Sessões de psicanálise do jovem Bergoglio: uma Igreja que perde a exclusividade do conforto

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04 Setembro 2017

Confirma-se outra intuição de Nanni Moretti, sugerida em “Habemus Papam”. A primeira foi a profecia da renúncia do Papa Ratzinger, representada, com alguns anos de antecedência, pelo cardeal interpretado no filme por Michel Piccoli, encurvado e atormentado por uma responsabilidade insuportável para ele, tão insuportável a ponto de induzi-lo a uma clamorosa e dolorosa renúncia. A segunda intuição encontra confirmação na revelação do próprio Papa Francisco, em um livro de próxima publicação na França, de ter buscado apoio e tratamento todas as semanas, por seis meses, com uma psicanalista judia.

O comentário é de Pierluigi Battista, publicada por Corriere della Sera, 02-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Bergoglio ainda não papa tinha 42 anos de idade na terapia analítica. Mas é difícil não pensar no pontífice, recém-eleito por um conclave inspirado pelo Espírito Santo que, no filme de Moretti, em fuga do Vaticano e abalado pela angústia, dirige-se incognitamente à psicanalista Margherita Buy para conter os sofrimentos de um implacável “déficit de cuidados”.

E o cinema e a literatura, aliás, dizem com formas expressivas de grande eficácia imaginativa aquilo que é difícil de admitir na vida comum, e não só no imenso rebanho dos crentes: isto é, que os sacerdotes e o próprio papa também são criaturas humanas atormentadas pelas fraquezas, pela sensação de inadequação que persegue o cardeal que não consegue subir ao sólio pontifício de “Habemus Papam”, escrito por Moretti junto com Federica Pontremoli e Francesco Piccolo, pela dor de uma perda, de um abandono, de uma atroz vergonha do desamor que tortura The Young Pope interpretado por Jude Law na série de Paolo Sorrentino.

E, até aqui, a descoberta poderia até não ser avassaladora. Mas não é óbvia, e a confissão do Papa Francisco é uma confirmação explícita disso, de que as dores, os tormentos, a fadiga de viver, o desconforto desertam o léxico da fé em sentido estrito, por parte daqueles que deveriam até mesmo preservar o seu depósito neste vale de lágrimas, para abraçar as categorias e as liturgias – trata-se justamente de liturgias, de algum modo – da ciência psicanalítica.

E não é só porque o legado de Sigmund Freud sempre foi liquidado como inadmissível e como desvio herético de tipo “pansexualista” na descrição da condição humana. Ou mesmo porque a aversão da Igreja à psicanálise, apenas parcialmente equilibrada pela atenção crítica, mas não demolitória de um papa intelectual como Paulo VI, desaguou, ainda em 1962, em uma “Advertência” do Santo Ofício, que impedia taxativamente que os sacerdotes mais expostos às tempestades da vida recorressem às terapias desenvolvidas por Freud ou por outras escolas psicanalíticas.

Mas, acima de tudo, porque esse recurso à psicanálise testemunha uma incerteza cultural, uma confiança não granítica na solidez de toda uma tradição em que a Igreja, sustentada por legiões inteiras de confessores, preparadores espirituais, professores de seminaristas, mestres de doutrina, é literalmente a “pedra” sobre a qual se sustenta um edifício que resistiu às intempéries mundanas de séculos e milênios.

Um edifício em que o sofrimento, o tormento e o desconforto psíquico encontravam nos ministros da fé – e obviamente não podia faltar o apoio mais precioso e mais prestigioso na cúpula papal – uma resposta, um remédio, um medicamento, conforto espiritual.

Essa pretensão de exclusividade existencial sobre as questões da vida e da psique humanas, como contam os filmes de Moretti e de Sorrentino, simplesmente desapareceu. E o recurso a práticas sobre as quais a Igreja sempre exerceu a cultura da suspeita narra um catolicismo certamente mais aberto às influências do mundo, mas também menos solidamente seguro de si mesmo.

O inconsciente, dizia-se nos ambientes mais conservadores da Igreja, é a voz do demônio. Muito mudou, nesse meio tempo. Ainda quando o papa não era papa, a psicanálise já havia vencido a sua batalha.

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