O nacionalismo das vacinas

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07 Dezembro 2020

O governo inglês instrumentalizou a luz verde ao remédio para exaltar o Brexit.

O comentário é de Francesco Guerrera, diretor do Barron's Group na Europa, em artigo publicado por La Repubblica, 05-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "Os teóricos dos jogos chamam isso de “dilema do prisioneiro”, o paradoxo em que duas pessoas que decidem buscar o próprio interesse pessoal obtêm um resultado pior do que se tivessem colaborado. Esperamos evitar outro paradoxo: ser libertos do vírus graças à engenhosidade humana, mas ser feitos prisioneiros do nacionalismo por causa da pequenez humana".

Eis o artigo.

“Não estamos todos no mesmo barco. Estamos na mesma tempestade, mas em barcos diferentes”, disse-me um titã das finanças no início da pandemia, com uma sinceridade incomum. Agora que estamos prestes a sair do olho do furacão da Covid graças às vacinas, alguns barcos começaram a ir ao ataque de outros navios.

O “nacionalismo das vacinas” que surgiu nos últimos dias na Europa e na América está ofuscando, com a sua sombra vulgar, os extraordinários resultados científicos alcançados em pouquíssimos meses por médicos, empresas e institutos de pesquisa de todo o mundo.

Quem começou foi o Reino Unido, que, de nacionalismo e imperialismo, tem uma vasta experiência. O governo de Boris Johnson instrumentalizou o fato de a Grã-Bretanha ter sido o primeiro país a aprovar a vacina da Pfizer-BioNtech para puxar a brasa para o assado do Brexit.

A ideia, falsa, de que o “primado” do Reino Unido se devia à libertação em relação à União Europeia irritou Alemanha, França e Bruxelas. Nos Estados Unidos, porém, Anthony Fauci, o cérebro responsável, acusou as autoridades médicas britânicas de serem apressadas e “superficiais” – palavras que ele teve que corrigir no dia seguinte.

Quem alimentou ainda mais esse pastiche foi Gavin Williamson, ministro da Educação britânico, que claramente não leu a segunda parte do seu título. Williamson foi ao rádio para dizer que o Reino Unido “venceu” a corrida das vacinas porque “é um país muito melhor” do que os EUA, França e Bélgica. É um espetáculo pouco edificante. Talvez você esperasse isso de Vladimir Putin – que não por acaso chamou a sua vacina de Sputnik V, para lembrar aos estadunidenses quem lançou o primeiro satélite ao espaço –, mas não de líderes das democracias ocidentais.

A realidade é completamente diferente. A vacina aprovada pelos britânicos foi desenvolvida nos EUA e na Alemanha. Ugur Sahin e Özlem Türeci, os dois cônjuges que fundaram a BioNtech, são filhos de imigrantes turcos que moram em Mainz. A equipe que criou a vacina é formada por 60 nacionalidades diferentes, e a metade são mulheres.

São esses cidadãos e cidadãs do mundo que encontraram um antídoto para a pior pestilência deste século em apenas 10 meses – três anos a menos do que qualquer outra vacina ocidental. Os médicos que estão trabalhando nas outras 41 vacinas também são um exército multinacional: os capacetes azuis da saúde.

A colaboração faz a força. Mas se verá cada vez menos colaboração. Falando com diplomatas e especialistas médicos, a preocupação é de que o “nacionalismo das vacinas” se manifeste não só na aprovação, mas também na administração. Os interesses nacionais dos políticos – inocular toda a população para dizer que erradicaram o vírus e salvaram a economia – estão em conflito com o interesse médico, social e financeiro do planeta: fazer com que a vacina chegue aos países mais pobres.

As estimativas mais recentes indicam que a Covid poderia matar 40 milhões de pessoas e custar 12,5 trilhões de dólares à economia mundial até o fim de 2021. É óbvio que deter a marcha da epidemia vale a pena para todos. As razões humanitárias já deveriam ser suficientes, mas, se países em desenvolvimento inteiros estiverem em confinamento, quem produzirá os produtos utilizados pelos países mais ricos? De onde virão os recursos de trabalho? E a demanda de bens e serviços?

Infelizmente, os precedentes não são bons. Em 2009, os países ricos compraram quase todas as doses da vacina contra a gripe suína. Somente após a intervenção da Organização Mundial da Saúde, uma dezena de nações decidiu doar 10% das suas ampolas para países em desenvolvimento.

O protecionismo sanitário também se manifestou abertamente no início desta epidemia, quando China, França e Alemanha, seguidos pela União Europeia e EUA, impuseram controles à exportação de máscaras e luvas.

Os teóricos dos jogos chamam isso de “dilema do prisioneiro”, o paradoxo em que duas pessoas que decidem buscar o próprio interesse pessoal obtêm um resultado pior do que se tivessem colaborado.

Esperamos evitar outro paradoxo: ser libertos do vírus graças à engenhosidade humana, mas ser feitos prisioneiros do nacionalismo por causa da pequenez humana.

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