Trump presidente: "Sinal da crise espiritual dos Estados Unidos. Entrevista com Massimo Faggioli

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16 Novembro 2016

"Um choque que ninguém podia imaginar no dia anterior." Massimo Faggioli, professor de Teologia e Ciências Religiosas na Villanova University, na Filadélfia, enquadra desse modo a eleição de Donald Trump como 45º presidente dos Estados Unidos da América.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada pela agência Zenit, 14-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Historiador do cristianismo, colunista do La Croix Internacional e copresidente do grupo "Vatican II Studies", da American Academy of Religion, Faggioli, como atento observador das dinâmicas eclesiais e políticas no exterior, expressa a Zenit a sua decepção com o resultado eleitoral que, segundo ele, vai agravar o clima social e decepcionar os católicos que confiaram na vitória do tycoon, especialmente temendo uma radicalização das políticas abortistas de Hillary Clinton.

Eis a entrevista.

Como um teólogo católico italiano que se mudou há anos para os Estados Unidos vê a eleição de Donald Trump como novo presidente?

É uma eleição chocante que ninguém podia imaginar no dia anterior. Eu me lembro que, em setembro de 2015, o papa estava visitando os Estados Unidos, e já se começava a confrontar o Papa Francisco e Trump. Mas ninguém podia imaginar Trump na Casa Branca. O chocante é que um país profundamente moralista como os Estados Unidos elegeu uma pessoa como Trump, que se gloria da sua imoralidade (não só nas questões sexuais). Em certo sentido, é uma eleição que desmascara algumas hipocrisias da cultura estadunidense e revela a crise tanto da cultura progressista e secularizada, quanto da conservadora e religiosa.

De acordo com alguns dados do SNAI, 75% dos votos nos últimos dias antes da eleição iam para Hillary Clinton. Até mesmo pesquisadores, especialistas e analistas proclamavam a candidata democrata já como inquilina da Casa Branca. Uma vitória, portanto, inesperada. Como chegamos a isso?

Há um elemento de desconforto econômico, dos esquecidos pela globalização, contra um sistema econômico e financeiro do qual os Clintons fazem parte e contribuíram para construir (não menos do que Trump). Há, depois, um protesto da América profunda contra a América das elites culturais e secularizadas: a radicalização da plataforma abortista do Partido Democrata com Clinton revelou a miopia política de Clinton e é um dos elementos da derrota. Por fim, há uma parte de ressentimento contra o primeiro presidente afro-americano, Obama, que faz parte daquela elite econômica e intelectual, mas também é o rosto dos Estados Unidos futuros, em que os brancos logo serão uma minoria entre as minorias. A campanha de Trump também explorou o ressentimento racial daquela América profunda que nunca aceitou Obama como o seu presidente legítimo. A América religiosa não coincide com aquela América profunda e reacionária, mas faz parte dela.

Em que as fraturas internas da Igreja Católica dos Estados Unidos contribuíram com a vitória de Trump?

A Igreja Católica estadunidense está dividida entre identidades culturais, políticas e étnicas diversas, e, portanto, as reações são diferentes. A campanha de Trump capitalizou sobre essas divisões, aproveitando-se da identidade branca e conservadora, usando inescrupulosamente a questão do aborto para atrair o voto católico. A maioria dos católicos que eu conheço estão chocados: os Estados Unidos são um país muito espiritual, e a eleição de Trump é percebida como um sinal de grave crise espiritual. Há quem possa se permitir de ver essa transição de poder como uma das tantas na história estadunidense, mas não o é. Especialmente se você não tiver a pele branca, é um momento de perplexidade.

Em alguns posts publicados nas suas redes sociais, você falava de "medo". Por quê?

O medo é evidente especialmente entre os latinos, os árabes e muçulmanos, as minorias. A questão não é ter ou não ter nada a temer perante a lei: é temer o racismo de algumas alas da sociedade estadunidense, que sempre existiram, mas que, há cerca de 50 anos, eram mantidas à margem da vida política, mas que, muitas vezes, tiveram a proteção dos juízes e dos júris quando causaram violência. Agora, com Trump, elas se sentem novamente legitimadas a repropor, com uma linguagem violenta, o seu desígnio de um Estados Unidos etnicamente puro.

