Francisco - “socialmente um pouco franciscano, intelectualmente um pouco dominicano e politicamente um pouco jesuíta”

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12 Setembro 2017

“Você sabe como um argentino se suicida? Ele sobe no seu ego e se atira dali”, disse o Papa Francisco ao sociólogo francês Dominique Wolton. A conversa se dá no contexto da identidade argentina do primeiro papa jesuíta e não europeu da Igreja católica. Na Europa, o papa não percebe o espírito de seus pais fundadores: “não vejo hoje um Schumann ou um Adenauer”, disse. “A Europa, fecha, fecha, fecha”, “mais tentada a dominar espaços do que criar processos de inclusão e transformação”, como disse no ano passado ao receber o Prêmio Carlos Magno no Vaticano. Vê na miséria, na falta de trabalho e na guerra os motivos para tanta migração.

A reportagem é de Rafael Poch, publicada por La Vanguardia, 10-09-2017. A tradução é de André Langer.

“Há falta de trabalho porque foram explorados. Penso na África”, disse. “Não sei se podemos dizer isso! Mas algumas colonizações europeias... sim, exploraram”, aventura. Migração: “Jesus foi um refugiado, um migrante”, “a Europa foi criada pelos lombardos e outros bárbaros”.

Fala da cultura e da identidade europeias dos argentinos em um continente mestiço. “Por isso somos tão orgulhosos”, disse, e solta a piada. E em seguida, outra que lhe diz respeito: “Veja se este papa não é humilde que, mesmo sendo argentino, preferiu chamar-se Francisco e não Jesus II”. “Assim somos nós”, disse Bergoglio, de 80 anos de idade, antes de se lançar à terceira piada: “Sabe qual é o melhor negócio? Comprar um argentino por seu valor e revendê-lo ao preço que ele acredita valer...”.

Muitas risadas e sintonias no livro de 400 páginas (Politique et société), que Wolton acaba de lançar em Paris. Wolton é um especialista em comunicação, leigo, 10 anos mais jovem que o papa e que apresenta a obra como “o primeiro livro do Papa Francisco sobre a sua visão da política e da sociedade”.

Naturalmente, não é a primeira entrevista sobre estes aspectos que o papa dá, mas a mais completa: reúne 12 entrevistas realizadas ao longo de um ano para falar de guerra e paz, religião e política, laicidade, família, moral e costumes. A principal constatação é a de que Bergoglio (nascido em Buenos Aires em 1936) é um papa que fala muito.

“Quando eu era estudante, um velho jesuíta me deu este conselho: ‘Se você quer ascender, deve pensar claramente e falar obscuramente”. “Eu me esforcei no contrário: falar claramente”, disse o Papa. “Eu odeio a hipocrisia. Se não posso dizer alguma coisa, não a digo, mas não faço hipocrisia, que é uma coisa que me tira do sério”, explica.

Um homem acessível e comum, muito sensível à questão social, que disse que “a economia liberal de mercado é uma loucura”, que atribui ao Ocidente a responsabilidade de semear o caos e a guerra no mundo (“nós provocamos o caos. Quem vende as armas? Quem faz a guerra?”), que define seu defeito pessoal como “certa tendência ao fácil e à preguiça”, que disse não ter medo de nada, embora confesse ter medo dos jornalistas: “Quando eu entro no avião com eles tenho a impressão de descer à cova dos leões”. Ele critica a falta de informação como a principal “pedra de tropeço” dos jornalistas de hoje: “eles dizem apenas uma parte das coisas, a que lhes convém; induzem o leitor a juízos errôneos sobre a realidade, porque lhes proporcionam apenas a metade dos fatos”, explica, confessando que deixou de ver televisão na década de 1990.

Ao mesmo tempo, este homem franco e falante mostra-se bastante reservado em temas espinhosos, como sua opinião sobre a Teologia da Libertação (fala apenas “dos pecados destas teologias ideológicas que têm muita ingenuidade”, “o pior pecado é o orgulho, o orgulho dos anjos”, disse), ou sobre os crimes da Igreja.

