A direção inversa da economia brasileira. Entrevista especial com Leandro Horie

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12 Dezembro 2012

Os fatores que favoreceram o crescimento da economia e do emprego “não são mais suficientes para que este processo prossiga. A continuidade do processo, assim como sua sustentabilidade, exige maior participação do setor industrial, inverso do que vem sendo observado”, constata o economista.

Confira a entrevista.


O crescimento econômico, que trouxe a estabilização da inflação e o aumento do emprego, por outro lado “nos colocou em uma ‘camisa de força’”, diz o economista Leandro Horie à IHU On-Line, ao analisar a situação da economia brasileira. Ele refere-se aos limites da “sustentabilidade do crescimento econômico a partir de um maior dinamismo da indústria, seus encadeamentos setoriais e os efeitos positivos de seu investimento”. Para ele, “esta faceta” é constatada ao observar os resultados da economia neste ano, que, mesmo com estímulo, “não consegue melhores resultados”.

Na avaliação de Horie, o baixo progresso técnico da indústria brasileira está comprometendo o crescimento econômico, porque é o “único setor que tem possibilidade de crescer dentro dele mesmo”. O atual desempenho da indústria é justificado por uma “‘reespecialização regressiva’ e de perda de densidade das cadeias nacionais importante”, apesar de este ser um movimento que se “arrasta” desde os anos 1980.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o economista também avalia a ascensão da baixa classe média, e diz que ela está relacionada à “criação de postos de trabalho de ocupações ‘típicas’ deste estrato como escriturários, vendedores, secretárias, técnicos de nível médio, trabalhadores na produção de bens, funcionários públicos sem nível superior, entre outros”. Apesar de esta política ter favorecido a distribuição de renda, “os ocupados que ascenderam socialmente para a ‘baixa classe média’ teriam atingido seu cume social neste contexto. A mesma dinâmica econômica que promoveu um contingente considerável de trabalhadores ‘miseráveis’ para a ‘baixa classe média’ pode, por outro lado, impedir que continuem ‘escalando’ a pirâmide social”, avalia.

Leandro Horie (foto abaixo) é mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, com a dissertação Política econômica. Dinâmica setorial e a questão ocupacional no Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O processo de distribuição de renda está ameaçado? Por quê? O que isso significa? A forma de distribuir renda no país é sustentável?

Leandro Horie
– Estamos diante de um momento fundamental. Antes de tudo, existem dois conceitos importantes neste sentido que não podem ser desprezados: um é a melhora da distribuição de renda propriamente dita, ou seja, quando aumenta a proporção da renda dos mais pobres em detrimento dos mais ricos; outro é o caminho pelo qual isso pode ocorrer, através de um movimento de ascensão social proporcionado por um aumento da renda do trabalho, por exemplo. Já ocorreu um movimento de ascensão social muito forte no Brasil, notadamente na década de 1970, mas ao mesmo tempo houve uma piora na distribuição da renda nacional. São movimentos contraditórios? De forma alguma, presume-se apenas que, quando analisado em conjunto, o ideal seria que os dois ocorressem em conjunto para esta melhora. Por isso o movimento recente de ascensão social e melhora na distribuição de renda foram muito expressivos, mesmo que se leve em conta que as pessoas realmente “ricas” são subestimadas por completa insuficiência de bases de dados, o que pode prejudicar um pouco a análise.

Colocadas essas questões, o aumento no nível de crescimento econômico e da geração de postos de trabalho, as políticas de renda e, principalmente, a valorização do salário mínimo foram fundamentais para a melhora da distribuição de renda nos últimos anos. Ela acabou por gerar maior dinamismo no mercado consumidor interno e assim favoreceu mais o crescimento econômico. A valorização do salário mínimo teve papel importante por se tratar de um salário de referência para muitos tipos de ocupações, dentre as quais boa parte nos serviços e no comércio (dois dos setores que sustentaram este aumento na geração de postos de trabalho). O emprego industrial teve também crescimento devido ao fato de que o aumento no consumo interno favoreceu as atividades direcionadas a este mercado.

No geral, o que se observou é que os trabalhadores da base da pirâmide ocupacional observaram crescimento na sua renda superior aos demais, o que proporcionou um movimento dinâmico “positivo”, onde houve aumento na proporção da renda dos mais pobres em relação ao total e um movimento de ascensão social.

