"A maior transformação econômica dos últimos 250 anos". China tende a assumir a hegemonia mundial e a liderança do comércio de tecnologia. Entrevista especial com José Eustáquio Alves

Xangai | Foto: Lovetofly

Por: Wagner Fernandes de Azevedo | Edição: Patricia Fachin | 07 Maio 2019

“O mundo está passando pela maior transformação econômica dos últimos 250 anos” e, nesse contexto, a China poderá exercer a nova liderança Oriental, deixando para trás a hegemonia Ocidental que emergiu a partir da Revolução Industrial, diz o doutor em Demografia José Eustáquio Alves à IHU On-Line. Essa aposta, explica, é embasada no fato de que “a China é o país que apresentou as maiores taxas de crescimento econômico, por um maior período de tempo, na história mundial”, crescendo cerca de 10% ao ano durante 35 anos desde o final da década de 70. Embora o PIB chinês tenha diminuído nos últimos anos, argumenta, “ainda está acima de 6% ao ano, o que é quase três vezes superior ao crescimento atual dos Estados Unidos”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para IHU On-Line, Alves explica que as origens do crescimento chinês estão nas reformas promovidas por Deng Xiaoping, que governou o país entre 1978 e 1992. “O que a China fez foi copiar a estratégia bem-sucedida do Japão e dos Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura) e implantar de forma exponencial a estratégia de desenvolvimento baseado na exportação de bens e serviços (‘Export-led growth’)”, relata. Segundo Alves, Deng Xiaoping desenvolveu uma política externa “branda, pragmática e flexível, com esforços concentrados na melhoria das relações com o Ocidente, em especial com os EUA”, mas as relações diplomáticas foram substituídas desde o início do governo de Xi Jinping, em 2013. “Nenhum líder chinês, antigo ou contemporâneo, tem sido tão ativo quanto Xi na diplomacia. Com seu ambicioso ‘sonho chinês’, da estratégia ‘Renascimento Nacional’, ele substituiu a ‘diplomacia discreta’ de Deng, passando a ter uma política militar e de segurança cada vez mais assertiva”, afirma.

Sob a direção do novo governo, a China quer deixar de ser conhecida por produzir mercadorias industriais baratas e “se prepara para se tornar uma potência mundial na tecnologia do futuro”. De acordo com Alves, o plano “Made in China 2025”, lançado em 2015, faz parte do novo posicionamento chinês para liderar as produções científica e tecnológica global. “O país pretende encabeçar a 4ª Revolução Industrial em todas as frentes mais promissoras e lucrativas das novas fronteiras produtivas. A China se tornou a fábrica do mundo e, em quatro décadas, implantou, simultaneamente, as três Revoluções Industriais que o Ocidente promoveu em 250 anos. O que a China conseguiu em 40 anos sob a liderança do partido comunista chinês (PCC) já assusta os EUA e aumenta os conflitos comerciais, pois o saldo comercial chinês, a despeito de todas as medidas protecionistas de Donald Trump, ultrapassou os US$ 400 bilhões em 2018”, informa.

O crescimento chinês e seu impulso ao crescimento asiático. Uma nova geopolítica global” será o tema da palestra de José Eustáquio Diniz Alves na manhã desta terça-feira, 07-05-2019, no Ciclo de Estudos A China e o mundo. A (re)configuração geopolítica global, que será realizado na Unisinos Porto Alegre. O evento inicia às 9h na sala TEDU 616. Confira a programação aqui.

José Eustáquio (Foto: Embassy Brasília)

José Eustáquio Diniz Alves é doutor em Demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - ENCE/IBGE.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais as projeções de crescimento econômico para os chamados BRICS? Quais expectativas sobre eles se mantêm e o que se alterou na última década?

José Eustáquio Diniz Alves – A China é o país que apresentou as maiores taxas de crescimento econômico, por um maior período de tempo, na história mundial. Desde as reformas de Deng Xiaoping, em 1978, o país cresceu cerca de 10% ao ano durante 35 anos. Na atual década o crescimento do Produto Interno Bruto - PIB tem diminuído, mas ainda está acima de 6% ao ano, o que é quase três vezes superior ao crescimento atual dos Estados Unidos. A Índia, que é o parceiro do BRICS mais pobre em termos de renda per capita, passou a ser o país com maiores taxas de crescimento a partir de 2015 (e será a nação mais populosa do mundo a partir de 2024, quando ultrapassará a China). A Rússia, que passou por grande crise depois do fim da União Soviética (URSS), voltou a apresentar taxas de crescimento positivas desde o final da década de 1990. O Brasil e a África do Sul têm apresentado um desempenho econômico sofrível.

