Nosso pequeno ou grande barco rumo ao grande iceberg do mundo financeiro

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22 Agosto 2019

A denominada "crise financeira de 2008”, provocada em parte por uma “bolha imobiliária” nos Estados Unidos, foi um fenômeno econômico de alcance mundial. De uma maneira ou outra, repercutiu nos países e nas pessoas – perdas milionárias, quebras, recessão, desemprego, loucura -, mas, além disso, deixou um espinho cravado: a possibilidade de se repetir.

O artigo é de Mercedes Estramil, publicado por El País Uruguai, 18-08-2019. A tradução é do Cepat.

A grande pergunta é sobre a razão, como algo assim não imprime uma lição, não pune culpados, não apresenta uma mensagem clara. As respostas podem estar na ordem existencial ou filosófica (porque o homem nunca aprende e a natureza humana tende a repetir modelos e erros) ou podem ser buscadas dentro do próprio mundo financeiro, em suas estruturas de poder e território.

Isto é o que tentou fazer um antropólogo e jornalista holandês, Joris Luyendijk, indo até a Cidade de Londres, cenário por excelência do mundo das bolsas, bancos de investimento e megabancos, para entrevistar de forma confidencial seus atores: banqueiros, executivos, investidores, corretores de valores, relações públicas, secretários, etc. Do contato com cerca de duzentos entrevistados surgiu este livro Entre tiburones, publicado em espanhol pela editora Malpaso, com uma capa que simboliza sobre o que estamos parados e em que corda bamba caminhamos alegremente.

Código de silêncio

A primeira coisa que Luyendijk precisou driblar foi a resistência das pessoas vinculadas ao mundo financeiro em falar. São indivíduos submetidos ao estresse do êxito e o fracasso, ao medo de não alcançar as metas e ser demitidos, e à cenoura dos incentivos milionários. Um mundo onde a confidencialidade é chave para sustentar verdades e mentiras. Temiam ser identificados em um grau de paranoia extrema, portanto, as entrevistas transcorreram em um clima de ansiedade e medo.

Nesse marco, Luyendijk atraiu pessoas que gozavam de um estilo de vida caríssimo, mas exigente, onde as brincadeiras eram deste estilo: “O que faria um banqueiro do Goldman se tivesse cinco milhões de dólares? Perguntar o que aconteceu com o restante”. Ganham muito, mas trabalham e gastam muito e, com frequência, devem deixar em suspenso a vida afetiva e a visão moral.

O pior, no entanto, tem a ver com a instabilidade trabalhista: “As pessoas na City podem se ver na rua em cinco minutos”. Isto é o que afirma ao jornalista uma diretora de recursos humanos. Sobretudo, quando surgem ameaças de crises e cada telefonema que soa pode ser um chamado de cima para dizer adeus. Manter-se ali, por outro lado, implica adotar um modo de vida onde as escolhas de carro, escola para seus filhos, destino de férias ou relógio podem ser cruciais. “Se você trabalha no Goldman Sachs, não pode viver em uma cabana no Essex”.

Quando o grande banco de investimento estadunidense Lehman Brothers declarou falência, no dia 15 de setembro de 2008, o efeito dominó não demorou e seis dias depois o grupo investidor Goldman Sachs precisou ser resgatado pelo governo, como ocorreu com a parte dos bancos em outros países do mundo. Era “muito grande para cair”. Essa desculpa foi refutada por alguns dos entrevistados do livro, que assumem que se você é muito grande para cair, também é muito grande para ser resgatado, para ser gerido, para saber o que está ocorrendo em seu interior e, em definitivo, para existir.

Culpados ou indolentes

A primeira pergunta de Luyendijk é: de quem é a culpa? A tentação em acreditar que por uma grande quantia de dólares as pessoas que trabalham nos bancos de investimento são capazes de fazer o que for é muito grande (e o autor, de fato, não a descarta), mas não é totalmente credível pensar que o mundo das finanças é só um bando de psicopatas gananciosos.

O que surge das entrevistas não é menos assustador: “Percebi que para muitas pessoas alheias aos bancos é difícil aceitar que o mundo das finanças não está cheio de indivíduos que fazem o mal intencionalmente, mas, sim, de conformistas que simplesmente deixaram de se perguntar sobre o bem e o mal. As coisas para eles vão bastante bem e, em sua bolha, só conversam com pessoas que pensam como eles”. Essa decantação pela amoralidade ou até mesmo por uma “banalidade do mal” no financeiro é certamente uma explicação, ainda que não seja a única.

No momento de tentar explicar a crise e o resgate de 2008, Luyendijk aponta para “os consumidores que pegaram emprestado mais dinheiro do que poderiam se permitir, muitas vezes, tergiversando ou falsificando sua situação financeira; os agentes hipotecários que animaram as pessoas a pedir dinheiro e ocultar ou mentir aos prestamistas sobre seu nível de endividamento; as agências de qualificação de riscos e as empresas de auditoria que aceitaram, sem resmungar, a crescente complexidade dos produtos; o gigante financeiro AIG [uma corporação multinacional de finanças e seguros] que os havia assegurado, sem manter as correspondentes reservas de capital”, e uma longa lista de “culpados” que não são – não legalmente, ao menos – aqueles que trabalham nesses bancos.

A segunda pergunta é se uma crise de tal magnitude voltará a ocorrer, e a resposta é um contundente sim. O atual sistema monetário e financeiro “está criando uma ‘bolha’ após outra, continuamente”. Tanto os governos, como os indivíduos, conseguem dinheiro dessa forma, assumem mais riscos do que podem gerir, gastam a crédito em prol de um crescimento econômico e se endividam mais e mais, até que um dia a bolha arrebenta e os resgates buscam evitar o colapso total, que a civilização abra espaço à barbárie.

“Imaginemos que centenas de milhões de pessoas em todo o mundo fiquem sabendo, ao mesmo tempo, que os fornecimentos para seus supermercados, farmácias ou postos de gasolina foram interrompidos”, disse Luyendijk. Não é impossível, nem improvável.

O livro menciona alguns “homens de pedra”, isto é, banqueiros bilionários (por exemplo, Greg Smith, do Goldman Sachs), que renunciaram a esse mundo por questões éticas (embora já tivessem feito consideráveis fortunas trabalhando aí). São exemplos isolados.

Uma das sensações deixadas pela leitura de Entre tiburones pode se sintetizar assim: o mundo financeiro é um grande iceberg, do qual, claro, só vemos – e isso em ótimas condições de visibilidade – um oitavo, e contra o qual é muito provável que destrocemos um dia nosso pequeno ou grande barco, por mais controlado que acreditemos que esteja em meio à tempestade ou a calmaria.

Referência

Entre Tiburones. Uma temporada em el infierno de las finanzas, de Joris Luyendijk. Editora: Malpaso, Barcelona, 2016.

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