreja não permite que as autoridades civis exerçam a pena de morte. Essa é uma bofetada direta em Francisco, que levou em frente a crescente objeção à pena capital expressada nos dois últimos papados e que recentemente descreveu a pena de morte como “uma séria violação do direito à vida de toda pessoa”.

Na imaginação de Burke, a comunidade católica está simplesmente pontilhada de almas confusas, e há erro por toda parte. Ele afirma que um número significativo de católicos está em “apostasia aberta”.

Ele deu outro golpe direto em Francisco quando criticou o documento de trabalho do próximo Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, que inclui uma discussão sobre a possível ordenação de homens casados amplamente respeitados para assegurar o acesso contínuo aos sacramentos.

“O celibato deriva do exemplo de Cristo”, disse o cardeal. Isso pode até ser verdade, mas não é o único exemplo fornecido, já que os Doze incluíam homens casados e a tradição do celibato tem apenas 1.000 anos, a metade da vida da Igreja. A tradição certamente tem sido mutável.

Intencionalmente ou não, o encontro de Napa nos forneceu um elenco completo de pessoas que criam tensões agudas na Igreja hoje. Ao colocar Burke como o principal conferencista, Busch e os organizadores enviaram um sinal claro: a liderança leiga que eles exemplificam nos levaria de volta a uma Igreja romantizada que nunca existiu. Ela reconstituiria o clericalismo que está no cerne do escândalo do acobertamento dos abusos sexuais que continua minando a autoridade da Igreja, e tentaria substituir o dinamismo do modelo de acompanhamento de Francisco por um retorno a uma instituição vinculada aos estatutos e estática no serviço a si mesma.

Burke personifica o tipo de “rigorista” legal ao qual Francisco resiste ardentemente. Ele é a versão moderna daqueles líderes religiosos que atraíam algumas das mais severas condenações de Jesus, daqueles que colocavam fardos indevidos sobre os outros e se declaravam os portadores indiscutíveis da verdade.

Em uma entrevista anterior com o NCR, Busch rejeitou a ideia de que ele se opõe a Francisco e rejeitou quaisquer objeções ao fato de Burke encabeçar o seu congresso, afirmando que ele é um “teólogo sério”. Alguns podem até considerar Burke um teólogo, mas ele construiu a sua reputação como um canonista que, por todas as indicações, acha que o cristianismo católico é principalmente uma empresa transacional na qual a maior vocação é obedecer a cada detalhe de cada estatuto da Igreja, conforme ele os interpreta.

Não é exagero dizer que Burke se apresenta como representante, talvez ao extremo, de uma certa versão da Igreja, que acreditamos que fracassou miseravelmente. Ele é membro de uma cultura que, por instinto (e, não insignificantemente, de acordo com os estatutos da Igreja daquela época), optou por proteger aqueles que violentamente abusaram dos mais vulneráveis da comunidade, ignorando as vítimas dos perpetradores.

Francisco nos convida a um abraço muito mais aventureiro da fé. Por exemplo, em seu discurso de abertura do Sínodo sobre os jovens, ele disse: “Este Sínodo tem a oportunidade, a tarefa e o dever de ser sinal de uma Igreja que realmente se põe à escuta, que se deixa interpelar pelas reivindicações daqueles que ela encontra, que nem sempre tem uma resposta pré-preparada já pronta. Uma Igreja que não escuta se mostra fechada à novidade, fechada às surpresas de Deus, e não poderá ser crível, em particular para os jovens, que inevitavelmente se afastarão, em vez de aproximar”.

Talvez a tensão entre as fronteiras rígidas e inflexíveis da lei e uma abordagem pastoral que convida ao diálogo, valoriza a escuta e encoraja as perguntas – características que perturbam o legalista – seja inevitável e perene.

No entanto, onde Burke e seus semelhantes veem confusão, nós vemos uma abertura para novas formas de expressar a fé; onde ele afirma clareza e precisão, nós experimentamos a confusão de uma comunidade traída nos níveis mais profundos por aqueles que supostamente deveriam ser exemplos do amor altruísta de Cristo.

É hora de abrir espaço para novos símbolos: uma comunidade onde os pobres sejam convidados para o banquete; uma autoridade em que a misericórdia prevaleça sobre os preceitos; um acompanhamento baseado no amor e na aceitação, em que as dúvidas e as perguntas não sejam razões de escárnio e banimento.

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