“Querida Amazônia”: uma ideia “congelada” de feminino. Artigo de Tina Beattie

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24 Fevereiro 2020

O Papa Francisco respondeu ao Sínodo sobre a Amazônia do ano passado com uma reflexão eloquente sobre o futuro do nosso planeta e a exploração dos seus povos mais pobres. Mas é uma resposta marcada pela cegueira sobre o papel das mulheres como parceiras na conversão ecológica.

A opinião é da teóloga inglesa Tina Beattie, especialista em questões de ética e de feminismo e professora de Estudos Católicos na Universidade de Roehampton, em Londres. O artigo foi publicado em The Tablet, 20-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo a teóloga, "o conceito de “mulher” de Francisco está emaranhado em uma fantasia sentimental. Enquanto, no mundo real, os papéis e as identidades de gênero são ágeis e maleáveis, ele imagina a “mulher” como um arquétipo congelado no tempo, com a função de “suavizar” a cultura masculina com uma ternura e receptividade femininas".

Eis o texto.

A exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco “Querida Amazônia” causou consternação na mídia católica, incluindo as mídias sociais. Os conservadores reclamam que os liberais tiveram a sua oportunidade de aparecer: o papa não menciona os padres casados nem as diáconas. Os liberais torcem as mãos pela oportunidade perdida de instituir algumas reformas atrasadas.

E, nas minhas redes de mulheres católicas, muitas estão com raiva e magoadas. Foi a gota final. Elas não podem mais ficar em uma Igreja tão obstinadamente determinada a mantê-las no seu lugar. Elas se sentem excluídas até mesmo do diálogo, quase nem percebidas.

Por que essa visão apaixonada e lírica de um mundo futuro livre da dominação corporativa, vivendo em harmonia com a natureza e inspirada nas culturas e valores dos povos indígenas da Amazônia provocou reações tão divergentes?

Quero refletir sobre por que algumas mulheres sentem tanta angústia, mas, primeiro, deixem-me fazer algumas observações gerais.

Existem dois temas recorrentes na teologia de Francisco. Um deles é que nenhuma mudança pode ocorrer sem um diálogo honesto, voltado a alcançar a unidade, não através da eliminação da diferença, mas sim de uma “diversidade reconciliada”. Esse modo de lidar com os desentendimentos e as disputas dentro da Igreja caracterizou o seu papado desde o início. É a chave para entender o seu pensamento e o seu estilo de liderança.

Na “Querida Amazônia”, assim como na Amoris laetitia, ele ouviu as convicções apaixonadas de bispos, teólogos e leigos de cada lado, e resistiu aos pedidos deles de impor uma resolução prematura que deixaria um lado com a sensação de que haviam conseguido uma vitória, e o outro lado se sentindo amargurado.

Em vez de ir para um lado ou outro em relação às questões da ordenação de homens casados e de diáconas, ele pede que todos estudem cuidadosamente o documento final do Sínodo e confia aos bispos a autoridade para enfrentar os desafios e encontrar soluções apropriadas aos seus contextos e culturas.

Francisco não dá uma vitória óbvia a nenhum dos lados – e, assim, cria frustração o tempo todo. Mas essa é a sinodalidade em ação. Foi um tema-chave no Concílio Vaticano II, mas somente agora estamos vendo isso se realizando. O diálogo, às vezes difícil e doloroso, continua; a porta para a ordenação de homens casados não está fechada. As diáconas podem ser uma questão diferente – mais sobre isso mais tarde.

O outro tema recorrente no pensamento de Francisco é que a crise ecológica exige uma transformação antropológica. Se quisermos mudar o nosso modo de estar no mundo, devemos mudar o nosso modo de falar sobre o mundo. A ambientalista Mary Colwell cita a linguagem do amor e da maravilha na Laudato si’ e implora: “Por favor, por favor, mundo ambiental, você pode usar apenas palavras que são usadas nos poemas, porque, na verdade, o amor à Terra tem tudo a ver com amor”. A ciência tem uma contribuição vital para dar, mas ela não pode despertar o desejo e a maravilha que repousam na alma humana e que animam a nossa capacidade de transformação criativa.

