Pandemia requer uma saúde estrutural abrangente com vacina para todos. Entrevista especial com Paulo Buss

Para o médico, se a vacina não chegar efetivamente em todo mundo, se não forem construídas alianças geopolíticas e preservação ambiental, a humanidade viverá entre endemias, epidemias e pandemias

Militares do Comando Conjunto Norte apoiaram a vacinação contra a COVID-19 na aldeia indígena Mukuru, localizada na Terra Indígena WAIÃPI, no Amapá | Foto: Ministério da Defesa

Por: João Vitor Santos | 24 Fevereiro 2021

Enquanto alguns países mais ricos compram muito mais vacinas para frear a Covid-19 do que precisam, em outros mais pobres os imunizantes sequer chegaram. Para o médico Paulo Buss, essa lógica mantém todos reféns do novo coronavírus. “Se a vacina não for distribuída equitativamente, se não houver controle da pandemia em todos os lugares de forma equilibrada, enquanto tivermos focos do vírus o mundo continuará sendo ameaçado”, detalha, em entrevista concedida via mensagens de WhatsApp à IHU On-Line. E mais do que isso: ele sugere a emergência do que chama de uma Diplomacia da Saúde, uma ampla solidariedade não só para o desenvolvimento e criação de vacinas. “Significaria a distribuição e o acesso racional das vacinas segundo a gravidade da pandemia no mundo, segundo o equilíbrio que deveríamos ter para conter a epidemia em alguns lugares, eliminar em outros”, explica.

 

Essa ideia de cooperação global poderia, na visão de Buss, ser encabeçada pelos países que compõem o Brics porque concentram altos índices populacionais e porque alguns membros do grupo, como China e Índia, produzem matéria-prima e grande parte das vacinas do mundo. “O papel que os Brics podem ter é o de moderar a absorção ou captura do grande número de vacinas prontas pelos países ricos só porque são ricos”, acrescenta. Mas isso não significa que grupos maiores, como o G20, não possam aderir a essa Diplomacia da Saúde. “Para onde o G20 apontasse com convergência de postura política, muito provavelmente teríamos não só a capacidade de inovar, de produzir e também de ser motor da Diplomacia da Saúde, um motor do equilíbrio e da distribuição equitativa. E tudo isso não só de vacinas, mas de todos os bens necessários para enfrentarmos a pandemia”, analisa.

 

E se no olho do furação o mais urgente é vacina para todos em todo mundo, Buss defende que no longo prazo essa cooperação global em torno da saúde se amplie no que denomina como “saúde de caráter estrutural mais abrangente”, indo além de produção e distribuição de vacinas e medicamentos. “Tão importante quanto os medicamentos, será 1) o reforço do multilateralismo de maneira geral e 2) repensar o que nos trouxe até aqui. Se for para voltar ao normal que nos trouxe até aqui, isso seguramente é um equívoco”, reitera. Ou seja, é usar a experiência da pandemia como marco zero para repensar as relações ente as populações humanas e o planeta. “Do jeito que as coisas estão indo, estamos sobre-explorando o ambiente natural e essa destruição de floresta, essa ocupação desordenada e absolutamente predatória do ambiente gerará novos e complexos processos endêmicos, epidêmicos e pandêmicos”, resume. “Esta primeira pandemia é certamente o prelúdio de muitas outras, como já se disse quando apareceu Mers, Sars e o Ebola, o qual retornou agora em alguns países. A história natural dessas doenças será alterada por relações internacionais de cooperação, inovação e acesso aos produtos que servirem para controlar”, completa.

 

Paulo Marchiori Buss (Foto: Fiocruz)

Paulo Marchiori Buss é médico, mestre em Medicina Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e doutor em Ciências pelo Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - USP. Também é professor emérito da Fundação Oswaldo Cruz. Ainda possui residência médica em Pediatria e é especialista em Pediatria e em Saúde Pública. Atualmente é diretor do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fiocruz e do Centro Colaborador em Saúde Global e Cooperação Sul-Sul da Organização Pan-americana/Organização Mundial da Saúde - OPAS/OMS. É membro titular da Academia Nacional de Medicina do Brasil.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – No começo da pandemia, todos destacavam a união de forças de Estados, universidades e empresas sob a coordenação de organismos internacionais para o desenvolvimento de vacinas contra Covid-19. Mas por que esses imunizantes não se tornaram efetivamente um bem comum e universal, visto que os países mais ricos detêm o maior número de doses?