O gráfico abaixo, com dados do Fundo Monetário Internacional - FMI atualizados em abril de 2019, mostra a média móvel trienal do crescimento do PIB dos países do grupo BRICS, entre 1998 e 2024. Nota-se que neste período a China apresentou crescimento médio de 8,6% ao ano (aa), a Índia 7,5% aa, a Rússia 3,1% aa, a África do Sul 2,5% aa e o Brasil, na lanterninha, com crescimento de 2,3% aa (mas pode ser menor se o crescimento real ficar abaixo da projeção do FMI entre 2019 e 2024).

Taxa de crescimento do PIB da China, Índia, Rússia, África do Sul e Brasil

Média móvel de 3 anos: 1998-2024

(Fonte: Fonte: FMI, WEO, abril/2019)


IHU On-Line – O senhor defende a hipótese de que os “BRICS” estão se tornando “RIC”, isto é, Brasil e África do Sul não acompanham o crescimento econômico e político de Rússia, Índia e China. O que fundamenta essa projeção?

José Eustáquio Diniz Alves – Dos cinco países do grupo BRICS somente a China e a Índia podem ser considerados emergentes, pois apresentam crescimento econômico acima da taxa média mundial, conforme mostra o gráfico abaixo. Estes dois países asiáticos tinham uma participação no PIB global menor do que a do Brasil na década de 1980 e avançaram de maneira impressionante. Em 2024, a participação da China será quase 10 vezes superior ao tamanho da economia brasileira e a participação da Índia será mais de quatro vezes superior. A Rússia também tem perdido participação no PIB mundial, mas isto decorre fundamentalmente por conta das questões demográficas, já que a população russa está diminuindo desde a década de 1990. Contudo, a Rússia é o país com a maior renda per capita entre o grupo BRICS e é o país com o maior e mais rico território do planeta. A união entre os dois países mais populosos com o país com maior extensão territorial faz do subgrupo RIC uma potência da Eurásia (que é a extensão de terra contínua mais longa e que possui mais da metade da população mundial).

Como se vê no gráfico, Brasil e África do Sul, que pertencem a outros continentes e estão distantes da Eurásia, são economias menores e em processo de encolhimento. A tendência nos próximos anos e décadas é a continuidade do crescimento do subgrupo RIC e a “marginalização” da importância do B e do S. O economista Pedro Luiz Passos, em artigo para a Folha de S. Paulo (19/04/2019) disse que na disputa comercial e tecnológica entre EUA e China, o Brasil sequer é coadjuvante. Ele diz: “Nessa briga, o Brasil está entrando num quadro de dependência colonial, dado o atraso em que se encontra”.

Participação dos países do grupo BRICS no PIB mundial: 1980-2024

(Fonte: FMI, WEO, abril/2019)

IHU On-Line – Muitos críticos questionavam os BRICS por não terem semelhanças culturais, e nem provado que tinham economias estabilizadas para fazer frente à hegemonia estadunidense e europeia. Entre essas análises contraditórias, de otimismo e pessimismo, que saldo os BRICS apresentam hoje?

José Eustáquio Diniz Alves – A ideia do grupo BRICS surgiu do interesse do setor financeiro internacional em conquistar novos mercados e não da união de países com semelhanças culturais e uma dinâmica comum. A sigla BRIC foi criada, em 2001, pelo economista Jim O’Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, com o objetivo de apontar as oportunidades existentes nos principais países emergentes (em tamanho populacional e territorial), definidos como: Brasil, Rússia, Índia, China. A ideia do grupo não surgiu em oposição à hegemonia americana e europeia. O termo se difundiu nos meios econômicos no momento em que se desenvolvia o fenômeno do superciclo das commodities, que possibilitou um crescimento extremamente rápido dos países emergentes. Mas a ausência de algum país africano era geograficamente incorreto. Então foi incluída a África do Sul (South África) e o termo BRIC ganhou uma letra a mais, se transformando em BRICS. Os cinco países possuem línguas diferentes e, em termos religiosos, há grande diferença: com a China sendo majoritariamente ateísta, a Índia hindu (mas com uma grande parcela da população muçulmana), a Rússia ortodoxa, o Brasil católico e a África do Sul, protestante. Politicamente também há diferenças significativas, sendo que desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil tem feito um alinhamento prioritário com os EUA e não se sabe como será a reunião do BRICS prevista para Brasília no segundo semestre de 2019, já que a diplomacia brasileira trabalha pela saída de Nicolás Maduro da Venezuela, que, em contrapartida, é apoiado por Rússia e China.