– Por que a Igreja é mais severa com os católicos de esquerda, os padres operários e a Teologia da Libertação, do que com os católicos de direita, a Fraternidade São Pio X e, muitas vezes, com as ditaduras? – pergunta-lhe Wolton.

– Pode ser porque a esquerda sempre busca novos caminhos, ao contrário de quando se mantém o status quo, quando se pratica a rigidez; isso não constitui uma ameaça, assim permite viver tranquilamente. (...) A Igreja, muitas vezes, se identificou com os fariseus e não com os pecadores. A Igreja dos pobres, dos pecadores...

– Sim, mas isso é o Evangelho, mas existe também a Igreja-instituição...

– Existem os pecados dos dirigentes da Igreja, carentes de inteligência ou que se deixam manipular. Mas a Igreja não são os bispos, os papas, os padres. A Igreja é o povo.

– O que responde àqueles que enfatizam continuamente as exações e os crimes da Igreja durante séculos?

– Quando a Igreja deixou de ser servidora para querer ser servida?

– Sim, isso durou muito tempo...

– Sim, mas é uma cultura da época. A Igreja perdeu essa cultura.

– Basta o contexto histórico para explicar isso? – insiste o entrevistador, mas Bergoglio não entra e toma atalhos...

Definido por seu entrevistador como “socialmente um pouco franciscano, intelectualmente um pouco dominicano e politicamente um pouco jesuíta”, este Papa “é mais querido pelos leigos e ateus do que pelos católicos”, disse Wolton. “Você é o último comunista da Europa”, disse-lhe sem conseguir espantá-lo. Pelo contrário, responde o Papa Francisco, “os comunistas são os cristãos, foram os outros que roubaram a nossa bandeira”.

O Oriente Médio é um espinho: “O Ocidente quis exportar um modelo de democracia para um país que tinha outro modelo, dizendo: ‘é uma ditadura’, mas era uma ditadura com um sistema de acordos, porque se tratava de tribos que não podiam ser governadas senão daquela maneira. A Líbia é a mesma coisa: mesmo se Gadafi não era um Santo Agostinho, hoje os líbios se perguntam: ‘por que os ocidentais vieram nos dizer o que é uma democracia? Antes tínhamos um Gadafi, agora temos 50’. No Oriente Médio, a responsabilidade é do Ocidente”.

O papa declara-se contra os partidos políticos “exclusivos para cristãos ou para católicos”. “Isso sempre leva ao fracasso”, disse. Elogia a França por ser um dos poucos países europeus com uma política familiar, mas não oculta sua hostilidade à aplicação da laicidade na França. “O Estado laico é uma coisa saudável – disse –, mas penso que em alguns países, como na França, essa laicidade tem uma herança muito forte do Iluminismo, que constrói um imaginário coletivo no qual as religiões são consideradas uma subcultura. Penso que a França deveria ‘elevar’ um pouco o nível da laicidade, no sentido de que deveria dizer que também as religiões fazem parte da cultura. (...) O Iluminismo, na tradição francesa, é muito pesado. (...) O que quer dizer um Estado laico aberto à transcendência, em que as religiões fazem parte da cultura, que não são subculturas. Quando se diz que não se pode ostentar crucifixos ou que as mulheres não podem usar isso ou aquilo, é uma besteira, porque ambas as atitudes representam uma cultura (...) Há exageros, especialmente quando a laicidade se coloca acima das religiões”.

“Eu diria que [o Papa Francisco] é mais de direita em virtude da sua formação com os jesuítas argentinos. Mas, sendo muito próximo dos pobres, ele se esquerdizou. Ele está escandalizado com as desigualdades Norte-Sul”, disse Wolton, caracterizando o seu entrevistado, cuja personalidade o fascina.

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