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07 Agosto 2018

Prisão transformou bairro de Curitiba em centro da campanha do PT e principal palanque para Lula, agora oficializado como candidato. Enquanto apoiadores fazem vigília, moradores querem tranquilidade de volta.

A reportagem é de Maurício Frighetto, publicada por Deutsche Welle, 06-08-2018.

Quando foi oficializado candidato a presidente da República pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no sábado (04/08), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpria o 120° dia de prisão em uma cela isolada na superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba. A detenção, após condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato, transformou o bairro Santa Cândida em um dos polos políticos mais importantes do Brasil. De sua cela, Lula coordena a campanha eleitoral, mesmo com a comunicação restrita.

Do lado de fora, desde o primeiro dia, militantes mantêm a "Vigília Lula Livre" para protestar contra o que chamam de prisão política. Todos os dias, cumprem o ritual de dar "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" ao ex-presidente. Em cada turno, os apoiadores gritam a saudação 13 vezes, uma referência ao número do PT.

O ex-presidente recebe lideranças espirituais nas segundas-feiras e as outras visitas nas quintas-feiras. O ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), que foi indicado a vice de Lula neste fim de semana, tornou-se advogado de defesa do ex-presidente para poder ter livre acesso ao local.

A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, foi colocada na mesma condição na sexta-feira, véspera da convenção do partido. "Estamos aqui para dizer que é Lula e não tem plano B. Vamos levar até as últimas consequências", discursou Gleisi a um grupo de apoiadores em um terreno alugado ao lado da PF.

Apesar da obstinação da presidente do partido, já se especula sobre qual será a estratégia do PT, já que o ex-presidente, em tese, deve ser impedido de concorrer à presidência devido à Lei da Ficha Limpa. Assim que sua candidatura for registrada, no dia 15 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral passará a analisar o caso. O PT tem até o dia 17 de setembro para trocar de candidato.

Além de falar por meio de interlocutores, Lula escreve artigos e cartas para jornais, políticos e militantes. Até porque foi proibido pela Justiça de conceder entrevistas. Em suas mensagens, tem reafirmado ser inocente no processo, que aguarda julgamento de recurso no Supremo Tribunal Federal.

"Agora querem fazer uma eleição presidencial de cartas marcadas. Excluir um nome que está à frente na preferência do eleitorado em todas as pesquisas. Já derrubaram uma presidenta eleita. Agora querem vetar o direito do povo de escolher livremente o próximo presidente. Querem inventar uma democracia sem o povo", escreveu, em texto lido na convenção do PT pelo ator Sérgio Mamberti.

A "Vigília Lula Livre" começou com cerca de 2 mil pessoas por dia. Hoje, o número é menor e varia conforme o contexto. No dia 8 de julho, por exemplo, quando o desembargador Rogério Favreto concedeu um habeas corpus em favor de Lula – medida revertida no mesmo dia –, a quantidade de manifestantes cresceu. Atualmente, estima-se que cerca de 100 a 300 pessoas passem diariamente pelas diversas estruturas montadas.

Na última quinta-feira, o local estava animado com a presença de Chico Buarque e Martinho da Vila, dois ícones da música brasileira. Os músicos, no entanto, não falaram com a imprensa nem conversaram com os manifestantes no terreno da vigília, como costuma ocorrer. Em um vídeo divulgado pela assessoria do PT, Chico Buarque disse que o ex-presidente estava bem-humorado, muito firme e "disposto a ir até o fim, mesmo". "Ele disse que não troca a liberdade pela dignidade", completou Martinho.

O ator americano Danny Glover e o ex-presidente do Uruguai José Mujica foram algumas das personalidades que visitaram o ex-presidente. Na quinta-feira, Lula recebeu uma mensagem manuscrita do papa. Dizia: "A Luiz Inácio Lula da Silva com a minha bênção, pedindo-lhe para orar por mim, Francisco".

Além de visitas de políticos, artistas e outras personalidades públicas, a vigília recebe apoiadores das mais diversas regiões do país. Na quarta-feira, a Caravana do Semiárido Contra a Fome, com 100 pessoas, chegou a Curitiba depois de partir de Caetés (PE), cidade natal de Lula para participar do "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" ao ex-presidente.