IHU On-Line – China e Índia possuem a maior população mundial, e a Rússia é o Estado com maior território. De que forma essas variáveis demográficas e geográficas são ferramentas de poder ou vulnerabilidade para esses países?

José Eustáquio Diniz Alves – A China e a Índia, além de serem os dois países mais populosos do mundo, são berços de duas importantes civilizações que não apenas deram grandes contribuições para a humanidade, como também lideraram o mundo por milênios antes da colonização das Américas e da eclosão da Revolução Industrial e Energética do final do século XVIII. A Rússia também possui uma civilização muito rica (na literatura, na música, no balé etc.) e chegou a liderar o Império Soviético que foi uma ameaça concreta ao poderio americano. Com o fim da URSS, a Rússia diminuiu muito de tamanho econômico e populacional, mas continua tendo um arsenal bélico muito forte e um território imenso e muito rico em recursos naturais. A Rússia sozinha não tem muita força, mas unida à China e à Índia se torna um agente de grande influência no mundo. Basta ver o papel que a Rússia desempenhou na guerra da Síria e no apoio ao regime de Bashar al-Assad. No dia 25 de abril de 2019, Vladimir Putin se encontrou com o líder norte-coreano Kim Jong-un, em Vladivostok, mostrando que Moscou pretende ser um dos mediadores do conflito da península coreana. Provavelmente, a união do grupo RIC trará mais poder do que vulnerabilidade para os três países.

IHU On-Line – Qual a importância do crescimento exponencial da economia chinesa para esse grupo e para o Leste asiático? Como outras regiões têm se favorecido disso?

José Eustáquio Diniz Alves – A China foi esmagada e humilhada durante e depois da “guerra do ópio” ocorrida no século XIX, mas se tornou um fenômeno econômico, social e cultural na segunda metade do século XX. Após a Revolução Comunista de outubro de 1949 (que faz 70 anos em 2019), a China retomou a sua autonomia e a sua identidade nacional, embora o governo de Mao Tsé-Tung tenha trazido um sofrimento incalculável para o povo chinês. A China começou a mudar quando Mao Tsé-Tung se encontrou com Richard Nixon em 21 de fevereiro de 1972 e passou a ser uma potência emergente a partir das reformas de Deng Xiaoping, de 1978. O crescimento econômico da China foi tão intenso que puxou o centro da economia internacional para a Ásia, como mostra o Instituto McKinsey.

 

O que a China fez foi copiar a estratégia bem-sucedida do Japão e dos Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura) e implantar de forma exponencial a estratégia de desenvolvimento baseado na exportação de bens e serviços (“Export-led growth”). Beijing usou o imenso potencial produtivo da força de trabalho chinesa para, num primeiro momento, produzir mercadorias industriais baratas e inundar o mundo com mercadorias de baixo custo, favorecendo um processo de desinflação da economia internacional. Num segundo momento, usou a capacidade de poupança e de investimento para refazer a infraestrutura do país e da região. Estas duas realizações já seriam suficientes para dar destaque para a economia chinesa. Mas o gigante asiático também retirou quase um bilhão de habitantes da situação de extrema pobreza, avançou de maneira impressionante com o sistema educacional e iniciou um processo de desenvolvimento científico e tecnológico que pretende colocar a China na liderança da Revolução 4.0. Evidentemente, todo este processo propiciou o avanço dos países vizinhos a partir do “efeito transbordamento” (“spillover”). Mas o crescimento chinês não tem um efeito somente local, pois puxa o desempenho econômico de todas as regiões do mundo.

