Vozes que desafiam. Etty Hillesum, a mística da resistência e do enfrentamento ao ódio

Imagem: Lewis Connolly

Por: Cleusa Maria Andreatta, Susana Rocca, Wagner Fernandes de Azevedo | 22 Setembro 2019

"Há pessoas que só pensam em assegurar o próprio corpo, que já se tornou um mero recipiente de mil medos e de mil ressentimentos. Elas dizem: não me terão em suas garras! Esquecem-se que nunca estamos nas garras de ninguém quando estamos nos teus braços". 

As palavras de Etty Hillesum ressoam a eternidade da sua vida. Uma mulher que sem temor encontrou na escuridão de uma modernidade atroz, que transformou seres humanos em materiais de mera execução, objetificados e exterminados, a espiritualidade de amor e resistência. A sua mística expressa que há, enfim, a vitória sobre a morte, enfrentamento do medo e da obscuridade para gerar a esperança.

A jovem judia nascida em Middelburg, na Holanda, em 1914, optou durante a Segunda Guerra a exercer atendimento de proteção e cuidado aos refugiados judeus no campo de Westerbork, até a invasão nazista sobre o território e a consequente deportação para Auschwitz, em 1943. Faustino Teixeira, doutor em Ciências da Religião e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora aponta que Etty "foi testemunha de fé, esperança e amor entre aqueles deserdados. O seu trabalho essencial foi o de erigir uma ‘barreira interior’ para evitar que a apatia ou o desânimo tomassem conta de seus companheiros [...] se erguia das sombras como brasa nas cinzas e reinventava a esperança”.

Hillesum foi uma jovem com distúrbios psicossomáticos, inquieta e sagaz sempre procurara caminhos para a sua liberdade. Foi no seu encontro com o psicoterapeuta Julius Spier que iniciou o seu processo de libertação, e onde começam a se expressar os traços da sua mística alter-ética e relacional, a partir de uma mulher secularizada, legítima ao seu tempo. Etty passa a compreender a necessidade de "superação da dimensão estreita, mesquinha do próprio eu, que favorece o acesso àquela dimensão de nós em que somos a imagem e semelhança de Deus, e na qual, ao alcançá-la, somos capazes de compreender realmente o sentido profundo da vida, de amá-la verdadeiramente por aquilo que ela é, assim como ela é e de amar o próximo sem reservas", escreve a filósofa e teóloga italiana Beatrice Iacopini.

Etty Hillesum. Foto: Wikicommons

A mística do cuidado de Etty Hillesum mostrou "que é possível ser pátria para si mesmo, que dentro de nós existem espaços tão vastos que podem hospedar e deixar decantar, purificando-o, tudo aquilo que ocorre lá fora, tão vasto a ponto de ter lugar até mesmo para Deus", continua Iacopini. Esse Deus, diferente do onipotente, era um Deus que necessitava cuidado e cultivo. "O Deus de Etty é um Deus que confia a própria presença no mundo ao ser humano, porque, sem o ser humano, nada pode fazer; é uma presença a ser cuidada e uma fonte jorrante, mas que deve ser limpa continuamente para que não se obstrua", explica a teóloga.

Para Ceci Baptista Mariani, teóloga e professora de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC-Camp, os relatos escritos nos diários de Etty Hillesum marcam uma característica "simbolicamente feminina". "Refletem, em geral, uma forma de entrega amorosa própria. Lendo os escritos de Etty Hillesum, temos a sensação de que ela vai trabalhando a cada dia o mundo que recebe em seu corpo. Com seu seio aberto, deixa-se penetrar pela vida", explica Mariani.

