A nova direita reflete uma sinergia entre modernidade e conservadorismo. Entrevista especial com Carlos A. Gadea

Foto: Conceitos

Por: Patricia Fachin | 15 Maio 2019

Muito mais do que uma mudança política, a emergência “de uma nova onda de supostos governos de direita” sinaliza que está em curso uma “mudança cultural” caracterizada pela “sinergia” entre modernidade e conservadorismo, afirma Carlos A. Gadea à IHU On-Line. Um dos traços que indica essa mudança, menciona, é a “renovação da esfera privada como âmbito privilegiado da vida cotidiana”. Segundo o pesquisador, embora a nova direita torne público muitos dramas privados, ela vai “à esfera pública para reivindicar a esfera privada, para assinalar que no seu retorno é possível achar as fórmulas que corrigiriam os desvios sociais e culturais desta acelerada, flexível, volátil e banalizada vida contemporânea”. Trata-se, portanto, “de uma discussão sobre os contornos da esfera pública e a esfera privada, sobre seus diferentes pesos na vida individual e social, e em definitivo, sobre o contraproducente efeito cultural de politizar a vida cotidiana”, explica.

Na avaliação de Gadea, a “nova direita” não se encaixa num “compêndio de ideologias correspondentes a uma metanarrativa clara”, porque “os jovens da ‘nova direita’ podem até criticar o neoliberalismo, mas são contra o aborto”. Já para alguém de esquerda, menciona, “criticar o neoliberalismo e estar a favor do aborto faz parte de uma coerência ideológica surgida de uma interpretação dos fatos econômicos e culturais como estritamente entrelaçados. Não existe autonomia entre as esferas, e se tratando destes casos concretos, o neoliberalismo e o direito ao aborto se inscrevem numa narrativa que teriam como matriz o chamado patriarcado e o machismo”. Entretanto, adverte, “as esferas têm se autonomizado cada vez mais, e o que em algum aspecto um indivíduo se pode compreender progressista ou de esquerda, em outro pode confessar ser conservador”.

Apesar das diferenças que separam esquerda e direita, comenta, ambas têm como tema prioritário “o retorno aos princípios do universalismo”, com a diferença de que para a nova esquerda, “a secularização da sociedade e o pragmatismo são o combustível para a reconquista da res-pública”. Já a “nova direita”, pontua, “tem nos valores morais e na religião sua nova teleologia; para a suposta ‘nova esquerda’, o gesto pós-moderno e pragmático de contínua secularização da vida social é algo inegociável, empreendendo um grande desafio: derrubar as energias populistas do passado. No entanto, esta ‘nova direita’ e ‘nova esquerda’ se encontram pelos corredores da grande babel que habitamos”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Gadea também compara as diferenças entre a velha e a nova direita brasileira, e menciona as mudanças políticas e culturais que levaram à eleição de Jair Bolsonaro no país.

Carlos Gadea (Foto: Lucas Schardong | IHU)

Carlos A. Gadea é graduado em História pelo Instituto de Professores Artigas - IPA, no Uruguai, mestre e doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Realizou pós-doutorado na Universidade de Miami, nos EUA, e foi professor visitante na Universidade de Leipzig, na Alemanha e na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México - UNAM, no México. Atualmente leciona no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos.

 

Confira a entrevista. 

IHU On-Line - Hoje muitos analistas afirmam que há uma nova onda de governos de direita em vários países do mundo, inclusive na América Latina. O senhor concorda com esse tipo de análise, ou o fenômeno político que se observa hoje é de outro tipo?