IHU On-Line – Neste contexto, qual grupo tende a ter maior protagonismo global, o BRICS ou a Organização de Cooperação de Shangai - OCS?

José Eustáquio Diniz Alves – A Organização de Cooperação de Shangai - OCS é uma aliança política, econômica e de segurança da Eurásia, criada inicialmente por iniciativa do governo de Beijing, agrupando cinco nações originais: China, Rússia, Cazaquistão, Quirquistão, Tajiquistão, o chamado “Shanghai Five Group”, fundado em 26 de abril de 1996. Mas, efetivamente, a OCS foi criada em 15 de junho de 2001 em Shangai, sendo que a Carta da Organização entrou em vigor em 19 de setembro de 2003. Desde então, a organização expandiu seus membros para oito países, sendo que a Índia e o Paquistão se uniram à OCS como membros efetivos em 9 de junho de 2017, em uma cúpula ocorrida em Astana, no Cazaquistão. Os Estados observadores da OCS são: Afeganistão, Bielo Rússia, Irã, Mongólia. O Irã já solicitou a sua entrada plena na OCS, mas depende do fim das sanções colocadas pela ONU. A entrada do Irã pode viabilizar a articulação do “quadrante mágico” (RICI), que seria uma espécie de RIC ampliado.

A OCS é considerada a "aliança do Oriente" (ou OTAN do Oriente), devido à sua crescente centralidade na Ásia-Pacífico, e tem sido o principal pilar de segurança da região. É a maior organização regional do mundo, em termos de cobertura geográfica e populacional, cobrindo três quintos do continente eurasiano e quase metade da população humana. A OCS é uma das organizações mais poderosas e influentes do mundo e representa uma das alianças militares mais fortes atualmente. Com a ampliação da organização, seu escopo de cooperação se expandiu para incluir educação, ciência, tecnologia, saúde, proteção ambiental, turismo, mídia, esportes, humanitária e cultura, ao mesmo tempo em que estende seus princípios para incluir governança global e fomentar relações internacionais. A OCS é um dos principais parceiros da ASEAN (Tailândia, Filipinas, Malásia, Singapura, Indonésia, Brunei, Vietnã, Mianmar, Laos, Camboja, Papua-Nova Guiné e Timor-Leste). Ambas as organizações estabeleceram uma cooperação para a paz, estabilidade, desenvolvimento e sustentabilidade do continente asiático, e no campo da segurança, economia, finanças, turismo, cultura e proteção ambiental.

O gráfico abaixo, com dados do FMI (em poder de paridade de compra – ppp, na sigla em inglês), mostra que o conjunto dos cinco países do BRICS tinham uma participação de 17,2% do PIB mundial em 1994, enquanto os oito países da OCS tinham uma participação de 14,2% na mesma data. Em 2018, a participação do BRICS subiu para 32,7% e da OCS para 31%. Para 2024, a estimativa é do BRICS com 36,8% e a OCS com 35,4% do PIB global. Portanto, o BRICS continua um pouco maior, em termos econômicos, do que a OCS, mas a diferença está se reduzindo e a entrada de novos membros tende a fazer a OCS um grupo cada vez mais forte.

Participação do BRICS e da OCS no PIB global: 1994-2024

(Fonte: FMI, WEO, abril/2019)

Em termos demográficos, em 1994, o BRICS tinha uma população de 2,46 bilhões de habitantes, enquanto a OCS tinha 2,43 bilhões de pessoas. Em 2018, os dois grupos empataram com 3,14 bilhões de habitantes. Mas, em 2024, a OCS com 3,29 bilhões de habitantes será maior do que o BRICS, com 3,28 bilhões de pessoas. O potencial de crescimento populacional é maior na OCS, especialmente se incorporar países grandes como Irã e Turquia. Evidentemente, o núcleo duro e dinâmico do BRICS e da OCS são os três países da sigla RIC (Rússia, Índia e China), sendo que a China é o país que individualmente tende a assumir a hegemonia mundial e tende a ser a líder global do comércio e da tecnologia. A OCS tende a superar o BRICS em termos econômicos, uma vez que a Ásia é o maior continente em termos territorial, populacional e econômico. Assim, o grupo RIC — com seus aliados regionais ou globais — tende a representar um desafio crescente à hegemonia dos Estados Unidos e do Ocidente.

