O sucesso da estratégia de desenvolvimento dos Tigres Asiáticos. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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28 Fevereiro 2019

"Indubitavelmente, os Tigres Asiáticos realizaram conquistas econômicas e sociais de grande monta e superaram, não só o Brasil e a América Latina, mas superaram também a Europa e os Estados Unidos. Os Tigres Asiáticos e, especialmente, Singapura serviram de inspiração e modelo para as reformas de Deng Xiaoping na China, que replicou muitas das medidas adotadas pelos chamados NICs", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 27-02-2019.

Eis o artigo.

A estratégia de desenvolvimento dos Tigres Asiáticos pode ser considerada um caso de sucesso na conquista de melhores condições econômicas e sociais para o conjunto da população e para a soberania nacional. Ao contrário da América Latina e Caribe (ALC) que adotou uma estratégia de “substituição de importações”, o modelo implementado por Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul (os 4 Tigres Asiáticos ou NIC: Newly Industrialized Country) se mostrou mais efetivo e mais vitorioso na conquista de alto padrão de vida para seus habitantes.

O gráfico acima, com base em dados do FMI (em poder de paridade de compra – ppp), mostra que em 1980 a renda per capita dos EUA era de US$ 12,7 mil, da União Europeia (UE) era de US$ 9,1 mil, Singapura de US$ 8,9 mil, Hong Kong de US$ 12,7 mil, ALC de US$ 4,6 mil, Taiwan de US$ 3,5 mil e da Coreia do Sul de somente US$ 2,2 mil. A média da renda per capita dos 4 Tigres era de US$ 3,5 mil. Portanto, os Tigres Asiáticos tinham, na média, renda per capita abaixo da renda da ALC e bem abaixo da renda per capita dos EUA e da União Europeia.

Contudo, a situação mudou muito em quatro décadas. Os dados do FMI para 2020 indicam que Singapura com renda per capita de US$ 105,8 mil e Hong Kong com renda de US$ 70,4 mil já ultrapassaram a renda per capita dos EUA (US$ 66,6 mil) e da União Europeia (US$ 46,5 mil). Taiwan (US$ 56,5 mil) atingiu renda pouco abaixo dos EUA e acima da UE. A Coreia do Sul (US$ 45,3 mil) ainda tem renda abaixo daquela dos EUA, mas aproximadamente igual da UE. Já a ALC que estava à frente de Taiwan e Coreia do Sul, atualmente mantém uma distância bastante significativa, mostrando que as opções adotadas pela região não deram resultados positivos. Em 2020, a renda per capita média dos 4 Tigres Asiáticos deve ficar em US$ 54,3 mil contra apenas US$ 17,6 mil da ALC (e um valor ainda menor para a renda per capita do Brasil)

Entre 1980 e 2020, a renda per capita, a preços correntes, se multiplicou por 20,7 vezes na Coreia do Sul, 16,3 vezes em Taiwan, 12 vezes em Singapura e 10,4 vezes em Hong Kong. Os 4 Tigres em conjunto tiveram um aumento de 17,2 vezes na renda per capita. Já os EUA tiveram um aumento de 5,3 vezes e a União Europeia de 5,1 vezes. O pior desempenho foi da ALC com aumento de somente 3,8 vezes no período. O desempenho do Brasil foi muito parecido com a média da ALC, mas o aumento da renda entre 1980 a 2020 foi de 3,6 vezes, um pouco pior do que a média da região.

O desempenho positivo dos Tigres Asiáticos não se limitou ao lado econômico. Em termos demográficos as conquistas foram ainda maiores. A mortalidade infantil, no quinquênio 1950-55, era de 142 por mil no mundo, 136 por mil no Brasil, 138 por mil na Coreia do Sul, 79 por mil em Taiwan, 72 por mil na Europa, 62 por mil em Hong Kong, 61 por mil em Singapura e 30 por mil nos EUA. Ainda em 1950-55, a esperança de vida ao nascer (Eo) era de 47 anos no mundo, 48 anos na Coreia do Sul, 50,8 anos no Brasil, 58,2 anos em Taiwan, 60,2 anos em Singapura, 63,2 anos em Hong Kong, 63,7 anos na Europa e 78,7 anos nos EUA. Portanto, a Europa e os EUA tinham indicadores demográficos melhores do que os Tigres Asiáticos e muito melhores do que o Brasil e o mundo.

Mas no quinquênio 1970-75, conforme mostra o gráfico abaixo, com base em dados da Divisão de População da ONU, os Tigres Asiáticos já tinha mortalidade infantil (entre 15 e 25 por mil) e esperança de vida ao nascer (em torno de 70 anos) próximos dos EUA e da Europa, enquanto o Brasil e a média mundial ainda tinha mortalidade infantil acima de 90 por mil e esperança de vida ao nascer na casa dos 60 anos.

Entre o quinquênio 1970-75 e 2015-20 o salto dos Tigres Asiáticos foi impressionante, especialmente da Coreia do Sul que passou Taiwan, Europa e os EUA tanto nos indicadores de mortalidade infantil quando de esperança de vida. A mortalidade infantil de Hong Kong é a menor do mundo com apenas 1 morte em mil nascimentos. Singapura e Coreia do Sul somente 2 mortes por mil. Taiwan e Europa 4 mortes por mil. EUA 5 por mil. Brasil 13 por mil e o mundo 31 por mil.