“Camisa de força”

No entanto, este crescimento econômico e do mercado de trabalho se deu sem grandes modificações na condução do regime macroeconômico oriundo desde a década de 1990. Se por um lado ele proporcionou o fim da inflação, o que é positivo, por outro nos colocou em uma “camisa de força” justamente porque ele limita as possibilidades de maior sustentabilidade do crescimento econômico a partir de um maior dinamismo da indústria, seus encadeamentos setoriais e os efeitos positivos de seu investimento. Inclusive esta faceta está clara no período a partir de 2011, onde a economia brasileira, mesmo com estímulos, não consegue melhores resultados.

Do ponto de vista do processo de distribuição de renda juntamente com ascensão social (como ocorrido no Brasil recentemente), isso acaba por gerar impactos já que ele se deu vinculado ao mercado de trabalho. Havia “espaço” para que a incorporação dos trabalhadores promovesse melhora na renda dos mais pobres e ascensão social, que foi potencializada pelo papel do salário mínimo. Porém, o problema agora reside no fato de que um prosseguimento do processo de melhora da distribuição de renda, juntamente com ascensão social, pode num primeiro momento ficar “travado”, podendo, caso persista uma inflexão negativa na economia brasileira, sofrer uma reversão. Ficará “travado” porque a melhora ocorrida até agora se deu pela incorporação ao mercado de trabalho e ao salário mínimo. Preenchido estes espaços, passa a haver necessidade de que, para melhora da distribuição de renda juntamente com ascensão social, haja aumentos salariais consistentes e melhora no perfil ocupacional, ou seja, o aumento na geração de postos de trabalho de maiores salários que presumem maior conhecimento, especialização ou qualificação, por exemplo.

É aí onde pode se localizar o problema atual: tanto um aumento nos salários da economia como um aumento na geração de postos de trabalho de maiores salários depende do crescimento econômico e que haja maior complexidade na estrutura produtiva, que por sua vez gera maior sustentabilidade ao ciclo econômico. E estes dois aspectos estão diretamente ligados ao papel da indústria brasileira: se ela está se enfraquecendo, todo seu encadeamento produtivo também diminui, e da mesma forma as possibilidades de maior sustentabilidade do crescimento econômico. Do ponto de vista da discussão sobre distribuição de renda e ascensão social, os efeitos são, além de menor crescimento econômico, a definição do perfil de postos de trabalho em direção a menores salários, já que uma economia com uma estrutura produtiva mais pobre também demanda menos serviços especializados, técnicos, entre outros postos de trabalho de maiores salários. Com isso acaba somente sendo gerados postos de trabalho de menores salários, assim como aqueles de alta rotatividade, notadamente no comércio, na construção civil e numa infinidade de serviços pessoais.

Portanto, respondendo à sua pergunta de forma sintética: sim, a prosseguir este cenário de estagnação econômica e diminuição da densidade tecnológica e da densidade das cadeias produtivas nacionais, o processo de melhora da distribuição de renda e de ascensão social está ameaçado. Além disso, os fatores que favoreceram esta melhora não são mais suficientes para que este processo prossiga. Então, a continuidade do processo, assim como sua sustentabilidade, exige maior participação do setor industrial, inverso do que vem sendo observado. Seria uma nova etapa; e, sem uma estrutura produtiva mais complexa que a atual, não há sustentabilidade.

IHU On-Line – Em que medida o baixo desempenho da indústria nacional também contribui para esse processo?

Leandro Horie
– Contribui porque impede uma maior diversificação produtiva. Com isso a sustentabilidade do processo de crescimento econômico é severamente comprometido. Há de se salientar que, além de ser o único setor econômico que tem possibilidade de crescer dentro dele mesmo, como uma resposta a um aumento na competição, por exemplo (em lugar de ser muitas vezes uma resposta ao crescimento da renda corrente, como é o caso do comércio e dos serviços, o que lhe dá um perfil passivo), ele possui fortes encadeamentos setoriais, o que aumenta a complexidade produtiva e favorece o aumento da renda corrente. Então, quanto mais ocorre o processo de aumento de diversificação produtiva, de densidade tecnológica e de crescimento das cadeias nacionais, mais a economia se torna complexa, competitiva e de maior produtividade, o que demanda mais atividades especializadas (de maiores salários), eleva a taxa salarial geral e mantém a economia mais “imune” a flutuações típicas da economia mundial. E o baixo desempenho do setor industrial no país o coloca cada vez mais na direção inversa.

IHU On-Line – Quais as razões do baixo desempenho da indústria brasileira? Também compartilha da visão de que o Brasil está se desindustrializando?