IHU On-Line – Um dos princípios do presidente da China, Xi Jinping, é “adotar uma nova visão de desenvolvimento”. Como a China planeja e executa esse “novo desenvolvimento”?

José Eustáquio Diniz Alves – A ascensão de Xi Jinping ao topo da liderança do partido e do governo comunista significou uma ruptura com a postura que prevaleceu desde a morte de Mao Tsé-Tung. Um dos elementos das reformas de Deng Xiaoping era uma política externa mais branda, pragmática e flexível, com esforços concentrados na melhoria das relações com o Ocidente, em especial com os EUA. No pós-Deng, desde 1997, os líderes Jiang Zemin e Hu Jintao continuaram a diplomacia “discreta” e pragmática. O objetivo era alcançar o grau de desenvolvimento dos países ocidentais e, de fato, a China se tornou a maior economia do mundo (quando medido pelo poder de paridade de compra). Este é o período conhecido como “Chimérica”, ou G2, quando existia uma sinergia entre a China e a América (EUA).

Mas isto começou a mudar com a ascensão de Xi Jinping, que foi eleito secretário geral do Partido Comunista no final de 2012 e se tornou presidente em março de 2013. Nenhum líder chinês, antigo ou contemporâneo, tem sido tão ativo quanto Xi na diplomacia. Com seu ambicioso “sonho chinês”, da estratégia “Renascimento Nacional”, ele substituiu a “diplomacia discreta” de Deng, passando a ter uma política militar e de segurança cada vez mais assertiva. No dia 23 de abril de 2019, Beijing comemorou com uma grande demonstração de força militar os 70 anos da fundação do Exército de Libertação Popular (PLA, na sigla em inglês). Durante seu primeiro mandato de cinco anos (2013-2018), Xi atraiu muitos líderes estrangeiros para a China e recebeu cinco grandes cúpulas mundiais. Nenhum líder chinês fez tantas viagens em tão pouco tempo: foram 28 viagens ao exterior que o levaram a 56 países nos cinco continentes. Além disso, nunca antes a China teve um impacto tão profundo no desenvolvimento econômico global, com as iniciativas Banco de Investimento Asiático em Infraestrutura (AIIB, na sigla em inglês), o Fundo da Rota da Seda, o Novo Banco de Desenvolvimento, também conhecido como Banco de Desenvolvimento do BRICS, além dos investimentos em projetos produtivos e infraestrutura em 112 países, fazendo parte da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

19º Congresso do Partido Comunista

Durante o 19º Congresso do Partido Comunista (em 2017), o presidente Xi conquistou a liberdade de ser reeleito indefinidamente e disse que o socialismo com características chinesas está entrando agora em uma "nova era". O Partido Comunista Chinês - PCC aprovou no Congresso a inclusão das "doutrinas" de Xi na Constituição da agremiação, como um novo referencial teórico e que, a partir de agora, será estudado nas escolas, como o "Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era". O presidente Xi explicou sua visão não apenas para os próximos cinco anos do país, mas para as próximas três décadas, detalhando um modelo socialista que, segundo ele, seria "uma nova opção para outros países e nações que queiram acelerar seu desenvolvimento enquanto preservam sua independência". O presidente explicou que a "nova era" da China é o momento de o país "ocupar os holofotes do mundo". Dois pilares centrais deste “novo desenvolvimento” são a Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” e o Plano “Made in China 2025”.

IHU On-Line – Quais os avanços que o projeto One Belt, One Road (Um Cinturão, Uma Rota) tem alcançado? Quais os riscos?

José Eustáquio Diniz Alves – A Iniciativa “One Belt, One Road” - BRI foi lançada em 2013 e é fundamental para a estratégia de desenvolvimento da China. Isto porque o país precisa manter suas altas taxas de investimento e reciclar os dólares que obtém com o salto comercial com os EUA. Se a China simplesmente aumentar o consumo interno, haverá valorização do Yuan e a economia chinesa perderá competitividade. Além do mais, a China precisa reforçar sua presença na Eurásia, garantindo acesso aos recursos naturais e acesso a novos mercados, pois a guerra comercial com os EUA não vai se resolver de maneira simples.

