Indivíduo versus cidadão. Artigo de Mark Lilla

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13 Janeiro 2019

Muitos jovens de hoje, não apenas nos Estados Unidos, olham para a democracia sob a luz das identidades.

O comentário é de Mark Lilla, professor da Universidade Columbia, em Nova York, e que recentemente lançou La Gauche identitarie. L’Amérique en miettes (Stock), em artigo publicado por la Repubblica, 09-01-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eles não se consideram cidadãos democráticos, mas indivíduos, cada um com sua própria identidade que os torna diferentes dos outros. Hoje, muitos jovens nos Estados Unidos circunscrevem o seu comprometimento político aos problemas sociais que consideram façam referência à sua identidade.

Para uma pessoa como eu, que cresceu durante as batalhas ideológicas da Guerra Fria, é desconcertante ver tantos jovens tão concentrados em questões pessoais de gênero e pouco atentos a questões de justiça econômica ou de política internacional. As grandes ideologias e as narrativas que tentavam explicar tudo tinham problemas, mas pelo menos mostravam como as coisas estavam ligadas entre si.

O resultado de tudo isto é que nos EUA a esquerda radical se opõe ao neoliberalismo econômico e promove o que se poderia chamar de um neoliberalismo social. Construir solidariedade não é seu objetivo principal. Apenas fortalece o individualismo radical de nossos tempos.

Os efeitos da globalização econômica desestabilizaram os governos em todo o mundo e aumentaram a diferença entre uma elite rica e instruída e uma subclasse crescente e insatisfeita, desprovida de esperança. A imigração descontrolada só a tornou mais rancorosa. O neoliberalismo social, também teve um efeito psicológico e enfraqueceu os vínculos sociais. Os jovens adiam o casamento ou escolhem morar sozinhos.

Os casos de depressão e suicídio continuam a aumentar. Isso não acontece porque falte dinheiro e oportunidades, mas porque estamos nos tornando o que  Michel Houellebecq chamou em seus apavorantes romances de "partículas elementares".

As sociedades democráticas estão desmoronando. Governos incapazes de controlar os efeitos da economia global ou a imigração ilegal parecem fracos e inadequados. Isso leva os eleitores a mudar continuamente líderes e partidos que prometem conseguir controlar essas forças, mas não são capazes.

Como demonstram as  eleições nos Estados Unidos, o meu país está dividido entre duas tribos que sentem uma profunda desconfiança uma em relação à outra. Por um lado, existe uma elite cosmopolita, liberal e instruída que coloca a ênfase nas questões de identidade pessoal, despreza a religião e quer acolher os imigrantes, legais ou ilegais que sejam, em uma sociedade multicultural. Esta elite domina nossas instituições culturais: as universidades, a mídia e Hollywood. A tribo da direita, ao contrário, reúne os menos instruídos, mais religiosos, brancos e do sexo masculino.

Sentindo desprezo pelas elites culturais, esta tribo afirma a própria identidade política para competir com os outros grupos. Os populistas sempre souberam como convencê-los de que eles eram o verdadeiro "povo” americano, não as elites, e que seu País lhe tinha sido roubado. Esta  direita norte-americana atualmente controla todos os níveis de governo. E na liderança está um endemoniado e hábil demagogo que acumula poder colocando os norte-americanos uns contra os outros.

O que se pode fazer? A longo prazo, teremos que redescobrir as virtudes da cidadania. As nossas sociedades são muito diferentes hoje.

Levamos uma vida privada mais individualista do que no passado. No entanto, nossos destinos estão todos unidos: existe um bem comum que deve ser protegido no interesse de todos. E se queremos pedir às pessoas para protegê-lo, temos que confiar não em um desejo, mas sim em um dado social: sejam quais forem nossas diferenças ou a nossa tribo, o que nós compartilhamos é a cidadania.

Somos todos cidadãos nascidos ou naturalizados e merecemos ser tratados de forma equânime, tendo em mente que ser cidadão significa não só ter direitos, mas também deveres, uns em relação aos outros e com nossas repúblicas.

Manter um senso cívico é muito difícil. É por isso que, desde o mundo antigo, as democracias têm sofrido de entropia: a única coisa que realmente as mantém unidas é a cidadania. Se tal ligação tiver bases imperfeita ou estiver enfraquecido, a estrutura desmorona.

Uma situação semelhante é visível na Europa do Leste. Após a queda do muro, em 1989, as instituições democráticas foram criadas, mas o que os fundadores daquelas instituições não podiam criar era um sentido de cidadania, que requer a sucessão de várias gerações.

Hoje, no entanto, vemos a Polônia e a Hungria abraçando e celebrando o que o presidente húngaro Viktor Orbán define de "democracia iliberal". Nesses países e na Itália, Áustria e França existem forças políticas que estão estabelecendo o que parece ser uma nova Frente Popular, desta vez sob a forma de direita radical.

É difícil não ter a impressão de que este é um filme que já foi visto.

As democracias sem democratas não duram. Elas se decompõem, transformando-se em oligarquias, teocracias, nacionalismos étnicos, sistemas autoritários ou numa mistura de todos estes elementos.

Eu não estou exagerando quando digo que os sinais de cada uma dessas patologias são visíveis na vida democrática norte-americana atual. Entristece-me pensar que a Itália em breve poderá sofrer da nossa mesma doença.

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