Um sistema que comporta o sofrimento. Historiador da Igreja discute o celibato

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24 Julho 2019

"O celibato obrigatório é um fator importante no sistema clerical hierárquico da Igreja católica, mas não o único. Desvincular o presbiterado do celibato seria emblemático da disponibilidade da hierarquia às reformas, mas ainda assim não seria a reforma necessária. Haveria, uns ao lado um do outro, padres que viveriam como casados e padres que viveriam como celibatários. Que por um lado resolveria problemas, pelo outro criaria novos".

O texto a seguir é um excerto do novo livro do historiador da Igreja Hubert Wolf (Münster): "Zölibat. 16 Thesen", lançado em 18 de junho para as edições CH Beck, publicado por Zeit (Christ & Welt), 17-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

"Jupiter tonans", Júpiter trovejante: é o título de um capítulo-chave do romance autobiográfico de Joseph Bernhart, Der Kaplan. Bernhart, nascido em 1881, que foi ordenado sacerdote em Augsburg aos 23 anos. Ele foi nomeado pela autoridade eclesiástica capelão de Markt Wald, na região de Unterallgäu. Foi uma queda das alturas celestiais da primeira missa após a ordenação à excessivamente terrena cotidianidade de pároco assistente em uma área rural. O capelão sentia-se oprimido e explorado. Ele queria ir embora, possivelmente para uma cidade com uma biblioteca e pessoas instruídas. Depois de um longo período de sofrimento, o capelão teve coragem, foi a Augsburg ao bispado e pediu para falar com o vigário geral, representante do bispo. "A sala de espera era sombria. Tomei coragem e bati na porta marrom. Nenhuma resposta. Eu bati de novo e mais forte. Nenhuma resposta ... Deixei passar um minuto, então bati pela terceira vez. Como um som de irritação e maldição soou um "entre!" Uma figura púrpura, cabelos brancos emaranhados, óculos de lentes grossas, olhar zangado. Eu me curvei. "Quem é você?" O capelão conseguiu com dificuldade apresentar seu pedido, tão rudemente foi insultado. Se ele não conseguia obedecer, simplesmente devia ter evitado se tornar padre".

Mesmo assim, Joseph Bernart foi transferido um ano depois, em 1906, para uma cidade, Neuburg no Danúbio. Com o passar do tempo, porém, não conseguiu suportar a dependência contínua e a solidão do celibato. Em 1913 ele se casou, foi suspenso e excomungado e por décadas excluído do acesso à eucaristia. Porém, durante toda a sua vida, permaneceu um católico convicto.

Esta história chama a atenção para um motivo central para o celibato sobre o qual raramente se discute abertamente: a estabilização do sistema hierárquico da Igreja católica. Um homem com esposa e filhos não poderia ter sido transferido a cada ano, sem indicação dos motivos, de um lugar para outro como um peão em um tabuleiro de xadrez; ter como casa um quartinho na casa paroquial sob a severa vigilância de um pároco e de sua empregada ainda mais severa, que frequentemente também era a irmã mais velha do pároco; o apoio de uma família teria dado ao capelão não apenas contatos sociais com o exterior, mas também permitiria maior estabilidade em suas relações dentro da Igreja.

Hoje a obediência é certamente elevada espiritualmente, mas implicitamente continua a ser a espinha dorsal do sistema da Igreja Católica. Nos documentos da Igreja, muitas vezes se fala que apenas o sacerdote celibatário pode ser tão semelhante a Cristo pelo fato de ter mãos e coração livre para a Igreja, entendida como corpo místico de Cristo. Tal dedicação total a Cristo requer obediência absoluta ao papa e aos bispos. Assim, o celibato se torna um instrumento de primeira ordem da manutenção do poder episcopal e papal.

O cardeal secretário de Estado de Pio VI, Lazzaro Opizio Pallavicini, foi ainda mais explícito que os escritos papais atuais, quando em 1783 expressava-se com ênfase para a manutenção da disciplina do celibato: "Se for permitido aos sacerdotes se casar, a hierarquia papal romana é destruída, a consideração e a sublimidade do Papa de Roma são perdidas".