Leandro Horie
– São duas questões que têm carregado considerável contestação nos debates econômicos recentes. Pessoalmente, acredito que sim: a indústria brasileira tem observado uma “reespecialização regressiva” e de perda de densidade das cadeias nacionais importante. Mas há de se destacar que este movimento não é novo: a meu ver, este é um processo que vem se arrastando, em intensidades diversas, desde meados da década de 1980 e principalmente na de 1990, em contraposição ao fato de que, no final dos anos de 1970, a indústria brasileira era alinhada tecnologicamente aos países centrais. E esta regressão tecnológica e desadensamento das cadeias produtivas poderá significar, se não houver reversão, em uma “desindustrialização” do país.

A desindustrialização em si não é necessariamente um processo ruim, mas existem dois tipos: a positiva, decorrente da transferência de atividades de menor valor adicionado ao exterior (permanecendo no país as atividades de maior valor adicionado), processo típico de países de industrialização madura (com alta produtividade) e alta renda per capita, que estimula o crescimento do setor de serviços, em especial os produtivos. Outra forma, negativa, ocorre onde a indústria não atingiu sua maturidade em seu desenvolvimento, passando a haver uma desindustrialização precoce, com a diminuição da participação da indústria na economia, na geração de empregos, além do crescimento do déficit comercial do setor. O caso brasileiro, em minha opinião, é o negativo.

Partindo-se do pressuposto de que este processo vem ocorrendo desde a década de 1980, elenco alguns elementos que, interagindo entre si, acabaram por colocar o setor na atual situação. Na década de 1980, talvez os principais problemas tenham sido a ausência de crescimento econômico aliado ao aumento da inflação, que significaram diminuição gradual das taxas de investimento da economia. E isso se tornou sério a partir do momento em que se consolidava um novo padrão produtivo (da tecnologia de informação e microeletrônica) no mundo, o que afastou cada vez mais a indústria brasileira dos novos setores-chave industriais.

Quando se inicia a década de 1990, a abertura econômica do país sem qualquer política explícita de defesa da indústria (a exceção foi o setor automobilístico) expôs um setor cada vez mais defasado nacionalmente em uma competição que, além de incluir os países centrais, agora continha os países asiáticos como a Coreia e a China. Muitas empresas nacionais ou quebraram ou foram compradas por estrangeiros, desnacionalizando cada vez mais o setor industrial. Conjugado a este cenário, surge o Plano Real.

Estabilização

O modelo de estabilização do Real, grosseiramente falando, presumia um câmbio fixo (pelo menos até 1999) ou flexível, mas valorizado, já que a “contaminação” da taxa de câmbio nos índices de inflação era (e ainda é) considerável, sendo que desvalorizações cambiais abruptas, além de indesejadas, devem ser evitadas na medida do possível para não difundir qualquer possibilidade de propagação de inércia inflacionária (se propagar no tempo e nos outros preços) e nem aumentar a indexação da economia. Isso, por sua vez, presume uma taxa de juros mais alta que a praticada pelo mercado internacional justamente para atrair recursos externos de forma a possibilitar a manutenção de uma taxa de câmbio valorizada. Isso teve um efeito positivo nos índices de inflação, mas do ponto de vista da atividade econômica em geral e da indústria especificamente, taxas de juros altas, além de valorizar o câmbio (que barateia os produtos importados e encarece a produção nacional) também desestimula o investimento.

Este é o cenário macroeconômico que vivemos desde então e que não foi modificado em sua essência (apesar de se reconhecer que houve recentemente certa flexibilização), e que, por isso, tem resultado neste cenário complexo para a indústria nacional; sem sua modificação, dificilmente a indústria brasileira reverterá sua tendência de regressão tecnológica e desadensamento das cadeias produtivas. Ou seja, em minha opinião, existem vários fatores para a desestruturação da indústria (e o seu baixo desemprenho atual), mas estruturalmente eles residem principalmente na política macroeconômica praticada (com algumas modificações, mas mantida em sua essência) desde meados da década de 1990. Sem modificá-la, as possibilidades de reversão deste quadro se tornam cada vez mais escassas, caras e de menor efeito na economia.

IHU On-Line – Como o senhor vê a discussão acerca da ascensão de uma nova classe média no país? O que define essa nova classe média? O que é possível vislumbrar e que interpretações faz dessa ascensão econômica?