Paulo Buss – Quando a pandemia se instalou, a expectativa era a de que as Nações Unidas fizessem como no caso do Ebola – que não prosperou como uma pandemia, mas poderia ter acontecido –, mobilizando países e também fazendo diversas recomendações. Inclusive foi realizada uma Assembleia Geral especial em 2018 – já que o painel era de 2015 – para discutir justamente como unir as forças dos Estados-membros das Nações Unidas para enfrentar a pandemia. Tanto epidemiologistas como sanitaristas, microbiologistas, cientistas em geral já anunciavam que isso aconteceria.

No caso de agora, isso não aconteceu porque o multilateralismo como um todo se encontrava – e até diria que isso hoje recomeça a se fortalecer – extremamente fraturado, particularmente porque o país mais poderoso do mundo, o mais rico e com maiores contribuições ao sistema das Nações Unidas são justamente os Estados Unidos da América. O governo Trump se negou todo o tempo a ser solidário com as Nações Unidas, com os Estados-membros e inclusive se retirando da Organização Mundial da Saúde - OMS, lá por maio de 2020, como também já havia se retirado da Unesco, do Acordo do Clima de Paris, tudo isso que Joe Biden retomou nos primeiros dias de sua gestão.

A resposta não solidária à Covid-19 se escreveu nesse contexto amplo do enfraquecimento do multilateralismo, particularmente pela ação do governo norte-americano, do presidente Trump e de outros países que se associaram a essa visão antiglobalista, de crer que a China estava sendo privilegiada. Ou seja, paranoias políticas absolutamente inaceitáveis, porque não eram objeto de uma análise realista, mas sim de uma postura de ‘America first’, que era o conceito básico colocado por Trump.

 

 

IHU On-Line – Como o senhor analisa o peso das Deep Tech no desenvolvimento das vacinas? Países que investem nessas tecnologias e em novos paradigmas como o “Nature Co-design” ditarão as regras na geopolítica de nosso tempo?

Paulo Buss – A Deep Tech e a “Nature Co-design”, entre muitas outras estratégias e organizações de pensamento e ação, terão seu papel. As pequenas startups têm sido responsáveis pelo desenvolvimento de boas soluções farmacológicas e em outros campos da ciência, além de outros produtos que, a partir da ciência, chegam para o consumo. E da mesma forma a chamada biomimética, que analisa o comportamento da natureza, mimetizando-a.

 

 

São duas tendências que estão aí. Através da biomimética, por exemplo, poderíamos dizer que a melhor vacina é aquela que entra pelo órgão contaminador. Ou seja, as vacinas de sprays nasais, por exemplo, para infecções respiratórias. Essas vacinas são biomiméticas e deveremos tê-las bem perto de nós num futuro próximo. Aliás, já há testes para essas vacinas para os coronavírus de natureza respiratória. Este é apenas um exemplo. Muitas outras vacinas já estão sendo desenvolvidas e estudadas.

 

 

IHU On-Line – O que é preciso para que as vacinas se tornem um bem comum e disponível a todos no mundo? Em que consiste essa ideia de que os Brics assumam o protagonismo na produção de vacinas para ‘uma diplomacia da saúde eficaz’?

Paulo Buss – O tema da vacina como bem comum e distribuída equitativamente precisa primeiro de uma decisão coletiva. E essa decisão coletiva já existe dentro do sistema OMS, onde há uma resolução, aliás uma única resolução na Assembleia Mundial de maio de 2020, que dizia que a vacina seria um bem comum, um bem público global, e que o acesso deveria ser equitativo etc.

Só que no momento em que as vacinas começaram a ser produzidas num ritmo muito menor do que as necessidades que as demandas colocavam, os países partiram para a defesa de sua própria população. Foi o caso de todos os países ricos, que saíram comprando vacinas. Mas compraram – aí está o problema – uma quantidade muito superior àquela que precisavam, chegando a uma quantidade de vacinas até quatro, cinco vezes maior do que a sua própria população. É contra isso que devemos nos insurgir e denunciar, porque o que está vigorando é o poder econômico. Como, aliás, em todos os momentos da história e em quase todas as situações em que é o poder da arma ou é o poder econômico que rege as relações.

Neste caso, o alerta feito pelos pesquisadores, pelos especialistas em saúde pública e pelo próprio secretário-geral da Organização das Nações Unidas - ONU [António Guterres] foi no sentido de deixar claro que todos entendam que se a vacina não for distribuída equitativamente, se não houver controle da pandemia em todos os lugares de forma equilibrada, enquanto tivermos focos do vírus o mundo continuará sendo ameaçado. E o surgimento das variantes, com mudanças na capacidade de infecção, e eventualmente até de mudança de gravidade do SarsCoV-2, também está desafiando a intervenção e estratégia epidemiológica no plano global.

