Santo Inácio, os jesuítas e o papa: uma história complexa

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22 Abril 2017

"Pela primeira vez na longa história da Igreja, um jesuíta se torna papa. Mesmo com um jesuíta na cátedra de Pedro, os jesuítas e o papa permanecem constituindo uma dualidade bastante distinta", escreve Robert Emmett Curran, professor emérito de história da Universidade de Georgetown, em artigo publicado por America, 17-04-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.


“Ignatius of Loyola”, de Pierre Emonet, SJ
Saint Joseph’s University Press, 153 páginas, U$ 40,00

Uma biografia de Inácio de Loyola, escrita por Pierre Emonet, e a revisão feita por John O’Malley das relações jesuítas e papais são exemplos excelentes do quanto podem ser informativos alguns volumes breves e bem-elaborados.

O texto de Emonet busca revelar o Inácio de Loyola cujas inclinações, pautas e ideologia foram muitas vezes distorcidas e deturpadas. Em 19 minicapítulos, o autor traça o complexo caráter de Loyola ao mesmo tempo capturando o cerne da transformação do religioso, de alguém em busca da glória mundana para um asceta que cria uma espiritualidade inovadora e uma ordem religiosa que, indiscutivelmente, é a mais influente dentro do cristianismo.

Inácio, originalmente Íñigo López de Loyola, cresceu num ambiente feudal e com aspirações militares e participação na corte tradicional. Este trajeto para a fama e a riqueza terminou abruptamente num Domingo de Pentecostes, em 20-05-1521, quando, defendendo a fortaleza em Pamplona, foi atingido por uma bala de canhão francesa, que lhe deixou permanentemente “hors de combat” [fora de combate] – pelo menos no fronte militar.

Bem conhecida é a história da leitura forçada de Iñígo dos de clássicos espirituais que conduziram a sua imaginação para dentro do mundo do sagrado. Por determinado tempo, façanhas divinas e santas competiam com suas façanhas cavalheirescas tradicionais. Aos poucos, elas se transformaram, para Iñigo, numa primeira experiência de discernimento dos espíritos; mais tarde, no mosteiro de Manresa essa experiência serviu de catalisador para os Exercícios Espirituais, documento que se tornaria a fonte animadora da Companhia de Jesus.

A busca pela vontade divina, facilitada por visões místicas, levou Inácio à Terra Santa para meditar sobre o Cristo em seus passos. Gradualmente veio a noção do homem para os outros como a melhor forma de servi-lo. Na Espanha e na França para os estudos essenciais à realização de sua nova visão, Inácio, através da evangelização, atraiu uma comunidade de companheiros. Em agosto de 1534, fizeram votos de pobreza e castidade, com a intenção de converter os muçulmanos na Terra Santa.

Quando as guerras na região impediram este objetivo, Inácio e os seus companheiros dirigiram-se para Roma a fim de conhecer melhor a vontade de Deus. Meses de deliberação levaram à decisão de formar uma ordem religiosa, uma ordem que tinha muito pouco do que era a tradição, sem um mosteiro central, sem um hábito distintivo, sem um coro particular para a recitação do ofício e sem penitências comunitárias – tudo isso para preservar o que era essencial ao ministério de seus membros: a mobilidade e a disponibilidade.

Obter a sanção papal acabou sendo uma tarefa difícil. A persistência de Inácio e a pressão de amigos poderosos finalmente levaram à aprovação formal do Papa Paulo III no final de setembro de 1540. Os seus últimos 18 anos se passaram em Roma, comunicando-se com os jesuítas em missão nos quatro continentes, ao mesmo tempo em que trabalhava nas Constituições da Companhia de Jesus.

Inácio morreu em 1556 com elas ainda inacabadas, o que é condizente com a ideia de ser um documento vivo, sempre podendo ser ajustado segundo a experiência cambiante do grupo. A ordem que começou como um punhado de companheiros em Paris cresceu rapidamente e se tornar um organismo mundial, contando com mais de 1 mil membros e mais de 100 colégios e instituições.


“The Jesuits and the Popes”, de John W. O’Malley, SJ
Saint Joseph’s University Press, 149 páginas, U$ 40,00

Num volume de pouco mais de 100 páginas, John O’Malley, decano dos estudos históricos jesuítas, demonstra um tratamento “tour de force” [excepcional] da relação entre os jesuítas e os papas, que teve consequências de longo alcance para a Igreja ao longo dos séculos.

Dada a composição internacional extraordinária de seu grupo fundador, a ordem jesuíta desenvolveu um conceito cosmopolita de missão sem precedentes. Viajar, e não a estabilidade, tornou-se a maneira de viver dos jesuítas prontos para servir a Cristo “em dez mil lugares”. Com o próprio mundo sendo o campo apostólico, os jesuítas olharam para a autoridade melhor situada a fim de escolher as suas missões. Assim nasceu um voto distinto para a nova ordem religiosa: um voto de obediência ao papa. Este voto especial mostrava-se significativo principalmente pelo seu valor simbólico, um valor que se ampliou em 1550, quando a Companhia alargou o seu propósito central ao acrescentar a “defesa” [da Igreja] à “propagação da fé”, numa época em que o pontífice era cada vez identificado com a Igreja.

Em sua fundação, a Companhia teve um papa que muito a apoiava, Paulo III. O mesmo não ocorreu com o sucessor, Paulo IV. A antipatia deste Papa para com os espanhóis, o que incluiu Inácio certamente, levou ao seu esforço de controlar, sem sucesso, a eleição do sucessor de Inácio e a limitar o mandato vitalício do Superior Geral da ordem a um mandato de três anos. Gregório XIII, diferentemente, tornou-se o padroeiro extraordinário para os centros educativos da Companhia em Roma: os colégios romano, alemão e inglês.

