Enquanto arcebispo enfrenta ataques racistas e homofóbicos, os bispos dos EUA permanecem em silêncio

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16 Junho 2020

"Não pode haver tolerância com a homofobia e a supremacia branca manifesta na expressão 'rainha africana' e, como Jamie Manson e muitos outros apontam, a luta contra essas formas de opressão se intercruza e, portanto, a resposta que damos deve ser interseccional. Pouquíssimos bispos conseguem vir a público dizer que Vidas Negras Importam ou que as pessoas LGBTQs devem ser respeitadas", escreve Robert Shine, em artigo publicado por New Ways Ministry, 13-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Por que os bispos dos EUA não se manifestam contra ataques racistas e homofóbicos proferidos contra um deles?

Esta semana, o sítio Religion News Service noticiou que a mídia de direita “Church Militant” proferiu ataques Dom Wilton Gregory, de Washington, DC, com insultos racistas e homofóbicos. Mais especificamente, em um vídeo, o fundador do canal, Michael Voris, afirma que Gregory fazia parte de uma “conspiração gay” e de ser homossexual. Voris se refere ao arcebispo como uma “rainha africana”. O ataque foi feito logo após Gregory condenar a visita de Donald Trump ao Santuário São João Paulo II, em Washington, na semana passada, o que o arcebispo chamou de “desconcertante e repreensível”.

Mesmo com um ataque feito a um membro do episcopado, a hierarquia manteve-se em silêncio, e assim tem feito no que respeita ao aspecto homofóbico do ataque do Church Militant. A Arquidiocese de Detroit tuitou uma nota condenando “uma organização de Michigan” por empregar uma linguagem “racista e depreciativa” contra Gregory, esclarecendo que a organização em questão “não é afiliada nem mantida pela Arquidiocese de Detroit”. Dois outros tuítes citaram Dom Allen Vigneron, que expressou “a esperança de que os fiéis se desviem desse e de todos os outros atos ou atitudes que negam a dignidade inerente compartilhada por todas as pessoas”. Ele reconheceu o aspecto racista do ataque do Church Militant, mas nada disse quanto ao aspecto homofóbico. Dom Rick Stika, da Diocese de Knoxville, também tuitou reconhecendo o racismo do vídeo.

Vale a pena notar que esta é a mesma arquidiocese, como outras, que mandou recentemente sair dos edifícios de propriedade da Igreja os grupos LGBTQs “Dignity/Detroit” e “Fortunate Families”, inclusive impedindo que padres deem apoio pastoral às pessoas atendidas por estes grupos. Essas expulsões, implementadas pelo bispo auxiliar Gerard Battersby, vieram sem qualquer diálogo e, no caso de Dignity/Detroit, com uma carta condenatória que afirma que a religiosidade vivida do grupo é “incompatível com o caminho da santificação que Cristo pede que sua Igreja percorra”. No entanto, apesar das repetidas solicitações para que a arquidiocese tome uma atitude, Vigneron pouco fez para condenar as artimanhas danosas do grupo Church Militant.

Esta semana marcou o quarto aniversário do massacre da boate LGBTQ Pulse, em Orlando, na Flórida, quando 49 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Na ocasião, o que mais impressionou foi o silêncio demonstrado pelos bispos e, com poucas exceções, os bispos que se manifestaram não consideraram as vítimas como alvo por serem especificamente da comunidade LGBTQ. Talvez fosse demais esperar que o episcopado americano, que passou duas décadas condenando pessoas LGBTQs e opondo-se aos direitos civis deste grupo, ficasse do lado desta comunidade, mesmo na esteira de mortes em massa. Mas seria esperar demais que eles defendam um dos seus companheiros, nomeando explicitamente a homofobia presente no ataque a Gregory?

Como de costume, ficou para que católicos não membros da hierarquia preencher o vazio que o silêncio coletivo dos bispos deixou. O Religion News Service transcreveu algumas dessas condenações feitas:

“O vídeo do Church Militant provocou uma reação rápida da estudiosa católica Anthea Butler, que atua como professora de estudos religiosos e estudos africanos na Universidade da Pensilvânia. “Ela considerou racista o vídeo: Como católica negra, fiquei chocada (…) Numa época de divisão racial, o Church Militant produz essa diatribe racista na esperança de criar mais divisão dentro da Igreja (...) Este grupo está disposto a passar por cima da comunidade negra a fim de promover o seu ódio”.

A professora acrescentou: “Eles fazerem isso, neste momento de dor que vive o país, é um tapa na cara dos católicos negros americanos”.

Butler pediu Vigneron condene explicitamente o vídeo e o grupo Church Militant. Não fazer isso, segundo ela, “é basicamente dizer aos católicos negros de Detroit que eles não importam”.

Jamie Manson, colunista do National Catholic Reporter e defensor da causa LGBTQ, tuitou que o discurso de ódio de Voris “é uma junção horrível de racismo e com homofobia”. O ataque mostra, mais uma vez, por que a igualdade LGBTQ e o trabalho pela justiça racial devem se cruzar.

O padre jesuíta James Martin também tuitou sobre o vídeo:

“No dia em que Jesus nos diz para não nos encolerizar contra o próximo (Mt 5:22) e quando nos confrontamos com casos de racismo, o @Church_Militant publica um vídeo chamando Dom Gregory de ‘rainha africana’. O Church Militant é de Detroit. Vigneron ou alguém da Conferência dos Bispos condenará esse discurso racista e de ódio?”

Gregory tem manifestado apoio à igualdade LGBTQ. No ano passado, a um católico transgênero ele falou que “você pertence ao coração desta Igreja”. Enquanto arcebispo de Atlanta, ele tomou várias medidas positivas também. Por exemplo, convidou Pe. James Martin para uma palestra, apesar das críticas recebidas, e reconheceu que a Igreja precisava melhorar em seu acompanhamento pastoral às pessoas LGBTQs. Depois que a igualdade matrimonial foi legalizada nos EUA, o religioso pediu que todos os lados mostrassem respeito e civilidade uns pelos outros. Gregory sugeriu que o trabalho do movimento pelos direitos civis da década de 1960 continua hoje e inclui iniciativas para proteção de lésbicas e gays. Em 2016, Gregory apoiou o veto do governador do estado da Geórgia contra uma lei que servia de “licença para discriminar”, lei que teria ampliado a discriminação contra a comunidade LGBTQ.

Não pode haver tolerância com a homofobia e a supremacia branca manifesta na expressão “rainha africana” e, como Jamie Manson e muitos outros apontam, a luta contra essas formas de opressão se intercruza e, portanto, a resposta que damos deve ser interseccional. Pouquíssimos bispos conseguem vir a público dizer que Vidas Negras Importam ou que as pessoas LGBTQs devem ser respeitadas. Mas onde os bispos se calam, o restante dos fiéis precisa se mostrar sincero e se manifestarem com franqueza. Os católicos precisam deixar claro a todos que manifestações de ódio como estas sofrerão ativamente resistência.

 

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