 

 

Brics

Quando falamos em Brics é porque, se observarmos, veremos que esse grupo tem hoje quase 43% da população mundial. Portanto, é um contingente importantíssimo da população que precisa receber a vacina. Além disso, estão nesse grupo países que produzem metade dos insumos de grande parte das vacinas para coronavírus, assim como para outras vacinas. O papel que os Brics podem ter é o de moderar a absorção ou captura do grande número de vacinas prontas pelos países ricos só porque são ricos. A Diplomacia da Saúde significaria a distribuição e o acesso racional das vacinas segundo a gravidade da pandemia no mundo, segundo o equilíbrio que deveríamos ter para conter a epidemia em alguns lugares, eliminar em outros, em função de uma análise que a OMS, como autoridade sanitária mundial, da qual lhe confere o Regulamento Sanitário Internacional, deveria arbitrar.

E os países do grupo Brics deveriam estar apoiando essa iniciativa da distribuição equitativa, porque dentro de uma conceituação que intitulamos de Diplomacia da Saúde Global, essa demanda deve estar no topo das prioridades do Brics para que a autoridade sanitária mundial, a OMS, pudesse tomar medidas efetivas na distribuição e acesso a vacinas.

 

 

IHU On-Line – A Organização das Nações Unidas – ONU também conclama o G20 para unir esforços, produzir e compartilhar doses das vacinas. No que essa proposta se assemelha com a defendida pelo senhor com relação aos Brics?

Paulo Buss – O Brics faz parte do G20, que reúne cerca de 40 países mais poderosos do mundo e países de poder médio, como é o caso do Brasil e do México. O G20 é muito importante porque detém a maior parte da riqueza do mundo e uma expressiva parcela da população. Para onde o G20 apontasse com convergência de postura política, muito provavelmente teríamos não só a capacidade de inovar, de produzir e também de ser motor da Diplomacia da Saúde, um motor do equilíbrio e da distribuição equitativa. E tudo isso não só de vacinas, mas de todos os bens necessários para enfrentarmos a pandemia, como luvas, equipamentos de proteção individual para profissionais da saúde, máscaras, respiradores, testes para diagnósticos e todos esses insumos fundamentais para o controle da pandemia.

Não estamos efetivamente longe de encontrar, inclusive, um medicamento que possa funcionar contra o coronavírus, como se descobriram diversos para HIV e Aids, ao longo de um processo de pesquisa vasto e cobrindo diversos países do mundo. Hoje essa é uma enfermidade com razoável controle farmacológico, embora não se tenha vacina contra o HIV. Nada nos distancia da ideia de que o coronavírus também poderá ter um determinado momento em que haverá indicação de dois, três, cinco, dez medicamentos, inclusive associando medicamentos, que possam funcionar para a eliminação do vírus e impedir a replicação dele.

Assim, esse esforço do G20 é importante porque os países que compõem esse grupo têm em seus territórios a maior parte da capacidade científica de inovações e produções. Agora, tudo isso, assim como a questão dos Brics que propomos, é uma decisão política. É uma questão de os líderes se acertarem. O que nós professores, pesquisadores, profissionais de saúde pública e a sociedade civil temos que fazer é chamar à responsabilidade os dirigentes desses grupos para que as ações da Diplomacia da Saúde estejam no topo das prioridades. Se não houver pressão, nós vamos ter o ‘America first’, ‘União Europeia first’ e por aí vamos, e distante estaremos de uma Diplomacia da Saúde promotora de equidade.

 

 

IHU On-Line – Essa sua defesa de que os Brics devem se unir para a produção não corre o risco de fortalecer ainda mais a indústria farmacêutica dos países do grupo, especialmente China, Índia e mesmo a Rússia, e polarizar com outros centros como Estados Unidos e Inglaterra?

Paulo Buss – Não chego a visualizar problemas de polarização, de competição. O que é importante é perceber que realmente existem grupos e organizações plurilaterais, compostos por diversos países. Existem ainda outros arranjos que incluem países, Nações Unidas, fundações privadas, enfim. Todos esses novos arranjos devem ser efetivamente colocados em ação. O fato de se fortalecer a indústria farmacêutica é uma necessidade não só para os Brics.

