Francisco e EUA. Fora de equilíbrio. Artigo de Massimo Faggioli

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01 Dezembro 2017

"Numa bela manhã romana, em maio deste ano, no curso de uma viagem que também o levou a Israel e à Arábia Saudita, o presidente Trump visitou o Papa Francisco para aquela que foi pouco mais do que uma oportunidade de tirar uma foto. Poucos dias antes, a Casa Branca anunciou a nomeação da nova embaixadora dos EUA para a Santa Sé: Callista Gingrich, a terceira esposa do ex-presidente da Câmara dos Representantes, Newt Gingrich", escreve Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Villanova University, em artigo publicado por Commonweal, 27-11-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, "com as reações a Laudato Si’, Amoris Laetitia e outros documentos, fica difícil lembrar algum outro momento na história católica dos EUA em que a hierarquia resistiu tão abertamente aos ensinamentos de um papa".

Eis o artigo.

Estes últimos anos têm sido interessantes para as relações entre o Vaticano e os EUA – eclesiástica, teológica e politicamente. Em 2017, um novo aspecto categorial foi acrescido: o diplomático. Juntos, estes levaram a uma certa assimetria na forma como os dois “impérios paralelos” interagem. Não está claro como esta situação irá impactar a relação nos anos restantes do papado de Francisco e da presidência de Trump.

No fronte eclesial, as mudanças na relação entre o papa e a Igreja Católica americana ficaram evidentes com a eleição de Francisco em 2013; ele era um problema para os bispos e o clero americano antes mesmo do primeiro Sínodo sobre a família, em outubro de 2014. Havia a esperança de que a visita de Francisco aos EUA, em setembro de 2014, pudesse ser tomada como uma forma de reestabelecer as relações entre os braços institucionais da Igreja americana e Roma, talvez até mesmo resultando no tipo de interações calorosas que o papa desfruta entre muitos católicos comuns e entre o povo deste país. Isso não aconteceu.

Com as reações a Laudato Si’, Amoris Laetitia e outros documentos, fica difícil lembrar algum outro momento na história católica dos EUA em que a hierarquia resistiu tão abertamente aos ensinamentos de um papa. Claramente, os bispos tiveram dificuldades de ajustamento a uma linguagem teológica, eclesial e magisterial tão diferente daquela de João Paulo II e Bento XVI. Verdade seja dita: as nomeações e o surgimento de vozes carismáticas novas como os cardeais Blase Cupich e Joseph Tobin e de Dom Robert McElroy, bispo de San Diego, assinalaram um certo movimento em direção a uma Igreja mais sintonizada com a abordagem de Francisco. Mas a situação como um todo realmente não se alterou (prova disso é a votação recente entre os bispos do país para eleger o arcebispo de Kansas City, Dom Joseph Naumann, para presidir a comissão pró-vida da Conferência Episcopal, em detrimento de Cupich).

Já em 2016, a relação política se alterou, graças, claro, à campanha e à eleição de Donald Trump, bem como ao apoio que logo ele recebeu das lideranças republicanas supostamente relutantes a apoiá-lo. Francisco já assinalou a sua preocupação (talvez uma preocupação de todo o Vaticano) com a ascensão de Trump, declarando, em fevereiro de 2016, que “construir muros” entre os países não era demonstração de um caráter cristão. Como quase todo mundo, o Vaticano se surpreendeu com a vitória de Trump naquele mês de novembro. Afinal, na época da visita de Francisco apenas um ano antes, havia poucos sinais das forças que impulsionariam tal candidato; o papa falou a um presidente, a um congresso e a um establishment político que não mostraram ciência da onda de fúria que se aproximava. (É interessante pensar no papa discursando ao Congresso após a eleição de Donald Trump.) Posteriormente à eleição, houve um recrudescimento da lacuna moral-política entre o papa e o presidente, abrangendo mais do que o aborto e o Oriente Médio – temas que geralmente levam a tensões. Este distanciamento contribuiu para ampliar o distanciamento eclesial/teológico que surgira nos dois anos anteriores.

