Um ano do ataque a Pulse: o papel da Igreja na ferida das pessoas LGBT

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14 Junho 2017

Quando Omar Mateen matou 49 pessoas e feriu outras 48 dentro de uma grande boate gay em Orlando, na Flórida, fato que completa um ano esta semana, o bispo católico da cidade, John G. Noonan, denunciou o que ele chamou de "ataque massivo à dignidade da vida humana". A Conferência dos Bispos Católicos dos EUA lamentou a "indescritível violência". O gabinete de imprensa do Vaticano divulgou uma declaração criticando uma "violência tão terrível e absurda". Nenhuma dessas expressões sinceras de tristeza reconheceu o fato de que este ataque à dignidade humana e este crime terrível visaram especificamente as pessoas homossexuais.

A reportagem é de John Gehring, publicada por National Catholic Reporter, 13-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

John Gehring é diretor de programas católicos no Faith in Public Life, centro estratégico da comunidade inter-religiosa, e autor de O efeito Francisco: o desafio de um papa radical à Igreja Católica Americana (The Francis Effect: A Radical Pope’s Challenge to the American Catholic Church).

Mesmo que quase todos os bispos no país tenham perdido a clara oportunidade de expressar solidariedade às pessoas LGBT após o ataque à boate Pulse, pessoas da hierarquia da Igreja que responderam com clareza - como o Cardeal de Chicago, Blase Cupich - dão uma esperança cuidadosa de que a Igreja mais influente da nação possa traçar um caminho melhor para afirmar os direitos humanos das pessoas LGBT.

O primeiro passo no que será um processo lento de cicatrização é os líderes católicos reconhecerem o papel da Igreja ao machucar pessoas LGBT por meio de uma linguagem desumanizadora.

Por mais que o Catecismo da Igreja Católica rejeite a violência e a "discriminação injusta" contra pessoas LGBT, ele também chama a homossexualidade de "inclinação desordenada objetivamente". Antes de sua eleição como Papa Bento XVI, o cardeal Joseph Ratzinger liderou o principal escritório de doutrinas do Vaticano por mais de duas décadas. Em uma carta de 1986 "aos Bispos da Igreja Católica sobre o Cuidado Pastoral de Pessoas Homossexuais", Ratzinger descreveu a homossexualidade como uma "tendência a um mal moral intrínseco". Dezessete anos depois, ele escreveu que o crescente reconhecimento das uniões civis de pessoas do mesmo sexo legitimava a "aprovação de um comportamento desviante".

O bispo Thomas Paprocki, de Springfield, Illinois, chegou a comemorar um exorcismo público em 2013, em protesto contra a assinatura de uma lei aprovando o casamento entre pessoas do mesmo sexo pelo governador. O bispo presidiu o que foi formalmente chamado de "Orações em Súplica e Exorcismo em Reparação do Pecado do Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo". Quando um líder religioso literalmente demoniza as pessoas LGBT e seu compromisso, quem deve servir a um Evangelho baseado no amor de Cristo transmite uma mensagem tóxica sobre sua falta de dignidade.

A linguagem desumanizante tem consequências. "Não reflete nossas experiências enquanto gays e lésbicas como um presente, algo que nos aproxima de outras pessoas e de Deus", disse Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, uma organização que trabalha para construir pontes entre católicos LGBT e a Igreja. "As pessoas ficam distanciadas por essa linguagem e se sentem rejeitadas. Ela encerra conversas, em vez de iniciá-las."

O bispo de São Diego, Robert McElroy, que teve um papel fundamental ao encorajar a hierarquia dos EUA a adotar a atitude mais inclusiva do Papa Francisco, sugeriu que a Igreja precisa repensar sua linguagem, como em "intrinsecamente desordenado". Em entrevista à América, uma revista jesuíta, ele considerou essa terminologia "uma linguagem muito destrutiva que eu não acho que deva ser usada pastoralmente". Ele explicou que, "na teologia moral católica, é um termo filosófico que é automaticamente mal-interpretado na nossa sociedade como julgamento psicológico".

