“Há um fenômeno Laudato Si’ na opinião pública”. Entrevista com Bruno-Marie Duffé

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22 Mai 2020

Para Bruno-Marie Duffé, padre, secretário do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, no Vaticano, a encíclica de Francisco “sobre a salvaguarda da casa comum” é uma bússola para pensar o mundo após a pandemia de Covid-19.

A entrevista é de Marie-Lucile Kubacki, publicada por La Vie, 16-05-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Vamos comemorar o quinto aniversário de Laudato Si’ em meio a uma crise sanitária, social e econômica. Podemos dizer que esta dramática crise enaltece as grandes intuições do Papa Francisco assim como ele as expressou nesta encíclica através de sua famosa fórmula: “Tudo está interligado”?

Consideremos as três intuições originais da encíclica Laudato Si’. 1. “Tudo está conectado”: somos chamados a compreender as realidades naturais e humanas, religando constantemente a economia, a ecologia, a cultura, a vida social e política e a espiritualidade. 2. O “modelo tecnocrático”, que domina nosso desenvolvimento atual, explora e esgota os recursos naturais e humanos além de todos os limites. Temos necessidade de uma nova maneira de pensar o desenvolvimento (“um novo paradigma de desenvolvimento”), que valorize e proteja a complementaridade entre todos os seres vivos. 3. O “grito da terra” é também o “grito dos pobres” que nos convidam à conversão moral para uma “ecologia integral”, ou seja, para de maneira pacífica habitar a terra e compartilhar os bens que recebemos e produzimos.

Podemos dizer, com efeito, que este quinto aniversário da encíclica do Papa Francisco, no contexto da pandemia de Covid-19, destaca os vínculos entre desenvolvimento, saúde e solidariedade entre os seres vivos. Porque o déficit imunológico que nos fragiliza traz à tona a perda de harmonia com os organismos naturais. Além disso, estamos fazendo uma nova experiência de nossas vulnerabilidades, tanto físicas como de saúde e, provavelmente, também políticas. E percebemos que somos solidários, tanto no infortúnio e na provação, como no cuidado e na atenção mútua.

Qual é a ligação entre saúde, ecologia, economia e direitos humanos? Por que, basicamente, tudo está interligado?

Nossa cultura da produtividade intensiva nos levou, ao longo do século passado, a sujeitar tanto os recursos da terra como as capacidades humanas, à lei da máxima rentabilidade e aos benefícios rápidos de “curto prazo”. A ditadura dos investimentos, sem medida ou avaliação, levou-nos àquilo que o Papa chama de “um desenvolvimento que mata”. Vimos, nos chamados países “desenvolvidos”, fenômenos de marginalização e de precariedade, de suicídios no trabalho e de “burn out”, comportamentos violentos, abusivos ou compensatórios, que estão estreitamente relacionados com a perda de orientação moral e de “razões para viver”. Economia e saúde, que aparentemente tinham pouca relação entre si – na nossa maneira de pensar –, agora parecem estar particularmente ligadas.

Não há economia sem saúde: a saúde, entendida como um equilíbrio entre a pessoa e seu ambiente, acaba sendo a própria condição da relação de troca e de trabalho. Mas também podemos dizer: não há saúde sem considerar os direitos humanos fundamentais (educação e acesso aos cuidados de saúde, em particular) – respeito pelo seu corpo e pelas suas relações, direito ao encontro e ao respeito às crenças, direito à participação cidadã e ao debate democrático. É interessante recordar que, quando a Igreja Católica publica sua primeira carta encíclica que funda sua doutrina social contemporânea, ela afirma, entre os primeiros direitos humanos que devem ser respeitados, o direito a um contrato de trabalho, mas também o direito a um salário justo e ao descanso (cf. Leão XIII, Rerum Novarum. Sobre a condição dos operários, 1891).

Como você avalia a recepção da Laudato Si’ na Igreja Católica mundo afora?

Convém dizer com clareza: existiu e ainda existe um “fenômeno Laudato Si’” na opinião pública, bem como entre os pensadores e os tomadores de decisão da vida coletiva. Isso se deve ao contexto específico do ano de 2015. A encíclica apareceu em maio de 2015, alguns meses antes da Cop21 (dezembro de 2015) e do que hoje se convencionou chamar de Acordo Climático de Paris. Este período trouxe imensa esperança em matéria de meio ambiente. A tomada de consciência – esta “consciência universal” a que o Papa Francisco apela – está em marcha: é possível decidir e trabalhar em conjunto para “cuidar” do nosso planeta e do nosso universo “em sofrimento”.