Uma nova crise surgiu em 1586, quando um grupo dissidente de jesuítas espanhóis de origem judaica e mourisca sucessivamente persuadiram os papas Sisto V e Clemente VIII a intervir nos trabalhos da Companhia para efetuar mudanças radicais. Este esforço acabou tendo resultados negativos para os dissidentes. O decreto 52 da 5ª Congregação Geral proibia a admissão futura na Companhia “daqueles que são das raças hebraica ou sarracenas”, regra que mancharia a ordem religiosa até a remoção do artigo em 1946 na esteira do holocausto.

Na maior parte do século XVII, questões polêmicas por vezes fizeram os papas interferir na governança da Companhia de Jesus, mas sem nenhum prejuízo permanente. A polêmica dos ritos chineses iniciou uma campanha contra os jesuítas que alcançou força plena sob a liderança tortuosa do primeiro-ministro português, Marquês de Pombal, quem sistematicamente demonizou os jesuítas em seu país para justificar a expulsão deles em 1759.

O sucesso do Marquês de Pombal animou os inimigos da Companhia na França no sentido de trazer a proibição deles também para este país. Tardiamente, o Papa Clemente XIII tentou contra-atacar as supressões, mas os seus esforços ruíram como uma árvore em uma floresta abandonada. A Espanha entrou na linha de supressão em 1767, com a expulsão de todos os jesuítas de seu império além-mar.

Por fim, veio a demanda dos governos dos Bourbons para que o papa tornasse universal a supressão dos jesuítas. Clemente se negou, apenas para morrer de ataque cardíaco poucos dias depois, em fevereiro de 1769. No conclave que se seguiu, agentes dos Bourbons descaradamente fizeram lobby junto aos cardeais supostamente isolados do mundo. Após 185 sessões de votação, os Bourbons finalmente conseguiram eleger o seu candidato, o complacente Giovanni Vincenzo Ganganelli. O papa cada vez mais paranoico tardou por mais de três anos, mas por fim viu-se pressionado a assinar um breve de supressão. Os jesuítas, que em 1750 se gabavam de ter uma membresia de 22.500 homens, com mais de 700 instituições educativas, haviam canonicamente desaparecido.

Mas não na realidade. Eles sobreviveram na Prússia e na Rússia, graças a governantes que valorizavam as suas escolas, e ao sucessor de Clemente XIV, Pio VI, quem em 1775 assinalou aos jesuítas na Rússia que a sobrevivência deles não lhe desagradava. Um noviciado fundado por Catarina, a Grande garantiu o futuro destes remanescentes da Companhia. Então, em 1801 veio o reconhecimento papal formal da Companhia em um breve de Pio VII, “Catholicae Fidei”. E uma restauração plena chegou em 1814 com a derrota de Napoleão.

A Companhia de Jesus restaurada desfrutou de uma relação estreita com o papado durante os dois séculos seguintes, coisa que não havia conhecido antes da Supressão. Os jesuítas identificaram-se com o papado a um grau muito maior; Pio VII passou a ser reconhecido como o segundo fundador da Companhia. A incorporação de tantos jesuítas para dentro da cúria papal, aumentada e centralizada, fortaleceu os laços. Na medida em que o papa se tornava o epítome da estabilidade e da antiga ordem, os jesuítas se reportavam diretamente a ele.

Quando Gregório XVI sucedeu a Leão XII em 1829, o Superior Geral dos jesuítas, Jan Roothaan, reunia-se semanalmente com o pontífice. Jesuítas individuais estiveram significativamente envolvidos na promulgação do dogma da Imaculada Conceição e nos decretos do Concílio Vaticano Primeiro. A revista de opinião La Civiltà Cattolica (1850) tornou-se em um órgão de imprensa semioficial da Santa Sé. No século XX, o Pontifício Instituto Bíblico e a Rádio Vaticano foram cedidos ao comando dos jesuítas. Um símbolo desta colaboração sem precedentes foi a localização da nova cúria jesuíta na década de 1930, praticamente junto à Praça de São Pedro.

Os jesuítas desempenharam papéis-chave no desenvolvimento de documentos centrais produzidos pelo Concílio Vaticano II. A 31ª Congregação Geral (1965-1966) deliberou a partir das implicações deste Concílio para a vida e obra da Companhia e escolheu um novo Superior Geral, Pedro Arrupe. Elementos reacionários dentro da Igreja não ficaram felizes com a direção no sentido da justiça social que a CG havia posto para a Companhia. Alguns no Vaticano associaram esta direção com o marxismo.

Em 1981, Pedro Arrupe sofreu um acidente vascular cerebral grave. Membros da cúria jesuíta invocaram as Constituições da ordem religiosa e puseram no comando o vigário-geral. Pela primeira vez na Companhia restaurada o papa interveio. O papa era João Paulo II. Não iria ser realizada uma congregação geral. Ele designaria o seu próprio delegado, um jesuíta, para prover a liderança interina para a Companhia. Alguns interpretaram a situação como o começo de uma outra supressão. Muitos outros viram-na como uma usurpação papal e o fim da autonomia limitada tradicional dos jesuítas. Acabou que nada disso aconteceu. Em 1983, o papa, sentindo-se muito melhor em relação à Companhia, não só permitiu a realização da 33ª Congregação Geral como também fez-se presente nela pessoalmente.

As relações retomaram o seu caráter cordial nas três décadas seguintes. Na sequência, a grande escolha papal de 2013: a eleição de Jorge Mario Bergoglio como Francisco I. Pela primeira vez na longa história da Igreja, um jesuíta se torna papa. Mesmo com um jesuíta na cátedra de Pedro, os jesuítas e o papa permanecem constituindo uma dualidade bastante distinta.

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