Essa experiência de abertura de si, era conformada também para abertura ao do Outro. Etty foi contumaz em acreditar que tanto quanto nela, Deus habitaria em qualquer um. A poeta e crítica literária Mariana Ianelli pontua que "Etty queria desenterrar Deus do fundo do coração dos outros, assim, exatamente nesses termos. Achava que só individualmente, cada um trabalhando por dentro esse refúgio comum, uma nova geração mais humana poderia começar a ser gestada. Quando as pessoas elas mesmas se permitissem emanar algo além de ressentimento, quando interrompessem o ciclo do ódio. Para Etty, não era Deus que devia acudir a humanidade, mas o contrário".

Vídeo de Faustino Teixeira e Mauro Lopes sobre a mística de Etty Hillesum

Assim, não se faz possível pensar que Etty Hillesum assumiu a sua ida ao campo de Westerbok com pretensões casuais ou ingênuas. Partiu com coragem e compaixão, predestinada a enfrentar a escuridão do Holocausto, a crueldade da Guerra, o extermínio do seu povo. No trem para Auschwitz, Etty conseguiu jogar uma carta para sua amiga Christine van Nooten, escrito: "Deixamos o campo cantando". Ianelli resgata a história de esperança e resistência de Hillesum nesta poesia:  

Trabalhava. Trabalhava numa primavera fria
esperando ser como a lua, ser como um pasto:
uma vasta paisagem tranquila –
e desenterrava Deus de sob pedras e cascalhos.
O caminho até o cais era feito entre soldados
(todos tão pequenos por trás de seus crimes).
E trabalhava mais: era uma estaca no mar,
era um pedaço de granito, era o próprio mundo
prestes a ser destruído. E trabalhava mais:
estava com os deportados, com os desaparecidos,
estava com uma flor num retângulo de jardim.
De minuto a minuto, forjando a calma em pessoa,
o sorriso de Buda, um terreno baldio.
E já havia partido, muito antes de partir, debaixo
de um céu sem palavras: era uma estrela nos campos,
era a mulher já sem nome do vagão número 12,
na direção do Leste, cantando de alegria.

A série Vozes que Desafiam. Mulheres na Igreja produzida pela equipe de Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos tem como objetivo recuperar e visibilizar figuras de mulheres e contribuir no reconhecimento do lugar delas na vida da Igreja. Abaixo, compartilhamos revistas, entrevistas, artigos e reportagens disponibilizadas pelo Instituto Humanitas Unisinos que refletem a história de resistência de Etty Hillesum.

Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá. Revista IHU On-Line Nº 531 e 534

É humanamente compreensível que quem viveu a perversidade do mal, prefigurado no holocausto, perca a luz e passe a refletir apenas a dor. Mas essa não é a única saída. A experiência de Etty Hillesum nos campos de concentração da Segunda Guerra prova isso: a jovem judia não se entrega à dor e tampouco responde ao ódio na mesma potência. Sua arma é o canto de alegria em meio às dificuldades, como uma flor que irradia calor na resistência gélida e tétrica do inverno sob a égide nazista. Na esperança de sempre ver a luz mesmo em meio à realidade sombria, a IHU On-Line traz a mística de Etty Hillesum como tema central desta edição.

Leia a revista na íntegra.

Etty Hillesum canta a alegria contra o ódio. Entrevista especial com Faustino Teixeira

Uma das faculdades mais impressionantes em Etty Hillesum é a de se manter firme, resistente em meio ao horror que é o de estar sufocada em um campo de concentração. Mas ela ainda vai além, não se resigna apenas a respirar para se manter de pé, quer pulsar, e mais: quer nutrir uma paixão alegre em meio à tristeza. “Com todas as condições para dizer o contrário, Etty rechaça em sua reflexão qualquer possibilidade de adesão ao ódio”, destaca Faustino Teixeira, teólogo e professor na Universidade de Juiz de Fora. “Abrir espaços para sentimentos de vingança era para ela ampliar a dinâmica da dor e do sofrimento”, avalia. É por isso, segundo o professor, que ela vai por outra via. “A grande lição é a da resistência e alegria. Vejo como um de seus legados mais importantes, o desafio de alargar sempre mais os espaços de alegria e paz nos caminhos de nosso tempo”, aponta.