Carlos A. Gadea - O que se observa como nova onda de supostos governos de direita reflete, na realidade, uma mudança cultural em curso, e é isso o que é verdadeiramente significativo. Mudança cultural que, inclusive, compreende-se melhor se a observamos no seu devido contexto: por exemplo, não se podem considerar culturas de países tão diferentes como França, Polônia, Áustria, Hungria, Argentina ou Chile passíveis de expressar uma direita política homogênea e sintomática de uma “nova onda”, uma direita organizada e com ideologia plenamente elaborada. Enquanto alguns europeus estão contrariados com a imigração, a União Europeia e a “liberação dos costumes”, a suposta direita na América Latina se debate em uma série de preocupações muito próprias das suas histórias políticas recentes (corrupção, papel do Estado, direitos humanos, crise econômica), seus desafios institucionais e as novas agendas identitárias. Não há uma única direita política: aos tradicionais partidos políticos liberais e conservadores têm que acrescentar o embalo da sedução dos populismos recentes, tanto na Europa ocidental como oriental, na América Latina e nos Estados Unidos, e cuja marca que distingue a sua expressividade particular depende dos acontecimentos políticos das últimas décadas em cada país ou região.

O presidente Maurício Macri, da Argentina, não é análogo, na sua postura ideológica e condução de governo com o presidente da França, Emmanuel Macron. Nem sequer emergiram de contextos políticos prévios parecidos. Por outro lado, na base demográfica do surgimento cultural e político de grupos de direita na Europa se encontra a Igreja Católica, com suas recentes variantes “carismáticas”, enquanto na América Latina o protagonismo desta suposta “nova onda” tem nas igrejas neopentecostais e neo-evangélicas um eixo de aglutinação importante. Não me parece convincente diagnosticar que estes governos, supostamente de direita, estejam inseridos numa “nova onda” política, ou como exemplos de um novo ciclo político que estaria se iniciando. Parece-me que a situação é menos orgânica, e melhor entendida como próprio de reações pontuais e contextuais a um ciclo político e cultural que lhe precedeu, seja ao chamado “progressismo” latino-americano ou a um tipo de socialdemocracia europeia, pró-globalização e multiculturalista que, inclusive, pareceu angustiar as camadas populares pela primeira vez. Digamos que três fatores precipitaram o triunfo eleitoral destas posições políticas “não de esquerda”, de direita ou de centro-direita, nos últimos anos: em primeiro lugar, o desgaste da imagem dos chamados governos “progressistas” e de um tipo de socialdemocracia europeia; logo, a confiança que despertaram no eleitorado para a resolução das diversas crises apresentadas e, por último, uma inserção no debate entre o público e o privado que embaralhou o tabuleiro cultural constituído até o momento, e que conseguiu ter certo apelo entre as maiorias silenciosas urbanas.

IHU On-Line - Em geral, existe alguma diferença entre o que se classifica de “direita” e “nova direita” nos dias de hoje?

Carlos A. Gadea - Sim, e bastante. O que todo mundo chama de “direita” se sustenta no imaginário social do que representou a implementação das chamadas políticas neoliberais na região, a redução do gasto público, redução das funções do Estado, e como aquilo que se contrapôs, de maneira clara, à esquerda política, sua antítese, esta como instituída na defensora dos mais pobres e vulneráveis, da ampliação das políticas sociais, de um Estado capaz de atuar em áreas vitais para o desenvolvimento de um país. No entanto, esta distinção, na prática, ficou cada vez mais nebulosa. Acontece que muitos dos governos ditos de esquerda deram continuidade às políticas neoliberais que tanto criticaram dos anos 1980 e 1990, implementando, inclusive, a prática laboral da “terceirização” de algumas funções da máquina pública, realizando ajustes fiscais e reduzindo investimentos em áreas sociais importantes em momentos de retração da economia, logo após do pouco rigor na sustentabilidade do modelo político e econômico levado adiante. Sem contar que, em ocasiões, conseguiu favorecer os grandes grupos de empresários nacionais e internacionais, bem como aos bancos privados, enquanto os mais pobres estavam perdendo capacidade de consumo e espaços sociais. Políticas compensatórias de redução ou contenção da pobreza resultaram ineficientes no decorrer do tempo, quando, por exemplo, aquela fórmula clássica que relaciona pobreza à violência urbana se viu questionada pela força dos fatos: a violência e a insegurança bateram na porta, também, nas periferias. Aliás, a insegurança e a violência se tornaram preocupações centrais tanto nas classes medias como entre os que residem nas periferias urbanas. Bom lembrar que o esgotamento do ciclo “progressista” se deu por uma virada no destino econômico da região. A queda do preço das matérias primas terminaria afetando diretamente a folga orçamentária que permitiu financiar políticas públicas e subsídios, levando, em ocasiões, a práticas de deliberado clientelismo político, como no caso da Argentina sob os governos dos Kirchner.

