''Eis a minha verdade sobre a era dos três papas.'' Entrevista com Tarcisio Bertone

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18 Fevereiro 2015

"Aquela ali é a Casa de Santa Marta, onde vive o Papa Francisco. Aquele lá em cima é o mosteiro aonde o Papa Ratzinger se retirou. E este, ao contrário, é o terraço do escândalo." Um passeio sobre o teto do Palazzo San Carlo, junto com aquele que, por oito anos, foi o homem mais poderoso do Vaticano depois do papa, o cardeal Tarcisio Bertone.

A reportagem é de Andrea Purgatori, publicada no sítio TheHuffingtonPost.it, 12-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O mais criticado, suspeito de ter sido, ao mesmo tempo, artífice e marionete das intrigas mais sombrias da Cúria. Há o sol que se reflete sobre a cúpula incumbente de São Pedro, aquele sol romano que já é uma antecipação da primavera, e há este terraço, que, por meses, foi imaginado como parte do bom retiro do ex-secretário de Estado: apartamento de luxo de 700 metros quadrados com vista para a Cidade do Vaticano.

Mas o terraço é "condominial", e a ampliação fotografada e publicada nos jornais se deve a serviços para todo o edifício, sem acesso direto a partir da habitação de Bertone. Que sorri maliciosamente.

"Alguns cardeais me disseram que seria um lugar magnífico para repousar e meditar. Mas não cabe a mim decidir. Apesar do que eu disse e escrevi, ele não me pertence, está à disposição de todos os inquilinos do edifício."

Bertone vive aqui embaixo, em um apartamento no terceiro andar, que durante décadas foi a casa de Camillo Cibin, o mítico chefe de segurança de João Paulo II. O condomínio se assemelha a muitos do bairro de Prati. E a casa de Bertone, a famosa casa do escândalo, a olho nu, não supera os 300 metros quadrados, incluindo duas pequenas salas utilizadas como secretaria, uma sala de estar, um longo corredor, uma capela privada, o quarto, a cozinha, os serviços e um pequeno terraço cheio de limoeiros, oliveiras e jasmins.

A biblioteca-escritório faz história por conta própria. Metade dela é ocupada por uma mesa sem telefone ("Eu o mantenho em cima daquela mesinha, longe, porque é uma sala de trabalho e, quando eu trabalho, não uso nem o celular"), com um móvel de canto com vitrine, onde o cardeal guarda as suas paixões de marca Fiat: modelinhos vermelhos da Ferrari Fórmula, lenços branco e pretos e bolas da Juventus naturalmente autografadas pelos jogadores.

Mas também há um modelinho da Mercedes Fórmula Um. "Foi o presidente que me deu. Ao ver todas aquelas Ferrari, ele ficou um pouco ciumento".

Durante anos, Tarcisio Bertone escolheu o caminho do silêncio diante de todas as acusações que choviam sobre ele. Mas agora, aos seus 80 anos, quando não está mais no topo da pirâmide vaticana, ele decidiu remover algumas pedrinha do sapato.

Acima de tudo, mostrando a sua casa, onde talvez esses modelinhos são os objetos mais preciosos do mobiliário. Quanto aos segredos e às manobras que lhe foram atribuídas, ele está "reunindo o material". A grande pedra do sapato vai ser removida por ele escrevendo, de próprio punho, a sua verdade sobre a longa e conturbada temporada em que ele governou a Igreja com três papas. Dois dos quais, agora, perto de casa.

Eis a entrevista.

Eminência, por que todos se incomodam com o senhor?

Bem... eles dizem que os motivos são dois. O primeiro é porque eu teria sido nomeado secretário de Estado sem vir das fileiras da diplomacia vaticana.

Uma exceção à práxis.

Digamos assim. E, mesmo que haja ilustres precedentes, isso não teria agradado.

O segundo motivo?

Diz respeito ao papel que eu desempenhei. Em oito anos de cargo como secretário de Estado, eu exerci as minhas funções em perfeita sintonia com o papa, mas tomei medidas, iniciei procedimentos, reformei escritórios e fiz nomeações que incluíram escolhas de avanço ou exclusões de pessoas. E isso pode ter descontentado alguns. Mas também houve um certo enfurecimento...

Por que enfurecimento?

Bem, não há dúvida de que os problemas que estávamos enfrentando foram, às vezes, dramáticos. Basta pensar na questão da pedofilia, por exemplo. Também foi comprometedor o início dos procedimentos para a transparência econômica e a legislação contra a lavagem de dinheiro. Enquanto o início do pontificado de Bento XVI era por si só promissor, os desenvolvimentos posteriores não excluem que certos momentos de tensão tenham sido provocados intencionalmente contra a Igreja e, talvez, de algum modo, também os ataques contra a minha pessoa.