Leandro Horie
– É importante dizer que as definições de classes sociais são relativamente arbitrárias e carregam relativa subjetividade, ou seja, muitas vezes um critério de estratificação social de um determinado trabalho ou autor não é necessariamente igual a outro. Porém, mesmo levando em conta estas diferenças, quase todas as pesquisas publicadas recentemente indicam que houve de fato um movimento de ascensão social e de melhora na distribuição de renda.

Particularmente, em minha dissertação de mestrado, como estava trabalhando com o universo dos ocupados (e não a população inteira do país), utilizei a estratificação social proposta pelo professor Waldir Quadros, da Unicamp, que considera as ocupações e os rendimentos proporcionados por elas, o que acaba por definir certos agrupamentos ocupacionais em torno dos respectivos estratos sociais. Por exemplo, com esta metodologia, os ocupados em ocupações de trabalhos manuais menos complexos e/ou sem diferenciação, trabalhador instável como “bico”, de menor escolaridade e mais precários do ponto de vista das relações de trabalho são comuns aos “miseráveis”. E as ocupações de empregadores, profissionais liberais, funções de direção e gestão, de maior complexidade, escolaridade e formalização são mais comuns à média classe média e a alta classe média.

Baixa classe média

Nos últimos anos, houve um crescimento expressivo da baixa classe média, justamente porque os vetores econômicos do período favoreceram a criação de postos de trabalho de ocupações típicas deste estrato como escriturários, vendedores, secretárias, técnicos de nível médio, trabalhadores na produção de bens, funcionários públicos sem nível superior, entre outros. Ou seja, ocupações típicas do comércio, serviços não especializados e indústria (que no caso foi predominantemente de baixa intensidade tecnológica). Do ponto de vista econômico, o crescimento desse estrato também foi importante porque promoveu um aumento na demanda interna, elemento fundamental para o dinamismo da economia brasileira no pós-2004.

E quais são os entraves desse fenômeno: a principal é que, em minha opinião, os ocupados que ascenderam socialmente para a baixa classe média teriam atingido seu cume social neste contexto. A mesma dinâmica econômica que promoveu um contingente considerável de trabalhadores “miseráveis” para a baixa classe média pode, por outro lado, impedir que continuem escalando a pirâmide social. A continuação da ascensão social destes ocupados para a média e alta classe média torna-se necessário reconstruir as estruturas ocupacionais (principalmente as intermediárias e superiores), trazendo a indústria de transformação novamente como protagonista da economia e direcionada a atividades de maior intensidade tecnológica, a fim de gerar mais demanda por serviços especializados, promovendo crescimento das cadeias produtivas, dos outros setores pelo efeito multiplicador, e assim aumentando os caminhos ocupacionais rumo a uma maior possibilidade de ascensão social.

IHU On-Line – Em recente declaração, o senhor disse que a geração de emprego se concentrou em ocupações de até dois salários mínimos. O que isso significa e aponta em relação ao futuro no que se refere à melhoria social?

Leandro Horie
– Não se trata aqui somente de uma questão monetária, ou seja, de quanto se recebe, mas sim de que tipo de ocupação. No caso, o problema é menos a renda e mais as possibilidades geradas pela ocupação que proporciona esta renda. Colocado de outra forma, o mercado de trabalho gerou predominantemente postos de trabalho com esse nível salarial porque se tratam de ocupações que são presentes nos setores mais dinâmicos neste período recente, como comércio, serviços, construção e indústria intensiva em trabalho.

O crescimento do emprego (e que promoveram este movimento de ascensão) se deu em ocupações com caminhos ocupacionais restritos (sem maiores possibilidades de ascensão profissional), muitas vezes com estruturação do emprego em ocupações que eram consideradas “porta de entrada” do mercado de trabalho, especialmente no comércio e serviços. Para que haja prosseguimento no movimento de ascensão social destes ocupados, é necessário haver, além da necessidade de adquirir maior qualificação/escolaridade, geração de fato de vagas de perfil de média ou alta classe média. E isso acaba esbarrando, por sua vez, na estrutura produtiva brasileira que, empobrecida, tem gerado número aquém do necessário. Por exemplo, é discurso corrente na imprensa sobre a suposta falta de engenheiros no Brasil. Porém, ao mesmo tempo em que em média se formam 30 mil engenheiros por ano no país, em 2011, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho e Emprego – CAGED-MTE, foram geradas menos de 11 mil novas vagas para engenheiros no mercado de trabalho. É lógico que se pode argumentar que existe muita assimetria na qualidade dos formados e outros fatores qualitativos aí, assim como o fato de parte dos formados ter optado por ser autônomo ou ter mudado de área, estar informal, etc. Mas, independentemente disso, a verdade é que a demanda é muito menor do que aparentemente faz-se crer, e isso é resultado direto deste empobrecimento produtivo, que acaba por demandar menor quantidade de trabalho destes profissionais mais especializados. E esse é só um exemplo e existem muitos outros.

