Sem Lula na disputa, eleitores estão saindo do jogo, diz pesquisador

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19 Abril 2018

Segundo as pesquisas eleitorais mais recentes, sem o ex-presidente Lula na disputa, os votos brancos e nulos "ganhariam a eleição". Nos seis cenários do levantamento sem o ex-presidente, a porcentagem de votos brancos e nulos varia entre 23% e 24%, o que é maior do que as intenções de voto no candidato em primeiro lugar.

O desinteresse da população pela campanha não é um fenômeno novo, com aponta o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas e cientista político Jairo Pimentel. Em 2016, nas eleições municipais na cidade de São Paulo, votos brancos e nulos superaram os votos que o vencedor, João Dória, recebeu.

A entrevista é publicada por CartaCapital, 19-04-2018.

Para Pimentel, a superexposição dos casos de corrupção pública ligados a governos e partidos políticos tem levado ao conceito da alienação eleitoral, que é a soma dos votos brancos e nulos com as abstenções, e que está associado a fragilidade da saúde da democracia. "Esses dados mostram que a nossa democracia está doente, e as pessoas desconfiadas de seus representantes", afirma.

Para o cientista político, Lula fora da campanha aumenta o desencantamento do eleitorado, e agrava a alienação eleitoral.

Eis a entrevista.

O que o senhor acredita que leva o eleitorado a abrir mão do voto?

Não é de hoje que isso vem acontecendo. Se lembrarmos das últimas eleições municipais, o fenômeno das abstenções e votos nulos e brancos já estava presente. Também na pré-campanha eleitoral em 2016, as pesquisas já apontavam que brancos e nulos superariam todos os outros candidatos. Isso tem a ver com o processo de descrença da população com a classe política, que começou após jornadas de junho de 2013 e que se agravou em 2015 com a Operação Lava Jato, que mostrou os esquemas de corrupção dentro do todos os partidos políticos. Essa descrença com a classe política é o que leva com que as pessoas não referendem nenhum nome.

E essa é um tendência para a campanha deste ano?

Se brancos e nulos já são uma tendência, acredito que a alienação eleitoral, que é soma dos brancos, nulos e as abstenções, com certeza será alta e poderá ser a vencedora de fato. Isso já vivemos nos últimos anos nos grandes centros eleitorais. Em São Paulo especificamente, a alienação eleitoral foi superior aos votos que recebeu o prefeito João Dória. Isso mostra que a saúde da nossa democracia não está boa, que a população está muito desconfiada dos seus representantes no atual momento.

O senhor acredita que ex-presidente Lula, que aglutina uma boa parte do eleitorado, ficará órfã de candidato e que isso desagrega as eleições?

A adesão do eleitorado do Lula às eleições é muito forte, e está claro pelas pesquisas recentes que é um eleitorado sem segunda opção, ou com outras opções fracas, com pouca convicção. Por isso ele saindo do jogo, nenhum candidato ocupa esse espaço de maneira evidente para carregar a grande maioria dos votos do ex-presidente.

Esse cenário ainda pode mudar?

A campanha ainda não começou para efetivamente se saber como poderá ser uma eventual transferência de votos e como seria com o endosso de Lula as outras candidaturas. E ele pode potencialmente ajudar durante a campanha. Já dizia Aristóteles: “a natureza abomina o vaco”. Se o Lula conseguir fazer campanha (saindo da prisão), ele terá presença em ao menos dez dias de campanha na televisão, levando em conta que pela Lei da Ficha Limpa o PT dificilmente leve a campanha até o final, e talvez ai exista uma transferência de voto mais imediata, lembrando que é um candidato que está muito sedimentado nas regiões norte e nordeste e isso fará diferença.

O senhor acredita que a corrupção pública é a ferida aberta que motiva essa alienação eleitoral?

Até 2015, boa parte da população acusava o PT pela crise moral que assolava o país, e atribuía isso ao fato do partido estar a muito no poder, levando em conta os anos Lula e Dilma. A Operação Lava Jato, embora mire muito no PT, destratou essa tese. A manutenção dos casos de corrupção no noticiário após a queda da presidente Dilma, sobretudo de casos ligados ao atual governo de Michel Temer, gerou um desencantamento ainda maior. Mostra que a corrupção é uma coisa sistêmica, suprapartidária, o que gera mais desencantamento numa democracia capenga, e isso vira uma bola de neve para a sociedade.

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