Estudos mais recentes da sociologia eclesiástica mostraram a relação existente entre o poder episcopal e o celibato. Primeiro, o celibato permite um controle social intensivo dentro da hierarquia clerical. O isolamento dos padres através da renúncia ao casamento e à família os torna como peões no tabuleiro eclesiástico, que podem ser movidos à vontade. Paralelamente, cria-se uma solidariedade com o grupo de mesmo status, o que a longo prazo leva a uma consciência clerical elitista. Para isso é necessária principalmente a educação em um seminário fechado. Assim, é delineado o caminho para uma estrutura de ligação masculina, no qual dominam a lealdade absoluta dentro dela e um dever de sigilo para o exterior, em termos eclesiásticos "a disciplina arcana".

Em segundo lugar, o celibato está na base da distinção entre o status do domínio do clero e o status de acompanhamento dos leigos. Ou, para colocar nas palavras do primeiro representante do capítulo da catedral de Limburg e estudioso de direito canônico Werner Böckenförde: "Em sua forma legal, a Igreja se apresenta como um lugar de autoridade fundada no sagrado, onde a liberdade cristã se torna obediência". Em terceiro lugar, o celibato obrigatório é responsável pela estrutura social típica do clero católico. Novos aspirantes devem sempre ser recrutados. Contudo, dessa maneira, para os candidatos ao sacerdócio de origens humildes é possível uma ascensão social, algo que na Alemanha do século XIX contribuía para uma certa "proximidade ao povo" dos padres.

Em quarto lugar, o celibato obrigatório também podia ajudar a consolidar a distância de poder entre homens e mulheres na Igreja católica. Executivos do sexo feminino perturbam. O sociólogo das religiões e das Igrejas Franz Xaver Kaufmann definiu a estrutura social do clero como uma "hierarquia patogênica". Ele vê na manutenção da disciplina do celibato uma motivação sistêmica para a "estranha reticência" da Igreja "em relação a coisas óbvias do ponto de vista cultural, como o estado de direito e a autonomia da personalidade". Não é à toa que inclusive estudos mais recentes sobre os abusos sexuais do clero sempre chamam a atenção sobre relações e causas de sistema.

O celibato é patogênico no sentido estrito da palavra, ou seja, comporta sofrimento. Mas também é em outro sentido: para as companheiras dos sacerdotes, para os próprios sacerdotes e sobretudo para os filhos que nascem de tais relações. Muitos são negados ou escondidos, sentem-se indesejados e culpados. Como filhos ilegítimos, no direito eclesiástico de 1917 foram discriminados e, não sendo nascidos dentro de um casamento, foram eles mesmos excluídos da ordenação presbiteral.

O celibato obrigatório é um fator importante no sistema clerical hierárquico da Igreja católica, mas não o único. Desvincular o presbiterado do celibato seria emblemático da disponibilidade da hierarquia às reformas, mas ainda assim não seria a reforma necessária. Haveria, uns ao lado um do outro, padres que viveriam como casados e padres que viveriam como celibatários. Que por um lado resolveria problemas, pelo outro criaria novos. Poderia nascer um sistema de duas classes, como nas Igrejas Ortodoxas, onde determinados cargos, como o de bispo, permaneceriam reservadas para os não casados. E até mesmo padres casados não seriam a priori imunes a desenvolver um comportamento clerical, como pode ser observado em alguns casos para os diáconos permanentes. E também os casamentos de padres católicos seriam expostos, como todos os casamentos, ao perigo do fracasso; surgiria então o tema de padres divorciados, e depois também de padres divorciados e recasados.

A maioria dos fiéis aceitaria os padres casados, não apenas isso, muitos até desejam a revogação da disciplina do celibato, como mostram as pesquisas na Europa e na América do Sul. Em fevereiro de 2013, em uma pesquisa realizada pelo Instituto Wahlen, 88% do grupo de pessoas pesquisadas e 84% dos católicos eram da opinião de que os padres católicos deveriam ter a oportunidade de se casar, apenas 8% dos entrevistados e 12% dos católicos rejeitavam isso. Os percentuais são semelhantes também em outros países. Por exemplo, na Itália 57%, na França 86%, na Espanha 73%, na Polônia 61%, na Argentina 65% e no Brasil 60% dos católicos e das católicas expressaram-se em favor do casamento dos sacerdotes. Um forte argumento dos defensores do celibato, ou seja, que os católicos não gostariam de frequentar a missa de padres casados, seria, portanto, enfraquecido, vistos esses percentuais.