Teremos de ter um fortalecimento, uma revisão absoluta das prioridades para indústria na área da saúde de maneira geral, porque esta primeira pandemia é certamente o prelúdio de muitas outras, como já se disse quando apareceu Mers, Sars e o Ebola, o qual retornou agora em alguns países. A história natural dessas doenças será alterada por relações internacionais de cooperação, inovação e acesso aos produtos que servirem para controlar. Insisto nisso: tão importante quanto um cientista descobrir o medicamento, é o arranjo político multilateral em todos os estamentos, seja no nível global, regional da Europa ou da América Latina, seja nas organizações como Brics. Nós precisamos buscar tornar sintética a maior parte do potencial que está aqui e existe nessas várias organizações.

Quanto à competição, não chego a ver, dentro de um arranjo desse tipo, responsável, de convergência por parte dos países, como ela irá produzir impactos porque, de qualquer maneira, essas divergências e diferenças já existem. E se não soubermos superá-las o desastre continuará tal como hoje, quando alcançamos mais de 500 mil mortes nos EUA e quase 250 mil mortes no Brasil. E morte por todos os lados, com o número de casos que continua crescendo.

 

 

Saúde de caráter estrutural mais abrangente

Assim, tão importante quanto os medicamentos, será 1) o reforço do multilateralismo de maneira geral e 2) repensar o que nos trouxe até aqui. Se for para voltar ao normal que nos trouxe até aqui, isso seguramente é um equívoco, um engodo. Temos que mudar as relações entre os países, mudar as relações da indústria e das pessoas com o meio ambiente, e buscar inteiramente ao máximo harmonizar a produção agrícola, pecuária, o extrativismo vegetal ou mineral com a proteção ao meio ambiente. Do jeito que as coisas estão indo, estamos sobre-explorando o ambiente natural e essa destruição de floresta, essa ocupação desordenada e absolutamente predatória do ambiente gerará novos e complexos processos endêmicos, epidêmicos e pandêmicos.

O caminho será esse se não tivermos o juízo de articularmos as políticas ambientais e de redução das desigualdades sociais e econômicas e as políticas sanitárias num todo, mostrando que não são somente humanos, ambientes e animais, mas também a estrutura e distribuição de poder, a iniquidade X desigualdades. Essas coisas fazem parte de tudo aquilo que podemos chamar de uma saúde de caráter estrutural e mais abrangente.

 

 

IHU On-Line - A Oxfam Brasil, entre outras organizações, defende a quebra de patentes para a produção local de vacinas, mesmo em países menos desenvolvidos. Como o senhor analisa essa proposta?

Paulo Buss – A ideia de quebra de patentes é importante, embora eu não veja muita efetividade e praticidade nisso porque os países que vão poder, a partir de uma quebra de patente, produzir vacinas, já estão produzindo. A quebra de patentes sem o desenvolvimento de uma estrutura de produção e inovação nos países do mundo é inócua, embora seja uma atitude simbólica, sobretudo se for um acordo global de licenciamento compulsório. Mas se isso for feito pela força, o país que decretar o licenciamento compulsório tem que ter a capacidade de produzir a vacina que está patenteada com esforços próprios.

Então, o melhor caminho é negociar com quem possui a patente, de modo que essas empresas que possuem a patente possam abrir mão dela, nesse período agudo de pandemia, num gesto de solidariedade, de racionalidade, de defesa da humanidade. Elas também podem ser justas no preço que vão cobrar esses produtos e não inventarem valores que são muito mais altos do que os custos efetivos de produção, ao menos neste momento agudo de pandemia.

 

 

IHU On-Line - Na esteira de grandes acordos internacionais nasce em meio à pandemia, através da OMS, o consórcio Covax Facility. Como o senhor avalia a efetividade desse consórcio hoje? Quais os erros e os acertos na criação e condução desse grupo?

Paulo Buss – A Covax Facility é uma das grandes iniciativas que se organizou em resposta à pandemia. A OMS tem intenções muito boas, que são apoiadas por muitos países, e tem estabelecido mecanismos de aquisição não só de vacinas, mas também de outros elementos. Isso porque a Covax é mais do que vacinas: é um conjunto de elementos que tem vacina, mas tem também outros elementos, inclusive genômica viral e depósitos de sequenciamento, por exemplo.