Um cinturão, uma rota (Fonte: BrasilNaval.com)

O 1º Fórum “Belt and Road” - BRF ocorreu em 2017. O 2º BRF ocorreu em Beijing, nos dias 25 a 27 de abril de 2019, com a presença de cerca de cinco mil participantes de mais de 150 países e 90 organizações internacionais. Desde que o presidente chinês Xi Jinping propôs a iniciativa em 2013, 126 países e 29 organizações internacionais assinaram documentos de cooperação da BRI com a China, diz o site Xinhua. O presidente russo, Vladimir Putin, parceiro preferencial da iniciativa chinesa e presença marcante no BRF, disse: "O objetivo é fornecer uma relação de reforço mútuo com a região da Eurásia".

No discurso de abertura do BRF, o presidente Xi Jinping disse que a China pretende construir infraestrutura de alta qualidade, sustentável, resistente a riscos, com preço razoável e inclusiva, ajudando os países a utilizar plenamente a riqueza de seus recursos. Ele falou em “crescimento de alta qualidade para todos”. Disse também que a Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” precisa ser ecológica e sustentável. Os países que compõem a Organização de Cooperação de Shangai - OCS também devem se beneficiar da integração da infraestrutura propiciada pela Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”.

No encerramento do 2º Fórum “Belt and Road” o presidente Xi Jinping adotou um tom conciliador dizendo que a Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” deve ser compartilhada pelo mundo, promovendo um desenvolvimento de qualidade. Ele disse: “Todos os países interessados são bem-vindos a se unirem a nós”. O líder chinês destacou que as empresas participantes de um evento corporativo realizado como parte do fórum alcançaram mais de US$ 64 bilhões em acordos e os países alcançaram “283 resultados”, incluindo acordos de cooperação intergovernamental e “projetos de cooperação prática”.

Entre os ausentes ao 2º BRF estava, evidentemente, os EUA, mas também não houve a presença do primeiro-ministro Narendra Modi, que está em campanha eleitoral até meados de maio. A Índia mantém diversas restrições à Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”, especialmente em decorrência das críticas que faz ao corredor que liga a cidade chinesa de Xinjiang ao porto Gwadar no Paquistão, passando pela região da Caxemira, onde existe uma disputa territorial entre os dois países.

Acima de tudo, os críticos dizem que a China promove uma “diplomacia da dívida” e que os impactos ambientais não estão sendo devidamente considerados. Há muitas narrativas críticas centradas na "armadilha da dívida", no "perigo amarelo" e no "colonialismo chinês". No Brasil, existe oposição à proposta do “corredor bioceânico” — que visa interligar os litorais do Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico no Cone Sul da América do Sul.

IHU On-Line – Quais os avanços do plano Made in China 2025? Quais os riscos?

José Eustáquio Diniz Alves – O plano “Made in China 2025” faz parte de um novo posicionamento afirmativo da China no processo de liderança científica e tecnológica global. O país pretende encabeçar a 4ª Revolução Industrial em todas as frentes mais promissoras e lucrativas das novas fronteiras produtivas. A China se tornou a fábrica do mundo e, em quatro décadas, implantou, simultaneamente, as três Revoluções Industriais que o Ocidente promoveu em 250 anos. O que a China conseguiu em 40 anos sob a liderança do partido comunista chinês (PCC) já assusta os EUA e aumenta os conflitos comerciais, pois o saldo comercial chinês, a despeito de todas as medidas protecionistas de Donald Trump, ultrapassou os US$ 400 bilhões em 2018.

Mas Pequim não quer mais ser conhecida por seus produtos simples e baratos, sua produção em massa, com base em uma ampla oferta de mão de obra de baixo custo. A China passa por grandes mudanças demográficas e já possui uma população em idade ativa em decrescimento e quer subir na cadeia de valor, saindo da industrialização com base na quantidade, para a fabricação de alta qualidade e de alto valor agregado. Desta forma, a China se prepara para se tornar uma potência mundial na tecnologia do futuro. O plano “Made in China 2025” foi lançado em 2015, buscando promover um “upgrade” em sua estrutura produtiva. A meta é avançar em indústrias de alta tecnologia, focando em 10 setores-chave, que incluem o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos e microchips, máquinas agrícolas, novos materiais, energias renováveis e carros elétricos, ferramentas de controle numérico e robótica, tecnologia de informação, tecnologia aeroespacial, equipamentos ferroviários, equipamentos de engenharia oceânica e navios de última geração e dispositivos médicos avançados, tudo isto, para reduzir a dependência da tecnologia estrangeira e para consolidar a presença chinesa no topo da liderança internacional.