Na entrevista a seguir, Faustino detalha como a jovem judia vai se fortalecer para seguir adiante e levar a esperança em tempos sombrios. “Com seu finíssimo olho espiritual, Etty era capaz de amar a todos, sem pensar em reciprocidade. Esse amor estava firmado em seu mundo interior e irradiava como perfume”, analisa. E é também nesse mundo interior que ela encontra Deus. Afinal, “Deus, para Etty, consistia na ‘parte melhor e mais profunda’ de si mesma”. “Deus estava para ela dentro do ‘poço’ profundo de seu mundo interior, mas interditado por camadas de pedras e detritos, que somente através de um trabalho contínuo poderia ser desenterrado novamente”, descreve.

Assim, é por Deus que Etty chega ao amor. “Os dois sentimentos fundamentais que delineavam o percurso espiritual de Etty foram Deus e o Amor”, acrescenta Faustino. São sentimentos que a fazem ver o outro e crer que há nele uma potência de resistência alegre. “O amor ao próximo era um desdobramento natural de sua experiência de Deus”, sintetiza.

Faustino Teixeira é professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais - PPCIR-UFJF.

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Trabalhar sobre si mesmo é a única solução para o mal. Entrevista especial com Beatrice Iacopini

Nas páginas que compõem os seus diários, Etty Hillesum “nos ensina a perceber a profunda unidade de tudo, razão pela qual quem se empenha a melhorar a si mesmo, na realidade, muda o mundo”, diz a filósofa italiana Beatrice Iacopini à IHU On-Line. Segundo ela, as maldades que a jovem judia presenciou em Westerbork fez com que ela cultivasse uma “riquíssima vida interior”. Lá, diz, ela “carregou-se de primorosa ternura e, pelo menos, de compaixão pelos milhares de rostos da miséria e da dor que encontrava todos os dias, incluindo os dos agressores”.

Apesar de a mística de Etty não ter florescido dentro de uma tradição religiosa, Beatrice explica que, “em essência”, o caminho de Etty foi o mesmo percorrido por Teresa de Ávila e João da Cruz, “o da superação da dimensão estreita, mesquinha do próprio eu, que favorece o acesso àquela dimensão de nós em que somos a imagem e semelhança de Deus, e na qual, ao alcançá-la, somos capazes de compreender realmente o sentido profundo da vida, de amá-la verdadeiramente por aquilo que ela é, assim como ela é e de amar o próximo sem reservas”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Beatrice também faz um convite aos leitores: “Cada um de nós pode tentar fazer aquilo que Etty fez: cultivar e manter a própria ‘posição interior’, porque, sempre como naquela época, alguém deve sobreviver para que ‘mais tarde possa testemunhar que Deus viveu também nessa época’; e cada pessoa de fé deveria se fazer a pergunta que ela se fez: ‘Por que eu não deveria ser essa testemunha?’”.

Beatrice Iacopini é formada em Filosofia e em Teologia. Atualmente leciona no ITCS Filippo Pacini - Pistoia e colabora com a Escola de Teologia da Diocese de Pistoia.

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A jovem mística que “desenterra Deus do fundo do coração dos outros”. Entrevista especial com Mariana Ianelli

“Ela não se sentia nas garras de ninguém. A maneira como essa mulher age coincide com o que ela sente, pensa e escreve.” É assim que a poeta Mariana Ianelli define Etty Hillesum, a jovem holandesa que decide viver entre judeus no campo de concentração. Mas essa mulher não escolhe apenas sentir a dor. Ela busca conhecer o seu interior. “Etty como que faz as pazes com seu próprio sofrimento, com a saúde fraca, as dores de cabeça, um aborto, ela vai se unificando, criando um espaço interno de silêncio, conseguindo um equilíbrio entre fora e dentro”, observa, na entrevista à IHU On-Line. E, uma vez encontrando esse equilíbrio, é dele que espalha o sorriso em meio a tanto desespero. “A partir daí, bem no meio do inferno de sua época, no meio de gente que se desesperava ou desistia ou negociava a vida a qualquer preço, ela pôde estender a mão para o outro”, completa.

