Brizola, sua crença na política e a busca por uma ideia de nação

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Por: João Vitor Santos | 11 Setembro 2018

É recorrente, pelo menos mais intensamente no Brasil desde as eleições municipais de 2016, o discurso de que a política está superada e que uma solução para as crises que se vive é a eleição de candidatos que se colocam como alheios a esse campo. Mesmo que isso fosse possível, abrir mão da instância política da vida é sucumbir ao totalitarismo e ao extremismo. Para a historiadora Maria Cláudia Moraes Leite, mesmo diante desses cenários conturbados é preciso resistir e, para ela, Leonel de Moura Brizola é um dos personagens que sintetizam esse espírito de resistência. “Durante minha pesquisa, fui percebendo que ele nunca esqueceu ou se afastou do que acontecia no Brasil. Brizola sempre acreditou na política e isso não se perdeu durante toda sua passagem pelo exílio, por isso sua volta foi tão importante”, destaca.

Maria Cláudia participou do IHU Ideias do último dia 06/09, quando proferiu a palestra A Campanha da Legalidade e Leonel Brizola antes e depois do exílio. Sua ideia foi mostrar as transformações de Brizola depois de toda a experiência da Legalidade e de sua estada forçada longe do Brasil durante o Regime Militar. Porém, o que marcou de sua fala foi a insistência dele em lutar pela construção de uma ideia de nação que acreditava, sempre pela instância política. “Como o Brizola, politicamente só o Brizola. Ele vai para o exílio e, mesmo em Montevidéo vai se envolver em articulações. Depois, em Portugal, também vai estar ligado a uma série de momentos políticos importantes”, destaca. “Sua volta do exílio foi muito importante, pois retoma a disputa política”, acrescenta, ao lembrar que mesmo diante de derrotas eleitorais Brizola não se deu por vencido e tampouco abandonou seu projeto de nação, sempre pautado pelas lógicas do trabalhismo. “Seu grande sonho era refundar o velho PTB”, pontua a historiadora.

Maria Cláudia: "Durante minha pesquisa, fui percebendo que ele nunca esqueceu ou se afastou do que acontecia no Brasil"

(Foto: João Vitor Santos/IHU)

Maria Cláudia abre sua palestra lembrando que Brizola, quando ainda governador do Rio Grande do Sul, eleito em 1959, vai chamar atenção por suas tomadas de posição. “Durante o seu governo no Estado, podemos apontar dois acontecimentos que foram na verdade grandes batalhas enfrentadas por Brizola nos setores da energia e das comunicações. Ainda sob o governo federal de Juscelino Kubitschek, assinou um decreto para encampar a Companhia de Energia Elétrica Riograndense”, destaca. Assim, tomava posse da filial gaúcha da multinacional Bond & Share, subsidiária da American Foreign Power. “A expropriação gerou uma crise entre Brasil e Estados Unidos. Foi nesse período que se consolidou em Brizola uma consciência anti-imperialista”, analisa.

O segundo acontecimento vai na mesma linha, quando decide expropriar a Companhia Riograndense Telefônica, até então filial da Internacional Telephone & Telegraph Corporatiom, a IT & T. Como ocorreu com o setor de energia, essa tomada de controle por parte do Estado do Rio Grande do Sul teve repercussão não só nacional, mas também internacional. “Após a encampação da IT & T, só restou ao governo federal absorver as companhias de telefone e de energia elétrica, o que resultou na criação da Telebras e da Eletrobras”, acrescenta.

Diferente do Estado mínimo, a defesa de um Estado forte

Comparando esse momento histórico com a atualidade, chamam atenção as grandes diferenças. Enquanto se vê na propaganda eleitoral gratuita candidatos bradando que a saída para as crises financeiras é a redução do Estado, a ideia de Estado mínimo, Brizola busca fortalecer o poder estatal. Não é à toa que, mais tarde, esse mesmo estado será capaz de financiar iniciativas pioneiras na educação, outra grande bandeira sempre presente nos projetos brizolistas. “Eu penso que ele esteve certo, pois o Estado precisa cuidar da energia e das comunicações. Não entendo que o Estado deva ser mínimo, cuidando apenas de serviços essenciais”, enfatiza Maria Cláudia.