 

A prisão da executiva Meng Wanzhou, CFO da companhia Huawei, segunda maior produtora de celulares do mundo e grande produtora de equipamentos de telecomunicações (com ligações estreitas com as forças armadas), é não só mais um capítulo da guerra comercial entre China e EUA, mas representa uma disputa pela liderança da implantação da infraestrutura para a rede de internet móvel 5G, a Internet das coisas - IoT, Inteligência Artificial, computação quântica etc. Wanzhou é filha do fundador da companhia e também vice-presidente do conselho consultivo da empresa. Mas, a despeito das tarifas e de prisões, com certeza Pequim não irá desistir de seus planos de se tornar uma potência industrial e tecnológica dominante simplesmente para agradar Washington. O Partido Comunista Chinês (na véspera do seu centenário, em 2021) vê a estratégia como essencial para garantir que o país continue se desenvolvendo e volte a ocupar o lugar de destaque que teve no passado. Todavia, as metas agressivas do plano de dominar as cadeias de suprimento para setores inteiros alimentaram preocupações entre empresas estrangeiras, que temem perder terreno em favor de empresas chinesas.

Os governos veem uma potencial ameaça à segurança nacional. De fato, diversas empresas chinesas de tecnologia chegaram à lista das maiores companhias globais em valor de mercado, como as três grandes, Baidu, Alibaba e Tencent, conhecidas como BAT, que são a versão asiática do trio Google, Amazon e Facebook - GAF. Há também as gigantes eletrônicas Xiaomi e Didi Chuxing, que em pouco tempo conquistaram o mundo e ajudaram a fixar a bandeira chinesa em nível global. Em 2015, pela primeira vez, a China investiu mais no exterior do que empresas estrangeiras aplicaram no país. A china consegue manter seu enorme mercado interno sob controle ao mesmo tempo que apresenta um apetite insaciável de conquistar espaço ao redor do mundo, enquanto o governo reforça sua projeção internacional e mantém forte controle interno sobre as ideias e qualquer proposta contrária às diretivas do PCC. O sucesso chinês aumenta as tensões globais, pois os EUA e a Europa receiam que a China, com regime autoritário e pouco transparente, seja a líder da Revolução 4.0.

IHU On-Line – Qual a preocupação do projeto de desenvolvimento chinês com o meio ambiente? Em que medida se destaca perante as economias Ocidentais, sobretudo dos EUA?

José Eustáquio Diniz Alves – A China tem contribuído para a transição da matriz energética baseada em combustíveis fósseis para as energias renováveis e do motor de combustão interna para os veículos elétricos. Isto é positivo. Mas o volume da economia chinesa cresceu tanto que o país se tornou o maior emissor de gases de efeito estufa e possui a maior pegada ecológica total do planeta.

As estradas e rodovias, não importa se localizadas no Ocidente ou no Oriente, são as mais onipresentes de todas as infraestruturas e, em geral, abrem uma caixa de Pandora de problemas ambientais, como deflorestação, fragmentação de habitats, incêndios e mineração ilegal. A expansão da infraestrutura pode ser boa para o crescimento econômico e a redução da pobreza, mas é um fator direto da interrupção ambiental, especialmente nos países em desenvolvimento, onde cerca de nove décimos de todos os novos projetos de infraestrutura estão planejados ou em execução.

Segundo o pesquisador William Laurance (10/07/2018), de todas as nações, a China é de longe o maior impulsionador de grandes projetos de infraestrutura e extração de recursos e, consequentemente, de destruição ambiental relacionada. A China está alavancando seus projetos e atraindo investidores de todo o mundo. O autor mostra que mais de 80 nações se tornaram membros do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, liderado pela China. Os países membros estão dispostos a lucrar com a infraestrutura, enquanto ganham maior acesso aos enormes mercados domésticos da China. Laurence diz: “Mas há muitas razões para desconfiar das políticas e intenções da China. Apesar de uma chuva de documentos prometendo que a Iniciativa ‘Um Cinturão, Uma Rota’ será ambientalmente responsável, há um debate acalorado em Pequim sobre suas salvaguardas ecológicas, de acordo com pessoas de dentro. Grandes corporações chinesas (com ambições internacionais e bens que os tribunais no exterior podem confiscar) querem diretrizes claras para minimizar sua responsabilidade. As empresas menores, que são muitas, querem os padrões mais fracos possíveis”.