Neste cenário, a “direita” era definida como própria dos “neoliberais”, mas também da truculência das figuras do poder político e econômico real do meio rural, definidos ora como de direita, ora como conservadores, ora como neoliberais. A “direita” era também apelidada de “classista”, ao serviço das classes altas e detentoras do poder econômico; que desconversa quando o assunto é tratar justiça social, direitos iguais, solidariedade. No entanto, muitas coisas parecem ter mudado neste universo político e cultural, já que esta “direita” ou não parece existir mais, ou se metamorfoseou ou se misturou com novos elementos políticos e sociais. Interessante considerar que, nos anos 1980 e 1990 não vivíamos o impacto das novas tecnologias como são hoje vividas, e isso trouxe uma grande diferença também no momento de compreender o que mudou a respeito.

A modernidade da esquerda ficou para trás

A modernidade da esquerda política ficou para trás. Deixou de ser a vanguarda ética e estética. Refiro-me a uma esquerda suicida, que foi capaz, no passado, de lutar com valentia contra os regimes militares, pela defesa dos direitos humanos e as liberdades democráticas, mas que hoje comete a imoralidade de ser cúmplice com as atrocidades que se cometem na Venezuela e na Nicarágua. Esquerda que insiste na retórica beligerante e de polarização da sociedade, que faz lembrar as épocas da Guerra Fria, da constituição de um cenário do “nós” contra “eles”. A esquerda que ainda acredita, inclusive, que a pobreza e a deterioração da sociedade cubana é o resultado de “bloqueios econômicos” e não da sua falta de liberdades em todos os sentidos. A esquerda épica, do espírito moderno e a modernidade, transformou-se em caricatura dela mesma. Concordo, neste sentido, com Mark Lilla [1] quando afirma que “a esquerda tem o velho e mau costume de subestimar seus adversários e explicar as ideias deles como simples camuflagem para atitudes e paixões desprezíveis”. Esta descrição resulta importante porque não se pode compreender “do nada” o que hoje se observa como suposta “nova direita” emergindo em diferentes cenários mundiais.

A nova direita e a identidade individualista

Como contraponto, esta suposta “nova direita” traz a aparência de modernidade, ao se apropriar do discurso do novo, do que está “por vir”. Discurso que transita mais claramente, em certo aspecto, por vias do estético: entre os jovens, parece haver uma substituição daquelas vestimentas tradicionais das classes médias-altas e altas para uma nova densidade estética exemplificada, por exemplo, na proliferação de tatuagens e piercings em muitos dos seus aderentes, contrastando com a imagem austera ou “careta” de tempo atrás. Exemplos deste “afrouxamento” no estilo de vida e estético pode se encontrar na figura da primeira deputada transexual na história da Assembleia Nacional da Venezuela, Tamara Adrián, do setor “Voluntad Popular” [2], quando bem se sabe que tem sido sempre a esquerda política quem levantava a bandeira da diversidade sexual. Uma deputada transexual opositora ao chavismo é tudo o que a esquerda tradicional não consegue digerir pacientemente. E exemplos semelhantes não faltam.