Em termos de esperança de vida ao nascer, no quinquênio 2015-20, Hong Kong (com 84,2 anos) é a campeã mundial em longevidade. Os outros Tigres possuem esperança de vida ao nascer entre 80,2 e 83,3 anos, enquanto a Europa e os EUA ficam entre 78 e 79 anos. O Brasil com 75,8 anos e o mundo com 72 anos.

Indubitavelmente, os Tigres Asiáticos realizaram conquistas econômicas e sociais de grande monta e superaram, não só o Brasil e a América Latina, mas superaram também a Europa e os Estados Unidos. Os Tigres Asiáticos e, especialmente, Singapura serviram de inspiração e modelo para as reformas de Deng Xiaoping na China, que replicou muitas das medidas adotadas pelos chamados NICs.

Todavia, o modelo adotado pelos Tigres Asiáticos foi motivo de muita crítica por parte da esquerda da América Latina e dos teóricos da dependência na década de 1970 e início da década de 1980. Os críticos diziam mais ou menos o seguinte: “O modelo adotado pelos Tigres Asiáticos não passa de uma plataforma de exportação a serviço das grandes multinacionais ocidentais. Os lucros obtidos pelas indústrias nesses países ocorrem, principalmente, em virtude do exército industrial de reserva, ou seja, grande quantidade de mão de obra barata disponível no mercado, sendo que esse processo ocasiona a desvalorização dos salários pagos pelos detentores do meio de produção. Esse fato é acompanhado por leis trabalhistas frágeis e pouco atuantes, outros fatores que contribuíram para o elevado crescimento foram os incentivos tributários e os baixos custos para a instalação de empresas oriundas de capitais externos aumentando a dependência. A superexploração da mão-de-obra condena estes países ao atraso e ao subdesenvolvimento”.

Porém, a realidade mostrou que os Tigres Asiáticos venceram e superaram não só os países subdesenvolvidos, mas até a maioria dos países desenvolvidos. Os críticos estavam errados e mostraram que não estavam entendendo o que acontecia no leste asiático. O Brasil e a ALC ficaram totalmente atrasados em relação aos Tigres Asiáticos em termos econômicos, demográficos, sociais, de segurança pública e de soberania nacional.

Evidentemente, o sucesso no desenvolvimento humano traz prejuízos no plano ambiental. Mas, por exemplo, Hong Kong e Singapura – que são cidades-estados – possuem indicadores ambientais melhores do que outras cidades do mesmo porte.

De maneira pioneira, há também autores que perceberam as potencialidades do modelo dos NICs e os equívocos do modelo de “substituição de importações”. Fajnzylber (1981) foi um dos economistas pioneiros na percepção das vantagens do modelo adotado pelos Tigres Asiáticos. Outros autores como John Page (1994) e André Nassif (2005) também foram além do simplismo das análises latino-americanas que defendiam o modelo de “substituição de importações”. De modo sintético, podemos resumir os principais pontos que possibilitaram o sucesso dos Tigres Asiáticos:

1) Modelo de crescimento liderado pelas exportações: isto possibilita que a estrutura produtiva consiga uma competitividade externa e interna e que o país possa evitar crises cambiais, pois tem capacidade de geração de divisas;

2) Manutenção de altas taxas de investimento que permitem a renovação e a atualização permanente da estrutura produtiva, de infraestrutura, ao mesmo tempo que eleva a complexidade e a produtividade geral da economia, o que favorece o aumento dos lucros e dos salários;

3) Manutenção de altas taxas de poupança, garantindo os recursos nacionais para manter as altas taxas de investimento e a formação de capital nacional e a capitalização das famílias;

4) Em termos demográficos avançaram rapidamente na transição demográfica (reduzindo as taxas de mortalidade e natalidade) e puderam colher o bônus demográfico em decorrência de uma estrutura etária favorável;

5) Investimento na universalização da educação e na qualidade do ensino, permitindo a formação de capital humano e um grande avanço da ciência e tecnologia;

6) Investimento no pleno emprego e no trabalho decente, aproveitando todo o potencial produtivo da força de trabalho e mantendo o desemprego e o subemprego em níveis baixos, além de baixos níveis de violência;

7) Criação de políticas visando combater as desigualdades sociais e garantindo um baixo índice de Gini de desigualdade de renda. Forte presença do Estado nas políticas públicas, mas sem sufocar a livre iniciativa e a eficiência alocativa do mercado;

8) Estabilidade econômica, com inflação sob controle, baixas taxas de juros, câmbio competitivo e facilidade na organização empresarial, além de sinergia entre as diversas forças do sistema produtivo

Referências:

Fernando Fajnzylber. “Reflexiones sobre la industrialización exportadora del Sudeste Asiático”, REVISTA DE LA CEPAL N.° 15 / Diciembre de 1981

John Page. The East Asian Miracle: Four Lessons for Development Policy. NBER, Jan 1994

André Nassif. Estratégias de Desenvolvimento em Países de Industrialização Retardatária: Modelos Teóricos, a Experiência do Leste Asiático e Lições para o Brasil, Revista do BNDES, Rio de Janeiro, V. 12, N. 23, P. 135-176, Jun. 2005

 

Nota da IHU On-Line

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