'A prisão de Lula é um ataque a todo o campo progressista'

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10 Abril 2018

O ato em homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que levou milhares de pessoas ao Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, foi surpreendente, avalia a socióloga Esther Solano, professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"Grupos que são abertamente críticos ao PT, anarquistas, jovens, setores que fazem crítica muito duras ao PT e ao Lula estava lá. São setores que sentiram que o ataque do hiperpunitivismo do campo retrógrado não é só contra o Lula como figura, é contra todo o campo progressista, toda a esquerda".

Na entrevista à Tatiana Merlino, publicada por CartaCapital, 09-04-2018, a socióloga preocupa-se, no entanto, com a duração da unidade dos setores progressistas, já que a junção de forças se deu em torno da defesa da democracia, "mas não se concretiza nas questões mais programáticas".

Eis a entrevista.

Qual significado da prisão do Lula para esquerda?

Tem um simbolismo enorme. A prisão do Lula extrapola muito a figura dele. No campo da luta moralista, populista, fomos derrotados por esse campo punitivista, conservador e retrógrado. A decisão do STF em segunda instância deixou claríssimo que num país já muito punitivo, o Supremo opta por mais punitivismo ainda. Esse aparato que existia contra os setores periféricos populares, favelas, periferia, agora está se voltando como uma máquina muito potente contra partidos e movimentos. A prisão de Lula significa que se ele, que é o grande simbolismo da esquerda política, está sendo alvo de tanto punitivismo, todo o campo progressista está sendo atacado. As pessoas que estavam em São Bernardo sentiram que foi um ataque a todos. Elas se sentiram simbolizadas na figura do Lula.

Setores do campo progressista que eram críticos à Lula e ao PT se juntaram nesse momento. Como vê essa unidade?

Foi muito surpreendente. Grupos que são abertamente críticos ao PT, anarquistas, jovens, setores que fazem crítica muito duras ao PT e ao Lula estava lá. São setores que sentiram que o ataque do hiperpunitivismo do campo retrógrado não é só contra o Lula como figura, é contra todo o campo progressista, toda a esquerda. Como um todo. O Lula tem essa capacidade, essa força de fazer essa junção de atores políticos nesse momento. Mas tenho a sensação de que o pleito eleitoral pode dividir de novo os atores, porque as pessoas se juntaram em São Bernardo com uma ideia ampla, abrangente de luta pela democracia, o avanço punitivo, defesa de princípios básicos. Mas quando se trata de pautas concretas, programáticas, aparecem de novo as divergências, a divisão.

Essa unidade da esquerda em torno da prisão do Lula deve durar?

Seria uma grande oportunidade, mas não sei se vai ter durabilidade grande por duas questões: primeiro que essa junção de forças foi muito em torno da defesa da democracia, das grandes ideias, mas não se concretiza nas questões mais programáticas. E depois porque é uma reunião das forças de esquerda que não é horizontal. Então, se não houver uma agenda programática comum da esquerda, não tem como ter essa união mais a longo prazo. No Brasil, as esquerdas são muito assimétricas. Tem o PT, que é uma grande máquina eleitoral e pequenas maquinas, como o PSOL. Então é difícil ter uma estratégia programática com essa assimetria tão grande.

No ato em São Bernardo tinha muita gente jovem, que se tivesse que sair às ruas por pautas específicas, haveria divergências. Porque o PT é acusado pelos movimentos sociais de não ter se posicionado em relação à violência policial, baixou a lei antiterrorista.

No ato antes da prisão de Lula, Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos foram presenças marcantes. Já Ciro Gomes não foi ao ato. É possível ver algum sinal de reorganização da disputa eleitoral?

Achei muito simbólica a forma como Lula protagonizou muito a figura do Boulos e da Manuela. Me pareceu que ele estava passando o bastão, como se fosse uma despedida política. Ele focou muito na juventude, na próxima geração. Me pareceu que a mensagem política foi de defesa de uma certa convergência das esquerdas, acho que isso que ele quis transmitir.

Outra coisa que todos que estavam no ato comentavam é que, assim como Lula deu protagonismo para Manuela e Boulos, ele deu muito menos espaço para figuras do PT, que também são jovens como Fernando Haddad. E a ausência do Ciro Gomes também foi muito comentada. Muito se especulava se ele poderia formar chapa com o PT, mas depois da ausência acho que fica claro que ele está fora do jogo.

Mas acho complicado que haja uma chapa PT/PSOl, porque é difícil que o PT abra mão de ter candidato próprio, porque tem hegemonia enorme na esquerda, é uma máquina partidária muito grande. E o Boulos é um candidato forte, o PSOL é um partido que se desagregou do PT. Para a base é complicado. Na hora das eleições, acho que cada um vai seguir seu caminho.

E em relação à mobilização, é possível fazer paralelo com os atos de 2013?

Não dá, 2013 teve uma confluência de muito mais ideologias nas ruas, fundamentalmente pessoas de classe média, mais conservadoras, com pautas desagregadas, pulverizadas. O ato de apoio à Lula, em São Bernardo, foi muito mais definido por setores progressistas, que se definem na defesa da democracia e com uma pauta definida.

Como vê o momento atual do campo progressista?

Terrível, no fundo a gente perde, fomos derrotados. O ato de São Bernardo foi um momento de união, bem inteligente politicamente, de celebração. Mas vivemos num momento de avanço da direita.

Quais são os desafios que se colocam?

Sair dessa bolha do campo progressista e estabelecer mais diálogo com a população que está sendo acolhida pelos setores conservadores. A esquerda está muito entrincheirada nas suas bolhas, nas universidades. Precisa sair muito mais para a classe média, falar com os evangélicos... Há alguns setores populares que foram ganhados pela direita.

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