Embora o Papa Francisco se oponha fortemente ao casamento homossexual e rejeite as interpretações modernas de identidade de gênero, ele entende que a linguagem e os gestos são importantes. O primeiro Papa jesuíta levou a Igreja a reconhecer os perigos de uma interpretação estreita e legalista de sua doutrina. Ele quer que os bispos e sacerdotes católicos acompanhem as pessoas, incluindo as pessoas LGBT, na confusão e na complexidade da vida. Os ensinamentos religiosos, diz ele em uma frase memorável, não podem ser entendidos como "pedras a serem jogadas na vida das pessoas". Francisco encontrou-se com um homem transexual e, durante sua viagem aos Estados Unidos, teve uma reunião em particular com um velho amigo da Argentina que vive um relacionamento homossexual há duas décadas.

Para um Papa, a maneira como Francisco fala sobre gays e lésbicas é nada menos que revolucionária. "Uma pessoa me perguntou uma vez, em uma provocação, se eu aprovava a homossexualidade", disse o Papa em uma entrevista, em 2013. "Eu respondi com outra pergunta: 'Diga-me: quando Deus olha para uma pessoa gay, ele reforça a existência dessa pessoa com amor ou rejeita e condena essa pessoa? Devemos sempre considerar a pessoa." Perguntado por repórteres sobre padres homossexuais no Vaticano, sua frase, que tornou-se emblemática, girou o mundo em minutos. "Se uma pessoa é gay e procura pelo Senhor, quem sou eu para julgar?" No verão passado, Francisco chegou a dizer que gays e lésbicas merecem um pedido de desculpas da Igreja, fato inédito para um Papa. O importante autor e jesuíta Pe. James Martin celebrou isso como um "divisor de águas".

Alguns bispos dos EUA estão seguindo o exemplo que vem de cima. "Em uma Igreja que nem sempre os valorizou ou acolheu, precisamos ouvi-los e levar suas experiências a sério", disse o bispo John Stowe de Lexington, Kentucky, a centenas de participantes em uma reunião de Católicos LGBT em abril. O cardeal Joe Tobin, nomeado por Francisco para liderar a arquidiocese de Newark em novembro passado, recentemente recebeu uma peregrinação de católicos LGBT à Catedral Basílica do Sagrado Coração. Fico muito contente que vocês e os irmãos e irmãs LGBTQ queiram visitar nossa linda catedral", disse Tobin em um e-mail enviado ao líder do grupo. "Vocês serão muito bem-vindos."

O arcebispo Cupich, escolhido pelo Papa para liderar a terceira maior diocese da nação, reagiu à decisão do Supremo Tribunal dos EUA de legalizar o casamento homossexual pedindo respeito "real, não retórico" para gays e lésbicas. "As rápidas mudanças sociais sinalizadas pela decisão do Tribunal", escreveu ele, "nos chamam a reflexões maduras e serenas à medida que avançamos juntos".

Mas este tipo de declaração é exceção, e não a regra. Ao longo da última década, pelo menos 50 católicos LGBT foram demitidos ou tiveram que pedir demissão em escolas católicas depois de divulgarem relacionamentos homossexuais publicamente. Estudantes e famílias manifestam-se em relação a esses professores e administradores, que muitas vezes são líderes estimados e exemplos com anos de experiência. Embora na maioria dos casos a escola tenha o direito legal de agir, as demissões fazem com que as instituições católicas que querem ensinar a misericórdia e a justiça aos alunos pareçam indiferentes a esses valores.

Os contratos e "juramentos de lealdade" que alguns professores católicos são obrigados a assinar, muitas vezes, enfatizam demais a sexualidade. Este foco desproporcional no sexo e na sexualidade como marco que define a identidade católica é problemático. Ele esconde os ensinamentos expansivos de justiça social da Igreja que se baseiam no foco do Evangelho nas pessoas que são pobres, excluídas e marginalizadas pelos poderosos. Margie Winters, professora de educação religiosa da Waldron Mercy Academy na Filadélfia, foi demitida em 2015 depois que um pai insatisfeito tornou público seu casamento com outra mulher. "A maior parte da minha vida profissional foi dedicada à Igreja", disse Margie. "Foi uma experiência semelhante a uma morte. Há uma sensação de exílio. Essas demissões destroem comunidades cheias de fiéis. A Igreja está transmitindo uma mensagem contraditória. Dizem que somos feitos à imagem e semelhança de Deus, mas essas demissões sugerem que isso não é verdade."