Esta suposta modernidade está conduzida, inclusive, pelo domínio da linguagem digital e o manejo das redes sociais virtuais. A “nova direita”, também, acompanha de perto o destino da sociedade norte-americana, resgatando desse heterogêneo país a glorificação do trabalho e do esforço individual, a “herança de meritocracia” que o constituiu, abandonando a retórica passada do latino-americanismo como aquilo que permitiria a construção de um espaço de pertencimento a um destino comum. Deixa-se de escutar Mercedes Sosa, a música popular com flautas do altiplano boliviano, a música de apelo “ao povo” como entidade inserida no metarrelato da esquerda dos anos 1960 e 1970. Galeano e suas “veias abertas da América Latina” deixaram de ser leitura de culto desde o mesmo instante em que o próprio Galeano falou: “eu não seria capaz de reler esse livro; cairia dormindo. Para mim, essa prosa de esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera” [3]. Novos filmes de culto parecem próprios dessa “nova direita”, aqueles cujas temáticas se centram numa espécie de glorificação do conceito de “self-made man”, do sucesso que se alcança por méritos próprios, filmes que ressignificam os valores familiares e da amizade, da entrega patriótica, filmes em que a nostalgia por tempos passados remetem a valores morais mais fortes e estáveis, à vida comunitária e segura que se percebe perdida. Filmes que materializariam uma “nova virada afetiva”, mais intimistas, apelativos da simplicidade da vida cotidiana, sem grandes pretensões existenciais.

Paralelo a isto, a “nova direita” diz respeito a uma nova identidade individualista e global, com preocupações tanto religiosas quanto ecológicas, sobre o “cuidado de si mesmo”. Trata-se de cidadãos de hábitos saudáveis, que praticam esportes e têm uma posição crítica perante o consumo de drogas. Olham de maneira positiva a revalorização do cotidiano e o “normal”, a vida familiar e o encontro em espaços reservados, a sociabilidade de pequeno número. Isto parece ser, ao mesmo tempo, um gesto de reserva perante o que representou uma exaltação da política por parte da cultura hegemônica de esquerda nas duas décadas passadas. Diminuindo a centralidade da política na cotidianidade, emerge uma modernidade conservadora (desculpas pelo eventual paradoxo) de relaxamento individual, resposta ao sacrifício totalizante (emoldurado como coletivista) do modelo anterior.

Mas esta “nova direita” é eclética. Como bem Mark Lilla considera, um conservadorismo de novo tipo é elemento constitutivo fundamental, na política e na cultura, desta nova sensibilidade política, conservadorismo que critica duramente a fluidez excessiva da vida tanto em suas formas neoliberal como cosmopolita, não importando se você está numa grande metrópole ou em um pequeno centro urbano. Assim, critica as injustiças impostas pelo capitalismo selvagem e suas consequentes desordens sociais: a inevitável migração, o desemprego, a contaminação, o crescimento dos divórcios, o aborto, a morte entre jovens pelo uso de drogas. Em definitivo, modernidade e conservadorismo entram em sinergia. Eclética e híbrida, rural e urbana, religiosa e com tatuagens, pluriclassista e inter-racial.

Mas se observa, também, uma direita política nos moldes dos conflitos típicos do século XX, e que por momentos parece se apresentar como “nova”. Refiro-me a uma tendência cultural visivelmente crescente que ressalta os princípios políticos e ideológicos do nazismo e o fascismo, com seu cardápio de novos bodes expiatórios: os migrantes, os muçulmanos, os negros, os latinos, as feministas, e por aí vai. Estes grupos são definidos como “inimigos íntimos”, como vizinhos próximos que estariam gerando a fratura social e cultural da Europa, da civilização moderna e ocidental. Se a compreendemos, então, como “nova direita”, certamente não se pode inscrever, tão facilmente, no decálogo acima, na medida em que parece ser definida como uma reação mesma à própria modernidade de uma “nova direita” verdadeiramente eclética.