Muitos problemas da Igreja Católica, especialmente na Europa Central e na América Latina, também se referem a condições sobre as quais a própria Igreja é praticamente incapaz de influir. Por exemplo, nas sociedades modernas, diminui a disponibilidade de se unir permanentemente em associações, partidos, sindicatos e igrejas. Deve-se também refletir sobre o argumento padrão contra as mudanças do sistema, segundo o qual muitas das reformas exigidas já foram há muito tempo realizadas nas Igrejas evangélicas e, apesar disso, estas últimas perdem mais membros do que a Igreja católica. Seria preciso reelaborar também de uma nova maneira o significado atribuído à Igreja como mediador entre Deus e o homem.

Quem realmente busca uma reforma da Igreja Católica deve questionar o sistema clerical como um todo e não deve considerá-lo uma forma necessária e imutável. A Igreja Católica como monarquia absoluta é uma invenção do século XIX. Algumas concepções do século XIX, passadas como verdades eternas, são uma causa essencial da atual crise da Igreja. Hoje se trata de criar estruturas transparentes e justas nas quais todos os crentes estejam envolvidos. Estruturas que incluam direitos fundamentais juridicamente aplicáveis, uma cultura dos direitos em sintonia com as exigências atuais, uma magistratura administrativa independente, uma moral sexual de acordo com o espírito do tempo, a equiparação dos direitos das mulheres, a escolha por parte dos fiéis de pessoas com encargos eclesiásticos em todos os níveis, a introdução do princípio da subsidiariedade ... A lista poderia continuar. Ou, nas palavras do estudioso de ética social Gerhard Kruip: "Seria ilusório acreditar que podemos superar o clericalismo dominante sem mudar o direito canônico em pontos centrais, incluindo a primazia absolutista da jurisdição do papa. Seria ilusório acreditar que se pode superar os lados dominados pelos homens das estruturas eclesiais de poder sem abolir o celibato e admitir também as mulheres ao presbiterado".

A necessidade de reformas da Igreja católica é evidente. Mas uma olhada à história da Igreja mostra que as forças conservadoras do sistema sempre foram tão fortes a ponto de impedir uma mudança de rumo, mesmo indo contra o bom senso. Às vezes, o modelo que espera por uma crise eclesial da hierarquia funcionou bem. Mas às vezes a espera se voltou contra ela. Como os papas procrastinaram em demasia as providências decididas pelos concílios de reforma do século XV e considerando que depois da chegada de Lutero sabotaram por três décadas a convocação de um concilio de reforma, se encontraram no século XVI com a divisão da Igreja. Às vezes, foi suficiente silenciar reformadores eminentes, fossem eles cardeais, bispos ou teólogos. O índice de livros proibidos e os processos disciplinares conduzidos pela Inquisição Romana e pelo organismo que tomou o seu lugar, a Congregação para a Doutrina da Fé, testemunham isso amplamente.

Às vezes, porém, a pressão na panela-Igreja católica era tão alta que se era forçado a liberar pelo menos um pouco da pressão para evitar uma explosão. Assim aconteceu, por exemplo, no Concílio Vaticano II, quando as forças reformadoras no campo da liturgia puderam desabafar, para enfrentar o tema da constituição da Igreja. Às vezes, era suficiente até a simples retórica eclesiástica reformista, que não custa nada. E às vezes a hierarquia segue o caminho da dogmatização, levantando uma controversa questão sobre uma verdade de fé, buscando desta forma, removê-la da discussão de uma vez por todas, como, por exemplo, com a infalibilidade do papa ou a impossibilidade da ordenação das mulheres. Que caminho a Igreja tomará desta vez?

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