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07 Novembro 2019

No dia 5 de agosto de 2013, membros dos meios de comunicação e críticos culinários se reuniram, em Londres, para experimentar um hambúrguer. Aquele pedaço de carne (que eles comiam diante das câmeras, sem pão e condimentos) não era como qualquer outro. Eram células de vaca cultivadas em laboratório.

A reportagem é de José Manuel Valiñas, publicada por El Economista, 04-11-2019. A tradução é do Cepat.

Uma das especialistas em gastronomia, Hanni Ruetzler, não conseguiu esconder um certo receio ao provar um pedaço. Outro, Josh Schonwald, disse: “Sinto falta da gordura, é muito magra. Mas, em geral, parece um hambúrguer comum”. Depois, acrescentou que a experiência era um tanto “antinatural”, mas o motivo era que, segundo ele, “fazia no mínimo 20 anos que não experimentava um hambúrguer sem ketchup ou pimenta”. O cérebro por trás da carne cultivada é de Mark Post, professor de fisiologia vascular da Universidade de Maastricht, que promete transformar radicalmente o mundo como o conhecemos...

De fato, uma das especialistas que experimentou, pela primeira vez, a carne cultivada (também chamada de carne celular), pareceu um pouco relutante no começo. É o chamado “efeito iaque”, ou seja, uma espécie de prurido ao comer carne fabricada em laboratório. Helen Breewood, que trabalha como pesquisadora com Post, resolveu a questão: “Muitas pessoas podem considerar, inicialmente, repulsiva a carne cultivada, mas se considerassem o que está presente na produção normal de carne em um rastro, acredito que também considerariam que isso é repulsivo”.

Aqui, não é preciso matar nenhum ser vivo. E as implicações são cativantes. Comecemos pelo sabor, que é o menos importante. A carne de laboratório adquirirá mais sabor, até que essa não seja uma objeção para ninguém. Será possível lhe acrescentar gordura, por exemplo, para que seja suculenta e mais saborosa, e isso apenas com uma biópsia indolor em um animal (uma amostra simples pode ser usada para “criar” 20.000 toneladas de carne), sem maior intervenção contra o seu direito de viver e não sofrer maus-tratos, que é a objeção de consciência de cada vez mais animalistas no mundo.

A organização People for the Ethical Treatment of Animals (Peta) declarou recentemente: “A carne cultivada em laboratório significará o fim de caminhões cheios de bois e frangos que são maltratadas, e dos matadouros e fazendas industriais. Reduzirá as emissões de carbono, conservará água e tornará mais seguro o fornecimento de alimentos”.

Por meio da edição genética e da incrível técnica CRISPR (que também promete eliminar doenças hereditárias no futuro), por exemplo, será possível acrescentar ômega 3 na carne cultivada, para que seja completamente saudável. Eventualmente, essa refeição será mais saborosa do que os atuais substitutos da carne e muito mais econômica.

E as surpresas continuam: a tecnologia chegará a tal nível de sofisticação que será possível saber quais nutrientes específicos cada indivíduo necessita, para que a comida seja projetada de maneira personalizada, e isso não será apenas para os ricos, ao contrário, esses avanços chegarão, idealmente, para todas as camadas da população.

“Acho que a maioria das pessoas não percebe que a atual produção de carne está no seu auge e não será suficiente para a demanda, nos próximos 40 anos, por isso, sem dúvida, devemos encontrar uma alternativa. E essa pode ser uma maneira ética e ecológica de produzir comida”, explicou Marc Post.

Por causa da produção de alimentos, são emitidas enormes quantidades de gases do efeito estufa, especialmente o metano. Além disso, a utilização de água e terras cultiváveis também é intensiva: 70% destas são dedicadas à alimentação dos animais que serão abatidos. “Literalmente, estamos comendo o planeta”, diz Lauri Reuter, um cientista finlandês que trabalha com os últimos avanços em tecnologia de alimentos em seu gélido país, onde consegue colher praticamente qualquer coisa, em qualquer época do ano”.