Esta tendência cultural, de jovens carecas que lembram os skinheads, manifesta uma forte organicidade, um sentido de grupo e comunitário claro. Muito mais do que o conteúdo ideológico que os movimenta, a forma da sua sociabilidade chama a atenção, pois se apresenta como uma espécie de encapsulamento e estratégia mobilizatória de microgrupo, em procura da reserva, da proteção de estar entre iguais. Não é de suspeitar que estes grupos tenham surgido com mais força na Europa do Leste, em países do antigo mundo socialista. Na cidade de Dresden, no sul da Alemanha, por exemplo, é onde se concentra um número importante de grupos neonazistas; Dresden, a conhecida “cidade da inocência” em épocas da Alemanha Oriental.

IHU On-Line - No artigo “Dois caminhos para a direita francesa”, publicado recentemente na revista Piauí, Mark Lilla apresenta a nova direita francesa como uma terceira via à esquerda e à direita tradicional, e aponta semelhanças entre o pensamento dos novos intelectuais de direita franceses com a doutrina social da Igreja. Como avalia essa nova direita? Em que aspectos ela se apresenta como uma terceira via?

Carlos A. Gadea - Nesse artigo Mark Lilla consegue dimensionar muito bem o fenômeno político e cultural dessa “nova direita”, e o faz trazendo para a reflexão o complexo e multifacetado cenário político mundial atual. Ele se interessou pela figura da jovem política francesa Marion Maréchal, de 28 anos, neta de Jean-Marie Le Pen, fundador do partido de extrema direita Frente Nacional. Começa dizendo que Marion tem pouco em comum com seu avô, algo interessante; e aproveitando a descrição desse afastamento pessoal das duas figuras conduz o leitor a também ir se afastando da ideia de uma direita política um tanto intransigente e beligerante para ir desenhando um quadro cultural diferente, em que a “nova direita” ganharia forma em jovens ecléticos e preocupados com os problemas globais reais.

Marion Maréchal, em um discurso em Washington em 2018, perante uma plateia típica da convenção anual da Conferência de Ação Política Conservadora, conseguiria captar a atenção de muitos quando suas palavras não pareciam saídas de um roteiro esperado. Falando para uma plateia de republicanos radicais, fanáticos por armas e “absolutistas da propriedade privada” (palavras de Lilla), daria uma virada interessante no seu discurso ao atacar o princípio do individualismo e afirmar que o “primado do egoísmo” está na base de todos os males da sociedade contemporânea. Para Marion, a economia global escraviza os estrangeiros migrantes, “roubando” os empregos dos trabalhadores locais. De fato, para Mark Lilla, Marion é uma representante de uma “terceira força à direita” política (nem clássica, nem populista), que vem se mobilizando em torno das chamadas questões sociais, e que não se sente contemplada no sistema de partidos políticos francês. “Terceira força” que seria muito próxima dos chamados partidários de “La Manif” [4], compartilhando duas principais convicções: que um forte conservadorismo seria a única alternativa para o “cosmopolitismo neoliberal”, e que tal conservadorismo pode ganhar força com recursos provenientes dos dois lados da polarização política tradicional entre direita e esquerda. É que como bem menciona Lilla, surpreendentemente estes jovens conservadores também se permitiriam ser admiradores do democrata de esquerda norte-americano Bernie Sanders. Se bem recusam a União Europeia, a imigração e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, também criticam a desregulamentação dos mercados financeiros, a austeridade neoliberal, o consumismo, a sociedade da livre competência desenfreada e o mero interesse econômico pessoal dos indivíduos.