Os países mais pobres, alguns dos quais estão vendo o nível do mar subir e sua flora e fauna desaparecer, buscam ajuda. A humanidade está em perigo. Nós podemos e devemos implementar um plano de emergência ecológica – como estamos falando hoje de um plano de emergência sanitária. A encíclica Laudato Si’ participa da reflexão e agrega elementos fundamentais para apoiar as iniciativas de tomadores de decisão políticos, dos investidores e dos atores da economia.

As iniciativas de intercâmbio e de diálogo estão se multiplicando em todos os níveis da sociedade. Dimensionamos os desafios das necessárias decisões financeiras, assim como das novas tecnologias, respeitosas do meio ambiente e permitindo controlar o aquecimento global. Estabelecemos o padrão do famoso 1,5 °C, que deve nos obrigar a reduzir esse aquecimento através de novas atividades. Estamos focando na educação e nas práticas de solidariedade para nos unirmos para salvar nossa “casa comum”. As Conferências das Partes (Cop) que se seguiram (Cop 23 e 24) mostraram, infelizmente, que vários Estados estão se desengajando rapidamente, seguindo o terrível exemplo do governo americano, para manter um sistema econômico centrado em seus próprios interesses e justificado por uma ideologia protecionista e muitas vezes egoísta.

A encíclica Laudato Si’, no entanto, tornou-se o apoio para muitas iniciativas cidadãs, em particular de jovens, nem sempre com o apoio dos Estados, mas com uma bela e forte convicção. Hoje, esse texto permanece surpreendentemente atual, porque vincula a análise e a inovação, a vida econômica e o debate político, a educação e a espiritualidade, de acordo com a abordagem pedagógica do “ver – julgar – agir”. Podemos dizer que estamos experimentando uma revolução do pensamento, da atividade humana e da relação entre o homem e o planeta, entre o indivíduo e os outros. Trata-se de uma revolução que também pode ser uma reconciliação entre as dimensões do vivo e as relações entre os seres vivos.

Em detalhes: como a ecologia integral é implantada em nível pessoal, comunitário e social?

As três considerações que você evoca – “pessoal”, “comunitária” e “social” – estão no coração daquilo que a encíclica promove. Trata-se de uma vida pessoal que escolhe a moderação e a sobriedade (“menos pode ser mais”, diz o Papa Francisco), de um compromisso comunitário (ou paroquial) que leva a viver de maneira diferente nossas reuniões, nossa maneira de organizar e gerir nossas casas comuns e nossas igrejas (com equipamentos coletivos muito menos poluentes e mais sustentáveis) e de uma visão da vida social que nos torne sensíveis a viver “uma hospitalidade mútua”.

Estamos aprendendo a nos acolher, com nossa própria riqueza, nossos talentos e nossas experiências. E entendemos precisamente que a riqueza não está em ter ou aparecer, mas em nossas memórias e em compartilhar coisas simples. A opção por uma economia local (aquela que chamamos de “circuitos curtos”) e por uma solidariedade que incentiva mais do que ajuda, está no centro da conversão para uma humanidade em diálogo e em esperança, na qual todos podem contar com o outro.

O que chama a atenção também é o eco dessa reflexão fora do mundo católico...

Pode-se dizer que essa é sem dúvida a primeira encíclica apresentada e debatida em círculos marcados pela laicidade e até então bastante distantes no que tange ao ensino social católico. Mesmo se algumas vezes algumas retomam temas importantes: pensemos, por exemplo, no “princípio da subsidiariedade”, que exigia, desde 1931 (após uma crise financeira emblemática), respeito aos níveis de responsabilidade, tanto na sociedade como nas instituições.

Também é impressionante notar a convergência de pontos de vista entre certos especialistas em clima ou em desenvolvimento sustentável ou de testemunhas convencidas, como Nicolas Hulot, com as teses defendidas pelo Papa Francisco. Tudo isso caracteriza um momento singular em nossa história contemporânea, onde as convicções se cruzam e se unem de maneira promissora, se, pelo menos, estamos dispostos a inovar e não apenas a repetir o modelo do “sempre mais”.