“Se não mudarmos nossos hábitos, enfrentaremos um futuro em que não haverá mais comida. Cruzamos muitas linhas: o ciclo do nitrogênio, a biodiversidade (estamos na sexta maior onda de extinção da história do planeta) e a mudança climática, e talvez não haja retorno”, enfatiza Reuter, um dos cérebros que participa, nesses dias, em Puerto Vallarta, da Singularity University Summit. “E tudo isso está diretamente relacionado à nossa produção de alimentos: os fertilizantes de nitrogênio, a utilização dos melhores solos para produzir nossa comida. Tudo isso está matando a vida”.

O alimento celular ajudará a regenerar a biodiversidade do planeta. As grandes extensões de monoculturas são o seu principal inimigo. Graças à técnica do cultivo celular, algumas espécies de amora que estavam em risco de extinção se regeneraram. E isso é apenas o começo.

Atualmente, Finlândia, Suécia, Holanda, Canadá e Emirados Árabes Unidos, países com climas extremos e onde não era possível plantar em determinadas épocas do ano, estão produzindo alimentos sem qualquer pegada de carbono. Há empresas que já estão comercializando carne feita inteiramente de células cultivadas, em níveis que, em breve, serão massivos.

Pat Brown fez o desafio do “hambúrguer impossível”, feito com carne vegana, mas que tem o sabor exatamente igual à carne normal (já é vendido em mais de 3.000 restaurantes). Chegaremos a um ponto em que não saberemos qual é qual. Um pedaço de trigo, de frango ou carne vermelha terá o mesmo sabor (se é isso o que você deseja), seja proveniente de células cultivadas, de verduras ou de origem animal.

As estufas de última geração usam LEDs e são alimentadas apenas por energia solar ou geotérmica. São dirigidas pela Inteligência Artificial que vai aprendendo para melhorar cada processo. Isso elimina completamente a variável de origem das colheitas. Fora do aeroporto de Dubai, já existem estufas verticais que produzem todos os vegetais que são servidos nos aviões. Antes, tinham que ser levados da Europa.

Os biorreatores, onde é possível cultivar a comida celular e que se alimentarão exclusivamente de energia solar, verão seus preços caírem a tal ponto que qualquer pessoa poderá ter um em casa. O ovo e a galinha logo poderão ser cultivados sem intervenção animal, o que, nas palavras de Reuter, “finalmente solucionará o dilema milenar de quem veio primeiro, o ovo ou a galinha”.

Mas, para além de parecer simpático, temos a possibilidade de superar a ameaça à sobrevivência da raça humana. “Tudo isso pode soar muito estranho, perigoso ou antiético, e entendo”, destaca Reuter. E convida a pensar na maioria das espécies que melhoramos geneticamente, ao longo dos séculos, como a cenoura, o arroz, o milho e o trigo. E leva sua análise ao extremo, explicando que, em última instância, as plantas e tudo o que existe são feitas de oxigênio, carbono, hidrogênio e nitrogênio, e que a partir desses elementos também é possível obter comida, alimentando micro-organismos com eles. Na Finlândia, já estão colhendo farinha de trigo literalmente “do ar”, com 50% a mais de proteína do que o normal, utilizando 10 vezes menos energia e 250 vezes menos água do que para produzir soja.

“Se podemos transferir a produção de alimentos para lugares menos férteis e dimensioná-la verticalmente, em vez de horizontalmente, poderemos viver em um mundo verde e alimentar 11 bilhões de pessoas a mais. Se desvincularmos a produção de alimentos do meio ambiente, na realidade, já não precisaremos realmente da Terra para isso”. Em outras palavras, poderemos deixá-la em paz para que continue reproduzindo sua pródiga e exuberante biodiversidade, que tanto ameaçamos com nossa passagem pelo planeta.

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