Queriam atingir o papa?

Alguns pensaram nisso, e alguns também escreveram isso.

O papado de Ratzinger foi bastante diferente do dos seus antecessores.

Certamente. Mas também conectado em desenvolvimento em relação ao dos seus antecessores. O Papa João Paulo II estimava imensamente o cardeal Ratzinger e guiou a Igreja com o seu apoio permanente e contínuo, não só no plano doutrinal e intelectual, mas também, em certos aspectos, sob o perfil do governo. Portanto, a continuidade entre os dois pontificados.

Com uma diversidade de capacidade comunicativa.

Sim, também de caráter. Mas devemos reconhecer que o Papa Bento XVI, por sua vez, guiou a Igreja como um pai iluminado, não só teológica e espiritualmente. Ainda como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, no seu pontificado, ele encontrou milhares de bispos da Igreja, ouviu-os um por um, informando-se com atenção sobre as realidades locais, até ter uma visão global que lhe permitiu intervir nas linhas de resolução e no governo da Igreja universal. Mesmo que, em certo ponto, ele sentiu o peso da impossibilidade de continuar esse caminho de conhecimento direto, concreto, diria de contato físico com as comunidades locais, como, antes dele, tinha feito o Papa João Paulo II e agora está fazendo o Papa Francisco. Um pensamento que o atormentou até a consciência de que havia a necessidade de um papa com energias suficientes para viajar para prosseguir esses encontros em todas as partes, in loco.

Em suma, um pontificado quase incompleto, o do Papa Bento XVI.

Ao contrário. Um pontificado corajoso. Antes de cada viagem, os jornalistas escreviam que ele não conseguiria, previam resultados escassos, até mesmo fiascos. Em vez disso, eu penso nas viagens à Turquia e à Inglaterra que fiz com ele, para o Dia Mundial da Juventude na sua Colônia, quando ele colocou um milhão de jovens a rezar em silêncio diante do Cristo presente na Eucaristia.

Qual foi a sua surpresa diante da decisão dele de renunciar?

Eu a tinha intuído, mas afastava o pensamento sobre isso. Fiquei sabendo dela com grande antecedência. Ao menos sete meses antes. E tinha muitas dúvidas. Dialogamos longamente sobre esse tema, que já parecia decidido. Eu lhe disse: "Santo Padre, o senhor ainda deve nos presentear o terceiro volume sobre Jesus de Nazaré e a encíclica sobre a fé", que, depois, saiu assinada pelo Papa Francisco.

Era o Natal de 2012.

Sim. E vou lhe dizer que não foi nada fácil carregar esse segredo. O papa tinha meditado e refletido profundamente com Deus sobre essa sua escolha.

É difícil fazer um papa mudar de ideia, ainda mais alemão...

Quando se tomam certas decisões diante de Deus, como você acha que os homens podem interferir?

Como são as suas relações com o Papa Francisco?

Muito positivas, muito bonitas. Enquanto isso, ele me manteve como secretário de Estado por sete meses, cheias de audiências e bilhetes, anotações, telefonemas... Todos já sabem que ele tem esse hábito de pegar o telefone e telefonar: "Preciso disto, busque aquela coisa, avalie se este candidato é bom". Em suma, foi uma consulta contínua e fraterna.

Até o momento da sua substituição.

Encontramo-nos, falamos, decidimos as modalidades, tudo. Embora os jornais escrevam: "Bertone foi expulso daqui, expulso de lá"...

Quando ele mencionou os "translados" como uma das doenças da Cúria, ele se referia ao senhor?

Não sei. Mas, quando houve o primeiro ataque contra este apartamento, ele me telefonou e me disse: "Veja, eu não tenho nada contra que o senhor vá morar no terceiro andar do Palazzo San Carlo". Que, além disso, seria preciso dizer que, aqui no edifício, havia um projeto preexistente, e não meu, para uma construção no terraço...

Então, foi o papa quem lhe atribuiu esta habitação.

Claro que sim. E, na conversa que tivemos, ele também me disse: "Não construamos mais nada em cima, mas façamos consertar o pavimento do terraço, porque chove dentro". E, ironia do destino, infelizmente, ainda chove dentro, justamente no meu quarto (sorri). Imagine se eu teria feito isso da minha própria cabeça.

Portanto, nada de cobertura de 700 metros quadrados.

Que nada, você o viu. Posso lhe garantir que os ambientes são muito menores do que os de outros edifícios do Vaticano. O papa foi informado de tudo, também do pequeno escritório usado como secretaria. Ele me disse: "Está tudo muito bem, e, depois, você precisa da secretaria, já que deve escrever as memórias, porque o senhor foi testemunha de três pontificados...". (…)

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