Esse é o ensino católico tradicional, mas, como observa Francisco, ele tem sido reprimido pelo “paradigma tecnocrático” da modernidade tardia, com suas abstrações racionalizantes, seu “antropocentrismo excessivo”, sua exploração da natureza e seus regimes econômicos cruéis. Se, como afirma Heidegger, habitamos a casa da linguagem, Francisco reconhece que devemos cuidar da “nossa casa comum” reconstruindo a nossa casa linguística em torno de expressões poéticas e encarnadas de desejo, beleza, amor e reverência.

Em nenhum lugar fica tão evidente essa reivindicação eloquente e lírica da poética da fé quanto na “Querida Amazônia”. Todos os escritos de Francisco estão embebidos em um profundo senso do mistério de Deus que sussurra palavras de amor através de toda a diversidade do mundo natural e no alegre imperativo do querigma – a pregação da boa nova de Jesus Cristo. Francisco nos lembra que a Igreja não é apenas mais uma ONG. Ela é chamada a encarnar Cristo em todas as culturas do mundo e, ao fazer isso, deve se permitir ser moldada por essas culturas em suas formas sacramentais e devocionais de expressão.

Eu gostaria de poder parar por aí. Gostaria de poder dizer que todos os que se preocupam com o futuro do nosso planeta e com o sofrimento e a exploração dos seus povos mais pobres devem ler esse maravilhoso documento e permitir que ele fale ao nível mais profundo do seu ser, e os desperte tanto para a crise quanto para a promessa dos nossos tempos.

Mas me deixem explicar brevemente, a partir da minha própria perspectiva teológica e “materno-feminina”, quais são alguns dos problemas da “Querida Amazônia”.

A parte sobre as mulheres está intitulada “A força e o dom das mulheres”. Aqui, Francisco circunscreve a autoridade dos bispos de inculturar o Evangelho. A enorme contribuição das mulheres para a Igreja na Amazônia deve ser reconhecida oficialmente, mas sob a condição de que seus “serviços eclesiais (...) não requeiram a Ordem sacra” – então isso é um “não” para as diáconas? Francisco continua: os papéis das mulheres devem ser adequados ao “estilo próprio do seu perfil feminino”, que ficaria “diminuído” se as mulheres fossem “clericalizadas”. O poder das mulheres, diz Francisco, volta-se para manter as comunidades unidas e para cuidar delas – aparentemente não no papel do padre.

No entanto, Francisco também pede um sacerdócio inclusivo e acolhedor, em uma Igreja materna que mostre a misericórdia de Deus na pastoral e em uma eclesiologia inculturada que manifeste o “caloroso amor maternal” de Maria. Se, como ele insiste repetidamente, o clericalismo é o flagelo de um sacerdócio disfuncional, que melhor maneira de desafiar isso do que ordenando mulheres?

No entanto, o problema é mais profundo. Francisco usa a teologia nupcial para descrever a relação entre o padre homem e a Igreja esposa. O rosto de Cristo, afirma, se revela através de “dois rostos humanos”: Jesus Cristo como homem, e Maria como mulher. No início, ele identificou as duas únicas funções que um padre não pode delegar: presidir a Eucaristia e ouvir confissões. O poder do padre não é hierárquico, diz Francisco, mas deriva do fato de que “apenas o padre pode dizer: ‘Isto é o meu corpo’”.

Toda vez que eu leio essas palavras, eu fico mais perturbada. Como Francisco reconhece, Cristo é “divino”, e Maria é “uma criatura”. Dizer que as mulheres são as imagem de Maria, e os homens são a imagem Cristo, e sugerir que uma mulher não pode dizer “Isto é o meu corpo” é excluir a carne feminina do corpo de Cristo. Não pode ser isso que Francisco pretende. Como seus dois antecessores papais, quando ele é chamado a explicar por que as mulheres não podem ser padres, a teologia de Francisco se emaranha em contradições e inconsistências.