Pesquisas apontam que a maioria dos católicos apoia o casamento homossexual. Muitos líderes religiosos interpretam essa evidência supondo que a Igreja simplesmente não conseguiu ensinar e alcançar os fiéis. Apostar na mesma mensagem, no entanto, teve custos à Igreja. Pesquisas mostram que cada vez mais estadunidenses - principalmente Millenials entre 20 e 30 anos - que não mais se identificam com nenhuma religião se desapontam especificamente pelo que consideram posições injustas para as pessoas LGBT.

Católicos de criação, segundo dados do Public Religion Research Institute, têm maior propensão a citar tratamento religioso negativo em relação a gays e lésbicas como uma das principais razões para terem saído da Igreja do que os que cresceram em qualquer outra religião.

Rachel Nagengast, de 25 anos, frequentou escolas católicas desde o ensino fundamental até o mestrado em estudos teológicos na Universidade de Fordham, concluído no ano passado. Mas como mulher que se identifica como queer, Nagengast sentiu um afastamento cada vez maior dos ensinamentos de sua Igreja sobre homossexualidade. Ela não vai à missa católica há anos. "Eu me sinto uma estranha onde deveria ser o meu lar", disse ela. "Esperam que os católicos LGBT sejam pacientes, mas eu estava muito cansada de me satisfazer com pequenos passos ou de ter que aplaudir até o menor esforço."

Se quiserem manter a próxima geração de católicos - incluindo LGBT e seus aliados -, os líderes católicos precisarão ouvir mais de perto e aprender com as experiências de pessoas gays e transexuais. No encontro de mais de 100 bispos e outros líderes católicos, em fevereiro, para uma conferência organizada pelo Centro Nacional de Bioética Católica, uma das principais questões era o quanto as crescentes reivindicações de direitos transgêneros afetarão hospitais, escolas e paróquias católicas.

John Haas, diretor do centro, disse a um repórter que os bispos estão procurando maneiras de "acompanhar essas pessoas, ajudá-las, estar com elas e perto delas". E, no entanto, nenhuma pessoa transgênero foi convidada para falar na conferência. Os líderes religiosos não têm como dar apoio às pessoas LGBT sem ouvi-las. Os bispos poderiam dar um passo simples, mas poderoso, criando fóruns para conhecer e aprender com os católicos LGBT. Os funcionários do Vaticano também precisam levar a sério a necessidade de atualizar e humanizar a linguagem usada em documentos religiosos que não refletem a plenitude da vida das pessoas LGBT. Ainda que fazer revisões oficiais ao catecismo seja um processo complicado e demorado, os bispos comunicam-se através de cartas pastorais, op-eds e, cada vez mais, por meio das redes sociais. Essas oportunidades apresentam uma chance de abandonar a linguagem que marginaliza as pessoas LGBT e trazê-las para o centro das conservações autênticas.

Se os bispos católicos realmente querem uma Igreja que escute, cure e atinga as margens, como faz o Papa Francisco, já passou da hora de construir uma cultura de encontro com a comunidade LGBT. Recentemente, conheci um diácono católico de São Petersburgo, Flórida, que despertou quando seu filho se transformou em mulher transgênero. "Eu estava em uma abençoada ignorância sobre todas as questões LGBT até chegar à minha família", disse Ray Dever aos participantes na conferência "Católicos LGBT na Era do Papa Francisco". Ele, assim como muitos outros, tem muito para ensinar aos bispos e aos sacerdotes, que raramente sentam com uma pessoa gay ou transexual, se é que já o fizeram. "Há tantas famílias que rejeitam seus filhos LGBT, e isso é terrível, especialmente quando acontece em nome da fé", disse Dever. "Eu não sou nenhum especialista, mas o que essas famílias precisam ouvir é que Deus criou seus filhos do jeito que eles são e que Ele os ama".

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