A Igreja Católica vive uma crise sem precedentes. Entrevista com Philippe Portier

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29 Março 2019

A pesquisa exclusiva que nós publicamos mostra quão profundamente o catolicismo francês é abalado pelos escândalos sexuais na Igreja. Esta crise também afeta a sociedade francesa como um todo. Philippe Portier, historiador e sociólogo das religiões, analisa os resultados dessa pesquisa de opinião.

A entrevista é de Bernadette Sauvaget, publicada por Témoignage Chrétien, 27-03-2019. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que é, na sua opinião, mais marcante na visão que os franceses têm da crise dos abusos sexuais que afeta a Igreja Católica?

Apesar desta crise, a Igreja Católica ainda tem um capital de confiança significativo, algo em torno de 40% da população francesa. Este número é idêntico ao encontrado em recentes estudos de opinião. A instituição católica ainda é, diria, relativamente preservada, mesmo se os casos de pedofilia a afetem muito. Quase dois terços dos franceses reconhecem que sua imagem da Igreja se deteriorou.

Mas outros órgãos sociais, como os sindicatos (apenas 6% dos franceses confiam neles) ou, pior ainda, os partidos políticos (3%) sofrem um descrédito muito maior. Mas para que a confiança na Igreja se mantenha, é preciso que seus servidores – quero dizer os padres, os bispos e até mesmo o Papa – estejam à altura dos desafios. A pesquisa destaca essa dificuldade. É necessário que os clérigos passem por algum tipo de recuperação para que o capital ainda investido na Igreja não desapareça.

A gestão da crise por parte do Papa Francisco é desautorizada por 65% dos franceses. Esse número chega a 58% entre os católicos. Como você explica isso?

A conjuntura certamente desempenhou um papel. O Papa acaba de tomar a decisão de manter o cardeal Philippe Barbarin no cargo ou, pelo menos, adiou sua renúncia. Mas existem fatores mais profundos. Estamos em uma sociedade marcada pelo imperativo da sinceridade. O Papa se beneficiou de uma imagem muito aberta.

Mas, ao lidar com a crise, ele envia a Igreja de volta a uma cultura do sigilo, totalmente desconectada do que prometeu em muitos de seus discursos. As sensibilidades contemporâneas não aceitam mais essa distorção. Nos estudos de opinião, vemos que o imperativo da coerência entre dizer e fazer é muito alto. A ética da sinceridade tornou-se central na maneira como nossos concidadãos apreendem os assuntos públicos. O Papa paga precisamente por isso.

Para a grande maioria dos franceses (83%), os escândalos dos abusos sexuais são uma das maiores crises que a Igreja Católica já atravessou. Por que isso acontece?

Eu não acho que seja um julgamento de ordem histórica. É antes a percepção de um mundo que entra em colapso. Para entender, é preciso questionar, penso, o conceito de crise. Não é necessariamente um desaparecimento. A crise pode revelar que um corpo social é inadequado ao seu ambiente. O teórico político Antonio Gramsci muito bem para a aristocracia fundiária. Esta classe social desapareceu porque não estava mais em sintonia com seu tempo porque não via a revolução burguesa chegar.

A crise da pedofilia na Igreja é percebida, penso eu, da mesma maneira. A instituição católica está em crise porque não está mais adaptada aos princípios sobre os quais a sociedade contemporânea é construída. Ela não compreendeu que não está mais na sociedade da cultura do segredo, da desigualdade, da ausência de controle que caracterizava os tempos antigos.

O casamento dos padres e a ordenação de mulheres são aclamados como remédios para a crise atual. Na sua opinião, a Igreja Católica tem a possibilidade de sair dessa encruzilhada e como?

Permitir que homens casados e mulheres se tornem padres marca uma clara vontade de desclericalizar e desmasculinizar a Igreja Católica. Na verdade, são as reformas gregoriana e tridentina que são desafiadas. Essa visão é amplamente compartilhada pelos praticantes, isto é, aqueles que estão mais próximos da instituição. É muito importante sublinhá-lo. A pesquisa também revela que a maioria dos católicos defende o aumento do poder dos leigos e um controle real da hierarquia sobre os padres. Isso vai na mesma direção.

Esse desejo de igualdade e de transparência refere-se a dois princípios fundamentais do liberalismo político. A Igreja Católica pode se manter como uma estrutura viva na sociedade, estimam os franceses, desde que esteja disposta a se adaptar aos princípios da democracia constitucional em que vivemos. Isto supõe muito mais que um aggiornamento, uma reestruturação completa!

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