E hoje, 2017, acrescentemos um componente diplomático. Numa bela manhã romana, em maio deste ano, no curso de uma viagem que também o levou a Israel e à Arábia Saudita, o presidente Trump visitou o Papa Francisco para aquela que foi pouco mais do que uma oportunidade de tirar uma foto. Poucos dias antes, a Casa Branca anunciou a nomeação da nova embaixadora dos EUA para a Santa Sé: Callista Gingrich, a terceira esposa do ex-presidente da Câmara dos Representantes, Newt Gingrich. Ela foi confirmada pelo Senado em outubro e está atualmente aguardando o “agrément” diplomático – o consenso que o Vaticano concede a um embaixador recém-nomeado à Santa Sé. No ínterim, houve também o artigo, publicado em julho, da La Civiltà Cattolica sobre o “ecumenismo de ódio”, que procurava definir o alinhamento teológico-político do evangelismo e do catolicismo conservador a apoiar o trumpismo.

O que vem a seguir não está claro ainda, mas as relações atuais entre os EUA e o Vaticano exibem um desequilíbrio: parece haver uma “presença” vaticana mais ativa aqui do que uma presença americana em Roma. Um exemplo é como o pontificado de Francisco fala aos EUA e ao catolicismo americano com muitas vozes – não apenas uma variedade de vozes católicas, mas também vozes institucionais diferentes. Há o corte dos bispos americanos de Francisco que agem como seus embaixadores teológicos, levando a sua mensagem a uma Igreja que, para este católico nascido na Europa, quase se parece como uma Igreja Católica independente. Há também um embaixador papal, o núncio apostólico Christoph Pierre, quem, desde que chegou em abril de 2016, surgiu como um ator público ativo e um mensageiro de Francisco. Em novembro, o secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, que observa os EUA atentamente, chegou para uma missão diplomática que foi também eclesial (uma conversa e uma missa com os bispos), política (uma reunião com o vice-presidente Mike Pence) e teológica (uma palestra na Universidade Católica da América sobre Francisco e o Vaticano II em que também destacou a continuidade entre Bento XVI e Francisco quanto à fidelidade deles ao Concílio).

Mas onde estão as figuras influentes do catolicismo americano do outro lado do Atlântico? O Cardeal Raymond Burke esteve fora de sintonia desde o começo deste pontificado e acabou rebaixado por Francisco em 2014; na mesma época, a sua posição tornou-se mais extrema por meio de declarações sobre os Sínodos dos Bispos e sobre Amoris Laetitia. Outros prelados americanos de destaque não mais ativos no cenário curial (o Cardeal William Levada aposentou-se da Congregação para a Doutrina da Fé em 2012; o Monsenhor Peter Wells, funcionário de alto escalão na Secretaria de Estado entre 2009 e fevereiro de 2016, foi nomeado núncio apostólico para a África do Sul). Greg Burke, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, não possui o mesmo papel consultivo que o Pe. Federico Lombardi tinha. E ainda que Callista Gingrich tenha chegado a Roma no começo de novembro, é difícil dizer que tipo de efetividade ela terá. O seu papel se faria particularmente importante num momento como este, com um papa como Francisco que não possui a mesma visão entusiasmada e quase providencial dos EUA, o que os antecessores imediatos tinham e que frequentemente manifestavam.

A decisão recente de Francisco em criar uma “terceira seção” dentro da Secretaria de Estado especificamente para lidar com temas que envolvem o corpo diplomático do Vaticano pareceu intensificar a assimetria relacional. Eis uma “reversão importante” de como os diplomatas vaticanos vinham sendo tratados com o Papa Bento XVI, que, durante o seu pontificado, parou de receber os núncios no Vaticano e decidiu escolher como secretário de Estado não um diplomata, mas um alguém pessoalmente próximo a ele, o Cardeal Tarcisio Bertone, criando, assim, tensões entre o “papa teólogo” e os círculos e as figuras de autoridade na história recente da diplomacia papal. Francisco se distanciou de Bento ao pôr uma ênfase renovada na diplomacia vaticana.

Este é, no entanto, mais um outro sinal da lacuna crescente que há na maneira como o Vaticano e os EUA de Trump olham um para o outro, e ao mundo. Entre as iniciativas de Francisco em revitalizar o serviço diplomático da Santa Sé, o Vaticano parece estar mais interessado em boas relações com os EUA do que o contrário.

No entanto, a lacuna entre o Vaticano e os EUA parece menos em função da atividade de Francisco do que do trumpismo. O catolicismo romano possui uma visão de mundo que se pode articular nos níveis institucional e internacional por meio da grande rede de organizações internacionais católicas bem com do serviço diplomático. Mas o trumpismo parece entender o mundo por meio de categorias e padrões estreitamente americanos. É difícil saber agora exatamente como estes dois movimentos poderão impactar ou guiar o catolicismo americano no longo prazo.

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