Evidentemente, do ponto de vista ambiental, é melhor a China consumir o gás natural da Sibéria ou do Tajiquistão do que queimar o petróleo que compra de regiões mais distantes como o Oriente Médio ou a Nigéria. Neste sentido, os gasodutos da BRI contribuem para minorar as emissões de gases de efeito estufa geradas no transporte e no uso do petróleo. Mas, como mostra o “Paradoxo de Jevons”, o uso mais eficiente dos combustíveis fósseis pode melhorar a eficiência microeconômica, mas, em geral, aumenta a demanda agregada. O crescimento da economia da China e da Eurásia deve elevar, ao invés de reduzir, o uso total de energia e de extração indiscriminada de recursos naturais. O aumento da degradação ambiental parece ser inevitável.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

José Eustáquio Diniz Alves – Sim. O mundo está passando pela maior transformação econômica dos últimos 250 anos. A hegemonia Ocidental adquirida a partir do início da Revolução Industrial e Energética está sendo substituída pela nova liderança Oriental, representada pela ascensão da China e da Ásia. A Ocidentalização está sendo substituída pela Orientalização do mundo. Para as próximas décadas existem dois perigos que podem impactar o mundo tal como o conhecemos.

O primeiro é a “Armadilha de Tucídides”, que se refere a um padrão mortal de estresse estrutural que resulta quando um poder crescente desafia um poder governante hegemônico. Segundo Graham Allison, no livro “Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?”, existe a possibilidade de uma Guerra entre os EUA e a China, assim como aconteceu na Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta. Nos últimos 500 anos, a disputa pela hegemonia global ou regional ocorreu dezesseis vezes. A guerra estourou em doze deles. Pode acontecer no século XXI com EUA e China (duas potências militares e nucleares).

O outro grande perigo decorre das mudanças climáticas, da perda de biodiversidade e do aumento da Pegada Ecológica. A China tem investido muito em energias renováveis, em veículos elétricos e em transporte coletivo, como os trens de alta velocidade. Todavia, tem aumentado a extração mineral, ampliado a exploração de recursos naturais em todo o mundo e elevado as emissões de CO2 de forma insustentável, embora tenha assinado o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ODS da ONU. O livro do jornalista David Wallace-Wells — “The Uninhabitable Earth: Life After Warming” (2019) — mostra que o aquecimento global, a acidificação dos solos, águas e oceanos, a precarização dos ecossistemas e os desastres climáticos extremos (secas, chuvas, furacões e inundações de grandes proporções) pode tornar a Terra inabitável. Neste cenário, um colapso ambiental poderá tragar o Ocidente e o Oriente, resolvendo, pela via da aniquilação total, os conflitos Leste versus Oeste e Norte versus Sul.

A adolescente sueca Greta Thunberg (que foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz) disse: “Precisamos urgentemente de uma visão holística para lidar com a crise de sustentabilidade total e o desastre ecológico em curso”. Ela tem toda a razão, pois a degradação ecológica extrema poderá levar ao colapso econômico, social e civilizacional.

 

Referências:

ALVES, JED. Brasil e África do Sul são coadjuvantes no grupo B-RIC-S e na nova ordem mundial, Ecodebate, 25/07/2018. Disponível aqui.

ALVES, JED. O “quadrante mágico” (RICI) que desafia os EUA e o Ocidente, Ecodebate, 20/03/2019. Disponível aqui.

ALVES, JED. A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, Patricia Fachin, 21 Junho 2018. Disponível aqui.

Revista IHU, nº 528, Ano XVIII. Disponível aqui

Graham Allison. Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?, 2017. Disponível aqui.

David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth: Life After Warming, 2019. Disponível aqui

Xinhua. 2nd Belt and Road Forum for International Cooperation, April 2019. Disponível aqui.

William Laurance. Is the Global Era of Massive Infrastructure Projects Coming to an End? Yale360, 10/07/2018. Disponível aqui

 

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