Em 'Gaudete et Exsultate' Francisco nos chama para uma caminhada de 'pequena santidade'

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13 Abril 2018

“Parece que os velhos hábitos estão morrendo, particularmente aqueles relativos ao posicionamento padrão de que os Santos estão muito acima de nosso nível, e que nos dá a desculpa para não reivindicarmos a plenitude da vocação à santidade que Lumen Gentium e Gaudete et Exsultate sugerem. "Evitar o pecado" é uma maneira muito mais fácil de viver a vida batismal sem tanto incômodo”, escreve Brian Flanagan, professor associado de teologia na Universidade Marymount em Arlington, Virgínia, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 12-04-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Nas últimas 48 horas surgiu uma abundância de comentários sobre a exortação apostólica do Papa Francisco, Gaudete et Exsultate ("alegrai-vos e exultai), que faz apelo à santidade no mundo de hoje. Isso inclui a minha própria avaliação em dailytheology.org, que tem todos os pontos fortes e os limites de uma resposta escrita com apenas a primeira xícara de café do dia. E, previsivelmente, mais calor do que luz foi produzido pelas partes mais interessantes do texto, onde as palavras de Francisco parecem desafiar algumas suposições de seus fãs e de seus críticos.

Seja com alegria ou desespero, algumas das leituras rápidas têm exagerado sobre suposta descontinuidade entre o Papa Francisco e seus antecessores. A manchete "Francisco contradiz papas anteriores" pode não ser a "língua desprotegida, incendiada pelo inferno" que Gaudete et Exsultate adverte contra, em um parágrafo sobre "violência verbal" na Internet, mas certamente não ajuda a transmitir os horizontes mais amplos do documento. Nem as narrativas simplistas que contrastam Francisco, o "Papa cool [descolado, ndt]", com seus antecessores.

Afinal, há um capítulo inteiro sobre a vida cristã como "uma batalha constante", "uma luta constante contra o diabo", que não deve ser compreendido como "um mito, uma representação, um símbolo, uma figura de linguagem ou uma ideia". Este "Papa cool" continua a ser um bispo católico profundamente tradicional.

No entanto, o fato de que o Papa Francisco sentiu a necessidade de escrever uma carta inteira repropondo um ensinamento proposto apenas 50 anos atrás, no Concílio Vaticano II, sugere que ele pensou que o ensinamento necessita ser reerguido na vida da Igreja; que o ensinamento Lumen Gentium no chamado universal à santidade, é profundamente tradicional e ainda uma das inovações mais poderosas do Concílio para o nosso entendimento da santidade e da Igreja. Como o próprio Concílio, Francisco é mais radical por ser tão tradicional, por voltar às raízes da nossa tradição cristã.

Para muitos católicos, admitir (proclamar?) que "eu não sou Santo" é uma posição padrão, ainda mais em comparação com as mulheres e homens canonizados que nos rodeiam física e verbalmente em nossas igrejas. Estes "santos paradigmáticos" como a Elizabeth Johnson nomeia-os em seu excelente livro Amigos de Deus e Profetas, parecem estar jogando na primeira divisão, enquanto nós batalhamos na ‘divisão de acesso’ espiritual. Tal posição padrão tem raízes de longa data; para grande parte da história pré-Concílio da Igreja, o teólogo Aurelie Hagstrom relata que, enquanto o clero e os devotos foram incentivados a imaginarem-se como chamados a serem Santos, o nível mais alto, a maioria dos leigos foram incentivados a aspirar "evitar o pecado", especialmente os leigos casados.

O Vaticano II mudou isso. Enquanto estava em seus primeiros rascunhos, o material do Capítulo 5 de Lumen Gentium sobre "o chamado universal à santidade" foi escrito para falar sobre a vida religiosa. A versão final declara, contudo, que "é muito claro que todos os cristãos em qualquer estado ou caminho de vida são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição do amor" (40) e que "portanto, todos os fiéis são convidados e compelidos à santidade" (42).

Então, por que Francisco viu a necessidade de "repropor" este ensinamento? Será que existe algo de novo, qualquer desenvolvimento ou crescimento em nossa compreensão do chamado à santidade entre 1964 e 2018?

Primeiramente, parece que os velhos hábitos estão morrendo, particularmente aqueles relativos ao posicionamento padrão de que os Santos estão muito acima de nosso nível, e que nos dá a desculpa para não reivindicarmos a plenitude da vocação à santidade que Lumen Gentium e Gaudete et Exsultate sugerem. "Evitar o pecado" é uma maneira muito mais fácil de viver a vida batismal sem tanto incômodo.

Mas mesmo que o chamado para a santidade tenha sido estendido além do clero e religiosos, o domínio do canonizado, do “santo paradigmático” continuou. As canonizações sem precedentes de João Paulo II de mulheres e homens de todas as línguas, nações e formas de vida, incluindo números significativos de leigos, ajudaram a acostumar muitos católicos a esperar a presença de santidade entre os casados, os solteiros, os não-ordenados e os não-jurados. E ainda estas figuras paradigmáticas pareciam muito acima de nós; eles podem ter compartilhado nossa mesma forma de vida, mas ainda pareciam quase uma espécie diferente de católicos.

É aqui que a invocação de Francisco, "os santos ao lado", parece tão crucial para o nosso crescimento na compreensão do chamado universal à santidade. A carta destaca todas as mulheres e homens anônimos, - o "povo ordinário no tempo ordinário", nas palavras de Elizabeth Johnson, - que vivem vidas de santidade tranquila, e ao fazê-lo desafiam a nossa expectativa de que toda a santidade é tão pública e heroica como a dos santos canonizados. Karl Rahner, ao sugerir que a igreja precisa de santos públicos e visíveis como a prova da verdade do Evangelho, também especula sobre a presença destes santos ocultos e desconhecidos: "muito possivelmente (quem pode dizer?)," ele escreve, a Igreja "não sabe de nada sobre muitas de suas maiores glórias”. E muitas vezes, Johnson lembra-nos, estes “santos ao lado” são resultado da própria humildade, que Deus e não a Igreja sabe os nomes desses homens e mulheres anônimos.

Além disso, Francisco sublinha a realidade da santidade como uma caminhada, como algo experimentado, como uma aventura de mil passos e não como uma realização completa. "Senhor, eu sou um pobre pecador, mas você pode trabalhar o milagre de me fazer um pouco melhor". Ele nos convida a orar, chamando-nos para uma santidade não de heroísmo monumental, mas de pequenos gestos e pequenos detalhes. Mesmo que muitos tenham notado bem os elementos inacianos desta carta, os temas franciscanos do homônimo de Assis ressoa através do texto.

O apelo à santidade que o Papa Francisco repropõe é enraizado na minoritas Franciscana, tornando-se pequeno e abraçando o Deus que se tornou pequeno por nossa causa. Tal "pequena santidade" pode ser encontrada ao lado e cresce em pequenos gestos, como fermento no pão ou uma semente de mostarda no campo. Parece-me ser uma "inovação" radical, o "fazer o novo", do ensino de Francisco.

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