Apresentam-se preocupados com os cidadãos mais vulneráveis, e de maneira direta com as dificuldades dos Estados nacionais europeus de poderem atuar devido ao peso das políticas fiscais impostas aos países pela União Europeia e a carência de políticas soberanas, por fora da União, para se responsabilizar diretamente nas questões sociais. Na defesa da família, estes jovens conservadores sustentam que a economia deveria subordinar-se aos imperativos sociais, e quando o assunto é o cuidado do meio ambiente, manifestam preocupação com a degradação ambiental e a qualidade dos alimentos que chegam às nossas mesas. Tudo isto, sem dúvida, parece muito próximo do que representa a denominada “doutrina social da Igreja”, e mais ainda quando parecem aliar o tradicionalismo católico com um sentido prático de realidade bem aguçado. Citando o mesmo Lilla, esta “terceira via” na política de direita ao chamar a “atenção para problemas reais: um número crescente de novas famílias, a geração de filhos em idade mais e mais avançada, a proporção cada vez maior de mães e pais solteiros, os adolescentes imersos em pornografia e confusos quanto à própria sexualidade, além de pais e filhos estressados que fazem as refeições em separado, com os olhos grudados no celular”, está diagnosticando que se deve ao “individualismo radical que nos torna cegos para a necessidade social de famílias fortes e estáveis” (p. 34). Certamente, estamos perante uma “terceira via” da direita política e cultural.

Renovação da esfera privada

Mas Mark Lilla não destaca um ponto importante nesta suposta conformação de uma “nova direita”. Refiro-me à relação que se pode estabelecer, a partir do seu diagnóstico, dessa preocupação pelas mudanças culturais atuais e as agendas políticas identitárias com uma renovação da esfera privada como âmbito privilegiado da vida cotidiana. Embora façam público muitos dos dramas privados, tal qual a dinâmica mobilizatória que nos tinha acostumado a esquerda política, esta “nova direita” chama para uma espécie de recuo na política de vida, na defesa da vida privada, ao perceber que seria na esfera privada onde residiria o capital simbólico, cultural e até político de transformação da vida pública. Saem à esfera pública para reivindicar a esfera privada, para assinalar que no seu retorno é possível achar as fórmulas que corrigiriam os desvios sociais e culturais desta acelerada, flexível, volátil e banalizada vida contemporânea. O que quero particularmente destacar é que também se trata de uma discussão sobre os contornos da esfera pública e a esfera privada, sobre seus diferentes pesos na vida individual e social, e em definitivo, sobre o contraproducente efeito cultural de politizar a vida cotidiana.

Mas, ainda, outro ponto é relevante destacar, a propósito do anterior. É possível observar que no registro das sensibilidades e as potenciais preocupações que aparecem sobre assuntos sociais e econômicos, não há possibilidade de esgotar esta “nova direita” num compêndio de ideologias correspondentes a uma metanarrativa clara. Por exemplo, os jovens da “nova direita” podem até criticar o neoliberalismo, mas são contra o aborto. Para alguém de esquerda, por exemplo, criticar o neoliberalismo e estar a favor do aborto faz parte de uma coerência ideológica surgida de uma interpretação dos fatos econômicos e culturais como estritamente entrelaçados. Não existe autonomia entre as esferas, e se tratando destes casos concretos, o neoliberalismo e o direito ao aborto se inscrevem numa narrativa que teriam como matriz o chamado patriarcado e o machismo. No entanto, é possível um indivíduo se compreender de esquerda, votar em partidos políticos de esquerda ou de centro-esquerda, e estar contra o aborto? Ou estar a favor do porte de armas de fogo pela população sem maiores restrições? Diria que sim, fundamentalmente porque a agenda econômica e política não necessariamente tem correspondência com agendas culturais ou morais, ou religiosas. As esferas têm se autonomizado cada vez mais, e o que em algum aspecto um indivíduo se pode compreender progressista ou de esquerda, em outro pode confessar ser conservador. Assim, a “nova direita” parece se encontrar com uma “nova esquerda”, esta ainda sem lineamentos evidentes e claros. Encontram-se, por exemplo, na contrariedade perante mudanças culturais recentes, como na ênfase dada aos assuntos identitários nas discussões políticas, na referência a supostas questões privadas como definidoras de identidades de relevância na esfera pública. Tanto para a “nova direita” como para uma “nova esquerda”, o retorno aos princípios do universalismo são um tema prioritário, com a diferença de que para estes últimos, a secularização da sociedade e o pragmatismo são o combustível para a reconquista da res-pública. A “nova direita” tem nos valores morais e na religião sua nova teleologia; para a suposta “nova esquerda”, o gesto pós-moderno e pragmático de contínua secularização da vida social é algo inegociável, empreendendo um grande desafio: derrubar as energias populistas do passado. No entanto, esta “nova direita” e “nova esquerda” se encontram pelos corredores da grande babel que habitamos.