"Lula é um dos nossos. Ele nasceu no semiárido e conhece nossa realidade. É urgente a liberdade de Lula. E temos esperança porque, como sertanejo, a esperança é o que nos move", diz Helen Santa Rosa, 35 anos, moradora Montes Claros, no semiárido mineiro.

Os integrantes da caravana dormiram na "Casa Lula Livre", uma antiga creche cedida para os manifestantes. Fizeram as refeições no "Ponto de Apoio Marielle Franco", uma casa alugada onde é preparada a comida. Participaram de entrevistas na "Casa da Democracia", espaço dos comunicadores alternativos. Ainda puderam conhecer o "Acampamento Marisa Letícia", localizado em um terreno com barracas, tendas e até horta. Foi ali que o sindicalista Jeferson Lima de Menezes, de 39 anos, levou um tiro de raspão no pescoço de opositores às manifestações. Ele sobreviveu. Tudo é relatado na página "Vigília Lula Livre" no Facebook, com cerca de 11 mil seguidores.

Reação dos moradores

Enquanto as manifestações se desenrolam há quatro meses, os moradores do bairro Santa Cândida querem a tranquilidade de volta. Eles lançaram mão de uma série de iniciativas contra as manifestações pró-Lula. Criaram a página "Desocupa Curitiba", no Facebook, e o canal "Desocupa Santa Cândida", no YouTube. Formaram ainda a Associação dos Moradores do Santa Cândida do Entorno da PF para defender seus direitos. "Os manifestantes invadiram e acamparam em nossas ruas. Conseguimos alguns avanços, mas o problema permanece. Agressões verbais são diárias", relata o presidente da associação, Alisson Ferreira dos Santos, 34 anos.

O caso foi parar na Justiça. Antes mesmo de o ex-presidente chegar à PF, a prefeitura de Curitiba conseguiu uma liminar para evitar acampamentos e passeatas na região. Após idas e vindas foi feito um acordo, no dia 16 de julho, mediado pelo desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná, Fernando Paulino da Silva Wolff. Entre as medidas, está a proibição de manifestações em vias públicas e o limite de horários para o "bom dia" e o "boa noite" ao ex-presidente. O acordo não cita o "boa tarde".

Até então, estas manifestações eram feitas em uma esquina a cerca de 170 metros da PF, batizada de "Praça Olga Benário". Por causa do acordo, a vigília alugou um terreno ao lado da PF. A história costuma ser contada com certo orgulho porque, além de manterem as manifestações, os apoiadores ficaram ainda mais próximos do ex-presidente. "É uma bênção para o Lula ouvir vocês cantando e tocando. Ele está sempre ouvindo", contou a monja budista Coen Roshi, após visitar o ex-presidente em 30 de julho.

Apesar de não haver mais barracas nas ruas, os moradores continuam insatisfeitos. "É um bairro de aposentados e está todo mundo ficando doente. Meu médico aumentou meu remédio. Eles provocam, passam gritando contra a burguesia. O que eu tenho de burguesia?", disse a aposentada Ney Fátima, 59 anos, vizinha do terreno alugado. No dia 30 de julho, a advogada Patrícia de Castro Busatto, representando a associação, fez uma petição ao desembargador acusando o descumprimento do acordo. "Os moradores só querem suas vidas de volta! Ter a liberdade de circular nas ruas sem serem hostilizados, ameaçados, coagidos; poder trabalhar em suas residências com tranquilidade, descansar, receber visitas, realizar encontros familiares sem constrangimentos!", escreveu.

Mas nem todos os moradores são contra a vigília. Regiane do Carmo Santos, 53 anos, disponibilizou, logo no início, seu terreno para manifestantes pró-Lula montarem barracas. Depois, alugou parte da casa, que se tornou o "Ponto de Apoio Marielle Franco", onde são preparadas as refeições. "Fui me envolvendo aos poucos e, hoje, considero que eles são o meu povo. Não foi fácil, porque fui xingada pelos vizinhos. Mas hoje as coisas estão mais calmas", falou. Quando Lula recebeu o habeas corpus e pensava-se que sairia da prisão, a moradora teve um sentimento contraditório: "Tava feliz porque o Lula ia sair e triste porque ficaria sozinha." Neste momento, a impressão é de que nenhuma das duas coisas vai acontecer.

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