Entretanto, se engana quem pensa que a jovem buscava dar alento apenas aos menores. O Deus que ela alcança através de cultivo de seu “eu interior” lhe gera um brilho e esse brilho, segundo Mariana, a faz capaz de perceber Deus até mesmo entre aqueles que promovem o sofrimento. “Era esse brilho que importava defender até as últimas, e fazia Etty observar com interesse todo tipo de gente, inclusive o comandante do campo, os guardas, os dirigentes judeus, os judeus alemães. Etty queria desenterrar Deus do fundo do coração dos outros, assim, exatamente nesses termos”, pontua.

Ainda sobre sofrimento, Mariana ainda destaca que “Etty insiste que ainda nos falta, aos ocidentais, aprender a sofrer, aprender a não repudiar a experiência da dor, porque a energia que alguém empenha em resistir ao sofrimento poderia estar sendo empenhada em algo mais fecundo”. Assim, deixa claro que não é necessário “remoer” o sofrimento, ainda mais em tempos de penúrias. A lição da jovem mística é a de que “é urgente cultivar um espaço de calma para restauração das nossas forças”. “A lição que Etty depreende da guerra, e que transcende circunstâncias históricas, é uma lição espiritual”, sintetiza Mariana.

Mariana Ianelli é poeta, ensaísta, cronista e crítica literária brasileira, com mestrado em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP.

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Etty Hillesum, a jovem que encontrou Deus durante a Shoah

“Gostaria de ser um bálsamo para muitas feridas”. Com estas palavras, termina o Diário que Etty Hillesum escreveu, a jovem judia holandesa que no dia 07 de setembro de 1943 foi deportada para Auschwitz, onde morreu, de acordo com um relatório da Cruz Vermelha, no dia 30 de novembro de 1943, há 75 anos. Bento XVI, recordando a todos que “a graça de Deus está trabalhando e opera maravilhas na vida de muitas pessoas”, disse sobre ela: “inicialmente distante de Deus [...], em sua vida dispersa e inquieta Etty Hillesum O encontrou precisamente em meio a essa grande tragédia do século XX, a Shoah. Transfigurada pela fé, transforma-se em uma mulher cheia de amor e paz interior, capaz de afirmar: ‘Vivo constantemente na intimidade com Deus’”.

A reportagem é de Cristina Ugoccioni, filósofa e jornalista italiana.

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Etty Hillesum: o canto da vida. Artigo de Faustino Teixeira

Em sua última carta, datada de 7 de setembro de 1943, Etty Hillesum relata sua partida, junto com sua família, no trem que os levaria para a morte em Auschwitz. Viajaram em vagões diferentes, e é possível que seus pais tenham morrido ainda durante a viagem de três dias. Estavam todos “fortes e calmos”: ela, seus pais e seu irmão Mischa. Relata ainda que todos deixaram “o campo cantando”. Segundo a indicação da Cruz Vermelha, Etty morreu em Auschwitz em 30 de novembro de 1943, aos 29 anos de idade.

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Etty Hillesum. Para Deus e para a vida

"A única coisa que podemos salvar desta época, e também a única que realmente importa, é um pequeno pedaço de você dentro de nós mesmos, meu Deus. Talvez possamos também ajudar a te desenterrar dos corações devastados dos outros homens. E, quase a cada batida do meu coração, aumenta a minha certeza: cabe a nós ajudar-te, defender até o fim a tua morada em nós". Etty Hillesum conseguiu viajar em um mundo interior que lhe permitiu dominar o horror da guerra e deixar um dos maiores testemunhos humanos e espirituais do nosso tempo.

O artigo é Riccardo Michelucci, jornalista e articulista italiano.

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