Brizola morreu em 21 de junho de 2004, aos 82 anos de idade (Foto: PDT/RS)

Entretanto, mesmo naquela época, essa tomada de posição não se dá sem resistências. “A questão das subsidiárias dos serviços públicos passou a ser considerada o centro de uma crise entre Brasil e Estados Unidos e Brizola passou a ser acusado de ser o responsável pelo agravamento da tensão entre os dois países”, recorda. Para a historiadora, mais tarde esse episódio também vai ter conexão com a perseguição à figura de Brizola. “Eu escolhi esses dois acontecimentos sobre a vida de Brizola para destacar e começar a minha fala. Poderia ter escolhido outros, mas opto por eles para demonstrar como suas ações vão chamando atenção e incomodando os Estados Unidos”, avalia.

Da Legalidade ao exílio

Maria Cláudia recorda que é na metade de seu governo à frente do Palácio Piratini que Brizola vai assumir o protagonismo de um momento político que vai ser associado à sua própria identidade. “Leonel Brizola, diante da renúncia de Jânio e da atitude golpista dos ministros que desejavam vetar a posse de João Goulart, deu início em 27 de agosto de 1961 a um movimento de resistência que reuniu diversos setores da sociedade que defendiam a posse de Jango: a Campanha da Legalidade”, destaca. A partir disso, o então governador vai se revelar o exímio orador que comandará uma cadeia de rádios defendendo os princípios legalistas. Além disso, Brizola e o Rio Grande do Sul entram na cena das negociações que trazem Jango ao Brasil e asseguram sua posse.

 

No entanto, nem tudo saiu como esperavam os legalistas. “O papel de Brizola na posse de João Goulart foi de extrema importância. Entretanto, a posse não ocorreu nas condições que o governador do Rio Grande do Sul almejava, tanto que Brizola não foi à posse de Jango em Brasília”, pontua. É o início de um processo de afastamento entre os dois e de outro processo que vai culminar na queda do regime democrático. A essas alturas, Brizola já era um dos deputados mais votados e que fazia críticas a Jango e à estratégia que se anunciava. “Mesmo com toda disposição de Brizola em alistar o maior número de pessoas para sua luta, o golpe já estava em marcha. Em 31 de março [de 1964] João Goulart é deposto e uma junta militar assume o poder”.

Não demorou para que, como destaca a historiadora, Brizola se tornasse “um dos políticos mais procurados pelos militares”. “Como líder político da época, vai buscar o exílio no Uruguai em 2 de maio de 1964, depois de vagar por mais de um mês na clandestinidade. No Uruguai, tinha a esperança de fazer a resistência iniciada ainda na Legalidade”, completa. Assim, o líder vai se estabelecendo e mantendo contato com outros refugiados políticos. “Ele vai se tornar o líder desse grupo e por isso vai se tornar o exilado político mais procurado, até mesmo mais do que o próprio Jango”, acrescenta.

Do Uruguai à Europa, chegando a outros caminhos

Maria Cláudia detalha os passos de Brizola pelo Uruguai, a forma como circula pelo país e como vai se esgueirando da vigilância e controle a que é submetido. Isso até que se envolve numa luta armada, o chamado confronto de Caparaó, que ocorre depois de articular estratégias políticas e militares. Só que muitos fatores levaram à derrota desse grupo, forçando Brizola a adotar outras estratégias. Até porque a perseguição a ele aumenta, inclusive com uma condenação por ter participado do episódio. “Já estamos, também, nas barbas do golpe no Uruguai, no final dos anos 1960, e esse também já não é um local apropriado para Brizola”, destaca.

