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23 Maio 2018

Edgarda Ferri explora em seu último ensaio o percurso da pensadora holandesa que morreu em Auschwitz: "Ela decidiu não dar peso ao seu sofrimento”.

"A única coisa que podemos salvar desta época, e também a única que realmente importa, é um pequeno pedaço de você dentro de nós mesmos, meu Deus. Talvez possamos também ajudar a te desenterrar dos corações devastados dos outros homens. E, quase a cada batida do meu coração, aumenta a minha certeza: cabe a nós ajudar-te, defender até o fim a tua morada em nós". Etty Hillesum conseguiu viajar em um mundo interior que lhe permitiu dominar o horror da guerra e deixar um dos maiores testemunhos humanos e espirituais do nosso tempo.

O comentário é de Riccardo Michelucci, publicado por Avvenire, 22-05-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Alguns anos atrás, por ocasião do septuagésimo aniversário de sua morte em Auschwitz, foram finalmente publicadas em italiano as edições integrais de seu diário e de suas cartas, que permitem conhecer a fundo uma das figuras mais significativas não só da literatura dos campo de concentração, mas de todo o pensamento contemporâneo.

A resistência existencial de Etty Hillesum pode causar vertigens: suas profundas fragilidades transformadas em força através de um diálogo íntimo e muito pessoal com Deus, o seu amor pela vida que cresce proporcionalmente ao ódio e à perseguição nazista e, por fim, a renúncia a tudo e a escolha de não se salvar da deportação, mesmo tendo a oportunidade, mas de compartilhar o destino de seu povo.

Uma parábola humana e intelectual que emerge em toda a sua atualidade no livro de Edgarda Ferri Un gomitolo aggrovigliato é il mio cuore. Vita di Etty Hillesum (Um novelo emaranhado é meu coração. A vida de Etty Hillesum, em tradução livre), uma obra que não é nem um ensaio, nem uma biografia tradicional, mas a reconstrução refinada de uma vida inquieta e escandalosa que a partir do encontro com o psicanalista junguiano Julius Spier embarca em uma jornada mística e espiritual extraordinária.

"Estudo sua vida há muitos anos", explica Ferri, que nesta quarta-feira vai apresentar o livro no ciclo de encontros ‘Mulheres demais’ programado para o Gabinete Vieusseux em Florença. "Etty se tornou para mim um marco desde que foi publicada a primeira edição parcial de seu diário, que ao longo do tempo acabei abrindo muitas vezes até para ler apenas uma página. Em seu pensamento eu encontrava, na verdade, tantos pontos de reflexão, sobre a paz, a vida, o perdão. Depois, três ou quatro anos atrás, senti a necessidade de conhecê-la melhor e eu comecei a fazer pesquisas, fui até Amsterdã, consultei livros sobre ela, estudei as cartas e os diários de seus contemporâneos e amigos. Parti de uma pista, como sempre faço, para poder rastrear as fontes".

Autora de uma série de biografias de mulheres famosas - Maria Teresa da Áustria, Joana, a Louca, Catarina de Siena, Matilda de Canossa - Edgarda Ferri nos oferece a imagem de uma jovem com sede de vida e de amor, que vive paixões intensas na carne e no espírito, cruelmente sincera e ligada a um Deus misterioso ao qual chega a perdoar a indiferença pela dor do mundo. Ela nos explica ter se aproximado de Hillesum com o distanciamento adequado imposto pela sua formação jornalística, e sem se identificar com ela, para não cair na tentação de representá-la como uma santa ou uma mártir.

"Felizmente eu tive bons mestres, um foi Dino Buzzati, que me ensinou a ouvir e nunca me apaixonar por um personagem, caso contrário corre-se o risco de transformá-lo num santinho. Às vezes tive quase a impressão de ser uma cientista empenhada em dissecar seus sentimentos e as suas palavras, observando-os com uma lupa".

O resultado de seu trabalho é um retrato vívido de imagens em que predomina o pensamento da Hillesum, mas onde a cuidadosa peneiração das informações biográficas permite contextualizar o percurso de uma alma que se sentia "como um novelo emaranhado" totalmente à mercê de forças contraditórias. Etty era na verdade a mulher "que não sabia ajoelhar-se", como ela mesma se define no diário, mas depois, no curto espaço de alguns anos, um curto-circuito interior desarruma completamente sua existência. "Inicialmente, ela não percebe o que está acontecendo ao seu redor, frequenta os círculos intelectuais e vive uma condição privilegiada, mas, em seguida, o psicanalista Julius Spier, com quem tem um longo confronto intelectual e sentimental, a convence a se ajoelhar. A partir daquele momento ela começará a esquecer-se de si mesma e a pensar nos outros. Mas, muito mais do que uma verdadeira conversão - relata Ferri – eu a definiria um caminho gradual e muito pessoal. Primeiro Etty se declara ateia, depois busca Deus e o encontra em uma árvore. Finalmente, escreve a ele dizendo que o perdoa pela sua indiferença com as tragédias do mundo. Não foi, no entanto, nem uma fanática, nem uma santa e nem uma heroína. Ela foi uma mulher sedenta do absoluto, que graças à sua extraordinária sensibilidade foi capaz de se aproximar do divino humilhando-se, até decidir não dar mais qualquer peso a si mesma e ao seu sofrimento".

Diante do abismo do mal, Etty Hillesum questiona-se sobre os motivos para a desumanidade do homem, reza a Deus para que lhe dê força para entender até os crimes mais graves, ao ponto de perdoar os carrascos, percebendo a sua fragilidade. Ela teria a possibilidade de se salvar, mas a força de suas convicções humanas e religiosas a levou a compartilhar até o fim o destino dos deportados. "Quem sou eu – ela se pergunta – para aceitar salvar-me e abandonar o meu povo?". Por conseguinte, foi trabalhar como voluntária no campo de trânsito de Westerbork, na Holanda, onde os judeus eram amontoados em condições desumanas antes de partir para Auschwitz. Ela compartilha o sofrimento alheio, a ponto de perceber que a sua dor pessoal é nada comparada com a dor de toda a humanidade.

"Estou convencida - conclui Ferri - que quando fala do 'seu povo' não se refere apenas aos judeus, mas à população humana como um todo, pois em Westerbork havia também muitos cristãos e ateus. Lá, ela ajudou principalmente as mulheres, fazendo de tudo para que mantivessem até o fim a sua dignidade. Vocês podem ser privadas de qualquer coisa, disse a elas, mas, a dignidade, você nunca devem deixar que a tirem de vocês". Etty Hillesum amava profundamente a vida. Tanto é assim que, pouco antes de partir para Auschwitz, onde morreu em 30 de novembro de 1943, ela escreveu, "deixamos o campo cantando."

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