IHU On-Line – O governo Lula recebeu muitos elogios por conta do aumento gradual do salário mínimo. Que avaliação o senhor faz desta política, relacionando com a atual situação do emprego no país? Que desdobramentos é possível vislumbrar para a próxima década?

Leandro Horie
– Entendo que a política de valorização do salário mínimo, negociada com as centrais sindicais, foi muito importante neste cenário de melhora social verificada nos últimos anos, inclusive ocorrendo sem qualquer problema do ponto de vista econômico, ao contrário do que muitos “analistas” pregavam, de que esta política iria gerar vários problemas. Acho que esta medida foi a mais importante tomada pelo governo Lula, pela série de efeitos positivos que gerou na economia.

Acredito também que a política de valorização do salário mínimo, neste contexto de estagnação econômica, tem papel fundamental ao impedir uma maior queda nos salários da economia e manter, mesmo que sem a força de antes, certo nível de demanda interna, que tem impedido que o país piore ainda mais seus indicadores de crescimento econômico, dado cenário de queda dos investimentos, crise internacional e estagnação da indústria. E a política de salário mínimo continua relevante justamente porque impacta diretamente em grande parte das vagas geradas atualmente no mercado de trabalho, que se localiza primordialmente nos serviços e no comércio. O salário mínimo é referência para a maior parte das vagas geradas no mercado de trabalho: quanto maior seu valor, mais impacto ele tem no restante da economia.

Dado que avalio como positiva esta política, espero que ela continue de forma adequada e sustentável, e negociada permanentemente com as centrais sindicais, já que boa parte do movimento de diminuição substancial dos miseráveis do país se deve a ela, ou seja, dado a média salarial no país ainda ser muito baixa (em comparação a outros países como a Coreia do Sul, passíveis de comparação), um aumento no salário mínimo certamente tem impacto positivo na economia como um todo e nos menores salários em particular.

IHU On-Line – Quais as características existentes entre a alta classe média, média classe média, baixa classe média, massa trabalhadora e miseráveis? Qual a disparidade salarial entre elas?

Leandro Horie
– Basicamente, os estratos possuem as seguintes características:

A alta classe média é constituída pela elite dos ocupados, dentre eles os empregadores de empresas com mais de 10 empregados, dirigentes de empresas, vários tipos de profissionais liberais, etc. alta escolaridade (a maior dentre todos os estratos) e formalização.

Na média classe média, o perfil ocupacional é semelhante ao da alta, sendo menor, porém, a quantidade de empregadores e aumenta o peso do trabalho assalariado, principalmente o de “White Collar” ou “Colarinho Branco”.

Na baixa classe média, o estrato com maior crescimento nos últimos anos, há predomínio de ocupações como funções administrativas mais rotineiras, trabalhadores especializados e/ou da manutenção da produção de bens, vendedores, de trabalhadores manuais qualificados, entre outros, como escriturários, funcionários públicos sem nível superior, vendedores no comércio, prestadores de serviços pessoais, entre outros. Aqui existem também empregadores, mas este geralmente de pequenos negócios.

No estrato da massa trabalhadora, há predomínio dos trabalhos em asseio e conservação, trabalhos manuais rotineiros, além de trabalhadores não especializados na produção, como contínuos, trabalhadores no asseio e conservação, etc.

E os miseráveis. Geralmente se constituem de ocupados com trabalhos irregulares, instáveis, “bicos”, ou seja, com alta informalidade e baixa escolaridade (a menor entre todos). Estão relacionados a trabalhadores agrícolas sem propriedade da terra, trabalhadores na agropecuária, ocupados envolvidos em coleta de resíduos (reciclagem), entre outros.

Como o foco são as ocupações e a renda derivada delas, e não somente a renda, as diferenças dos rendimentos entre os estratos são variáveis, já que englobam diversas ocupações. Porém, para o ano de 2009, em média, a alta classe média recebia, grosseiramente falando, aproximadamente 10/12 vezes mais que os miseráveis.

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