Numa linha muito mais de articulação, Brizola acaba chegando a Lisboa. Lá, se envolve numa série de movimentações políticas que vão, mais tarde, inspirar a sua volta ao Brasil e a ideia de refundar um outro trabalhismo. “Seu grande sonho na volta ao Brasil, depois da anistia, é refundar o PTB”, recorda. Antes, ao sair do Uruguai, passa pelos Estados Unidos. Num momento de reclusão, se vê forçado a retomar as lutas políticas. “Brizola viu sua rotina mudar bruscamente. Deixou de lado a vida tranquila de fazendeiro e se entregou à vida política, retomada com garra”, destaca, remontando a passagem pelos EUA e, depois, por Lisboa.

 

É que, antes disso, ele havia mergulhado numa fazenda, ainda no Uruguai e depois dos episódios de Caparaó. Depois de 1971, fixa residência em Villa Carmem e se dedica à criação de ovelhas. Cansado das perseguições, a política parecia ser coisa do passado. “Foi um período de calmaria nas atividades políticas. Todavia, foi nesse momento que a ditadura uruguaia, pressionada pela ditadura brasileira, resolveu expulsar Brizola do país, acrescentando mais dramaticidade ao exílio político”, recorda. Porém, mal esperava ele que nos Estados Unidos e em Portugal esse afã político ressurgiria e o traria, anos depois, de volta ao Brasil com ânimos renovados.

Vitórias e derrotas, mas sempre a crença na política

Maria Cláudia destaca que a volta de Brizola do exílio marca um novo momento na política nacional, mas também na vida do líder gaúcho. Em 1982, é eleito governador do Rio de Janeiro e faz um governo de grande destaque. Mas é no Rio que sofre seu primeiro revés político. “Em 1986, não conseguiu eleger seu sucessor, Darcy Ribeiro, derrotado por Moreira Franco, do PMDB, que contou com apoio irrestrito de José Sarney, presidente da República na época”, destaca. Em 1989, Brizola se lança na corrida presidencial e desponta nas intenções de voto. Porém, como recorda a historiadora, “desaba sobre o candidato uma enxurrada de ataques e críticas”. Assim, “isolado pela mídia, Brizola vê seu ciclo de vitórias terminar, pois surge um novo candidato turbinado pela mídia: Lula, o sindicalista”. Para ela, Lula só é “turbinado” porque se imagina que seria mais fácil de ser “abatido” no segundo turno por Fernando Collor de Mello.

Só que Brizola não se dá por vencido e em 1990 vence novamente para o governo do Rio de Janeiro. A diferença é que encontra um estado quebrado e quase sem mobilidade fiscal e política. “Ele vai ter um governo muito complicado, pois, além de todas as dificuldades do estado, vai estar sempre na mira da mídia e do governo Collor”, analisa. No meio de seu governo, em 1994, decide deixar o Rio e se lançar mais uma vez à Presidência. Acaba amargando um quinto lugar. “Fruto da destruição do que foi seu segundo governo no Rio de Janeiro”, acrescenta Maria Cláudia.

 

Já em 1998, vendo seu trabalhismo combalido pelo sindicalismo de Lula, decide se aliar ao antigo rival e compõe a chapa como vice do metalúrgico. Perde novamente, desta vez para o PSDB de Fernando Henrique Cardoso. Em 2000, mais uma derrota. Agora, a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Em 21 de junho de 2004, Brizola morre. “Havia acabado a vida agitada na política que o acompanhou até mesmo no exílio. Leonel Brizola foi alçado à categoria de um nome ligado às lutas pela democracia no Brasil, e a imagem que se escolheu para ser especialmente lembrada foi a de defensor da legalidade institucional”, sintetiza. Para a historiadora, essa volta do exílio é “extremamente importante” porque, apesar das derrotas, reitera a crença de Brizola na política e num projeto de nação.

Maria Cláudia Moraes Leite

Maria Cláudia (Foto: João Vitor Santos/IHU)

Graduada e mestra em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, atualmente faz doutorado na mesma área, também na UFRGS. Seu tema de pesquisa é o exílio no contexto das ditaduras militares do Cone Sul. Atualmente trabalha na Universidade Federal das Ciências da Saúde de Porto Alegre.

 

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