O Papa Paulo VI teorizou o conceito de “desenvolvimento humano integral”, depois João Paulo II introduziu a noção de “ecologia humana”, Bento XVI estabeleceu o vínculo entre a ecologia natural e a ecologia humana, e Francisco foi mais longe ainda com a “ecologia integral”... Podemos dizer que, em sua abordagem, a Igreja Católica oferece uma dimensão cada vez mais integradora e integralista?

Foi, de fato, em 1967, na carta encíclica do Papa Paulo VI Populorum Progressio – um título que foi traduzido para o francês por “desenvolvimento dos povos” (o termo “progressio” abre para o debate sobre o significado do “progresso”) –, que a expressão “desenvolvimento humano integral” aparece pela primeira vez. A inspiração para esse modo de falar, como sabemos, vem de Louis-Joseph Lebret, religioso dominicano francês, fundador do movimento de reflexão e ação social "Economia e Humanismo”.

A data da encíclica é interessante, porque ela precede a crise social e cultural de 1968 e as crises econômico-financeiras ligadas aos dois “choques do petróleo” da década de 1970. Podemos dizer que ainda estamos nos assim chamados últimos anos “gloriosos”, do pleno desenvolvimento econômico e do otimismo do progresso iniciado pela reconstrução do período pós-guerra e pelo desenvolvimento dos conhecimentos tecnológicos. Mesmo se tudo isso ocorre no contexto da Guerra Fria.

Trata-se, diz Paulo VI, de pensar e promover o desenvolvimento “de todos os homens” e “o homem todo” (Populorum Progressio, 14) que respeite as “civilizações” e a “comunidade humana inteira”: solidariedade e convicções. A evolução do pensamento social católico, a partir deste apelo a um desenvolvimento “autêntico” (outro termo do mesmo texto), será de fato marcada por um desdobramento do tema da “ecologia humana” (em João Paulo II) e da “ecologia natural e humana” (em Bento XVI). Com este último, uma acentuação particularmente atual quando enfatiza que as crises ecológicas têm “um custo social” (cf. Caritas in Veritate, 51). Portanto, podemos dizer que esse pensamento da ecologia desenvolve uma dimensão cada vez mais integral. E não é de se surpreender se definimos a ecologia como a arte de habitar o mundo de maneira pacífica e harmoniosa.

Todas as dimensões do ser-no-mundo – para falar como alguns filósofos contemporâneos – são de fato solicitadas na ecologia integral. Trata-se de encontrar (ou de reencontrar) uma relação de reconhecimento com a terra, com os elementos, com os outros seres vivos, com o outro e consigo mesmo. O diálogo entre religiões destaca, a esse respeito, as diferentes representações deste encontro e desta hospitalidade mútua, sem as quais continuamos prisioneiros da frustração e da violência.

A Laudato Si’ nos leva a fazer a ligação entre a análise compreensiva dos nossos modos de produzir, em sua permanente ambiguidade, e o olhar da contemplação, que é uma fonte de paz interior e relacional. A própria estrutura da encíclica nos pede diferentes planos de compreensão e de ação. Trata-se, com efeito, de analisar com precisão o estado do mundo e o que o modelo tecnocrático do desenvolvimento atual produz, com a primazia da técnica sobre o homem. Depois, trata-se de revisitar a nossa memória cristã da Criação. Finalmente, trata-se de trabalhar para o futuro da vida, respeitando a biodiversidade e cuidando do clima “que é nosso bem comum”.

Tudo isso requer uma educação, um modo de vida e uma espiritualidade que é uma respiração interior, no movimento vital do receber e do dar. Há um tempo para tudo: descobrir, escutar, produzir, trocar, compartilhar, celebrar.

Tudo isso tem implicações práticas para nossas escolhas econômicas e financeiras... Mas não existe o risco de que essa dimensão “integralista” se torne paradoxalmente um obstáculo para o compromisso pessoal?

A ecologia integral pode nos levar a romper com certos usos do dinheiro e certas atividades individuais ou coletivas. O testemunho individual e coletivo vai até aí: romper com certos interesses imediatos para viver o que acreditamos e anunciamos – uma “Terra Prometida” onde cada ser vivo é respeitado e amado. As reflexões recentes sobre “o discernimento ético” no “atual sistema econômico e financeiro” (documento conjunto da Congregação para a Doutrina da Fé e do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, de janeiro de 2018) encontram toda a sua relevância aqui quando fazem a pergunta: o que queremos fazer com o nosso dinheiro?

