Coronavírus expõe as profundas desigualdades da nossa sociedade

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15 Abril 2020

Na pandemia da gripe de 1918, as taxas de mortalidade eram muito maiores entre os moradores dos bairros mais pobres e mais populosos, e já existem evidências de que o coronavírus está se espalhando mais rapidamente entre as famílias de baixa renda e entre os estadunidenses negros, em particular.

Publicamos aqui o editorial da revista America, 13-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A pandemia do coronavírus é uma experiência compartilhada por todos os habitantes do mundo, mas não é a mesma experiência para todos.

Andrew Cuomo, governador de Nova York, chamou a Covid-19 de “o grande equalizador” em um tuíte do dia 31 de março e ele está certo de que doença e a morte, no fim das contas, não respeitam o poder e o privilégio.

Isso não significa que as desigualdades sociais não importam mais. Na pandemia da gripe de 1918, as taxas de mortalidade eram muito maiores entre os moradores dos bairros mais pobres e mais populosos, e já existem evidências de que o coronavírus está se espalhando mais rapidamente entre as famílias de baixa renda e entre os estadunidenses negros, em particular.

Para alguns estadunidenses, os aspectos mais difíceis da pandemia são a sensação de claustrofobia e o distanciamento social, uma frase com conotações decididamente não cristãs. Para muitos milhões de outros estadunidenses, o distanciamento social completo não é uma opção.

Os profissionais da saúde devem permanecer na linha de frente do combate ao vírus, e as autoridades da segurança pública devem estar tão vigilantes quanto sempre. Os empregados dos supermercados e das farmácias, assim como os entregadores em caminhões ou bicicletas ainda estão trabalhando, tendo que gastar muito tempo limpando tudo em que eles ou seus clientes encostam.

Esses e outros trabalhadores essenciais estão concentrados nos bairros mais pobres, e o jornal The New York Times noticiou recentemente que, apesar de o número total de passageiros do metrô na maior cidade do país ter caído 87%, ele só caiu cerca da metade em determinadas estações usadas por trabalhadores de baixa renda. Trabalhar em casa simplesmente não é uma opção para a maioria das pessoas que têm a sorte de permanecer empregadas.

Muitos desses trabalhadores essenciais têm filhos pequenos e não podem dedicar várias horas por dia à educação em casa ou para garantir que seus filhos acompanhem o ritmo dos seus colegas. As crianças que não podem ser deixadas sozinhas podem ser enviadas para as casas de amigos ou de parentes durante a jornada de trabalho, aumentando o risco de disseminação do vírus.

Milhões de outros estadunidenses vivem em grupos nos quais eles têm pouco ou nenhum controle sobre quantas pessoas estão próximas a eles. Primeiro, existem 1,5 milhão de residentes em instalações de enfermagem, como uma residência no Estado de Washington onde dezenas de pessoas morreram por coronavírus em um dos primeiros surtos nos Estados Unidos.

Há também mais de dois milhões de pessoas em instalações correcionais, e cerca de 200.000 pessoas entram e saem das prisões toda semana. Some-se a isso meio milhão de agentes penitenciários e oficiais de justiça, e não é de se admirar que as prisões tenham se tornado pontos cruciais do coronavírus, levando o Papa Francisco a instar as autoridades a “serem sensíveis a esse grave problema”.

Além disso, cerca de 1,3 milhão de pessoas são militares da ativa, muitos em condições de trabalho superlotadas, como as do porta-aviões Theodore Roosevelt, cujo capitão foi demitido depois de escrever simultaneamente para vários superiores com um alerta de que o vírus estava se espalhando entre a sua tripulação.

Depois, há meio milhão de sem-teto nos Estados Unidos que precisam arriscar suas vidas em refeitórios e abrigos superlotados.

O coronavírus também é uma ameaça onipresente aos milhares de requerentes de asilo e outros migrantes em centros de detenção e em campos improvisados do outro lado da fronteira EUA-México. Dentro dos Estados Unidos, os migrantes sem documentos têm boas razões para temer procurar assistência médica e arriscar a deportação. Os destinatários do programa Deferred Action for Childhood Arrivals, muitos dos quais trabalham na área da saúde, devem se preocupar com a pandemia e a possibilidade de a Suprema Corte apoiar a decisão do governo Trump de rescindir o programa e remover seu status legal.

Outros grupos somam dificuldades no acesso aos cuidados de saúde e até na obtenção de informações precisas sobre a pandemia, incluindo quem não tem acesso à internet e não fala inglês. As pessoas com deficiência temem ser discriminadas se precisarem de cuidados médicos, especialmente se surgir o fantasma do “racionamento”. Os estadunidenses que estão perdendo seu seguro-saúde patrocinado pelo empregador porque seus empregos desapareceram – um grupo que cresceu em 3,5 milhões em apenas duas semanas, de acordo com uma estimativa – temem ficar pelo caminho se precisarem de atenção médica imediata.

A intenção aqui não é zombar daqueles que estão tentando tirar o melhor proveito da quarentena e do distanciamento social, seja passando mais tempo com a família, aprendendo a fazer pão ou tentando imitar Shakespeare, que supostamente passou o tempo da quarentena durante a peste escrevendo “Rei Lear”. Mas a maioria das pessoas não pode lidar com o coronavírus como uma oportunidade de reflexão ou de autoaperfeiçoamento.

Louve a Deus se sua família passar por isto, mas não presuma que todos tenham a mesma sorte ou que a pandemia acabou quando alguns de nós forem capazes de dar passos hesitantes rumo à vida normal. Lembre-se daquilo que Arturo Sosa, superior geral da Companhia de Jesus, disse recentemente sobre a crise: “Somos uma única humanidade. Todos e cada um de nós fazemos parte dela. Ninguém é deixado de fora. Nenhum de nós poderá conseguir sem os outros”.

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