IHU On-Line - Qual é a peculiaridade da chamada “nova direita” no Brasil e em que ela distingue do que era chamado de a direita até então?

Carlos A. Gadea - Se a pergunta tem relação com procurar compreender o triunfo eleitoral de Bolsonaro, é bom lembrar que isso é resultado da construção discursiva de uma polarização política do país. Não considero que exista de fato, embora vejamos, insistentemente, este binarismo reproduzido na mídia e no senso comum. O eleitorado se expressou de maneira mais diversa. Veja, por exemplo, a grande quantidade de votos nulos e brancos, e de abstenções, em torno de 42 milhões, a maior desde 1989 [5]. Desde 2013 e 2014, os governos do PT vinham sofrendo um processo de deterioração quanto a sua imagem, e esse processo levou à construção de figuras políticas curiosas como Bolsonaro. Na realidade, o sistema político foi quem pagou o preço de não ter se constituído em espaço de confrontação política séria durante anos, pois bem sabemos que praticamente os governos do PT atuaram sem oposição política. O eleitorado assimilou que o sistema político e o PT faziam parte de uma mesma realidade, permitindo, inclusive, a prática da corrupção. Feita essa leitura, a figura de um “outsider” calou prontamente, e Bolsonaro navegou na onda. Sabemos dos escassos recursos políticos e intelectuais que possui. Também da inexperiência em cargos executivos. No entanto, um setor importante da população o levou à presidência mais por ressabio ao ciclo político anterior do que por suas eventuais virtudes. Dito isto, Bolsonaro chega ao governo com um apoio heterogêneo e não necessariamente de uma “nova direita” em ascensão. É mais o resultado de um contexto do que de um processo de construção política e cultural de décadas ou anos. O coquetel de desemprego, os ventos da corrupção e a insegurança trouxe a ressaca e o Bolsonaro.

Mas, evidentemente, em Bolsonaro se canalizaram energias políticas, também, de uma direita tradicional e uma eventual “nova direita”. Muitas das características apontadas acima se enquadram com essas energias, ainda que veja algumas particularidades, em especial três. Em primeiro lugar, o seu vínculo com as igrejas neo-evangélicas e neopentecostais. Em segundo lugar, seu lado “liberal”, apostando na crítica à carga impositiva do país, e finalmente o seu vínculo com as lutas identitárias, com a busca da hegemonia cultural. Neste terreno é onde mais se tem desenvolvido os embates políticos, e aqui é onde a “nova direita” embarcou em certo sentido. No entanto, não vejo nesta “nova direita” que supostamente acompanharia Bolsonaro o caráter modernizador da sociedade. Seu híbrido entre modernidade e conservadorismo é menos evidente, conduzindo a que uma suposta “nova direita” critique o viés autoritário do governo. A diferença da direita tradicional e a suposta “nova direita” no país é o abandono, desta última, do discurso belicoso e o apelo à violência para a resolução de conflitos. A imagem de um governo autoritário não seduz suficiente, algo que à direita tradicional não incomodava.

IHU On-Line - Como o senhor está avaliando os primeiros meses do governo Bolsonaro? O que caracteriza o seu “populismo à direita”?