A rejeição de uma atividade violenta e poluidora é um “ato de fé” no futuro. Se os países “ricos” são capazes de recorrer às suas reservas para apoiar a retomada de uma economia afetada pela pandemia de Covid-19, a responsabilidade coletiva – dirigentes e cidadãos – passa por opções que não são mais “negociáveis”: a proteção da biodiversidade, a saúde humana e a prioridade dada aos mais pobres.

No contexto da crise de Covid-19, como o Papa vê a missão da Igreja no “mundo pós”?

Esta maneira de falar de um “mundo pós” (pós-crise da Covid-19) requer algumas precauções. Este “mundo pós” é, paradoxalmente, ao mesmo tempo “o mundo de antes”, com nossas referências e nossa experiência, nossa memória e nossos hábitos, e “um novo mundo” que ainda não apreendemos claramente porque estará necessariamente em desacordo com o que sabemos e vivemos agora. O que vamos reter dessa terrível experiência de uma epidemia global sem precedentes que afetou a comunidade humana quase em sua totalidade? Sabemos que nossa memória humana é seletiva: retém e esquece. No ritmo da informação que marca a nossa cultura, esquecemos muito rapidamente, às vezes muitíssimo rapidamente. É assim que os dramas humanos são substituídos em nossas telas por outras informações e as próprias pessoas podem desaparecer.

O Santo Padre é esse homem, sozinho, na Praça São Pedro, na noite da Sexta-feira Santa, que não quer esquecer “nenhum daqueles que o Pai lhe confiou” (para usar a própria expressão de Cristo, quando define sua missão). Sua atitude é acima de tudo a do vigia, que não é insensível a nenhuma dor humana e quer dizer aos cuidadores e aos atores da solidariedade que está próximo deles. Vivendo essa atitude de intensa proximidade humana, ele quer dizer que qualquer homem pode se tornar irmão e cuidador de seu irmão.

A missão da Igreja é “ouvir” e “prestar atenção”. Mas ela também tem uma missão “profética”, que consiste em ousar dizer que uma nova história é possível. O “mundo pós” será o mundo da partilha, senão morreremos. Sobre este ponto, é importante dizer que estamos vivendo um momento favorável (o “kairos” de que fala São Paulo): o momento da passagem do medo (de faltar) para o ser e o bem comum – um bem, sem dúvida limitado, que colocaremos em comum e que nos salvará do drama da solidão, quando alguns morrem de fome ou de abandono.

A ecologia integral aparece, ao mesmo tempo, como uma nova experiência de humanidade...

A alegria que encontramos na partilha e no encontro libera em nós novas energias, intelectuais, afetivas, espirituais e até econômicas e políticas. O que é obviamente assustador é a obsessão de querer fazer funcionar a máquina o mais rápido possível, adiando a questão de para onde queremos ir. O que é dramático é não querer enfrentar os efeitos de uma crise que pode deixar à margem do caminho milhares de homens e mulheres, abandonados por um sistema que tem olhos apenas para as coisas e lucro imediato.

É nesse sentido que o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral recebeu do Papa uma missão exigente e, nas suas próprias palavras, “profética”: abrir caminhos de reflexão e propostas inovadoras para apoiar atores da vida coletiva nesse contexto de crise. Essa ação não se opõe a ação humanitária, mas a complementa e lhe confere sentido: trata-se de cuidar da vida e do futuro da vida. As iniciativas de uma economia local, de uma alimentação de qualidade e de uma ecologia cotidiana que nos faz redescobrir a qualidade do ar e da água, a beleza da terra e de um olhar, anunciam esse “mundo pós”, que é possível agora.

O Papa Francisco, que é sensível aos medos que habitam em todos nós – trabalhadores, desempregados, migrantes, empresários, docentes, cuidadores, pais e mães de família –, quer oferecer a força da esperança no Cristo ressuscitado, que passou da morte à vida para nos conduzir a uma vida nova.

Se tudo está ligado, qual poderia ser o antídoto para o círculo vicioso que vemos emergir – crise da saúde, depois crise econômica e finalmente crise social?

Se, como você disse, existe um antídoto para essas crises, ecológica, econômica, social e de saúde, que se sucedem e se retroalimentam, é no pensamento de que a morte não tem a última palavra: nossa fé está em um homem que ressuscitou da morte e que nos eleva com ele para uma vida nova. “Se Cristo não ressuscitou, nossa fé é ilusória” (1 Cor 15, 17).

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