Além disso, os papéis de gênero e os nossos conceitos de masculinidade e de feminilidade são tão culturalmente diversos quanto qualquer outro aspecto da linguagem e da socialização. Os valores que Francisco projeta sobre as mulheres como fixos e atemporais pertencem a uma era particular da cultura ocidental. Esses ideais de feminilidade materna não são divinamente ordenados e refletem as ruminações românticas de Hans Urs von Balthasar e do papa João Paulo II, e não a tradição católica como um todo, que abriga uma vasta gama de papéis e relações de gênero.

Os conceitos de gênero também precisam se abrir à inculturação, e os modelos culturais opressivos precisam ser desafiados pela afirmação nas mulheres da dignidade, da igualdade e da liberdade que Cristo oferece a todos os que são criados à imagem de Deus e incorporados pelo batismo em Seu corpo, para além de todas as divisões de gênero, raça e classe (cf. Gálatas 3,26). O conceito de “mulher” de Francisco está emaranhado em uma fantasia sentimental. Enquanto, no mundo real, os papéis e as identidades de gênero são ágeis e maleáveis, ele imagina a “mulher” como um arquétipo congelado no tempo, com a função de “suavizar” a cultura masculina com uma ternura e receptividade femininas.

Essa associação implícita do homem com a divindade e da mulher com a criaturalidade não é apenas uma infelicidade teológica, mas também tem implicações ecológicas profundas. Para além de todas as suas virtudes, a visão de Francisco é empobrecida pela sua falta de envolvimento com o trabalho das ecofeministas. Quase tudo o que ele diz na Laudato si’ e na “Querida Amazônia” pode ser encontrado no trabalho de estudiosas feministas nos últimos 30 anos, incluindo, notavelmente, a sua crítica ao antropocentrismo moderno – que pode ser descrito mais corretamente como “androcentrismo”.

Se ao menos Francisco pudesse superar o preconceito profundamente arraigado que impede a classe clerical de ver as mulheres como suas parceiras iguais na tarefa da reflexão teológica, do desenvolvimento doutrinal e de liderança da Igreja, seu apelo apaixonado pela cura e pela honra da “Mãe Terra” teria muito mais credibilidade.

Ele poderia aprender, por exemplo, com o livro “Empress and Handmaid, de Sarah Jane Boss, publicado em 2000, que traça as maneiras pelas quais as atitudes ocidentais em relação à natureza se refletem nas representações da Virgem Maria. Boss mostra que, desde a invenção do arado até a ascensão da cultura da dominação, a história está gravada na imagem da Virgem, que gradualmente perdeu a impressionante potência materna das esculturas românicas medievais para se tornar a jovem virgem de rosto doce da devoção católica moderna.

Assim como Maria, a Mãe Natureza passou de uma figura dominante de autoridade sobre a vida humana para uma vítima dócil e – na teologia de Francisco – vulnerável e sofredora, necessitada da proteção e do cuidado dos homens. No entanto, assim como as mulheres, a Mãe Natureza é um poder a ser levado em considerado, e ela não se submete de bom grado à exploração e ao abuso sem encontrar formas de reagir para se preservar.

Toda ONG e instituição preocupada com o desenvolvimento sustentável reconhece agora que as mulheres são parceiras essenciais no projeto de conversão ecológica – não como ajudantes femininas subordinadas, mas como líderes robustas, corajosas e determinadas de comunidades que sofrem os piores efeitos das mudanças climáticas e da exploração econômica. Francisco enfrenta uma hostilidade cruel daqueles que se opõem às suas reformas. As mulheres poderiam ser suas apoiadoras e aliadas mais leais. Ele deveria nos deixar entrar em diálogo antes que seja tarde demais para todos nós – e também para a Mãe Terra.

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