Carlos A. Gadea - Seu populismo à direita está acorde à linguagem do ciclo político anterior, ainda que pese a muitos reconhecer isto. Sua retórica é compatível ao tipo de diálogo que estabelece com aqueles que confronta. Por isso, até o momento, e como exemplo da sua “razão populista”, seu governo apresenta-se como uma verdadeira fábrica de fatos sociais: um dia é a cor da roupa das crianças, outro dia é o direito ao porte de armas, outro a confrontação com os professores das ciências humanas, e por aí vai. É seu combustível o contínuo estabelecimento de um antagônico para dar sequência ao seu próprio existir como posição política. Curiosamente, trata-se de um governo que movimenta a sociedade de maneira contínua, e cujo efeito é uma sorte de neurose coletiva cotidiana. Acontece que este ritmo estressa uma sociedade já com suficientes problemas práticos a resolver. A sociedade brasileira pode esgotar, em breve, essa energia de movimentação, irritação, desorientação, confusão e contrariedades contínuas. Falta a este governo começar a governar, simplesmente isso, mas para isso deverá abandonar esta lógica e, fundamentalmente, criar um mínimo de coesão entre os diferentes setores sociais e políticos que o habitam. A última notícia que nos chega é o desentendimento com os militares. Em definitivo, seus primeiros dias se foram em desgaste de energias e conflitos desnecessários, e a maioria da população já vem percebendo isto. Um governo não pode ser sua própria oposição.

IHU On-Line - Na última entrevista que nos concedeu, em 2018, o senhor disse que esperava que outubro de 2018 nos desse “a possibilidade de um começo político e econômico que contemple a maioria dos brasileiros”. Já é possível fazer alguma avaliação sobre o começo de 2019? O país caminha para um novo começo político e econômico ou ainda não?

Carlos A. Gadea - Ainda nos encontramos em um impasse que se prolonga em demasia. Não sei até quando a paciência e a espera vão durar. Até o momento, passados mais de quatro meses de iniciado este governo, não é possível perceber que tenha se contemplado nenhum dos pontos mais importantes aguardados pela população. A agenda econômica, as medidas tendentes a solucionar a crise, de reativar a economia e combater o desemprego, não saíram do discurso. Especula-se demais na reforma da Previdência como a grande solução aos problemas do país, enquanto outros problemas se acrescentam sem necessidade. A agenda cultural, identitária, parece concentrar as atenções, reduzindo-se tudo ao “bate-boca” e à fadiga coletiva. Em definitivo, 2019 não deu início a nenhum novo ciclo, nem sequer no imaginário coletivo, no plano das ideias, das promessas. O governo Bolsonaro, queiramos admitir ou não, é o último suspiro do ciclo de 15 anos que vivemos. Quem esperava pela novidade e abertura de um novo ciclo, estava enganado. É a fase da crise aguda do ciclo anterior, mais preocupada por brigar na fila da padaria do que de propor um projeto de país.

 

Notas:

[1] Em “Dois caminhos para a direita francesa”, In: Piauí, n 149, p. 35. (Nota do entrevistado)

[2] De viés socialdemocrata, o setor político “Voluntad Popular” é considerado, igualmente, como pertencente à direita venezuelana. No entanto, este setor foi admitido, em 2014, na “Internacional Socialista”, algo que contribui para compreender a complexidade desta suposta “nova direita” emergente. (Nota do entrevistado)

[3] Ver “Eduardo Galeano muda de ideia sobre As veias abertas da América Latina”, IN: de São Paulo, 26/05/2014. Disponível aqui:  (Nota do entrevistado)

[4] “Grupo de leigos apoiada fortemente em grupos de oração de católicos carismáticos”, cuja rede foi chamada La Manif pour tous (A manifestação para todos). Apresentam-se de maneira lúdica no espaço público, “mais parecido com uma parada gay do que com uma peregrinação (...)” (Lilla). Sua agenda mobilizatória tem se destacado pelo combate do que se conhece como “ideologia de gênero”, o casamento gay e a defesa da família e os valores cristãos. (Nota do entrevistado)

[5] A respeito, ver meu artigo “Brasil, luzes e sombras de uma disputa anunciada”, IN: Folha de São Paulo, 4 de nov. 2018. Disponível aqui. (Nota do entrevistado)

 

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