Porém, no seu primeiro discurso, Trump usou tons conciliatórios, dizendo também: "Quero ser o presidente de todos os americanos". Podemos acreditar nele?

Eu espero que Trump modere a sua linguagem e as suas propostas em relação à campanha eleitoral. Mas, mesmo assim, ele prejudicou a alma da democracia estadunidense, legitimando o racismo e a intolerância, e dando a ideia de estar acima da lei. O presidente dos Estados Unidos tem uma função simbólica muito forte também do ponto de vista religioso: a presidência tem uma função de pontifex. De um certo ponto de vista, com a eleição de Trump, o excepcionalismo estadunidense morreu. A "eclesiologia política" dos Estados Unidos é inclusiva: Obama a encarnava, Trump a renega.

Alguns lamentaram uma posição tímida demais por parte da Conferência Episcopal dos Estados Unidos nos meses de campanha eleitoral. Agora, com Trump presidente, pode haver um diálogo?

O episcopado estadunidense tinha muito medo de uma presidência Clinton, mais do que de Trump. Muitos bispos esperavam uma vitória de Trump, temendo uma radicalização das políticas abortistas de Clinton (não considerando que, durante os governos dos republicanos, oficialmente pró-vida, o número dos abortos aumenta, por causa dos cortes no estado social). Havia medo por parte de muitos bispos, clero e intelectuais católicos de denunciar a retórica de Trump da mesma maneira em que foi denunciada a cultura abortista dos democratas.

Na minha opinião, foi um erro que a Igreja dos Estados Unidos vai pagar politicamente, mas também espiritualmente. Os primeiros que vão pagar serão os pobres nos Estados Unidos, mais do que com uma presidência Clinton. Os bispos deverão dialogar com Trump, mas Trump vai tentar contentar os bispos em uma série muito limitada de questões. Toda a cultura social e política da Igreja institucional nos Estados Unidos sai prejudicada por essas eleições, por causa da sua manifesta incapacidade de captar o que estava acontecendo no país.

E com o Vaticano, que perspectivas você entrevê?

Será o aspecto mais interessante da questão. Devemos esperar mais vigilância do Vaticano do Papa Francisco e do cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, do que do episcopado nos Estados Unidos, exceto alguns bispos que sabem muito bem quais são os riscos. Mas há também questões geopolíticas complexas – a Síria, a Turquia e o Oriente Médio, e o papel da Rússia; a América Latina "jardim de casa" dos Estados Unidos; a China; a União Europeia e o Brexit – sobre os quais reabrem-se os jogos, e ninguém sabe o que Trump pensa, nem mesmo ele.

Por parte de muitos observadores, foi levantado um paralelo entre Donald Trump e Silvio Berlusconi. Você realmente vê analogias, ou isso pode ser considerado como piadas circunscritas ao âmbito das mídias sociais?

Não, existem analogias. Começando pelo uso inescrupuloso do eleitorado religioso por parte de personagens antitéticos em relação à mensagem do Evangelho. Depois, o fato de se propor como não político, mas como gestor, diante de eleitorado reduzido a consumidores. Por fim, a revolução no uso das mídias. Em particular, tanto Trump quanto Berlusconi foram levados "ao pé da letra, mas não a sério" pelos seus críticos, e, ao contrário, foram levados "a sério, mas não ao pé da letra" pelos seus eleitores (brilhante definição dada por um jornalista estadunidense). A verdadeira analogia está no fato de ter entendido a grande distância entre a mídia das elites e a mensagem política que chega ao povo que vota.

Mas, em suma, teria sido pior ou melhor a eleição de Hillary?

Clinton era uma candidata fraca e teria sido uma presidente fraca, mas definitivamente melhor do que Trump. Hillary Clinton é uma política profissional, mas também uma pessoa normal com um perfil moral próprio. Trump, não.

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