Não consigo entender, com todas as imperfeições que a OMS tem, porque há uma crítica tão negativa da instituição. A OMS é aquilo que os países quiserem que ela seja. Não existe a OMS e os países. Existe um grupo de técnicos reunidos numa direção geral em Genebra e em cada país e a OMS é liderada por um comitê executivo. Quem dita o que a OMS deve fazer são esses países e depois o conjunto completo do comitê executivo. As decisões tomadas são levadas para a assembleia geral com todos os países. Então, quem dita o que a OMS vai fazer são os países. Nesse sentido, portanto, a Covax e todas as demais iniciativas em relação à Covid-19 foram propostas pela direção geral, mas aprovadas e aperfeiçoadas pelos países.

 

 

A Covax conseguiu a aquisição de um importante quantitativo de vacinas e está fazendo uma distribuição dentro do critério técnico que foi esclarecido em diversos momentos através de protocolos demonstrados ao mundo. Além disso, mais de 600 protocolos sobre a pandemia já foram desenvolvidos pela OMS e traduzidos para todos os países a partir desta grande organização. Insisto, a OMS não é perfeita, tem falhas, mas diria que ela e a ONU, em particular, são o grande recurso que temos depois de 1945.

 

 

IHU On-Line - A própria OMS, enquanto organismo internacional que buscou agenciar ações na pandemia, emitiu uma série de orientações quase impossíveis de serem seguidas por muitos países, inclusive o Brasil, e outras solenemente ignoradas. Isso demonstra uma fragilidade desses organismos ou pouco empenho dos Estados em ‘fazer a lição de casa’ e efetivamente assumirem as diretrizes internacionais?

Paulo Buss – Quanto a essa questão das orientações, casualmente eu fiz um comentário na pergunta anterior. Não existe uma OMS; ela tem diversos grupos de especialistas que vêm dos países e são colocados à disposição da OMS. Geralmente, os melhores sanitaristas, epidemiologistas, virologistas, microbiologistas são captados pela OMS para produzir esses protocolos. Muitos protocolos e orientações são produzidos em um país, aperfeiçoados por técnicos de outros países e depois isso vira uma orientação global. Assim, não é que um país fez algo certo e outro fez algo errado; nós vivemos num multilateralismo que assegura soberanias e cada país tem os técnicos, ministros e presidentes que “merece”. Essas adaptações, ou a ignorância delas, não são apenas um direito, mas um dever de cada implementador de políticas, que tem seus aspectos técnicos traduzidos em protocolos. Essa é a forma mais comum com a qual se trabalha globalmente.

Gostaria de chamar novamente atenção para isto: não existe uma OMS como um ente que tem um grupo de pessoas empoderadas. A OMS somos todos nós, a rigor, todos os países e Estados-membros, com seus cientistas com as imperfeições da natureza humana e com as imperfeições desse conjunto enorme de inteligências e burrices que existem no campo da política e no próprio campo da ciência.

 

IHU On-Line - O senhor considera a Covax como única opção verdadeiramente democrática em escala global para a distribuição de vacinas para Covid-19. Por quê? E quais os desafios para tornar isso uma realidade?

Paulo Buss – Sim, no momento, a opção mais democrática que temos é esta porque, em tese, ela não procura fazer a defesa de um território ou de uma população dentro de um território. Ao contrário, ela procura, com todas as intervenções dos esquemas de análises que sustentam decisões dos organismos internacionais, oferecer condições técnicas de alocação de recursos como uma opção verdadeiramente democrática, ainda que, como eu disse, esses mecanismos possam ser aperfeiçoados.

Já que é inevitável que tenhamos outras pandemias, é fundamental que façamos uma revisão do regulamento sanitário internacional e uma revisão, em profundidade, pelos Estados-membros com a OMS, de todos os processos que resultaram no desafio global que o mundo teve de responder diante da ameaça e da concretude da pandemia.

 

IHU On-Line - Para onde o ‘nacionalismo vacinal’ pode nos levar?

Paulo Buss – O nacionalismo vacinal ou o nacionalismo da vacina é nocivo per se porque fragiliza o próprio país – e também a comunidade internacional – que utiliza a estratégia “pantagruel”, ou seja, o gigante comilão – como chamamos num artigo. Essa estratégia, que consiste na compra de doses de vacinas para além da necessidade, baseada no critério único da capacidade econômica, financeira e no poder político histórico acumulado pelos países que estão adotando essa estratégia, como é o caso dos EUA, do Canadá e da União Europeia, nos levará a um fracasso no enfrentamento da pandemia. Não resolveremos o problema e essa estratégia deixará os próprios países que a utilizaram muito mal historicamente na comunidade internacional.

 

 

IHU On-Line - Nas décadas de 1980 e 1990, doenças como cólera, Aids e até mesmo o ebola, entre outras, tornaram-se mais uma das chagas dos países mais pobres. Quais os riscos de a Covid-19 entrar para essa lista de doenças de nações pobres?

Paulo Buss – A Covid-19 já é uma chaga nos países mais pobres. Não há como isso não acontecer quando a distribuição dessas enfermidades é determinada socialmente, economicamente e ambientalmente, além da causa biológica propriamente dita. Não há nenhuma enfermidade que não tenha uma determinação socioeconômica ou ambiental. São os países mais pobres e, dentro deles, as populações mais pobres, as que mais são afetadas por qualquer tipo de doença, incluindo as que são mencionadas na pergunta e também a malária, a tuberculose, zika e a enfermidade pandêmica de Covid-19.

 

 

IHU On-Line - Há 20 anos, o Brasil produzia 50% dos insumos para suas vacinas e hoje chega a 5%. O que explica esse dado?

Paulo Buss – A desindustrialização brasileira é geral e fomos nos transformando, ao longo das últimas décadas, dentro da distribuição internacional da produção e do consumo – nesse estágio do capitalismo neoliberal, com a importância crescente do capital financeiro sobre o capital real e a vida real. Ou seja, vivemos uma imensa ficção que é obviamente centralizada e manipulada nos países centrais do capitalismo global neoliberal. O Brasil se colocou, por um lado, nessa posição e, por outro, foi levado a ser um país cujas empresas, por exemplo, de siderurgia, produzem ferro bruto e poucos produtos manufaturados. Ou seja, o Brasil se transformou no grande celeiro do mundo: produz grãos, frango, porco e gado, as ditas commodities.

Isso fez com que a indústria química, farmoquímica, de química fina, a indústria de medicamentos e de biotecnológia não recebessem investimentos. O investimento para transformar pesquisa, ciência e inovação em produtos, no Brasil, é baixo. As empresas estrangeiras e nacionais não estão interessadas nisso. É mais fácil importar as coisas semiprontas e finalizá-las aqui. Portanto, não há compromisso de investimento do setor privado em ciência e tecnologia no país. Essa é uma realidade que precisamos apontar claramente.

Também temos uma política pública incerta, completamente aleatória, com idas e vindas. O Programa Ciência Sem Fronteiras, que era um investimento iniciado no governo Dilma, foi destruído pelo governo seguinte, e agora, nem se fala. Teve um momento em que visitei um dos maiores institutos de saúde do mundo nos EUA e metade dos estudantes que lá estavam cursando doutorado e pós-doutorado eram chineses.

Mas no Brasil, é um pecado investir num jovem e depois garantir o retorno dele ao país. Temos que nos valer do que já acumulamos do ponto de vista técnico-científico, mas é preciso que o investimento e o incentivo em ciência e tecnologia tenham estabilidade, porque só assim iremos ganhar terreno e produzir com o conhecimento desenvolvido e aplicado aqui. Só assim vamos conseguir sair destes números que você aponta. Vamos recuperar esses números em quanto tempo? Se não tivermos uma política imediata em cima da que foi destruída recentemente, não vamos progredir e sempre teremos uma conta deficitária nos insumos para saúde de maneira geral, desde vacina, medicamento, kits para diagnósticos.

 

IHU On-Line - Como o senhor avalia o processo de vacinação no Brasil e no mundo até agora? Quais os maiores acertos e os grandes erros nas estratégias de imunização?

Paulo Buss – A vacinação no mundo está comprometida pela pouca disponibilidade de vacinas. Alguns países têm mais condições, mais experiência e estrutura para vacinar a população suscetível, e o Brasil é um deles. Quando olhamos o número de doses aplicados à população, vamos observar que pequenos países bem organizados foram muito bem, como é o caso de Israel, porque não negou a enfermidade, comprou muitas vacinas e não brigou, como se fez por aqui, com um dos grandes produtores de vacina, que é a China. Esse tipo de postura, adotado no Brasil, tem um preço e retarda tudo. É isso que verificamos agora.

O Brasil poderia ter vacinado muito mais porque tem capacidade para isso, e o SUS já mostrou sua capacidade nas campanhas de vacinação. Temos quase 50 mil equipes de saúde da família, apesar de o Crivella ter fechado mais de 150 equipes de saúde da família no Rio de Janeiro. Além disso, em muitos casos houve a desvalorização da atenção primária à saúde, que é onde se faz a vacina, com pessoas treinadas. Nós não estamos vacinando porque não temos a vacina e sabemos por que não a temos.

 

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